A. G. da Rocha Madahil, Alguns aspectos do trajo popular da Beira Litoral, Vol. V, pp. 247-282.

ALGUNS ASPECTOS DO TRAJO

 POPULAR DA BEIRA LITORAL

◄◄◄ − Continuação da pág. 74.

As nossas gravuras n.os 11, 14, 15, 17 e 41 documentam graficamente o uso do gabão desde 1828 pelos habitantes da região da Ria de Aveiro; mas a falta de referências não invalida a remota ascendência do característico vestuário, misto de veste monástica e de trajo civil medieval, igualmente encapuzado, comum a vários países da Europa, entre os quais Portugal.

Se acrescentarmos uma romeira à vestimenta envergada pelo lavrador que − rabiça do arado numa das mãos e arrelhada na outra − ilustra a parte inferior da magnífica gravura em madeira do Livro 2.º das Ordenações de D. Manuel I, de 1514 (1), teremos o gabão, a que nem sequer o capuz faltará; o próprio costume popular de o amarrar à cinta com uma faixa ou simples cordel, já naquela data se verificava, como a gravura mostra.

Também muitas figurinhas dos presépios do século XVllI e várias gravuras nos apresentam justamente uma espécie de gabão, que bem podemos considerar como fases da evolução do capote medieval com capuz e mangas.

Mas é igualmente admissível que as vestes monásticas de determinadas Congregações tenham influenciado essa evolução.

O pescador da Ria, murtoseiro, ilhavense, ou gafanhão, o moliceiro, e o lavrador, do Vale de Ílhavo, ainda hoje vestem o gabão e com ele trabalham, amarrando-o à cinta ou dando nó com as próprias pontas, enroladas, em jeito muitos séculos repetido; cenas como a da nossa figura 42, que foi fotografada cerca de 1910, mantêm-se com perfeita actualidade; noutras classes, / 248 / porém, passou inteiramente de moda o gabão; de toda a Província − porque em toda ela se usou − é ainda a região da Ria de Aveiro aquela em que hoje se pode encontrar, sem constituir excepção a que as modernas gerações façam reparo.

Tão usado foi por pescadores da Ria, que por varino passou a ser designado o gabão, ganhando grande aura a nova denominação, que suponho lançada no final do século dezanove.

O pescador que usa o gabão veste, por via de regra, grossa camisola de lã, azul ferrête ou branca, enfeitada com ligeira barra em relevo, à altura dos ombros; ceroula de riscado em vez de calça, e, quando não embarca, grossa meia de lã e tamancos. Na cabeça, barrete preto, de lã(2)

Fig. 42 − VARINOS DA CHINCHA, VESTINDO GABÃO E BARRETE

Desta região norte litoral, da nossa Província, além das litografias que já publicámos, outra importa ainda arquivar; é a nossa fig. 44, perfeitamente coMpreensíve1, como, aliás, as restantes; a niza é de briche cor de castanha, e o colete azul, assertoado.

Não se encontram muitas descrições de trajos masculinos antigos desta Província; pouco impressionaram os romancistas e os historiadores, ao que parece; com dificuldade conseguimos encontrar as que a seguir transcrevemos.

 

 
 

Fig. 43 − ÍLHAVO. Pescadores fazendo rede, à porta da rua. Cena muito vulgar em toda a vila, na 1.ª década do séc. XX.

 

Da freguesia rural de Ovar, escrevia em 1912 o agrónomo JOÃO VASCO DE CARVALHO na sua monografia então publicada, a pág. 66 (3), estas breves linhas:

/ 250 / «O vestuário do vareiro, actualmente, pouco difere do comum do nosso povo. Apenas há a notar o uso quase geral, mesmo em pessoas relativamente abastadas, do tamanco e da chanca, o que se explica por ser excessiva ali a humidade, e / 251 / também o uso do varino, que tanto se tem generalizado por todo o país, como meio de agasalho contra o tempo às vezes ventoso e desabrido. Antigamente, o vareiro pescador usava ceroula curta, acima do joelho, camisola grossa de lã, jaleco de burel e barrete, no que se distingue do vareiro lavrador que usava ceroula comprida.

 

 
 

Fig. 44 − OVAR. 183... Aguarela de autor desconhecido, reproduzida por ALBERTO SOUSA, op. cit.

 

A ceroula foi geralmente substituída pela calça vulgar e apenas ainda hoje se encontra entre os marnotos e alguns marinhões

Em 30 de Abril de 1939, comentando o cortejo folclórico distrital, regista O Povo de Aveiro (n.º 581 da 4.ª série) o trajo antigo de Cacia, Sarrazola, Quintã do Loureiro, Vilarinho e Paço, e escreve:

«Trajo dos homens:

Jaqueta de pano preto, colete e calça do mesmo pano. Sendo o colete muito aberto. A jaqueta era debruada de fita preta e tinha 6 alamares em prata. As calças eram justas à perna e terminavam em pala sobre a bota. A camisa branca, apertando o colarinho com 4 botões de ouro. Barrete preto com borla na extremidade, também preta, sendo a orla do barrete em vermelho ou azul. Faixa vermelha, botas pretas de forma abicada. Na mão − um varapau.»

Das memórias antigas de Ílhaavo, valiosíssimo manuscrito do Conselheiro FERREIRA DA CUNHA E SOUSA, que em 1923 MARQUES GOMES parcialmente publicou no Campeão das Províncias, extrai-se também um pequeno capítulo relativo ao vestuário masculino, de grande interesse; foi escrito no 3.º quartel do século XIX:

Costumes dos pescadores

«O pescador vestia com a maior simplicidade, e o vestido era uniforme em todos.

No trabalho, sobre a camisa, largas ceroulas de linho, até ao joelho, presas por grossos botões de prata e o sertum (colete com as costas da mesma fazenda de que era a frente, semelhando uma jaqueta sem mangas), barrete de lã (rabuço) e nada mais: a jaqueta só a vestiam quando havia frio e fora do trabalho.

Ao domingo, se não chovia, calça, colete e jaqueta de pano azul, o mesmo barrete ou chapéu de feltro, calçando sapatos ou tamancos, conforme a estação. O gabão mais velho era usado de inverno quando vinham do trabalho, ou mesmo durante ele, se chovia; o novo para usar na vila, fora do trabalho e aos domingos; sem ele não iam à Igreja.

Nos dias de festa − S. Pedro, casamentos, e poucos mais − calção, colete e casaco do tempo do Marquês de Pombal, sapato com grandes fivelas de prata, que também usavam em calções, / 252 / meia de algodão de listas verticais azuis e brancas − e chapéu redondo. Quem carecia deste fato e não o tinha, servia-se por empréstimo do de qualquer parente ou amigo.

