Acesso à hierarquia superior.

Henrique J. C. de Oliveira, Gramática da Comunicação, Col. Textos ISCIA, Aveiro, FEDRAVE, Vol. I, 1993, 311 pp., Vol. II, 1995, 328 pp.


VI

A Língua Portuguesa:
Unidade Sistemática na Diversidade Dialectal

 

Área linguística do português. O discurso: diferentes aspectos de análise. Discurso oral e discurso escrito. Níveis ou registos de língua, dialectos e falares, crioulos e português do Brasil. Alguns traços gerais dos falares portugueses. Falares do português do Brasil. O discurso segundo as pessoas intervenientes na comunicação: discursos de primeira, segunda e terceira pessoa e discursos híbridos. O literário e o não literário.

 
 

O DISCURSO SEGUNDO AS PESSOAS

INTERVENIENTES NA COMUNICAÇÃO

Antes de vermos, separadamente, os tipos de discurso que poderemos considerar, tendo em conta as pessoas intervenientes na comunicação ou enunciação linguística, vejamos o que, sobre o assunto, nos é apresentado nos dicionários de linguística.

Vimos anteriormente que, numa acepção linguística moderna, o vocábulo discurso designa todo o enunciado superior à frase, podendo ser considerado como sinónimo de enunciado. A oposição entre enunciado e discurso corresponde apenas à oposição entre linguística e não linguística. Enquanto a linguística se apoiava na análise dos enunciados, as regras do discurso, ou melhor dizendo, o estudo dos processos discursivos que regem o encadeamento das sequências frásicas era remetido para outros domínios, para outros modelos e métodos. Foi Jacques Lacan quem primeiro efectuou uma análise do discurso, tendo em conta o sujeito falante, ainda que sob uma perspectiva psicanalítica. Foi ele quem pôs o problema inicial do discurso ao estudar a função e o campo da palavra e da linguagem em psicanálise.

A partir da meditação dos textos escritos por Jacques Lacan, Émile Benveniste abordou, numa perspectiva linguística, o problema do discurso. Segundo ele, as frases não constituem uma classe formal de unidades oponíveis entre si, tal como os fonemas se opõem a outros fonemas, os morfemas a outros morfemas e os lexemas a outros lexemas. Com a frase, sai-se do domínio da língua como sistema de sinais para se entrar no domínio do discurso, em que a língua funciona como instrumento de comunicação. Deste modo, a frase apresenta-se como a unidade do discurso.

Benveniste opõe o conceito de narração ao de discurso. Segundo ele, a narração representa o grau zero da enunciação, uma vez que nela tudo se passa como se nenhum sujeito falasse. Os acontecimentos parecem surgir sem que alguém os apresente. Contrariamente, o discurso caracteriza-se pela existência da enunciação, do chamado acto de fala, o que pressupõe, desde logo, a existência de dois sujeitos falantes um locutor e um auditor e uma vontade implícita ou explícita do locutor em influenciar o seu interlocutor.

   
  Figura 52: As três pessoas gramaticais.  

A nível do discurso estabelecem-se, portanto, relações e oposições entre os interlocutores de acordo com a pessoa verbal presente. Ao todo, podemos considerar três pessoas verbais primeira, segunda e terceira pessoa , cada uma delas com as suas características.

Segundo os gramáticos árabes, a primeira pessoa corresponde àquele que fala, a segunda pessoa é aquele a quem nos dirigimos e a terceira pessoa aquele que está ausente, que não participa no acto comunicativo, mas de quem se fala.

A primeira pessoa, indicada pelo pronome «eu», corresponde, no esquema da comunicação, ao sujeito emissor; é aquele que profere o enunciado e que se torna, consequentemente, o responsável pelo enunciado proferido.

A segunda pessoa, representada pelo pronome «tu», é designada a partir da primeira pessoa e corresponde ao sujeito receptor, àquele a quem o «eu» se dirige.

         A terceira pessoa, indicada pelo pronome «ele/ela», refere-se a alguém que se situa fora da relação  «eu/tu», ou seja, corresponde a alguém que não é nem o emissor, nem o receptor. Não é, consequentemente, protagonista do acto comunicativo, pelo que Benveniste a considera como não-pessoa, correspondendo a um dos factores exteriores aos protagonistas da comunicação; corresponde, neste caso, ao referente.

   
 

Figura 53: Correlações entre as três pessoas gramaticais, segundo Benveniste.

 

Entre as três pessoas eu/tu/ele estabelecem-se dois tipos de correlações: de personalidade e de subjectividade.

A correlação de personalidade estabelece-se entre as duas primeiras pessoas e a terceira. Enquanto as duas primeiras pessoas possuem a marca da personalidade, são pessoas, a terceira caracteriza-se pela sua ausência, pelo que é considerada por Benveniste como não-pessoa.

Entre a primeira e a segunda pessoa, estabelece-se uma correlação de subjectividade. Enquanto o «eu» se caracteriza pela sua subjectividade e apresenta unicidade e interioridade, o «tu» é uma pessoa exterior ao «eu» e, como tal, uma pessoa não-subjectiva. Há, pois, oposição entre o «eu» e o «tu», a que se dá a designação de correlação de subjectividade.

O esquema da figura 53 permite-nos visualizar as relações existentes entre as três pessoas. Segundo Benveniste, este esquema só é aplicável às pessoas verbais do singular, não se podendo transpor esta rede de relações para as pessoas do plural. O «eu» caracteriza-se pela sua unicidade e subjectividade, pois não podem existir vários «eus». Significa isto que o «nós» não constitui uma multiplicação do «eu», mas sim a junção de outras pessoas exteriores «não-eu» ao «eu». O plural é, portanto, como que uma ampliação da primeira pessoa do singular, à qual se juntam outras pessoas e onde necessariamente está implícita a presença do «eu».

Com as restantes pessoas do plural ocorre igualmente um processo de amplificação. No «vós», quer se trate de um conjunto de pessoas, quer do «vós» como forma de tratamento respeitoso, ocorre o mesmo processo de generalização; relativamente à terceira pessoa, «eles» exprime uma ilimitação dos elementos não pessoais[1].

Analisadas as relações existentes entre as três pessoas verbais, poderemos considerar três tipos de discurso inerentes a cada uma destas três pessoas: discurso de primeira, segunda e terceira pessoa.

 

O discurso de primeira pessoa caracteriza-se, desde logo, pelo facto de estar centrado no sujeito emissor, na medida em que é a primeira pessoa a responsável pelo acto elocutório[2]. Uma vez que está centrado no sujeito emissor, caracteriza-se pela sua subjectividade. Ao longo de todo o discurso, é a subjectividade do sujeito emissor que, apropriando-se da língua, individualiza e organiza os signos linguísticos segundo a sua própria vontade e intencionalidade num todo coerente, que constitui o discurso. O emissor exterioriza toda uma série de conteúdos que lhe dizem respeito, que podem ser de natureza emotiva ou volitiva, fornecendo indicações sobre si mesmo.

