BOLETIM CULTURAL E RECREATIVO - SECUNDÁRIA JOSÉ ESTÊVÃO - AVEIRO


 

 Dia da Poesia

Thiago de Mello

 

O dia 21 de Março — Dia da Poesia — foi comemorado na Escola Secundária José Estêvão com uma sessão de poesia que decorreu entre as dezanove e as vinte e trinta horas.

Esta actividade teve lugar na Biblioteca e contou com a assistência de alunos, professores e outros funcionários.

A escola recebeu, com entusiasmo, Sofia Santos, actriz da companhia de teatro “Efémero”, que deliciou os presentes com a dramatização de textos poéticos à sua escolha.

 

Deste modo, a antiga aluna da nossa escola demonstrou o seu gosto por essas duas formas de expressão: poesia e teatro.

A propósito, foi lembrada a representação do Gato das Botas no estaleiro teatral do Parque de Aveiro, até 27 de Março, Dia Mundial do Teatro. Nessa dramatização participou também Sofia Santos.

A sessão contou também com a presença do compositor Miguel Sequeira, que acompanhou a declamação com um fundo musical.

Entre os textos seleccionados, ocupou um lugar de relevo a poesia de Fernando Pessoa e seus heterónimos. Mas o momento mais alto do programa foi talvez a dramatização do «Acto Institucional» de Thiago de Mello, cujo poema aqui se transcreve na íntegra, bem como uma breve resenha biobibliográfica.

Prof. Paula Tribuzi


Os Estatutos do Homem (Acto Institucional Permanente)
a Carlos Heitor Cony

                        Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade.

agora vale a vida,

e de mãos dadas,

marcharemos todos pela vida verdadeira.

 

                        Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,

inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

 

                        Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,

haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

abertas para o verde onde cresce a esperança.

 

                        Artigo IV

Fica decretado que o homem

não precisará nunca mais

duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

como a palmeira confia no vento,

como o vento confia no ar,

como o ar confia no campo azul do céu.

            Parágrafo único:

O homem, confiará no homem

como um menino confia em outro menino.

 

                        Artigo V

Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar

a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras.

O homem se sentará à mesa

com seu olhar limpo

porque a verdade passará a ser servida

antes da sobremesa.

 

                        Artigo VI

Fica estabelecida, durante dez séculos,

a prática sonhada pelo profeta Isaías,

e o lobo e o cordeiro pastarão juntos

e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

 

                        Artigo VII

Por decreto irrevogável fica estabelecido

o reinado permanente da justiça e da claridade,

e a alegria será uma bandeira generosa

para sempre desfraldada na alma do povo.

 

                        Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor

sempre foi e será sempre

não poder dar-se amor a quem se ama

e saber que é a água

que dá à planta o milagre da flor.

 

                        Artigo IX

Fica permitido que o pão de cada dia

tenha no homem o sinal de seu suor.

Mas que sobretudo tenha

sempre o quente sabor da ternura.

 

                        Artigo X

Fica permitido a qualquer pessoa,

qualquer hora da vida,

uso do traje branco.

 

                        Artigo XI

Fica decretado, por definição,

que o homem é um animal que ama

e que por isso é belo,

muito mais belo que a estrela da manhã.

 

                        Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado

nem proibido,

tudo será permitido,

inclusive brincar com os rinocerontes

e caminhar pelas tardes

com uma imensa begônia na lapela.

            Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:

amar sem amor.

 

                        Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro

não poderá nunca mais comprar

o sol das manhãs vindouras.

Expulso do grande baú do medo,

o dinheiro se transformará em uma espada fraternal

para defender o direito de cantar

e a festa do dia que chegou.

 

                        Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade,

a qual será suprimida dos dicionários

e do pântano enganoso das bocas.

A partir deste instante

a liberdade será algo vivo e transparente

como um fogo ou um rio,

e a sua morada será sempre

o coração do homem.