Não se comprava mais fato do que o absolutamente necessário; o domingueiro passava de pais a filhos e o de gala a netos e bisnetos. Também havia uns capotes de pano cor de castanha, usados no meado do século passado, em cabeções curtos guarnecidos de flores de seda e golas de veludo.

Estes capotes eram fato de cerimónia e supriam a casaca.

Foi no primeiro quartel deste século (o XIX) que os rapazes novos e mais tafuis começaram a trazer de Lisboa fatos modernos; e alguns vestiam tão bem que, não falando, ninguém dizia que fossem pescadores.

Foram também estes que começaram a usar calças tanto no trabalho como fora dele; a princípio deixavam as calças na barca, vestindo-as ali no regresso, da costa; em breve, porém, baniram as ceroulas, e pouco a pouco foram imitados pelos restantes.»

O mais recente historiador do concelho de Ílhavo, o reverendo JOÃO VIEIRA RESENDE, detém igualmente a sua atenção sobre a evolução do trajo dos seus paroquianos, coligindo notas de interesse que passamos a transcrever:

«A indumentária do homem também foi sempre muito rudimentar. Temos conhecimento de um antigo chapéu de aba larga e de copa tão alta que os seus portadores para obstar a que eles se enfiassem pela cabeça até a altura da boca, enchiam-nos de palha. Era extravagante. Eram conhecidos na terra com a denominação de Barombas (4).

Seguiu-se-lhes outro chapéu também de aba larga, de feltro grosso e de copa baixa à qual se aplicava de lado uma grande maçaneta de retrós, que depois desapareceu com o mesmo formato. Houve também o chapéu de Aba Tela com aba rija, larga, de bom feltro e de luxo, usado aí por 1880.

Vieram depois o barrete simples e o barrete de carapinha, cujo forro se prolongava por fora, formando no rebordo um refego ou adorno em anéis ou espécie de pequenas argolinhas de lã encarapinhada.

Estes barretes nem eram tão compridos nem tinham a maçaneta tão abundante como os de Leiria, e já há muito que foram substituídos pelo boné e pelo actual chapéu.

Em 1880 ainda estava muito em uso a jaqueta ou quinzena de burel ou saragoça. / 253 /

O gabão, a que mais tarde se chamou varino ainda aqui continuou a usar-se, quando por outras terras há muito tempo tinha sido substituído pelo sobretudo. O que mais caracterizou a indumentária do gafanhão foi a ceroula curta, a princípio de estopa e depois de pano cru, e que não ultrapassava na perna metade do fémur. Explica-se o seu uso muito prolongado por oferecer grandes vantagens e comodidades nos trabalhos da Ria e das marinhas, o que não os absolve em absoluto no seu atraso em reformar esta espécie de vestuário, reforma que deviam ter feito ao menos para certos actos ou condições da vida social.

Em 1880, pouco mais ou menos, ainda se assistia à Santa Missa de ceroula curta, inclusive o Acólito.

Em 1900 os adultos iam à cidade ou à vila de ceroulas curtas, levando ao ombro as botas e as calças que calçavam e vestiam na ocasião própria. Entre os papéis de António dos Santos Pata encontrei um apontamento de 1843 que diz o seguinte:

             Thive despezas com ho meu entiado joze  
             hum gavão p.r 2000
             mais dois coletes p.r 1020
             mais hum chapeo p.r 300
             mais humas calças p.r 820
mais hum coartinho q lhe dei para o caminho coando elle foi para Lisboa
             mais huma jaqueta p.r 1200
             de humas calças de çaragoça 1500
             mais de hum Xapeo 700
             mais de huma jaqueta de pano 2150
             mais de humas Bottas 700

........................................................................................................................

É muito provável que esta indumentária do enteado do Pata, na ocasião de sair para os trabalhos das quintas da capital, já fosse um vestuário de muito luxo, visto que o próprio Acólito das missas ainda em 1880 se apresentava a um acto tão solene de ceroulas curtas, sem o protesto do próprio celebrante.»(5)

O barrete dos gafanhões, que o reverendo RESENDE registou, é peça de vestuário masculino comum a toda a Beira Litoral, e, pode dizer-se, a todo o país e a muitos lugares da Europa; entre nós, usa-se, pelo menos, desde a conquista romana. O Dr. LEITE DE VASCONCELOS relaciona o barrete com o pilos dos gregos; «era usado por gente modesta: pastores, caçadores, artífices, trabalhadores rurais, mendigos, marinheiros; e também às vezes / 254 / por mulheres. Caía para diante, ou para trás, como o nosso barrete.»(6)

É de notar que na região da Ria de Aveiro, o barrete não desce muito abaixo da orelha, quando tombado para o lado; designa-se frequentemente por catalão, o que pode significar proveniência industrial, pelo menos nalguma data recuada; há muitos anos já que eles se fabricam em Portugal.

Têm pequeníssima borla, ao contrário do que se usa para sul de Pombal, onde o barrete chega muito abaixo do ombro e termina por farta borla.

Na Beira Litoral, presentemente, usam-se de cor preta; mas estiveram muito em moda, no século passado, os barretes encarnados; os das litografias antigas, e do postal de ROQUE GAMEIRO que reproduzimos, são aguarelados nesse tom.

Também é encarnado o barrete do pescador que decora uma jarra de porcelana da Vista Alegre, de cerca de 1860, valiosíssimo documento para a história do trajo popular ilhavense, que a figura 45 reproduz. Para o Museu Municipal de Ílhavo obtivemos um par de jarras assim; conhecemos em castiçais estas mesmas figuras, policromadas igualmente. São peças de grande raridade e puramente locais.

No cortejo regional da Figueira da Foz, de 1938, a que acima nos referimos, vimos também barretes encarnados, na reconstituição do trajo antigo dos pescadores de Buarcos.

Fig. 45 − Par de jarras da Vista Alegre, de cerca de 1860 com pescador e pescadeira de Ílhavo, em relevo e policromados. Grav. do livro Etnografia e História − Bases para a organização do Museu Municipal de Ílhavo, do autor.

/ 255 /

Em Aveiro fizeram igualmente a sua época; como reminiscência desse remoto uso, aparecem todos os anos pelo Natal e Ano Novo, por ocasião da entrega dos Ramos, cortejo característico que constitui uma das maiores curiosidades populares da cidade, de grande colorido e de comunicativo entusiasmo bairrista.