Marcado pela subjectividade, o discurso de primeira pessoa apresenta consequentemente marcas que dependem do carácter pessoal e individual conferido à linguagem. A nível da língua, encontramos toda uma série de marcas que permitem, desde logo, identificar o discurso de primeira pessoa, tais como:

     ·1. predominância das formas verbais de primeira pessoa;

     ·2. a presença de deícticos de primeira pessoa, tais como demonstrativos, possessivos, pronomes pessoais;

     ·3. valor expressivo e afectivo atribuído a determinadas instâncias do discurso, consubstanciado na função emotiva da linguagem.

Estas marcas subjectivas estão frequentemente patentes na utilização de certos adjectivos e de certas formas adverbiais, que permitem exteriorizar uma visão pessoal, subjectiva, da realidade ou de determinada situação.

O discurso de primeira pessoa pode ser encontrado em vários tipos de enunciados, sejam eles orais ou escritos. Mas encontra-se na sua forma mais pura em dois tipos de textos: no monólogo, em que o emissor coincide com o receptor, na medida em que o «eu» escreve para si mesmo, pensando, reflectindo e conjecturando sobre coisas ou factos ao sabor do fluxo da sua consciência; no diário, no qual o sujeito emissor, o «eu», fixa no tempo, pela escrita, as suas impressões, reflexões, experiências ou até mesmo acontecimentos do mundo exterior que, por qualquer motivo, mais vivamente o impressionaram e sobre os quais tece frequentemente considerações segundo o seu próprio ponto de vista. Em qualquer destas duas formas de manifestação monólogo ou diário todas as instâncias do discurso se definem a partir da reflexão e percepção pessoais do mundo e da vida, tornando toda a mensagem carregada, consequentemente, de subjectividade.

 

O discurso de segunda pessoa, centrado no sujeito receptor, constitui um discurso de persuasão, característica esta já enunciada por Benveniste quando definiu discurso como «toda a enunciação que pressupõe um emissor e um receptor, existindo no primeiro a intenção de influenciar o outro de algum modo». Influenciar, persuadir, aconselhar, advertir, ordenar, mandar, ameaçar, exigir, eis toda uma série de intenções afins em que o sujeito emissor, em maior ou menor grau, exige ou procura obter do receptor uma reacção específica. Consequentemente, o discurso de segunda pessoa está centrado no sujeito receptor, desempenhando papel importante os actos elocutórios, através dos quais o emissor se dirige ao receptor, visando obter dele uma determinada reacção. Predomina, consequentemente, a função apelativa ou conativa da linguagem, sendo o discurso de segunda pessoa caracterizado por um conjunto de marcas linguísticas, dentre as quais se destacam os verbos performativos[3] e as formas do imperativo. Relativamente ao imperativo ou formas com valor afim, não há qualquer dúvida sobre a intencionalidade do emissor em pretender impor ao receptor um determinado comportamento. Quanto aos verbos performativos, estes integram-se no discurso de persuasão só em determinadas circunstâncias, quando implicam directamente a segunda pessoa como destinatário ou testemunha de um acto performativo. Por exemplo, se o emissor A disser a B que lhe promete fazer algo se B realizar determinadas acções, A está a procurar convencer B a reagir de determinada maneira, pelo que aqui não há qualquer dúvida que toda a enunciação vai recair sobre o receptor, evidenciando-se de imediato a função conativa ou apelativa da linguagem, que também poderíamos aqui designar por função persuasiva.

Convirá chamar a atenção para o facto de que no discurso de segunda pessoa podemos encontrar marcas gramaticais referentes à primeira ou à terceira pessoa. Por exemplo, A diz «Garanto-te que te darei isto, se fizeres o que te pedi.», encontramos na primeira metade da frase elementos referentes à primeira pessoa; no entanto, o objectivo fundamental é levar o «tu» a fazer algo, pelo que o predominante é o discurso de segunda pessoa. Quando, numa mensagem publicitária, encontramos uma frase do tipo «Faça desde já a sua assinatura e evitará a decepção de deparar com a sua revista esgotada.», embora o verbo esteja na terceira pessoa gramatical, não há qualquer dúvida de que o sujeito elocutor está a centrar a sua atenção no receptor o «eu» procura influenciar o «tu» ,  tendo em vista levá-lo a agir. O que aqui sucede é o facto da língua portuguesa apresentar esta forma de elocução, com a qual se procura manter um certo distanciamento por deferência entre o emissor e o receptor, sobretudo se as relações entre eles não permite um tratamento por «tu».

O discurso de segunda pessoa está presente em diversos tipos de textos, dentre os quais se destacam os textos publicitários e o discurso argumentativo sob várias formas: sermão, discurso político, palestras, defesa de uma tese, etc.

Quer na mensagem publicitária, quer no discurso argumentativo, a pessoa privilegiada é sempre a segunda pessoa o sujeito receptor , pretendendo o sujeito elocutor, o publicista, o orador, convencer e levar o receptor a adquirir um determinado produto, a agir de determinada maneira ou persuadir e levar o público à aceitação de determinadas ideias ou princípios, consoante o tipo de situação e objectivos em vista.

 

O discurso de terceira pessoa, uma vez que é inerente à terceira pessoa, refere-se, como já atrás foi dito, a alguém ou a algo que se situa fora da relação «eu/tu», o que significa que nunca participa no acto da comunicação, ao contrário das duas primeiras pessoas. O discurso de terceira pessoa está centrado no referente e apresenta por isso uma função informativa. Encontramo-lo em vários tipos de textos. Está presente, por exemplo, no discurso de imprensa, tal como nas notícias e artigos de pequena e grande actualidade (respectivamente os «faits divers» ou casos do dia criminais, acidentais, sentimentais e notícias locais e os acontecimentos situados no plano da grande actualidade nacional e internacional) e no discurso historiográfico, que engloba também o discurso biográfico, e no ensaio.

Além dos três tipos de discurso apresentados, podemos encontrar casos em que estes se podem combinar, constituindo discursos híbridos. Acontece isto frequentemente quando a enunciação incide ao mesmo tempo sobre duas pessoas ou dois factores da comunicação, podendo-se encontrar discursos híbridos de primeira e segunda pessoa, de primeira e terceira pessoa e de segunda e terceira pessoa, centrados respectivamente no emissor/receptor, no emissor/referente e no receptor/referente. Encontramos exemplos destes discursos híbridos no género epistolar, nas crónicas e nos comunicados.