Thiago de Mello
Santiago do Chile, Abril de 1964

 

Thiago de Mello

Síntese biobibliográfica

1926 – Nasce a 30 de Março, na cidade de Barreirinha, na margem direita do Paraná de Ramos (Amazónia) o poeta Amadeu Thiago de Mello. Ainda criança, vai viver para Manaus, onde obtém os primeiros estudos no Grupo Escolar Barão do Rio, e o segundo grau no então Gymnásio Pedro II.

No Rio de Janeiro, ingressa na Faculdade de Medicina, que abandona posteriormente para se dedicar inteiramente à sua vocação poética.

1951 – Com o livro Silêncio e Palavra, cuja aceitação é excelente, começa a ser conhecido entre os poetas brasileiros. «... Thiago de Mello é um poeta de verdade e, coisa rara no momento, tem o que dizer» — assim escreve acerca dele Sérgio Milliet. A partir daqui, não mais parou de escrever, sendo da sua autoria as seguintes obras:

 

 

Poesia

 

Silêncio e Palavra, Edições Hipocampo, Rio de Janeiro, 1951.

Narciso Cego, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1952.

A Lenda da Rosa, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1956.

Vento Geral (reunião dos livros anteriores e mais dois inéditos: Tenebrosa Acqua e Ponderações que faz o defunto aos que lhe fazem o velório), Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1960.

Faz Escuro mas eu Canto, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1965. 14a edição, 1993.

A Canção do Amor Armado, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1966. 7a edição, 1993.

Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1975. 7a edição, 1991.

Os Estatutos do Homem (com desenhos de Aldemir Martins), Editora Martins Fontes, São Paulo, 1977. 6a edição, 1991.

Horóscopo para os que estão Vivos, Edição de luxo, ilustrada e editada por Ciro Fernandes, Rio de Janeiro, 1982.

Mormaço na Floresta, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1984. 3a edição, 1993.

Vento Geral, Poesia 1951-1981, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro 1981. 3a edição, 1990.

Num Campo de Margaridas, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1986.

De uma vez por todas, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1996.

 

 

Prosa

 

Notícia da Visitação que fiz no Verão de 1953 ao Rio Amazonas e seus barrancos, Ministério da Educação, 1957. 2a edição, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1989.

A Estrela da Manhã, Estudo de um poema de Manuel Bandeira, Ministério da Educação, Rio de Janeiro, 1968.

Arte e Ciência de Empinar Papagaio, BEA, Manaus, 1984, edição de luxo. 2a edição, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1985.

Manaus, Amor e Memória, Suframa, Manaus, 1984, edição de luxo. 2a edição, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 4a edição, 1989.

Amazonas, Pátria das Águas, Edição de luxo, bilingue (português e inglês), com fotografias de Luiz Cláudio Marigo. Sverner-Bocatto, São Paulo, 1991.

Amazônia, a Menina dos Olhos do Mundo, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1992.

O Povo Sabe o Que Diz, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2a edição, 1993.

Borges na Luz de Borges, Pontes Editores, São Paulo, 1993.

 

Para um conhecimento mais aprofundado do escritor, indicam-se, entre os muitos existentes, alguns endereços da Internet:

 

jornal da poesia - http://www.revista.agulha.nom.br/tmello.html

                                     

http://www.releituras.com/tmello_menu.asp

 

   http://www.revista.agulha.nom.br/tmello.html#estat

 


1 - Editorial      2 - Contos tradicionais portugueses     3 - Um olhar sobre 2006-07 
4
- Dia da Poesia: Thiago de Mello    5 - Estrela do Norte     6 - Clube Multimédia: balanço de um ano
7 - Momentos de humor     8 - Parlamento dos jovens     9 - Dia da Escola     10 - Feira Medieval 
11
- Percurso épico em Aveiro     12 - Florinhas do Vouga     13 - 25 de Abril em Exposição
14 - Uma abordagem aos contos de fada    15 - Iniquidades no ensino  16 - Diálogo intercultural
17
- Educar para a autonomia e liberdade    18 - Hora do Recreio


 

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