Enfiam-nos na cabeça os homens dos foguetes, à frente do rancho; uma faixa, vermelha também, cinge-lhes à cintura o gabão de bureI. Em tudo aquilo esfusia vida, alegria e tradição.

Fig. 46 − «Esboço para a aguarela Costumes de Aveiro» de ROQUE GAMEIRO. Século XIX, 3.º quartel. (Quadro pertencente ao Sr. coronel Henrique de Campos Ferreira Lima, que amavelmente nos forneceu a respectiva fotografia).

No grande quadro do pintor RESENDE, do Museu de Aveiro (pág. 144 do voI. IV) representando trajas populares da Murtosa no 3.º quartel do século XIX, é encarnado o barrete do figurante da extrema esquerda.

O que noutro tempo foi corrente, é hoje excepção; e é necessário transportarmo-nos ao Ribatejo para encontrarmos no campino a nota garrida do barrete encarnado, em uso diário.

Fora daí, onde também se vê de cor verde, às vezes debruado a branco ou a outra cor, o barrete é sempre preto; mas, de toda a maneira, o boné de pano, o chapéu de feltro, e, actualmente, a boina basca, muito vulgarizada, ameaçam levar de vencida a tradicional cobertura popular.

As alpargatas de feltro, ou de lona, e piso de borracha, as camisolas de fabrico mecânico, os fatos de macaco, e as bóinas / 256 / bascas, de que a grande indústria se apoderou inundando por completo o mercado, mesmo longe dos grandes centros, estão presentemente revolucionando o trajo popular português, banalizando-o e reduzindo-o a tipo único; as causas do fenómeno, que à grande massa não merecerá consideração, são múltiplas: sociais, políticas, económicas; levaria muito longe, o seu comentário.

Fig. 47 − NAMORO DE VARINOS. − Água-forte do pintor TOMÁS JOSÉ DA ANUNCIAÇÃO. Meados do século XIX

A orla litoral da Província oferece ainda outros aspectos à consideração do etnógrafo que deseje estudar o trajo popular / 257 / [Vol. V - N.º 20 - 1939] português, que em breves palavras se recordam: as manaias brancas, de remotíssima ascendência, que sempre impressionaram o / 258 / o desenhador, não abandonaram de todo ainda a região:

Fig. 48 − O ARRAIS ANÇA NA COSTA NOVA, JUNTO A UM BARCO DE PESCA

O heróico lobo do mar veste manaias, camiseta de algodão, e tem ao ombro a camisola de lã dos pescadores locais. Na cabeça, o barrete preto. Cinge-lhe os rins uma faixa, preta também. Fotografia de 1920, aproximadamente.

usa-as o marnoto das marinhas, o mercantel correndo na borda da bateira da Costa Nova ou de S. Jacinto até o cais de Aveiro, muitas vezes também o arrais das companhas, firme como um deus olímpico no seu estranho pedestal de redes e cordas, à ré do barco do mar, o roçoeiro passando nas mãos, calosas, mas fortes e inabaláveis como tenazes de aço.

Fig. 49 − PESCADORES DE BUARCOS. Óleo de CARLOS REIS. Actualidade. Gravura do estudo biográfico que ao Pintor dedicou o escritor figueirense CARLOS SOMBRIO

Documentam o uso vulgaríssimo das manaias as nossas figuras n.os 11, 12 14, 15, 17, 22, 28, 36 a 41, 44, 45, 47, 48, a que podíamos acrescentar muitas fotografias da actualidade.

E limitamo-nos, bem entendido, à região que nos propusemos inquirir, pois fora da Beira Litoral encontraríamos igualmente, e desde épocas muito remotas, indumentária parecida.

No cortejo folclórico de Aveiro, de 1938, a Gafanha apresentou uma brigada de marnotos, todos eles de manaia alvíssima, camisola, faixa à cinta. e barrete preto na cabeça. No ano imediato, repetiu-se, muito aumentada, a impressionante representação dos marnotos da Ria.

Vulgarizou-se muito também, no presente século, uma camisa de flanela de lã, cujos desenhos formam largo xadrez e / 259 / que os industriais fornecem em considerável variedade de cores e padrões; todos os pescadores a vão usando; mas é principalmente o pessoal das traineiras que a veste, pois, trabalhando quase sempre de noite, necessita de maior agaaalho.

Tem colarinho de volta e, por via de regra, bolsos de chapa, no peito, que fecham por meio duma portinhola ou pataleta da mesma fazenda, onde prende um botão de osso.

 

 
 

Fig. 50 − PESCADORES DA FIGUEIRA DA FOZ. Óleo de CARLOS REIS. Actualidade. Gravura do citado estudo de CARLOS SOMBRIO.

 

/ 260 / É comum a todo o litoral português; as nossas figuras 49 e 50, reprodução de dois magníficos quadros a óleo do pintor, JOÃO REIS, fixaram com grande felicidade em Buarcos e na Figueira da Foz esse elemento da indumentária masculina contemporânea, agradável à vista e de cómodo agasalho, que nas tardes de embarque põe nos cais, a par dos fockings enfiados no braço esquerdo dos pescadores das traineiras, para a caldeirada do regresso, uma alegre nota de pitoresco modernismo.

Terminaremos este breve recenseamento do vestuário dos marinheiros e pescadores da Beira Litoral registando o fato de oleado por eles usado a bordo: era constituído por calça, casaco solto e comprido, e chapéu com francaleta que passava no queixo, tudo de forte pano cru ao qual se dava um banho de óleo de linhaça; depois de enxuto ficava impermeável e permitia arrostar grandes aguaceiros e a forte inclemência da vida no alto mar; preparava-se em casa e andava ao ar muitos dias, até o óleo secar; esses fatos, hoje, vendem-se feitos e não são já de pano cru, mas de oleado industrial ou de tecidos impermeabilizados por meio de borracha.

Fig. 51 − «O HOMEM DO LEME» envergando fato de oleado. Reprodução da maquette original da escultura de AMÉRICO GOMES, existente no Museu Municipal de Ílhavo. Ver outras imagens no artigo publicado no volume 4 - ███

Completam o equipamento altas botas de borracha que sobem acima do joelho; é quase tudo produto da indústria americana.

Não deixarei de notar que já no meado do século passado o pescador português usava botas altas; tenho presente uma litografia do «Trajo popular de Pescador (Barreiro)», em que o homem se apresenta calçado de bota alta, até perto do joelho; é o n.º 9 da colecção, que não tem nome de autor.