 

 

O TEXTO LITERÁRIO E O NÃO LITERÁRIO

Dissemos anteriormente, quando falámos dos níveis de língua, que a linguagem literária constitui um domínio específico da língua, uma forma de expressão artística que transcende a escrita corrente, e que se caracteriza pelo seu apragmatismo, na medida em que, num texto literário, é possível encontrarmos qualquer registo de língua. No texto literário, o sujeito da enunciação, isto é, o autor, introduz uma forma pessoal, individual, de realização da língua, adaptada aos seus objectivos, procurando imprimir ao discurso uma maior expressividade mediante a utilização de diversos recursos retórico-estilísticos, que fazem com que o texto se desvie do nível médio ou norma padrão.

Leiam-se, antes de apresentarmos as características do texto literário, os dois textos seguintes:

texto 1

O SOL, A NOSSA ESTRELA

Para nós, o Sol é o astro mais importante do firmamento. Sem ele não poderíamos existir e a Terra não teria nascido. Pensa-se que a Terra e todos os outros planetas se formaram há mais de 4 500 milhões de anos, a partir de uma nuvem de matéria que na altura rodeava o jovem Sol.

            A nossa estrela tem 1 392 000 km de diâmetro e é mais de um milhão de vezes maior que a Terra. É constituída por gases e contém enorme quantidade do mais leve, o hidrogénio, a substância mais comum em todo o Universo.

            O Sol é muito quente, com a temperatura superficial de 6000 C, mas não está a «arder», no sentido usual do termo. Bem no interior, onde as temperaturas são extraordinariamente elevadas, o hidrogénio está a transformar-se noutra substância, chamada hélio. Durante esta transformação, liberta-se um pouco de energia e perde-se um pouco de massa ou quantidade de matéria. É esta energia que mantém o Sol a brilhar. A perda de massa é da ordem dos 4 000 000 de toneladas por segundo. Mas o Sol é tão grande que o seu tamanho não se alterará muito, pelo menos nos próximos 5000 milhões de anos.

Na brilhante superfície do Sol observam-se frequentemente manchas escuras, conhecidas por manchas solares. Nunca se deve olhar directamente para o Sol, nem à vista desarmada, nem através de telescópios ou mesmo de binóculos. Por esta imprudência concentrar-se-ia a luz e o calor nos olhos, causando cegueira permanente. Mesmo o uso de um vidro escuro em frente do telescópio é imprudência: estes vidros partem-se muitas vezes sem aviso, e de resto também não bloqueiam suficientemente a luz e o calor. Há só uma regra segura sobre a observação directa do Sol: não a fazer!

            Nenhuma das manchas solares dura mais do que uns meses. Cada onze anos, o Sol torna-se muito activo, produzindo grande número de manchas. A actividade começa depois a decrescer, e anos há em que poucas se observam. 1980 foi o último período de grande actividade; o próximo ocorrerá provavelmente em 1991.  (...)

Texto extraído da Enciclopédia Cambridge da Ciência, vol. I, Espaço exterior e espaço interior, Lisboa, Editora Verbo, 1986, pp. 18-19.

 

texto 2 

RAIO DE SOL

Tinham travado amizade no meio de grande confusão.

            Assim que as aulas começaram, Raio de Sol chegou à escola, com o melhor dos sorrisos. Finalmente, as férias de Verão tinham acabado.

            Alegres como pardais, no rebentar de um novo dia, voltavam os companheiros, a quem se iria juntar na festa da miudagem.

            Coitado, foi nisso que se enganou!

            Todas as manhãs os miúdos aproveitavam a sua chegada, para pôr a aula em rebuliço.

            Pousava no rosto de cada um, em carícia de amizade, e logo o moço gritava:

            O Sol está a bater-me na cara. Posso afastar a carteira?

            Corria em seguida para outro na esperança de mais carinho, e a reacção era igual:

            Estou com o Sol na cabeça. Posso mudar de lugar?

E porque a professora concordasse que o Raio de Sol era intruso, e além disso brigão, acabava por consentir na gincana das carteiras.

            E zás!

            Mal o pobre se descuidava, retiravam-lhe o apoio, lá ia ele aos trambolhões, agarra aqui, cai acolá, estatelar-se no chão.

            Divertiam-se à sua custa, disso, não tinha dúvidas.

            Andou nisto várias semanas, armado em bombo da festa, até que um dia, quase a ficar desesperado, encontrou a perna amiga de um menino, que o ajudou a levantar.

            Olá, patinador dos caídos. Chamo-me Mário. E tu, tens nome?

            Tenho pois! Raio de Sol todo partido, assim que entro nesta sala. Ou se preferes, um poeta, que perdeu a inspiração.

            Talvez te possa ajudar. Dá cá a mão, meu poeta.

            Riram os dois, satisfeitos com o desfecho da cena, e logo no mesmo dia falaram pelos cotovelos.

            Desde então, mal surge na janela, Raio de Sol dispara em linha recta para a carteira do amigo, e em voz baixa conversam as novidades do dia.

FERNANDO BENTO GOMES, Enquanto Houver Sol Há Esperança.

 

Não é necessário grande esforço nem uma análise muito profunda para imediatamente distinguirmos o texto literário do texto não literário.

O texto 1 apresenta uma linguagem objectiva, directa, e um fim utilitário. Utilizando um discurso de terceira pessoa, apresenta uma função utilitária: a de nos fornecer informações rigorosas e claras acerca da nossa estrela o Sol.

O texto 2, embora não apresente qualquer dificuldade de compreensão do ponto de vista lexical, tem uma função essencialmente estética, situando-se no universo da ficção literária. Embora faça referência ao Sol, na figura de um Raio de Sol, vemos que este se encontra humanizado, transformado numa personagem com características humanas, que encontra a amizade, após algumas frustrações, numa criança da escola, que o compreende e com quem estabelece o diálogo.

As diferenças entre o texto literário e o não literário são ainda mais notórias quando nos encontramos na presença de textos poéticos. Confrontem-se, por exemplo, os textos apresentados a seguir, na sugestão de trabalho, especialmente os três textos em que se faz referência à árvore.

Em que consiste então a linguagem literária?

De uma maneira simplificada (e aproveitando o que nos é dito em diferentes textos teóricos)[4], podemos dizer que a linguagem literária constitui um universo da expressão humana com características muito particulares, um universo que pode espelhar um mundo que oscila entre o real e o fictício, entre um mundo à escala humana e um mundo fantástico, mundo esse que, mesmo quando se procura uma aproximação, nunca é rigorosamente igual ao real, muito embora possa apresentar muitas semelhanças com ele a verosimilhança.

A linguagem literária constitui um universo que abrange diversos géneros, reflectindo quer o mundo subjectivo, o mundo interior, psicológico do Homem plasmado geralmente através do texto poético ,  quer o mundo objectivo, revelado nas suas múltiplas relações com o Homem plasmado quer através dos géneros narrativos, quer dos dramáticos.

Desempenha a linguagem literária ou pode desempenhar simultaneamente diversas funções, de entre as quais destacamos a estética, a lúdica ou recreativa e a educativa ou formativa.

