BOLETIM CULTURAL E RECREATIVO - SECUNDÁRIA JOSÉ ESTÊVÃO - AVEIRO


Estrela do Norte


Há no lixo um qualquer sortilégio que a um tempo atrai e repele. O faro, que os ventres dos animais famintos apuraram, não desdenha um bom e oloroso caixote. Às vezes, um simples saco pode desencadear uma guerra de bairro. Os animais organizam-se instintivamente em gangs para salvaguardar territórios repletos de espinhas e ossos, orelhas de bacalhau, fémures de peru, moelas e goelas de galinha, envolvidos em cascas de batata, restos olhentos de queijo, restos de bolo podre, cabelos, algodões usados, o que ficou de uma caneca, um peluche encolhido, duas barbies escanzeladas e estropiadas, flores meio-murchas, limões bolorentos, embalagens encarquilhadas, plásticos, posters amachucados de um herói que uma adolescente já rejeitou, uma moldura partida, um santinho velho e gasto, revistas da semana passada, tudo revolvido no desbotado colorido das embalagens vazias.


— Vamos lá, enquanto há lixo! — cantarola a velha viúva da vila — Ah, lixo amigo!

Jerónima conhece de cor toda a qualidade de lixo. Os sentidos nunca a enganam: o ruído que provoca cada qualidade de plástico, há quanto tempo foi vertido cada resto de comida.

Os animais competem amigavelmente com Jerónima e ela acolhe-os, acode-lhes e aconchega-os. Dá-lhes os melhores restos do lixo que eles sorvem como se fossem meninos mimados. Presenteia-os à ceia com cantilenas avulso que diz apanhar por aí, talvez até já chapiscadas com um vinho de fundo de garrafa. Na natureza nada se perde, tudo se transforma, meninos... Ah, bebida dos deuses! Néctar, ambrósia, hidromel, vem a mim ó moscatel!

Desde que lhe deu para andar no lixo, já aprendeu mais sobre a vida e sobre as pessoas do que no resto de toda a sua vida. Porém, não foram bem aquelas as palavras que Jerónima proferiu. Não que delas não tivesse conhecimento; mas aviou-se porventura de outras, mais correntes, já que festins linguísticos não enchem barriga nem decantam zurrapas coalhadas, essa é que é a verdade.

— Quantos selos já achou hoje, ti Jerónima? — perguntam-lhe de passagem.

No lixo encontra selos raros, valiosíssimos, e outras tantas cartas rasgadas com que recompõe insuspeitadas sagas, revolvendo doloridas relações, ao arrepio do pacato quotidiano dos casais.

Este selo aqui é do Brasil, imagine-se! Do Brasil! Ah! Exibe-se. É uma pintura de um artista. Por isso é que teve coragem para pôr as árvores roxas e o caminho cor de sulfate...

Com o que sobra de apontamentos estudantis, vai forrando a sua biblioteca de autodidacta e fixando os acontecimentos com as velhas revistas mundanas, como se fossem pertença de alguma eternidade alternativa.

As cantilenas toscas e descompassadas, as historietas de Jerónima são famosas na vila; e ninguém sabe dizer ao certo se as acha no lixo ou se as improvisa na hora, para enganar a solidão:

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Não queiras piedade de ninguém

Do teu orgulho faz uma couraça

A piedade é uma forma de desdém

Nunca peças esmolas a quem passa

Mostra em silêncio que tens nervo, raça.

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Ó filosofia clara e certa

Se porventura o é para desejar

Ter uma alma fechada mas deserta

E se o mal é porém justamente amar

Vá lá tocar-se numa chaga aberta

Sem problemas a fazer sangrar.

 

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Não choro não, por ti, não choro mais

Já basta o que por ti chorei outrora.

Ai quantos sonhos pela vida fora

Despeito nos amargos vendavais.

Tudo se esvai

Até mesmo os ideais por que a gente luta

Vão-se embora

Fica o peito vazio numa hora

Não choro não, por ti, não choro mais.

 

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O amor é um momento que a gente vive

E nos traz sofrimento

Pois tu, amor, mataste um coração.

Choro agora por mim tão tristemente

Que faz de ti todo o meu dia ardente

De ti, que apenas foste uma ilusão.

 

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Vem, vem, não creias ver em meus olhos

frieza,

Pois tudo é neste meu silêncio

A ânsia oculta que reza

E há, meu amor, no teu olhar tal enleio

Que eu penso que é mentira, meu Deus,

E sonho que te creio, creio

A história sem par, o sonho luar

A vida é fugaz ilusão

Promessas de amor, sorrisos em flor

A vida é uma eterna canção

Subtil feiticeira

Da lua fagueira

Que entra em minh’alma a quimera

Eu penso que é tua a promessa da lua

Que diz baixinho a quem espera.

 

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Havia uns caçadores malvados

Que um patinho mataram

E assim ficou a mãe c’os filhos

Para um canto abandonado

E o pobre pato dizia, fitando os olhos no rio:

Desde que o papá morreu que trago o papo

vazio.

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Por ti a terra espera, ó semeador

Fecunda-a com teu gesto omnipotente

Não perderás sequer uma semente nem teu

 labor.

A terra é má

Pois há-de ser melhor

Quando o trigo ceifares desta semente

Não percas coragem semeador,

Fecunda-a com teu gesto omnipotente.

Ó escolas, semeai!

Pela sementeira espera a cega humanidade.

Ó escolas, semeai

O amor, a vida, a luz, a límpida verdade

Ó escolas, semeai!

E quando o sol tiver beijado o trigo

Alguém os bagos de oiro há-de ceifar

E voltarão da terra a germinar no quente

abrigo.

Quem ceifará?

Alguém que for contigo

E para quem estás agora a semear

Não percas semeador o loiro trigo

Alguém os bagos de oiro há-de ceifar.

 

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Eu sou a Estrela límpida do Norte

Abrindo e florescendo em pleno Céu

Quem de mim num sentido oculto e forte

Das agulhas magnéticas...

 

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Jerónima foi embora com a Estrela do Norte. Os animais lançaram guinchos lancinantes faiscando a manhã gelada de domingo. Um automóvel arrastara-a estrada fora, projectando-a para junto de um caixote do lixo.

  

Tereza Sorel (1)

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(1) - Agradeço à Sra. D. Alda Lau, da Gafanha da Nazaré, a disponibilidade e a sabedoria na narração de muitas Cantilenas Populares, entre as quais as que foram aqui adaptadas e inseridas.

 

1 - Editorial      2 - Contos tradicionais portugueses     3 - Um olhar sobre 2006-07 
4
- Dia da Poesia: Thiago de Mello    5 - Estrela do Norte     6 - Clube Multimédia: balanço de um ano
7 - Momentos de humor     8 - Parlamento dos jovens     9 - Dia da Escola     10 - Feira Medieval 
11
- Percurso épico em Aveiro     12 - Florinhas do Vouga     13 - 25 de Abril em Exposição
14 - Uma abordagem aos contos de fada    15 - Iniquidades no ensino  16 - Diálogo intercultural
17
- Educar para a autonomia e liberdade    18 - Hora do Recreio


 

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