Ao chapéu de oleado chama o marinheiro sueste, noutros / 261 / pontos da costa tenho ainda verificado que o conhecem por nordeste. O Museu Municipal de Ílhavo possui a maquette. original da expressiva escultura O Homem do Leme, de AMÉRICO GOMES(7), hoje fundida em bronze e adornando o passeio da Foz do Douro −  fig. n.º 51 −; essa sugestiva obra de arte, vigorosa e grandemente humana, permite a perfeita compreensão do fato de oleado do nosso heróico marinheiro.

Se deixarmos a orla litoral da Província e as ocupações humanas por ela condicionadas, o trajo masculino banaliza-se mais, e pouco encontramos que não seja comum ao resto do país; nos povoados propriamente das serras que limitam, a Leste, a Beira Litoral, o homem agasalha-se, de harmonia com as condições climatéricas locais; predominam os buréis, as saragoças, mas sem a intervenção de figurinos especiais; são casacos, coletes e calças como em toda a parte; de inverno, os pastores protegem as pernas com safões de pele de ovelha, lançam aos ombros um capote ou simplesmente um cobertor de racha (cobertor de papa, de lã, felpudo, com uma fenda ao meio, por onde se enfia a cabeça, deixando cair à vontade o cobertor), e assim se vestem.

Usou-se também, nalgumas zonas, a coroça, capa de palha, bom resguardo contra a chuva, mas constitui hoje na Província pura curiosidade e perdeu o uso correntio de outrora.

Para sul, na zona encostada à serra, nos arredores de Pombal, por exemplo, e até Leiria e Fátima, os homens da Beira Litoral usam ainda a jaqueta de pano forte, e de veludilho também, cortada na cinta, por vezes debruada com fita de lustro, e bolsos talhados :verticalmente ou em diagonal. Mais antigamente, com alamares ou com grandes botões de prata.

A esta jaqueta corresponde a calça afunilada, de boca de sino, com patilha sobre a bota.

Para o norte, é menos frequente a jaqueta; mas ainda a encontramos hoje em Almalaguês, Penacova, Lousã; abas da serra, em todo o caso. Do litoral, pode dizer-se que desapareceu; em 1835 era vulgar, por exemplo, em Ílhavo, onde se documenta com o precioso desenho do mestre de pintura na fábrica da Vista Alegre, o francês VICTOR-FRANÇOIS CHARTIER ROUSSEAU, que teve a curiosidade de apontar um ajuntamento de povo festejando José Ferreira Pinto Basto por ocasião de se inaugurar uma ponte de passagem para a Gafanha; é a nossa fig. n.º 52, que já publicámos nas bases para a organização do Museu Municipal de Ílhavo, acima citadas. / 262 /

Adiante anotaremos o vestuário feminino que nesse desenho foi cuidadosamente apontado com grande pormenor.

Fig. 52 − Povo do concelho de Ílhavo, festejando José Ferreira Pinto Basto em 1835 pela inauguração duma ponte para a Gafanha. Desenho do pintor francês VICTOR-FRANÇOIS CHARTIER ROUSSEAU.

Calça branca, faixa azul, jaqueta de alamares, e barrete encarnado, era a interessante indumentária que em 1895 exibia um velho gaiteiro da região, relíquia de passados tempos, à frente do cortejo dos Reis Magos, indumentária já estranha, lembrada no almanaque aveirense para 1896 − À Beira Mar − com engraçado comentário pelo escritor ilhavense Sr. DINIS GOMES. / 263 /

Vimos como O Povo de Aveiro registou a jaqueta em Cacia e arredores, e o reverendo REZENDE na Gafanha; a nossa figo n.º 40 representa um modelo mais apurado dessa jaqueta, com botões grandes, de prata; niza chamou o aguarelista ALBERTO SOUSA, na sua citada obra, a outra jaqueta, de melhor corte, dum aldeão de Ovar (fig. n.º 44); são, fundamentalmente, a mesma peça.

 

 
 

Fig. 53 − ÁGUEDA. TRAJOS DOS MEADOS DO SÉCULO XIX. O homem veste colete encarnado debruado a branco, e faixa encarnada também.

 

A notar, a camisa com um pequeno folho, que descia do colarinho, réplica aldeã à camisa de bares do trajo senhoril.

Conheço em Ílhavo certos botões de prata, e outros de ouro − espécie de presilhas de duas cabeças e um elo − que prendiam / 264 /  o colarinho; ordinariamente usavam-se dois desses objectos, mas o colarinho segurava-se até com um só.

A referência do conselheiro FERREIRA DA CUNHA E SOUSA aos coletes com as costas da mesma fazenda exemplifica-se com a litografia da colecção MACPHAIL (fig. n.º 37); eram, na verdade, uma espécie de jaquetas sem mangas, com grandes botões de prata. Encontravam-se igualmente em Águeda, no meado do século XIX; a nossa fig. n.º 53 reconstitui o trajo da época.

De Penacova, o barqueiro do Mondego, que desce a Coimbra em barcas serranas carregadas de lenha, ainda hoje enverga camisola de lã grosseira, branca ou cor de castanha, com desenhos simples, em relevo, no peito e nos braços, no mesmo género das que o pescador da Ria de Aveiro usa.

Barrete preto na cabeça; aos ombros, um saco de linhagem que lhe serve de chinguiço no transporte das cargas de lenha e, posto pela cabeça, o protege algum tanto da chuva.

Uma aguarela do 2.º quartel do século XIX já assim o representava (fig. 54); tem-se mantido fiel à indumentária antiga, certamente a que mais corresponde ao meio físico em que vive e à sua função social. O trajo, duma maneira geral, mais uma vez notamos, não é tão arbitrário como à primeira vista se supõe.

Aquele mesmo saco de linhagem, que serve ao barqueiro do Mondego de instrumento de transporte e de resguardo da chuva, é usado pelos carreiros, pelos próprios carregadores do Caminho de Ferro, pelos pedreiros; é saco propriamente dito e é capote do pobre, a quem tudo serve.