E quais as características intrínsecas da linguagem literária? Em que é que se distingue da linguagem não literária?

De uma maneira bastante sintética e aproveitando o que nos dizem diferentes autores, muito especialmente a exposição teórica feita por Carlos Reis (de quem transcrevemos na nota anterior parte de um texto, cuja leitura atenta desde já recomendamos), poderemos analisar a linguagem literária a dois níveis: no primeiro, mais superficial, as suas características prendem-se com as funções desempenhadas; a um nível mais profundo, a análise tem essencialmente a ver com o conceito de literariedade.

Num primeiro nível de abordagem, podemos dizer que a linguagem literária é:

     ·uma linguagem verbal dotada de uma certa intencionalidade estética e, como tal, uma das muitas formas assumidas pela Arte;

     ·uma linguagem capaz de criar um universo fictício, um universo onde poderá mesmo reinar o impossível, ainda que, na maioria dos casos, os factos apresentados obedeçam à lei da verosimilhança;

     ·   uma linguagem cuja prática obedece a fins não utilitários.

Num nível mais profundo, a essência da linguagem literária identifica-se com a noção de literariedade.

O que deverá entender-se por literariedade?

Dizemos que num dado texto existe literariedade, isto é, uma dimensão estético-literária, quando apresenta vocábulos ou expressões que se caracterizam pela polissemia e pela subjectividade.

Um texto literário caracteriza-se pela sua polissemia, é plurissignificativo, e, como tal, susceptível de mais do que uma leitura ou interpretações diferentes, donde resulta uma segunda característica a sua ambiguidade.

Por outro lado, o texto literário apresenta um outro factor de literariedade: a subjectividade. Através dele, e sobretudo no texto poético, no universo da lírica, é possível o sujeito do discurso projectar no texto as suas emoções, os seus valores afectivos e ideológicos.

Outra característica do texto literário, além do valor conotativo assumido pelos vocábulos, é o aproveitamento da dimensão material do próprio signo linguístico, isto é, para além do próprio significado, o significante é aproveitado enquanto material fónico, enquanto material sonoro, para, através de certas sonoridades, como por exemplo os casos das aliterações, ou o caso da utilização de sons nasais ou orais e também das rimas, no caso particular da poesia, conseguir assim uma maior capacidade comunicativa pela transmissão de certas impressões sonoras, que vêm reforçar o significado das palavras.

Como síntese de todas as características do texto literário, consulte-se o quadro da figura 54, que apresenta, lado a lado, o texto literário e o texto não literário.  Leia-se também o texto de Carlos Reis, transcrito na nota nº 4, e procure-se elaborar a sugestão de trabalho, onde se encontram diversos textos literários e não literários.

 

TEXTO LITERÁRIO

TEXTO NÃO LITERÁRIO

· intencionalidade estética

 

· presença de um universo fictício

 

· subjectivo e plurissignificativo (polissémico)

 

· vocabulário conotativo

 

· grande recurso aos processos retórico-estilísticos: figuras de estilo e aproveitamento do aspecto físico do signo linguístico

 

· frequentes desvios relativamente à linguagem corrente: anástrofes, por exemplo.

· intencionalidade utilitária

 

· voltado para o mundo real

 

· objectivo e unissignificativo

 

 

· vocabulário denotativo

 

· grande pobreza de recursos retórico-estilísticos

 

 

 

· ausência de desvios relativamente à norma padrão

 

 
  Figura 54: Quadro com a distinção entre o texto literário e o texto não literário.  

 

Sugestão de trabalho 15

É-lhe apresentada uma sequência de textos literários e não literários. Leia os textos de cada uma das sequências e responda às questões formuladas.

Sequência 1:

A:

(...)  O carvalho comum é uma planta de longa vida; tem por isso o nome de perene. Passa, porém, por um período de repouso hibernal, porque perde as folhas com a aproximação do Inverno: é uma árvore de folhas caducas; com o regresso da Primavera aparecem novas folhas no alto dos ramos. (...)

Quando atinge quarenta anos, começa a dar flor e depois continua todos os anos. Tem numerosas flores masculinas bem como femininas, mas todas bastante pequenas e de cor esverdeada, insignificantes, de forma que passam muitas vezes despercebidas. Cada uma das flores femininas pode dar origem a uma glande. (...) Mas depois de uma existência muito longa, a árvore, que constituiu o seu poderoso aparelho vegetativo, que resistiu aos seus inimigos e durante anos seguidos floresceu, frutificou e deu sementes, deixa de crescer e apenas consegue escassas frutificações de glandes: entra no período de velhice e aproxima-se da morte.

As suas raízes não podem crescer indefinidamente num espaço restrito e torna-se insuficiente para alimentar uma copa tão pujante; a ramaria profusa não permite expor directamente ao sol as folhas, que se tornaram numerosas; o tronco, por mais forte que seja, não pode suportar cargas cada vez maiores. A velha árvore fica então em perigo: pior alimentada, adoece e é alvo do ataque de fungos parasitas que lhe perfuram o tronco, transformando a madeira numa massa deslenhificada de celulose sem resistência, esponjosa e mole, e no primeiro dia de tempestade o vento derruba o gigante da floresta, vencido pelos anos.

In:  O mundo das plantas, Verbo Juvenil.

B:

Ai a fome duma árvore, na cela!

(Verde rapariga de verdes tranças)

Quando eu partir, hei-de voar para ela

no voo das aves e das crianças.

 

E pendurar-me nela como os frutos

sentindo bicadas na mão!

E bailar-me nela como as folhas

até beijar-lhe o chão...

LUÍS DA VEIGA LEITÃO,
Sonhar a Terra Livre e Insubmissa...

 

C:

A árvore ainda, para terminar; ergue-se no quintal da casa, como um templo, como um prédio de cimento armado; cresce; os ramos desenvolvem-se para cima, para os lados;  depois de grandes, o peso tomba-os um pouco, lentamente, para baixo; floresce; nascem as folhas brilhantes e sedosas, frágeis, puras, informes, como um raio de prata; criam nervuras que endurecem, tornam-se rudes e pesadas; dão frutos, sementes, sumos, cores, sabores, cheiros, saciedade; as flores sonham, adormecem, ficam velhas e instáveis; tombam; e movem-se; e morrem; caem as folhas; fica a árvore; permanece;  anos e anos e estações e séculos; dá mais folhas, flores e frutos, sementes, fecundidade; repete-se; e no tronco aparecem fundas rugas, em que se ocultam os deuses, feiticeiros, visionários, profetas e a eternidade; tira-se a seiva; resina; tira-se o casco, a saudade; fica a árvore; cortam flores; enfeitam jarras, usam-nas com velha arte; colhem-se os frutos e, enfim, apodrece a velha árvore; o tronco fende; as folhas caem; ficam os ramos no ar; cortam-se os ramos despidos, o vento arranca as raízes e é então que tomba a árvore.

