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N.º 19

Janeiro 2007

Ver e ouvir / Ler e escrever


House = Love Generation?

Joana Órfão - 12º B

(desabafos sobre uma aula de Educação Física quase real

 vs.

 reflexão sobre a Cultura e sua Massificação)

Hoje estive, no final da aula de E.F., a fazer exercícios no colchão; abdominais, flexões... Uma autêntica aula de aeróbica do princípio ao fim. Foram apenas 30 minutos, mas tudo ao som de música.

O que acontece é que a música utilizada muitas vezes nestas aulas é House, por causa do intervalo de bpm’s em que este tipo de música se insere, como a professora explicou. Até aqui tudo bem - ainda por cima para mim que adoro este género de música.

O problema começa depois. O aquecimento é feito com Black Eyed Peas - Pump it, o relaxamento com Fort Minor - Where'd you go?, e passo o restinho da aula a ouvir o tal House. House? Eu chamava-lhe mais Love Generation, World Hold On e Rock This Party...

Montagem de Tiago Madeira - Clicar para ampliar.

Pronto, não é que as músicas não tenham uma certa glória (nunca tinha ouvido disto na RFM antes) e não tenham um grande sucesso... mas neste momento poucas pessoas conseguem ouvir Love Generation. Pelo menos eu, que até gostei sempre da música, já estou um bocado farta porque é constante. É em bares, é em cafés, é aquele DJ que todos adoram porque passou vinte vezes o raio da música, é na MTV a toda a hora e momento. Pelo menos eu já não consigo ouvir os assobios... Pronto, foi bom mas  já farta, “né”? Variedade, precisa-se!

Por acaso a professora contou que tinha pedido aos oitavos anos para gravarem um CD com música House, para aeróbica. Que é que eles lhe entregaram? O CD inteirinho do Bob Sinclair pirateado (não que tenha algo contra a pirataria em "doses pequenas").

E então pus-me a pensar...

"Para estas crianças e putos de hoje o House resume-se a Bob Sinclair!"

Será bom? Não se estará a perder o verdadeiro sentido e magia da música, seja de que género for…, com o uso e abuso da música e com a visão de "o que é conhecido e o que vende é que é bom"?

Não é bom ouvir algo novo, explorar várias vertentes dos ritmos e harmonias? É que também existe o house vocal, o electro house, o acid house, hard house, house tribal... (limitando a enumeração a este género de música).

Esta cultura de massas está, na realidade, a estreitar a visão daqueles que um dia serão o futuro... Será que, dentro em pouco, design se resumirá a um João Rolo e moda a uma Fátima Lopes? Tornar-se-á a beleza sinónimo de anorexia e de uma Fiona qualquer, com revelações ao estupefacto mundo de manequins brasileiras que morrem por só comerem tomate e maçã e ainda acharem por bem provocar o vómito dessas ingestões? Parece-me que a isso estamos mesmo condenados. Ainda me vêm dizer que é ridículo pôr como número mínimo um 36/38 e que a moda ‘tá a ser o "bode expiatório", que não tem culpa nenhuma e que está a apanhar com as consequências dum flagelo global. Bah, vão p’ro inferno.

Na realidade, o tudo é que é bom! A variedade é porreira. Não interessa tanto quanto isso tu ou o teu som estarem na berra, se passados uns meses podem ser esquecidos. Interessa sim o teu som ser algo novo, original, de que tu gostes, e que marque por ter identidade própria. Na pintura interessaria vires com uma técnica nova e inovadora, tal como Leonardo da Vinci fez com a técnica do sffumatto; na arquitectura, apresentares um projecto de remodelação de uma zona urbana tendo em conta coisas que talvez nunca o tivessem sido - mas por favor, mais casas da música "chiquérrimas" a descaracterizar certas zonas típicas não! Aquilo que deveria ser realmente apreciado e tido como fantástico e digno de valor (que na realidade não está a ser) seriam a acústica e os sistemas de som, coisa pioneira profissional neste país de pioneiros amadores.

Bah. Maldita globalização. Maldita globalização que nos devia abrir os horizontes e os nossos olhos. Maldita globalização que afinal nos empoeira os olhos e que nos inflige o que é bom, o que é mau e o que é assim-assim.

Vou fazer tudo para que um dia os meus filhos me venham pedir para falar sobre os Beatles, Nelly Furtado, Roger Sanchez ou Evanescence. Pelo menos que conheçam os nomes e tenham interesse em saber quem foram.

E isso farei com toda a certeza, porque acho que é muito importante saber que há várias visões do que nos rodeia e tornarmo-nos múltiplos no nosso olhar, para termos uma noção mais real e justa das coisas do mundo. É bom falar mas também é bom sabermos ouvir, aprendermos sempre mais um bocadinho e alargarmos a nossa visão cadenciadamente comprimida.

(Esta minha maneira de ver as coisas topa-se logo, por exemplo, pelos meus CD's ou, pelo menos, através dos que cá se têm em casa. Tanto está no “molho”  Linkin Park, como Bach, Red Hot, Beyoncé, Diana Krall, David Morales, Supertramp e Hillary Duff. Se procurarem bem lá no fundo, também é capaz de ter Spice Girls (se as minhas irmãs ainda não os apanharam) e talvez uma versão pirateada do "Beautiful Sky" dos Reamonn. E quando isto não chega, há Maria Bethânia e Joe Cocker no meio dos CD's da mãe.)

Mas acima de tudo, vou fazer tudo para que um dia os meus Juniores não me venham perguntar "Mãe, o que é isso chamado cultura e individualidade que as pessoas da tua idade dizem que se perdeu?". Porque aí, estaremos todos iguais e já será demasiado tarde para as pessoas se aperceberem disso.

Enfim. Acho que vou pedir para porem este texto no Jornal da Escola. Pode ser que alguém abra os olhos ou que, pelo menos, os esfregue, nem que seja só para saber que eles existem. O seu utilizar, a bom tempo há-de vir! Ficará para uma próxima que, espero, não seja muito tarde. As culturas e a Cultura merecem, tal como todos os que por ela se esforçam. n


“Vou fazer tudo para que um dia os meus Juniores não me venham perguntar "Mãe, o que é isso chamado cultura e individualidade que as pessoas da tua idade dizem que se perdeu?”.
 


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