Em síntese muito rápida, e generalizada, para mais, a toda a Beira, notava o conceituado etnógrafo Sr. LUÍS CHAVES na sua monografia de 1929 para a exposição portuguesa em Sevilha que «o homem pouco tem que ver na monotonia monocrómica do seu trajo, ora escuro, ora melado, de burel ou estamenha ou saragoça, sempre do mesmo figurino: jaqueta curta e apertada, que mal cobre os rins, lisa ou com alamares de fitilho negro nas costuras das costas e nos debruns da véstia, na gola, nos bolsos, nos punhos; colete curto e desabotoado, tão aberto que desaparece para só aparecer a camisa, que a preceito é branca de linho, e às pregas até atingir o colarinho revirado; à cinta a faixa, aqui negra, ali azul, além escarlate, abraça-o em numerosas voltas até lhe saírem as franjas das pontas em um dos abraços; as calças, justas, alargam sobre o sapato ou botifarra de salto raso, onde segura a espora de lira; se vai de cavalaria; na cabeça um chapéu de feltro, de abas largas e moles, ou a vulgaríssima carapuça derrubada. »(8)

/ 265 / Assim será, em grande parte, pelo menos nos tempos ferozmente igualitários de hoje em dia; mas dos aspectos que lográmos apontar, socorrendo-nos de quantas fontes tivemos / 266 / ao nosso alcance e de alguma coisa que a nossa infância distante ainda viu e soube guardar religiosamente como relíquias duma vida que não volta mais, apura-se que o trajo masculino da Beira Litoral é susceptível ainda de concorrer com o das demais Províncias portuguesas quer na actualidade, quer, muito principalmente, em reconstituições da sua pitoresca evolução durante esse animado e muito desconhecido século que foi o dezanove.

 

 
 

Fig. 54 − BARQUEIRO DO MONDEGO. 183... Aguarela de autor desconhecido, reproduzida por ALBERTO SOUSA, op. cit. Ao contrário do que hoje se verifica, o barrete era de riscas vermelhas e azuis.

 

É certo que não tem a branqueta dos sargaceiros da Apúlia, a capa de honras de Miranda, o calção e a meia branca do campino do Ribatejo; mas se exceptuarmos essas três características indumentárias, aliás em via de desaparição, todas elas, são ainda o mercantel da Ria de Aveiro e os pescadores de Ovar, da Murtosa e de Ílhavo, com suas manaias e faixas, seus gabões cingidos e encapuzados, os mais lídimos representantes dos mais característicos trajos masculinos do povo português.

 

 
 

Fig. 55 − OVARINA 1840-1860 − Lit. da 1.ª colecção PALHARES − «Chapéu largo, lenço amarelo cruzado no peito, corpete azul atacado por cordões, saia rodada, azul» (legenda de ALBERTO SOUSA, op. cit.)

 


b)
O VESTUÁRIO DA MULHER − Dificultam singularmente o estudo do trajo da mulher do povo circunstâncias várias; é, em primeiro lugar, a própria condição feminina buscando irresistivelmente variantes pessoais consegui das com a garridice ,da cor, o enfeite da renda, a louçania da fita, e criando modalidades que chegam a definir regiões em simples pormenores do modo como se vestem ou usam idênticas peças da sua complicada indumentária; assim, o traçar do xaile varia imenso, e às vezes duma região para outra imediatamente vizinha, sem zona de transição; a colocação do lenço da cabeça obedece a rituais diversíssimos; o rodado da saia, o seu pregueado, a cor da faixa que a segura na cinta, o formato do chapéu, a rodilha, o avental, a chinela, tudo segue razões de estética local e tradições cuja explicação nem sempre logramos alcançar.

Depois, na Beira Litoral encontram-se, caracterizadas de há muito, unidades etnográficas que só por si constituem farto motivo de estudos monográficos, não realizados ainda: a varina, a tricana de Aveiro, a tricana de Coimbra, a gandareza, etc.; um estudo dos diversos tipos de chapéu que a mulher do povo por aqui usa, ocuparia, justificadamente, dezenas de páginas também, tanto pela distribuição das suas formas históricas como pela ulterior diferenciação, de Ovar a Leiria, ainda hoje observada, como se documenta com a colecção que organizei no Museu Municipal de Ílhavo.

 

 
 

Fig. 56 − SALINEIRAS DE AVEIRO, com o chapéu e o avental característicos das peixeiras da cidade. Fotografia do espólio F. M. Sarmento.

 

Por último, as variações operadas no trajo da mulher do povo, conquanto nem de longe se aproximem da inconstância por que passou o vestuário feminino senhoril, dominado sempre, através dos séculos, pela corte e pelas modas do Estrangeiro, são, ainda assim, imensamente mais numerosas do que as variações do trajo masculino. Documentar e explicar tudo, seria muito de desejar; mas nem sempre isso é possível, e o programa que traçámos para estes simples apontamentos não permite que nos afastemos do facto verificado na região, seja gráfica ou literariamente. / 269 /

Conjecturas e generalizações há que certamente nos seriam consentidas, em face, por exemplo, de verificações de trajo popular feminino noutras regiões do nosso país que mantêm afinidades com determinadas zonas da Beira Litoral de que não podemos exibir documentação; preferimos, contudo, não as fazer e cingirmo-nos tão somente ao documento, chamemos-lhe assim; ora como a mulher do povo não deixou o seu vulto estampado por matrizes esfragídicas nem em sepulturas medievais e só muito tardiamente começou a interessar aos nossos pintores de costumes, ao contrário do que sucedeu com a nobreza, retratada desde sempre, este nosso, recenseamento terá de ser muito mais limitado do que desejaríamos.

Que no-lo perdoem as formosíssimas mulheres da Beira Litoral; dignas descendentes daquelas, senão as próprias, de quem escritores como CAMILO, perpetuamente enamorado da Beleza feminina, podia dizer com sinceridade:

«...aquela formosa casta de mulheres que ainda semelham em alguns dotes as estatuárias mulheres da beira-mar, que tu, leitor cansado de belezas pintadas e estofadas, deves ir, uma vez, procurar em Espinho, em Ovar, em Ílhavo, naquela raça fenícia, enquanto a mim, a menos imaculada de estranho sangue que ainda se viu na Europa»...(9)

Com graciosidade notável e fino recorte literário celebrou LUÍS CHAVES na citada monografia − A Beira − tipos femininos da região que gostosamente para aqui trasladamos, juntando à sua a nossa homenagem irmã, nascida em remoto encantamento que para sempre deu forma à nossa saudade.

 

 
 

Fig. 57 − TRICANA DE COIMBRA − 183...Aguarela de autor desconhecido. «Lenço vermelho de ramagens, sobre pente alto e cabelo em bandós; capote de briche castanho, casaquinho carmesim, saia azul aos raminhos encarnados, meias azuis claras com bordado, chinelinhas pretas.» ALBERTO SOUSA, op. cit.