ALMEIDA FARIA, A Paixão.

1 - Uma palavra poderá constituir o tema comum aos três textos. Qual?

2 - Identifique os textos literários e os não literários.

3 - Centre a sua atenção no texto B:

3.1 - Situe espacialmente o sujeito poético;

3.2 - Identifique as funções da linguagem predominantes no texto;

3.3 - Identifique a «verde rapariga de verdes tranças».

3.3.1 - Identifique a figura de estilo que lhe está subjacente.

4 - Ponha em destaque o valor conotativo dos vocábulos «voar», «voo», «aves» e «crianças».

5 - Explique o sentido dos versos da segunda estrofe.

6 - Ponha em destaque os recursos a nível fónico.

7 - Efectue o levantamento dos recursos estilísticos presentes no texto C.

 

Sequência 2:

D:

«Douro Grande rio de Espanha (em esp. Duero) e de Portugal: o terceiro da Península Ibérica pelo comprimento (927 km) e o segundo pela área da bacia hidrográfica (98 370 km2, dos quais cerca de 18 550 em Portugal) que, conquanto pouco desenvolvida em território português, se alarga muito em Espanha, desde os Montes Cantábricos às Cordilheiras Centrais, pelos vastos plainos de Leão e de Castela-a-Velha (...)

A irregularidade do regime hidrográfico do Douro, aliada ao facto de a foz, muito variável, ser rochosa e assoreada, e portanto de custoso aproveitamento para uma zona tão povoada como a do Porto, fez com que se criasse um porto artificial (Leixões) na foz do Leça. Não obstante, tem-se procurado melhorar as condições de navegabilidade do rio, porque os desastres se sucedem com muitas perdas de vidas. O Douro, duma maneira geral, tem o seu curso inferior muito encaixado, estreito, com grandes rápidos (o da Valeira, o da Cachucha, etc.) e rochedos nas margens a estrangulá-lo ainda mais nas chamadas pontas, passos ou galeiras; o perfil transversal predomina em V agudo, o que é pouco próprio para a navegação e não é vulgar numa fase de maturidade. (...)

Não menos grave é o regime das cheias, e a sua solução, ou pelo menos a sua atenuação, depende das obras hidráulicas que se fizerem do lado espanhol. Nos últimos cinquenta anos têm-se registado numerosas cheias, quase todas elas hibernais (por pluviosidade, degelos ou maremotos) que enormes prejuízos causaram nas culturas ribeirinhas, no tráfego fluvial e principalmente na parte baixa da cidade do Porto. Vários documentos antigos falam também de inundações. Em 1727 houve uma enchente repentina que matou mais de 100 pessoas e produziu muitos estragos ...»

Texto extraído da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

 

E:

«É um rio louco, que abriu caminho em fúria por entre montes gigantes e, obstinado, quis ir ver o mar. E chegou. Cansado, mas chegou.

Em toda a jornada lutou sempre com penhascos e xistos, com fraguedo e granito, dando a cara a tudo o que lhe quis barrar o caminho. E os homens das suas margens aprenderam este sentido de luta. Construíram os seus barcos e ofereceram batalha ao rio enlouquecido e raivoso no torvelinho das suas águas traiçoeiras.

Babado de espuma nas galerias, onde a morte espreita e os cachopos aguçados são punhais a desventrar barcos; manso nos poços onde os remos e as espadelas gemem numa melopeia triste, que só os marinheiros entendem.

Vai por uma estrada tortuosa, retorcida e causticada, passando promontórios, fragões, baixéis e areias. Nunca a natureza lutou tanto com a natureza. E é alucinante e maravilhoso para os homens ir nas mãos da morte e vencer a morte.

É um rio sinistro de cor e trágico de loucura. Parece que leva consigo as lavas dum vulcão, tão espessas são as suas águas vistas de longe: barrentas, com olhos verdes e laivos amarelos, gritando nos pontos, como se quisessem atemorizar os homens que ousam devassá-las.

Em cada pedra há uma lenda ou o nome de um arrais que lá naufragou. Em cada fraga, uma marca por onde os barcos se conduzem. Em cada meneio, uma paisagem, em cada paisagem, uma cor.

É um caminho de alucinação e de sonho cansa e conforta.

Por isso os marinheiros se apaixonam por ele como por uma mulher de mil feitiços. Dão-lhe tudo o esforço titânico, o suor que é sangue e o sangue que é vida. Oferecem-lhe a vida a sorrir e o rio agora nada lhes dá em troca. Não é mais do que uma estrada de mendigos cegos, que não podem tomar outro rumo. Cegos como o rio, loucos como ele.

O Douro, porém, chegou cansado para ver o mar, mas chegou.»

ALVES REDOL, Porto Manso

1 ─ Identifique o texto literário e o não literário.

2 ─ Determine o objectivo do texto D.

3 ─ Ponha em destaque as características atribuídas por Alves Redol ao rio, que nos permitem classificar o texto como literário.

4 ─ Efectue o levantamento dos principais recursos estilísticos presentes no texto E.

 

Sequência 3:

1 - Leia o texto a seguir transcrito:

Texto 1

A PALAVRA

«1 ─ Em linguística tradicional, a palavra é um elemento linguístico significativo composto de um ou vários fonemas; esta sequência é susceptível duma transcrição escrita (ideogramática, silábica ou alfabética) compreendida entre dois espaços em branco; ela conserva a sua forma, quer totalmente, quer parcialmente (no caso da flexão), nos seus diversos empregos sintagmáticos; a palavra denota um objecto (substantivo ou nome), uma acção ou um estado (verbo), uma qualidade (adjectivo), uma relação (preposição), etc.

            Uma tal concepção encontra diversas reservas incidindo:  a) sobre a identidade postulada entre grafismo e funcionamento semântico; b) sobre o facto de que uma palavra possui, em geral, não um único sentido, mas vários; c) sobre o facto de que as mesmas noções, como a qualidade ou a acção, podem ser marcadas indiferentemente por palavras de diversas naturezas gramaticais (por exemplo, para a qualidade, branco e brancura, para a acção, saltar e salto.

2 ─ Em linguística estrutural, a noção de palavra é muitas vezes evitada devido à sua falta de rigor. (...)

            In: Dictionnaire de Linguistique, Livraria Larousse, 1973, pág. 327.

2 -Leia o texto nº 10, transcrito no final do capítulo III, página 128, do volume 1 de Gramática da Comunicação, intitulado AS PALAVRAS, da autoria de EUGÉNIO DE ANDRADE  (Texto 2).

3 -Leia, em seguida, os textos transcritos, da autoria de Almada Negreiros:

 

Texto 3

VIAGENS DAS PALAVRAS

As palavras têm moda. Quando acaba a moda para umas começa a moda para outras. As que se vão embora voltam depois. Voltam sempre, e mudadas de cada vez. De cada vez mais viajadas.

