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Artes - Letras - Ciências
Suplemento do n.º 266 do "Litoral"
Novembro de 1959, Ano I, n.º 3
pág. 24

 

Meu caro Fernando Namora

Lembrou-se este suplemento de criar uma secção de convívio entre autores e leitores, através da qual os segundos dirijam aos primeiros, aberta e publicamente, as dúvidas, sugestões, perplexidades, reparos, meditações — e até as simples curiosidades — que a leitura dos seus livros ou a audição ou contemplação das suas obras lhes despertem; e na qual os segundos respondam, se o quiserem, às questões assim levantados por tais representantes ad hoc do público a que destinam as suas mensa­gens, colhendo junto deles os resultados do diálogo entre criação e fruição que toda a obra de arte ou de pensamento pressupõe. E pedem-me os seus redactores que abra a série, já que alguém terá de fazê-lo para encorajar os demais.


Ora, em matéria de coragem, os mé­dicos têm a triste vantagem duma profissão que os manda pregar o estoicismo à dor e à morte — dos outros... Daí que eu o escolhesse para parti­lhar comigo este sacrifício, o que é sem dúvida uma péssima maneira de agradecer o seu último livro — Cidade Solitária — que eu li com o grato prazer que sempre suscita o triunfo do autor que admiramos num passo decisivo da sua carreira de escritor (neste seu caso, o da novelística urbana), mas é também uma oportunidade, e talvez única, de confrontar consigo uma experiência comum, se bem que de valor muito diferente.

Médico e escritor, o seu caso é talvez o mais representativo duma conexão de actividades muito característica, na generalidade que lhe cabe, da época que atravessamos. Com efeito, no século transacto e primeiro quartel deste, quase todos os médicos-escritores vieram a desertar da medicina, quer para o jornalismo, quer para outras actividades mais afins da sua vocação literária. E, presentemente, não me ocorre um nome (Jaime Cortesão vem de trás) que haja renunciado totalmente a ela. Abstraio das razões históricas, sociais, políticas que explicam este facto. Como abstraio das determinantes pessoais, familiares, sociais que trouxeram à medicina, em todos os tempos, homens que viriam a realizar-se, sobretudo, como escritores, políticos ou artistas. Passo também à margem da escola de humanismo que a todos seduziu nesse curso e profissão, E esqueço o conteúdo específico que o exercício da última fez predominar na obra de alguns, e por vezes na sua. Pergunto-lhe apenas: será que a sua experiência confirma, como penso, que, nas condições em que vivemos, a fidelidade a um humanismo concreto — na arte, no pensa­mento, na acção — implica hoje, no médico-escritor, o apelo transido da prática profissional, que dia a dia o põe em presença dos aspectos gelados da sociedade a que pertence, obrigando-o a com­participar neles e a depender deles? E ainda: a profissionalização literária (admitido que a pudesse conseguir), na fase presente da sua obra, viria interromper a marcha duma experiência ainda fecunda na direcção que tomou (e em que a medicina foi uma pedra básica) ou poderia marcar a hora propícia à elaboração da grande síntese romanesca que a sua vivência sucessiva (como médico e como escritor) do conflito entre campo e cidade permite esperar de si?

Seu muito dedicado e grato admirador

Mário Sacramento


Esta secção é tua, leitor. Publica nela o que pensares dum livro, dum autor, duma obra.
 

 

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