 

«A ovarina tem a elegância airosa de peixe dentro de água a saia, mui rodada, é soerguida nas ancas, cingidas pele cinta negra, fortemente apertada com muitas voltas; o busto emerge esguio do rolo formado pela saia subida para a cintura e veste um corpete colorido, justo, de gola aberta e mangas arregaçadas; na cabeça um lenço caído em três pontas a esvoaçar livremente, ou solta apenas a do meio, e em cima deste lenço, variegado por vezes como um canteiro, assenta um chapelinho redondo, negro, de abas reviradas que, mais ou menos largo, com ou sem borlas de lã a decorá-lo, vai cobrir as cabeças de toutinegra de todas a mulheres do litoral beirão. Não correm aqueles pés nus que a terra patina e encoura, voam; e ela vai coleando pelos areais e pelos campos fora, senhora soberba da sua beleza tão gabada. Com a canastra à cabeça é uma cariátide / 271 / de templo oceânico ou de casa de corporação dos marítimos.

À ovarina opõe-se a mulher de Ílhavo, coletinho alegre sobre a camisa branca, afogada no pescoço, e enciúma-se com elas a da Murtosa, que passa pela mais perfeita beleza de mulher do litoral da Ria de Aveiro.

Mas uma cousa é ver a ovarina em seu trajo de trabalho e outra vê-la na sua andaina rica de passeio e cerimónia grada; então luxa: deita ao pescoço os grilhões de ouro de muitas voltas, que lhe bamboleiam ao peito corações e cruzes maciças; monta o ouro todo que tem, fica ourada; põe um xaile vistoso de franjado bailador, em que se envolve; cai-lhe os cabelos apanhados em bandós o lenço vistoso, que descai por debaixo do xaile; e bailam-lhe nos pés, de meias brancas, umas chinelinhas de conto de fada, que mal se seguram nos dedos, e onde o pé não cabe.

A correcção do tipo desta mulher-sereia levou os poetas do maravilhoso dos tempos idos a considerá-la, uns por descendente de helenos, superstição do clássico e da beleza helénica, outros por vestígios de cartagineses, influência de Avieno e da Ora Marítima, e superstição do mito aventureiro. Misto de quantas raças puderam deixar seu sangue, como em todas as costas, tanto mais quanto maior for o abrigo, a população e o contacto mercantil, esta gente do litoral é também afeiçoada pelo mar, de um lado, e pela terra chã, ampla, rica, do outro. Resistente, mantém o seu tipo, como vai mantendo contra as invasões estranhas a sua fácies externa da indumenta.

Com menor correcção, continua para o Sul a ribeirinha, que depois dos areais e das dunas abaixo da Ria de Aveiro, mais pobre nas terras sáfaras, areadas pelo mar, vai ressurgir, menos ovarina e mais tricana, pelas praias da Figueira da Foz.

Para o interior, sempre na zona baixa, o tipo feminino não se afasta muito do litoral; é a mulher da bacia inferior do Vouga, mais forte por essas várzeas ridentes da Mealhada para cima, a Serra em oposição à baixa litoral, e mais elegante daí para baixo, até atingir o donaire e esbelteza da tricana de Coimbra e arredores.

A tricana é a mulher dos campos e baixas do Mondego inferior; o seu tipo taful concentra-se em Coimbra, a cidade santa de todo o ribeirinho mondeguenho. Está afeita a todos os trabalhos dos campos, pelos arrozais, nas hortas, onde trabalha como um homem a par dos homens, ora cavando, ora ceifando, ora tirando com movimentos rítmicos a água dos poços baixos com os engenhos primitivos de pau, que surgem de todos os lados, no meio das terras rasas, um aqui, dois acolá, como pernaltas de bico em riste, / 272 / à espera do peixe que passe... Galantes, rápidas, saia curta, amarrada às coxas pela cinta que as enleia com arregaçá-las; camisota leve, de mangas a descobrir-lhes os braços, torneados pelo trabalho; o lenço na cabeça arrochado em nó sobre a nuca ou sobre o cocuruto, arrecadas pendentes das orelhas, elas tudo correm, em toda a parte as vemos; os pés, espalmados, quase não tocam o chão; cantam e riem; sobre o ombro traçam o xaile que cruza o peito e a custo, cobre as costas, deixando-lhes livres os braços no ritmo da marcha. Em Coimbra enchem as margens do rio, metidas na água como ninfas do Mondego, e o ar vibra com as cantigas alegres. Por isso a canção anuncia que

Das terras que tenho visto
É Coimbra a mais alegre.

Vem a hora da missa e o dia da romaria, chega o domingo com a música da tropa na Avenide e o passeio com os namorados. Então é de ver a metamorfose da tricana! Lembra figurinha de Góia: do negrume do trajo, amanhado com arte subtil, sobressai a face de perfil suave, mais branca na cidade, mais vivaz, e rosada no adro da aldeia, porque «não há moças como as da aldeia», dizem cantares beirões; nos pés dependuram-se chinelinhas de polimento pespontado, que a moda vai substituindo pelo sapato incaracterístico. Xaile negro cingido ao busto, saia negra, lenço-mantilha também negro a envolver os cabelos com arte de touca, a tricana / 273 / [Vol. V - N.º 20 - 1939] tem um ar de saudade no trajo, que contrasta com a sua vivacidade ou com a exuberância da natureza envolvente; e o talhe galante esfuma-se num carvão de Whistler.

 

Fig. 58 − MULHER DE COIMBRA 1814
«Mantilha negra, saia da mesma cor. Meias brancas. Vestido e sapatos azuis. Colar de corais vermelhos.» (Da obra de H. l'Evêque, Costumes of Portugal; legenda da ob. cit. de ALBERTO SOUSA.)

 

Fig. 59 − CAMPONESA DE MONTEMOR-O-VELHO. 183... Aguarela de autor desconhecido. «Chapeirão, lenço de pontas cruzadas, capa e saia azul escuro.» − ALBERTO SOUSA, op. cit.

/ 274 / Para cima, a região úbere do Vouga tem na mulher da Bairrada, a bairresa, e da Anadia a sua dríade característica. É forte e rija esta fornarina dos vinhedos ricos e das várzeas escorrentes de água. Rivaliza na cor com os campos, a cor da pele e a cor da indumentária. Percorre distâncias, vai à feira, à romaria, ou para o trabalho, na mesma paz de alma e na mesma alegria do Senhor, com a mesma cara de satisfação com que à tardinha ao toque do Angelus nas capelinhas bucólicas, poisadas nos cômoros a espreitá-la, se benze e reza as suas três Ave-Marias, e regressa ao aido cantando. É vê-la nas feiras espalhadas por ali, no mercado e feiras de Aveiro, no dia da espiga, o dia maior da Ascensão do Senhor, a passarinhar nas penumbras resinosas e nas clareiras ensoalhadas do Buçaco, sempre a cantar, rir, e dançar. Descalça, de tamancos ou chinelas na mão para calçar à entrada das povoações, palmilha o seu chão; e, como todas as mulheres desta região costeira, arregaça também a saia com a faixa que lhe aperta os quadris engrossando-a na cintura, e cobre a cabeça com o chapelito negro sobre o lenço, que esvoaça ao andar ou à brisa brinqueira do Atlântico.»