Depois dizem-nos adeus e ainda voltam depois de nos terem dito adeus. Enfim! toda essa «tournée» maravilhosa que nos põe a cabeça em água até ao dia em que já somos nós quem dá corda às palavras para elas estarem a dançar.»

ALMADA NEGREIROS

Texto 4 Releia o texto de Almada Negreiros, História das Palavras, transcrito na página 13 deste volume.

4 -Identifique, em seguida, os textos não literários e os literários, justificando convenientemente a sua escolha

 

Texto suplementar

            Leia atentamente o texto de MIA COUTO, O rio, além da curva, transcrito nas páginas 49 a 52 deste volume e responda às questões formuladas.

 1 -Terá certamente reparado que há duas partes distintas no texto, embora ideologicamente interligadas:

1.1 -   Identifique-as;

1.2 -Determine o que pertence a Mia Couto e o que não lhe pertence, estabelecendo a relação entre esses dois elementos;

1.3 -Tendo em conta os critérios de literariedade, identifique as partes não literária e literária;

1.4 -Justifique adequadamente a resposta anterior.

2 -Centrando a nossa atenção apenas na segunda parte, efectuámos o levantamento das seguintes palavras:

abstenso; zaragatunagem; calcanhava-se, xicuembos; hiperpótamo; bichorão; pícnico; mpfuvo; artiodactilógrafo; desengenhosos; enfumavam; estremurchou; propérios; safaninho; insuportar; extravagou-se

 

À excepção de uma, que poderá encontrar num dicionário de língua portuguesa, todas estas palavras terão sido inventadas pelo Autor.

2.1 -Qual a palavra registada no dicionário e qual o seu significado?

2.2 -É relativamente fácil explicar a formação e o sentido duplo (ambíguo) que o Autor procurou dar à maioria dessas palavras. Procure descobrir como foram formadas e qual o sentido a atribuir-lhes.

2.3 -Efectue um comentário pessoal, tendo em conta a originalidade e o valor ideológico alcançado.

  3 -Há ao longo do texto alguns recursos estilísticos que, juntamente com o exotismo da história, conferem ao texto uma certa riqueza expressiva. Comente os seguintes excertos:

3.1 -«as versões dos que testemunharam em imperfeito juízo»;

3.2 -«não há fontes indignas de crédito»;

3.3 -«olhos ensonados, postos no sótão da testa»;

3.4 -«laçou o órfão nos braços»;

3.5 -«voltava a gaguejar os passos pela lama»

 


 

 

[1] - Transcreve-se parte do texto de Émile Benveniste, referente à estrutura das relações de pessoa no verbo:

«Só se pode constituir uma teoria linguística da pessoa verbal com base nas oposições que diferenciam as pessoas; e ficará inteiramente resumida na estrutura dessas oposições. Para a formularmos, podemos partir das definições utilizadas pelos gramáticos árabes. Para eles, a primeira pessoa é al-mutakallimu, "aquele que fala"; a segunda, al-muhãtabu, "aquele a quem nos dirigimos"; mas a terceira é al-yã'ibu, "aquele que está ausente". Nestas denominações encontra-se implicada uma noção justa das relações entre as pessoas; justa, sobretudo porque revela a disparidade entre a 3ª pessoa e as duas primeiras. Ao contrário daquilo que a nossa terminologia levaria a supor, não são homogéneas. É o que é preciso esclarecer em primeiro lugar.

Nas duas primeiras pessoas, há simultaneamente uma pessoa implicada e um discurso sobre essa pessoa. "Eu" designa aquele que fala e implica ao mesmo tempo um enunciado à conta do "eu": dizendo "eu", eu não posso não falar de mim. Na 2ª pessoa, "tu" é necessariamente designado por "eu" e não pode ser pensado fora de uma situação colocada a partir de "eu"; e, ao mesmo tempo, "eu" enuncia algo como predicado de "tu". Mas, quanto à 3ª pessoa, um predicado é enunciado, somente fora do "eu-tu"; esta forma é assim excluída da relação específica do "eu" e "tu". A partir daqui, a legitimidade desta forma como "pessoa" encontra-se posta em questão.

Estamos, neste momento, no centro do problema. A forma dita de 3ª pessoa comporta uma indicação de enunciado sobre alguém ou alguma coisa, mas não se refere a uma "pessoa" específica. Falta aqui o elemento variável e propriamente "pessoal" destas denominações. É mesmo o "ausente" dos gramáticos árabes. Apresenta apenas o invariante inerente a toda a forma de uma conjugação. Devemos formular nitidamente a consequência: a "3ª pessoa" não é uma "pessoa"; é até a forma verbal que tem por função exprimir a não-pessoa (...)

Com efeito, uma característica das pessoas "eu" e "tu" é a sua unicidade específica: o "eu" que enuncia, o "tu" ao qual o "eu" se dirige são sempre únicos. Mas "ele" pode ser uma infinidade de sujeitos ou nenhum. É por isso que o "je est un autre" de Rimbaud fornece a expressão típica daquilo que é propriamente a "alienação" mental, onde o eu é despossuído da sua identidade constitutiva.

Uma segunda característica de "eu" e "tu" é serem invertíveis: aquele que "eu" defino por "tu" pensa e pode inverter-se em "eu", e "eu (eu mesmo) torna-se um "tu". Nenhuma relação semelhante é possível entre uma destas duas pessoas e "ele", visto que "ele" em si mesmo não designa especificamente nada nem ninguém.

Enfim, devemos tomar plenamente consciência desta particularidade da "terceira pessoa" ser a única pela qual uma coisa é predicada verbalmente.

Não devemos, pois, representar a "3ª pessoa" como uma pessoa apta a despersonalizar-se. Não há aférese da pessoa, mas exactamente a não pessoa, possuindo como marca a ausência daquilo que qualifica especificamente o "eu" e o "tu". Porque não implica nenhuma pessoa, pode ter qualquer sujeito ou não ter nenhum, e esse sujeito, expresso ou não, nunca é assumido como "pessoa". Esse sujeito apenas acrescenta como aposto uma precisão considerada necessária para a compreensão do conteúdo, não para a determinação da forma. (...)

Tudo o que fica fora da pessoa estrita, isto é, fora do "eu-tu", recebe como predicado uma forma verbal da "3ª pessoa" e não pode receber nenhuma outra.

