BOLETIM   CULTURAL   E   RECREATIVO   DO   S.E.U.C.  -   J.  ESTÊVÃO


Do Nascimento de Dali

Claudette Albino   

 


Retrato de Dali com 6 anos (1910).

Dali nasceu a 11 de Maio de 1904, no n.º 20 da rua Monturiol de Figueras, província de Gerona, Espanha. Deram-lhe o nome de Salvador Domingo Filipe Jacinto Dali.

A mãe foi uma apaixonada por pássaros. O pai, notário, foi amigo das artes e dos artistas.

Nascido no seio de uma família abastada, que tinha perdido o primeiro filho, acaba por tornar-se no dono da casa, onde tudo lhe era consentido, o que ajudará à construção da sua megalomania, começando desde criança a sentir atractivo por grandes personagens, querendo, aos sete anos, ser Napoleão.

Desenha cisnes como os que mais tarde utilizará em algumas das suas obras como “O Cisne”, “O Mito de Leda”, “O Divino Pássaro”.

Aos oito anos tem como mestre Esteban Crayer e descobre um lugar de pedras brancas chamado Cadaqués, que se torna um amor de toda a sua vida. Aí pinta as suas primeiras telas com uma luz que nunca mais vai abandonar na sua obra.

Faz os primeiros estudos nos “Fosos” — Irmãos da Doutrina Cristã — e nos Maristas de Figueras, onde foi um aluno pouco atento, semi-ausente. Faz-se doente e simula crises nervosas, transformando-se numa personagem, o que o torna feliz e o leva a dizer: «esta súbita revelação me animou a seguir pelo caminho da mistificação e simulação que foram o meu primeiro contacto com a sociedade». Não o incomoda ser menino mimado, febril e centro de todas as atenções e, em 1914, com dez anos de idade pinta-se a si mesmo numa tela a que chamou “O menino doente”.

 


Auto-retrato cubista (1926).

Dali pinta sem descansar, com espátula, com cores ricas que empastam a tela, e o seu amor pela pintura distingue-o dos outros meninos e fica consciente de que será pintor.

Passa uns tempos em casa dos Pitchot, uma família amiga de artistas onde, uma manhã, descobre as telas de Ramón Pitchot e recebe, através delas, a revelação do impressionismo. «Fiz a revolução impressionista aos doze anos e, nessa época, não cometi o erro de desterrar o preto da minha paleta» — diz-nos.

Teve como professor de desenho Juan Núñez, que se apercebe das suas qualidades e o orienta.

Aos catorze anos, pinta naturezas mortas, descobre a técnica para reter os raios de luz e traduzir as profundidades da mesma. Em Figueras, pedem-lhe que entre com alguns trabalhos numa exposição em que vão expor mais trinta artistas locais Os críticos destacam nesta exposição as obras de Dali. O pai decide, então, que irá estudar na Academia de Belas Artes de Madrid.

Aos quinze anos, muda a forma de pintar e aborda quadros de género. O seu estúdio enche-se de ciganos que lhe servem de modelo. Quando parte para Madrid, está conhecedor da sua genialidade, o que se torna para si um facto extremamente agradável. A sua presença em Madrid não passa despercebida: usa capa até aos pés, cabelos pelos ombros, uma boina e uma gravata enorme. É o único que em Madrid experimenta o cubismo. Torna-se notado e faz amizade com outros jovens, que mais tarde terão prestígio como Garcia Lorca e Luís Buñuel. Estes exerceram influência em Dali relativamente a uma nova maneira de vestir. Quando vai de férias para Cadaqués, a família encontra-o convertido num jovem elegante, representando-se nesta nova circunstância em auto-retrato. O seu narcisismo leva-o a representar-se muitas vezes nas suas obras.

Em 1925, Dalmeu, proprietário das Galerias de Arte de Barcelona, propõe-lhe uma exposição no mês de Novembro, que Dali concretiza com cinco desenhos e dezassete pinturas. Nesta altura está na sua experiência cubista com a rígida geometria que depois irá abandonar, conservando os volumes e uma construção estruturada.

Em Madrid viveu, como diz, ”num estado constante e exacerbado de subversão espiritual, quatro anos autenticamente nietzchianos”. Esta forma de viver levou a que fosse expulso da Academia de Belas Artes de Madrid, por decreto régio em 1926, tendo, por vontade, deixado todas as suas coisas em Madrid e voltado a Figueras de “mãos vazias”. Em 1927 vai para Paris e, neste mesmo ano, desenha a sua primeira grande tela surrealista “ O sangue é mais doce que o mel”.

Claudette Albino


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