Fig. 60 − RAPARIGAS DOS MILAGRES, SUBÚRBIOS DE LEIRIA.
Com excepção da que ocupa o 7.º lugar, a contar da esquerda, que reconstitui trajo popular do final do século XIX, todas vestem segundo o costume actual. Fotografia de 1938, do júri provincial do concurso da Aldeia mais portuguesa de Portugal.

Quase a topejar a Estremadura, lá para o sul da Beira Litoral, também a mulher e o seu trajo costumado têm merecido registo na literatura; passeando A Terra Portuguesa(10) formosíssima e variada, ADELlNO MENDES rende-se perante

«Amor, terra das lindas mulheres que fizeram andar à roda a cabeça de D. Dinis. Sadias, sólidas, opulentas de formas, desembaraçadas, direitas como colunatas gregas, estas mulheres dos campos de Leiria, com as suas saias de imensa roda atadas na cintura, as suas peúgas de lã grosseira, os seus grandes lenços de ramagem presos no' alto da cabeça por um chapelinho redondo e pequenino como uma coroa de duquesa, são das mais robustas e ao mesmo tempo das mais graciosas mulheres de Portugal.

Bem mereceram que um Rei artista e poeta algum dia se tivesse enamorado delas...»

Fiéis ao nosso limitado programa e cingindo-nos, portanto, às possibilidades actuais, anotaremos agora alguns aspectos do trajo popular feminino e tentaremos alguns agrupamentos.

 

 
 

Fig. 61 − SARDINHEIRA DA FIGUEIRA DA FOZ −
183... Aguarela de autor desconhecido. «Grande chapéu negro, lenço amarelado, saia de burel castanho com barra azul, capa azul debruada de vermelho.» ALBERTO SOUSA, op. cit.

 

É na zona litoral e na de transição que se fixaram algumas variedades pelas quais podemos extremar o vestuário desta Província; para dentro, nos povoados da zona alcantilada / 277 / constituída à custa das elevações das serras da Freita, do Arestal, das Talhadas, do Caramulo, do Buçaco, da EstreIa, da Lousã e da serra de Porto de Mós, que limitam a Beira Litoral pelo nascente, impôs o meio geográfico maiores resguardos no vestuário que, por assim dizer, o uniformizam; por toda a serra a mulher veste farta saia de serguilha, baeta ou pano forte, sobre um ou mais saiotes de lã: e saia de algodão ou de linho; blusa de chita nos meses mais quentes, cedo trocada pela de flanela ou por singela jaqueta abotoada até o pescoço, e às vezes solta na cintura; por dentro, colete de pano cru e camisa, de estopa, de algodão ou de linho; avental de serguuilha, escuro; meias de lã, grosseiras, de fabrico caseiro, quando a pobreza a não obriga a andar descalça; socos, tamancos, e, por excepção, sapato forte de presilha, ou abotinado, preto ou da cor natural da carneira. Na cabeça, com pequenas variantes, lenço (quando possível, de lã) soqueixado, e chapéu de feltro de copa média e aba larga, revirada − para cima, por via de regra.

Antes da generalização do xaile, usava capote ou mantéu, de bureI ou serguilha, por vezes uma saia dobrada em duas partes lançada sobre os ombros, ou sobre a cabeça, e, por toda a serra também, esse característico agasalho que na planície se não encontra − a capucha de bureI.

Fig. 62 − ALDEÃS EM COIMBRA EM 1861, NO MERCADO DA PRAÇA DO COMÉRCIO.
Desenho de MANUEL DE MACEDO, pub. por ALBERTO SOUSA, op. cit.

Comum às restantes terras serranas de Portugal, a capucha deve possuir remota ascendência; espécie de pequeno manto, pouco rodado, cobrindo a cabeça e descendo até os joelhos ou ficando um pouco acima, pois também apresenta variantes locais, chegando até a completar-se com um pequeno capuz, encontramo-la no Arestal, como mostram as duas raparigas fiando a sua lã na fig. n.º 64 do presente esboço, vemo-la no mercado de Águeda, descida de Castanheira do Vouga e do alto Caramulo, topamo-la em Góis, na Lousã e em Penacova, no Colmeal − confins da Província − a leste em Degracias, e de tal forma é corrente na região de Fátima que foi ainda com uma capucha serrana que um grupo de pastorinhos visionou, em 1917, a própria Virgem Maria, e dessa maneira se ficou representando a primitiva imagem de Nossa Senhora de Fátima, reproduzida hoje em milhões de estampas e de medalhas que por todo o mundo se espalharam.

Fig. 64 − ALDEÃS EM COIMBRA EM 1861, NO MERCADO DA PRAÇA DO COMÉRCIO.
Desenho de MANUEL DE MACEDO, pub. por ALBERTO SOUSA, op. cit.

A capucha foi conhecida de vários povos da antiguidade; e se quiséssemos filiá-la em vestuário usado por algum daqueles que demoradamente ocuparam, o nosso território actual, deixando, por isso, muitos dos seus usos e costumes radicados entre nós, o cucullus romano respondia justamente à circunstância; o Dictionnaire des Antiquités romaines et grecques, de ANTHONY RICH, reproduz dois fragmentos duma pintura de Pompeia onde o cucullus se vê sobre a cabeça, e derrubado para o pescoço. Acompanha as gravuras esta descrição: ...«capuchon attaché à quelques vêtements, tels que la lacerna, le sagum, la poenula, etc.; / 280 / on pouvait le tirer sur la tête, qu'il couvrait alors comme un chapeau.

Il était porté communément par les esclaves, les paysans, les pêcheurs et les personnes que leurs occupations exposaient à l'intempérie des saisons; il ressemblait au capuchon des capucins et à celui des pêcheurs de Naples moderne (COLUMELI. XI, I, 21; MART. Ep. XI, 98, 10; JUV. VI, 118; PAILAD. I, 43, 4).»