Esta oposição muito particular da 3ª pessoa explica alguns dos seus usos particulares no domínio da "fala". Podemos ligá-la a duas expressões de valor oposto. Ele (ou ela) pode empregar-se como forma de alocução junto de alguém que está presente quando queremos suprimi-lo da esfera pessoal do "tu" ("vós"). Por um lado, como reverência: é a forma de delicadeza (utilizada em italiano, em alemão ou nas formas de "majestade") que eleva o interlocutor acima da condição de pessoa e da relação de homem a homem. Por outro lado, como testemunho de desprezo, para rebaixar aquele que nem sequer merece que se lhe dirijam "pessoalmente". Da sua função de forma não-pessoal, a "3ª pessoa" fica apta não só a ser uma forma de respeito que faz de um ser muito mais do que uma pessoa, mas também uma forma de ultraje que pode aniquilá-lo enquanto pessoa.

Compreendemos neste momento em que consiste a oposição entre as duas primeiras pessoas do verbo e a terceira. Opõem-se como membros de uma correlação, que é a correlação de personalidade: "eu-tu" possui a marca de pessoa; "ele" está privado dela. A "3ª pessoa" tem como característica e função constantes representar, sob a relação da própria forma, um invariante não-pessoal e nada mais do que isso.

Mas se "eu" e "tu" são ambos caracterizados pela marca de pessoa, facilmente se vê que se opõem, por sua vez, um ao outro, no seio da categoria que constituem, por um traço cuja natureza linguística tem de ser definida.

A definição da 2ª pessoa como sendo a pessoa à qual a primeira se dirige convém sem dúvida ao seu uso mais vulgar. Mas vulgar não quer dizer único e constante. Podemos utilizar a 2ª pessoa fora da alocução e fazê-la entrar numa variante de "impessoal". Por exemplo, "vous" funciona em francês como anafórico de "on" (ex.: "on ne peut se promener sans que quelqu'un vous aborde"). Em muitas línguas, tu (vós) utiliza-se como substituto de on (...)

É preciso e é suficiente representar uma pessoa diferente de "eu" para que se lhe aponha o índice "tu". Assim, toda a pessoa que se representa é da forma "tu", muito particularmente mas não necessariamente a pessoa interpelada. O "tu" ("vós") pode, pois, definir-se: "a pessoa não-eu". Em que base se estabelece? É própria do par eu/tu uma correlação especial a que chamaremos, à falta de melhor, correlação de subjectividade. O que diferencia "eu" de "tu" é, em primeiro lugar, o facto de ser, no caso do "eu", interior ao enunciado e exterior ao "tu", mas exterior de um modo que não suprime a realidade humana do diálogo; (...) além disso, "eu" é sempre transcendente em relação ao "tu". Quando saio de "mim" para estabelecer uma relação viva com um ser, encontro, ou coloco necessariamente um "tu", que é, além de mim, a única "pessoa" imaginável. Estas qualidades de interioridade e de transcendência são próprias do "eu" e invertem-se no "tu". Poderemos, pois, definir o "tu" como a pessoa não-subjectiva, perante a pessoa subjectiva que "eu" representa; e estas duas "pessoas" opor-se-ão conjuntamente à forma de "não-pessoa" (="ele").

Parece que todas as relações estabelecidas entre as três formas do singular deveriam permanecer semelhantes se as transpuséssemos para o plural. Contudo sabemos que, nos pronomes pessoais, a passagem do singular ao plural não implica uma simples pluralização. Além disso, existe numa certa quantidade de línguas uma diferenciação da forma verbal da 1ª pessoa do plural sob dois aspectos distintos (inclusivo e exclusivo) que denuncia uma complexidade particular.

Como no singular, o problema central é também o da primeira pessoa. O simples facto de palavras diferentes serem geralmente utilizadas para "eu" e "nós" (e também para "tu" e "vós") chega para excluir os pronomes dos processos vulgares de formação do plural (...). Na maior parte das línguas, o plural pronominal não coincide com o plural nominal, pelo menos tal como é representado vulgarmente. Com efeito, é evidente que a unicidade e a subjectividade inerentes ao "eu" contradizem a possibilidade de uma pluralização. Se não pode haver vários "eu" concebidos pelo próprio "eu", é que "nós" é, não uma multiplicação de objectos idênticos, mas uma junção entre o "eu" e o "não-eu", seja qual for o conteúdo desse "não-eu". Esta junção forma uma totalidade nova e de um tipo muito particular, cujos componentes não são equivalentes: em "nós", é sempre "eu" que predomina visto que não há "nós" senão a partir do "eu", e este "eu" subordina a si o elemento "não-eu" pela sua qualidade transcendente. A presença do "eu" é constituída do "nós". (...)

De um modo geral, a pessoa verbal no plural exprime uma pessoa amplificada e difusa. O "nós" anexa ao "eu" uma globalidade indistinta de outras pessoas. Na passagem do "tu" ao "vós", quer se trate do "vós" colectivo ou do "vós" de delicadeza, verifica-se uma generalização de "tu", quer metafórica, quer real, e em relação à qual, nas línguas de cultura, sobretudo ocidentais, o "tu" toma muitas vezes o valor de alocução estritamente pessoal, logo familiar. Quanto à não-pessoa (3ª pessoa), a pluralização verbal, quando não é o predicado gramaticalmente regular de um sujeito plural, desempenha a mesma função que nas formas "pessoais": exprime a generalidade indecisa do on (francês) (tipo dicunt, they say). É a própria não-pessoa que, extensa e ilimitada pela sua expressão, exprime o conjunto dos seres não-pessoais. No verbo como no pronome pessoal, o plural é factor de ilimitação, não de multiplicação.

Assim, as expressões da pessoa verbal são, no seu conjunto, agrupadas em duas correlações constantes:

            1.- Correlação de personalidade que opõe as pessoas  eu/tu  à não-pessoa ele.

            2.- Correlação de subjectividade, interior à precedente e opondo eu a tu.

            A distinção vulgar entre singular e plural deve ser, se não substituída, pelo menos interpretada segundo a ordem da pessoa, como uma distinção entre pessoa estrita (=singular") e pessoa ampla (="plural"). Só a "terceira pessoa", sendo não-pessoa, admite um verdadeiro plural.»

            ÉMILE BENVENISTE, O Homem na Linguagem, Lisboa, Arcádia, 1976, pp. 24-32.

 

[2] - Entende-se por acto elocutório todo o tipo de enunciado realizado durante o acto de fala entre o sujeito emissor e o sujeito receptor. Quando se enuncia uma frase qualquer, isto é, quando realizamos actos de fala, realizamos três actos distintos: 1º Um acto locutório, na medida em que se articulam e combinam sons e na medida, também, em que se evocam e realizam sintacticamente as noções representadas pelas palavras;  2º Um acto elocutório, na medida em que a enunciação da frase constitui em si própria um certo acto, realizado na própria fala; 3º Um acto perlocutório, na medida em que a enunciação serve fins mais longínquos. (Veja-se OSWALD DUCROT e TZVETAN TODOROV, Dicionário das Ciências da Linguagem, 2ª edição, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1974, pp. 401-403.