A descrição de RICH não se adapta com exactidão às gravuras; por ela seríamos levados a crer que se tratava apenas dum simples capuz, de tirar e pôr, quando afinal outro é o resultado da observação das gravuras, a que ligamos maior importância e pessoalmente procuramos interpretar; o cucullus vinha pelo menos até meio das costas, e, à frente, descia bastante mais, permitindo, que o portador se embrulhasse nele; correspondia bem à capucha que o júri da aldeia mais portuguesa de Portugal, para esta Província, foi encontrar em Colmeal em 1938 e que o relator, Prof. VERGÍLIO CORREIA, registou assim no Diário de Coimbra de 4 de Julho daquele ano: «O que mais se conserva é a capucha, pouco mais descida que os cotovelos, com capucho ou capuz chato ou bicudo. É de bureI castanho. escuro; havendo-as também pardas e esbranquiçadas, a que lá chamam brancas.»

Fig. 65 − SERRANAS DO ARESTAL ENVERGANDO A CAPUCHA. Actualidade

Contrariando a descrição de ANTHONY RICH, que não corresponde à capucha curta muito claramente representada nas gravuras que Ilustram o seu artigo; não ignoramos a existência do simples capuz, avulso, até mesmo em Portugal; ainda em 1906 ROCHA PEIXOTO, tratando, com grande erudição e conhecimento directo, do traje serrano,  na revista Portugalia, escrevia: «O capuz anexo ao agasalho e utilizado quando chove ou contra o frio, pode ainda adoptar-se avulso, como em Canadelo, defronte da Serra da Meia Via, na Campeã sob o nome de capelo, em Arga, já não tanto de burel mas de tomentos e por fim de jungos com as denominações várias de capuchos, coruchos, coruchas (Amarela) e corucelos (Pitões). Estes últimos, às vezes ainda revestidos superiormente de pele de cabra, associam-se frequentemente / 281 /  [Vol. V - N.º 20 - 1939] às croças ou coroças, de fabricação local ou de importação e que se vêem desde a Cabreira a Montemuro, a Montesinho e a Arga, e, intermediariamente, na quase totalidade das populações da Ribeira.»

Conhecendo, como ROCHA PEIXOTO, a existência das duas peças, procuro apenas não as confundir e por isso rejeito a identificação proposta na dicionário de RICH.

Também entre as muçulmanos se usa, hoje ainda, vestuário idêntico à capucha serrana de Portugal; considero, no entanto, tão espontânea a criação deste rudimentaríssimo agasalho e cobertura, que dispenso perfeitamente a necessidade de o explicar por influência exterior; terá surgido naturalmente, onde as mesmas circunstâncias do Meio o impuseram.

Na Terra Portuguesa, vol. 4.º, pág. 110, ocupa-se da capucha no Caramulo o Dr. JOSÉ JÚLIO CÉSAR, lembrando que o modelo proviesse do Oriente, trazido pelos árabes à região, ou fosse extraído dalguma estampa vinda dos Lugares Santos, «por quanto a capucha ainda hoje é precisamente o manto que, desde o princípio do Cristianismo, aparece cobrindo a maior parte das imagens».

Eu suponho-a, como deixo dito, muito mais antiga já pelas serras de Portugal.

O citado escritor faz a seguir a apologia da capucha, mostrando como ela é a providência da serrana: manto, xaile, saco, panal, cobertor, toalha, corda para enfeixar, quando enrolada ou torcida, de tudo isso a capucha serrana serve.

No Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro para o ano de 1881, também a capucha (de Vouzela) mereceu registo a M. R. CORREIA; por serem extensíveis à zona serrana da Beira Litoral, aqui se transcrevem os períodos seguintes:

«A capucha entra em toda a parte, vai a todos os mercados, e a todas as romarias, como vai, à missa e à festa.

Há raparigas a quem este traje assenta perfeitamente, e completam-no com umas chinelas em que a parte posterior do pé anda descoberta, e que são ordinariamente enfeitadas com borlas de lã de cor. Também poucos são os homens que não usam uma capucha muito curta, de grosseiro burel, nas estações do inverno, primavera e outono.»

Judiciosamente notava ROCHA PEIXOTO, no citado estudo, que, segundo a frase de MICHELET, «la plaine est maîtresse du siècle et fait la guerre à la montagne. Dia a dia se adopta, e altera e renova a moda que sobe da Ribeira, como esta já fora pouco antes, invadida, e dominada e seduzida.»

É o que sucedeu com a capucha serrana, no século passado; o conhecimento da mantilha, em moda na planície, e generalizada, em todas as fases da sua evolução, ao país inteiro, chegou também / 282 / à serra; resultou daí que, ao estudar a última fase da mantilha, a fui encontrar directamente, não sem surpresa bastante, em todos os concelhos do distrito de Aveiro, e em todos os que pude percorrer dos de Coimbra e Leiria, cuidadosamente arrecadada como relíquia de avós, a principiar na serra do Arestal, ao lado precisamente da capucha, que em parte conseguiu substituir.

 

 
 

Fig. 65 − Reconstituição do trajo de mantilha na última fase da sua evolução, que podemos fixar muito aproximadamente em 1870.

 

Veremos a seguir em que consistia a mantilha e que voltas levou.

ANTÓNIO GOMES DA ROCHA MADAHIL

Continua no Vol. VII, pág. 115 − ►►►

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(1) Reproduzida no Dic. Bibl. de INOCÊNCIO, voI. XVII, entre págs. 124-125. No n.º 2 do Boletim de Etnografia, o Dr. LEITE DE VASCONCELOS chama a este vestuário pelote, talvez com menos propriedade.

(2) Recolhi esta mesma indumentária em 1935, para servir de modelo ao manequim que fez parte da exposição etnográfica levada a Genebra pelo Secretariado da Propaganda Nacional. 

(3) Coimbra, Imprensa da Universidade. É o n.º 5 - Xl.º ano - do Boletim da Direcção Geral dá Agricultura.

(4) Confronte-se a descrição do Rev.º RESENDE com a nossa figura n.º 36, do aldeão da Murtosa, de 1816, que está representado com um desses chapéus de copa alta.

(5) Monografia da Gafanha. Ílhavo, Gráfica ilhavense, 1938; págs. 224 e 225.  

(6) Boletim de Etnografia, n.º 2, pág. 24.

(7) Veja-se o álbum O Homem do Leme, Porto, 1938, e o opúsculo de A. G. DA ROCHA MADAHIL - O Museu Municipal de Ílhavo e a escultura «O Homem do Leme», Coimbra, 1939.

(8) A Beira − Imprensa Nacional de Lisboa, 1929, pág. 17. 

(9) Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado − 4.ª ed., 1920, pág. 42.  

(10)Coimbra, F., França Amado, 1917; pág. 33.

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