 

[3] - Designam-se como verbos performativos aqueles que descrevem uma certa acção do sujeito falante, tais como jurar, prometer, nomear, etc., verbos que se encontram em enunciados performativos. Segundo J. L. Austin, há dois tipos de enunciados opostos: os performativos e os verificativos. Segundo ele, «chama-se a uma expressão verificativa se só tende a descrever um acontecimento. É chamada performativa se: 1) - descreve uma certa acção do seu emissor; e se 2) - a sua enunciação é o mesmo que cumprir essa acção; diremos, portanto, que uma frase que comece por "Prometo-te que" é performativa, porque, usando-a, realiza-se o acto de prometer. Não somente se diz prometer, mas, fazendo-o, promete-se. Ainda mais, deveria considerar-se falsa uma representação semântica dessas frases que omitisse a indicação deste facto, e que as caracterizasse como simples descrições de acções (do mesmo modo que "Passeio"). Os performativos têm, portanto, esta propriedade de o seu sentido intrínseco não se perceber independentemente de uma certa acção que permitem realizar.

Mas, uma vez que esta propriedade foi descoberta no caso particular e particularmente espectacular dos performativos, podemos aperceber de que pertence também as expressões não performativas. É o caso das formas imperativas e interrogativas. Para descrever o sentido de uma expressão interrogativa é necessário precisar que aquele que a emprega não somente exprime a sua incerteza e o seu desejo de saber mas sobretudo que realiza um acto particular, o de interrogar. Ou ainda, dizendo "Devias fazer isto", exprimo não somente a minha opinião sobre o que é melhor para o meu interlocutor, mas realizo o acto de aconselhar». (Veja-se O. DUCROT e T. TODOROV, Dicionário das Ciências da Linguagem, 2ª ed., Lisboa, Publicações D. Quixote, 1974, p. 401.

 

[4] - Transcreve-se parte de um texto da autoria de Carlos Reis acerca do CONCEITO DE TEXTO LITERÁRIO (destacámos certos elementos para facilidade de estudo):

«Linguagem e discurso literário: Toda a leitura do texto literário que se pretenda minimamente exigente deve partir dum conhecimento rigoroso do fenómeno sobre que se debruça. Deste modo, antecedendo qualquer orientação de tipo prático e metodológico, é necessário procurar responder a esta questão: em que consiste a linguagem literária?

Aparentemente a resposta não levanta dificuldades: a linguagem literária é, antes de mais, uma linguagem verbal dotada de certa intencionalidade estética. Esta noção pode, entretanto, completar-se com duas outras, igualmente numa perspectiva genérica: a de que a linguagem literária é capaz de criar um universo fictício (por exemplo, a história contada num romance) e a de que a sua prática não obedece, em primeira instância, a intuitos utilitários, como acontece, por exemplo, com o discurso de imprensa ou com o discurso jurídico.

Isto não significa que a linguagem literária aponte para um divórcio em relação ao mundo que a rodeia: muitas obras de ficção (sobretudo narrativa e dramática) revestem-se de certo grau de verosimilhança mas não de verdade que lhes permite documentarem aspectos particulares da vida histórica, social, económica, política, etc., das comunidades em que surgiram.

Se quisermos, entretanto, passar a um nível mais profundo, poderemos dizer que a essência da linguagem literária se identifica com aquilo que modernamente se chama literariedade, conceito que só será devidamente entendido se atentarmos num conjunto não exaustivo de factores constitutivos; por outras palavras: a literariedade não é uma característica monolítica ou indivisível, dependendo a sua instauração da vigência duma série de elementos específicos.

Assim, pode dizer-se que se instaura literariedade (logo, dimensão estético-literária) sempre que vocábulos ou expressões dum texto são caracterizados pela plurissignificação ou ambiguidade. Distinguindo-se do cunho literal dos textos não literários, o sentido dos literários não é unívoco, isto é, não se esgota com uma única significação; (...)

Implicando uma utilização muito peculiar da linguagem, a ambiguidade aponta para um outro factor de literariedade: a subjectividade, ou seja, a projecção no texto das emoções, valores afectivos e ideológicos próprios do sujeito do discurso.  Essa projecção concretiza-se por meio de registos do discurso (ou da fala); assim, consideram-se registos do discurso todas as práticas particulares da língua que, servindo-se de instrumentos adequados (conotações, figuras de retórica, valorações, etc.) permitem deduzir o perfil subjectivo do sujeito. Deste modo, num texto de Eça de Queirós, é possível encontrar uma realização de discurso valorativo (ou avaliativo) em «mostrava um pé pequeno, bonito», já que o segundo adjectivo («bonito») constitui, ao contrário do primeiro, uma impressão subjectiva do narrador que conta a história. Se ao valorativo juntarmos o discurso conotativo, o abstracto e o figurado, teremos as mais expressivas modalidades de projecção subjectiva, cuja concretização, em associação com outras características genéricas e específicas da linguagem literária, contribui para a constituição da literariedade.

Finalmente, podemos considerar que outra das características essenciais do fenómeno literário é o aproveitamento da dimensão material do signo. Como se sabe, na linguagem não literária, a relação entre os sons (significante) e os sentidos (significado) é, em princípio, desprovida de motivação; ora a linguagem literária implica muitas vezes que os vocábulos prolonguem na sua dimensão material (som ou configuração gráfica) os sentidos que expressam. É assim que, no poema «Relâmpago» de Miguel Torga, o primeiro verso («Rasguei-me como um raio rasga o céu») consuma, pela aliteração dos «rr» e pela sua afinidade com o que designa, a utilização do significante (neste caso a sonoridade) como factor de valorização estético-literária.

Todas estas características (que não esgotam, como é óbvio, a problemática da literariedade) encontram-se definidas em termos acentuadamente abstractos. Isto significa que só em contextos particulares é possível aferir, como nos breves exemplos dados terá sido sugerido, o grau de expressividade e a eficácia própria dessas características. Por outras palavras: o fenómeno literário é susceptível de ser encarado em termos de discurso, na medida em que cada escritor confere uma feição particular aos elementos (ou só a alguns deles) aqui referidos. Este facto leva a concluir que a literatura constitui um domínio altamente diversificado, em função de dois grandes condicionamentos: a dinâmica pessoal do escritor que pode levá-lo, por exemplo, para o campo da poesia lírica e não para o da narrativa ou do drama; a evolução literária que, por força de imposições de ordem histórica e cultural, permitiu configurar sucessivos períodos literários. (...)»

            CARLOS REIS, Português, Colecção de textos pré-universitários, nº 7, s/d, pp. 7-8.

 

Acerca do texto literário e não literário, veja-se também:

MÁRIO CARMO e M. CARLOS DIAS, Introdução ao texto literário. Noções de linguística e literariedade, 1ª ed., Lisboa, Didáctica Editora, 1976, pp. 59-67.


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