A. G. da Rocha Madahil, Museu municipal de Ílhavo e a escultura «O Homem do Leme», Vol. IV, pp. 289-296.

O MUSEU MUNICIPAL

DE ÍLHAVO E A ESCULTURA

«O HOMEM DO LEME»

A 8 de Agosto de 1937, e com a assistência das autoridades superiores do Distrito, inaugurava, solenemente a sua vida oficial o Museu Municipal de Ílhavo.

É o mais recente dos Museus do Distrito; e não pretendendo senão documentar e estudar a vida e a história locais, oferece, não obstante − ou justamente por isso − aspectos e elementos de real interesse para a história do povo português, que nenhum dos restantes Museus do País até agora proporciona ao estudioso.

A razão é simples: se excluirmos o fundo agrícola local, comum à generalidade da Nação, verificamos facilmente que toda a economia do concelho de Ílhavo é, de há muito, dominada pela vida marítima e pela indústria da porcelana.

Esta última, iniciada em 1824 na Vista Alegre, chegou a atingir, por vezes, a perfeição das grandes fábricas europeias, de mundial renome, encontrando-se presentemente em elevado grau de prosperidade e numa fase deveras interessante da sua história.

A vida marítima local vem de muito longe e é impossível determinar quando terá começado; a indústria, da pesca e do sal praticavam-se já na região muito antes de Ílhavo constituir circunscrição administrativa e de Portugal existir como Nação. independente; o concelho, depois, encontrou sempre as águas do Atlântico na sua projecção a Ocidente.

No século XVIII a expansão demográfica da terra foi considerável; verdadeiras colónias de pescadores ilhavenses se estabeleceram no Tejo, e os vendedores de peixe nas ruas de Lisboa eram conhecidos genericamente pelos nomes de ílhos e de ílhavos; / 290 / só muito depois o predomínio dos vareiros e varinos se firmou, absorvendo, por sua vez, todas as outras designações e ganhando significado geral de profissão, em detrimento do toponímico original; ainda no século XIX as colecções de gravuras, reproduzindo os trajos pitorescos da Capital, incluem os ílhavos pescadores de sardinha e as ílhavas vendedoras de sardinha (litografias JOUBERT, PALHARES, etc.).

Mas não só para o Tejo emigraram os pescadores ilhavenses; fixaram-se igualmente em muitos outros pontos da costa; RAUL BRANDÃO encontrou a tradição deles na Nazaré e em Olhão; em Matosinhos, Peniche e Setúbal a conhecemos nós; e a Norte e a Sul do Mondego, na região da Figueira da Foz, fez-se em tão grande número essa emigração que é impressionante a quantidade de ascendentes ilhavenses acusada pelos registos paroquiais ainda no meado do século XIX.

Com o desenvolvimento da navegação, o pescador tornou-se marinheiro; e como as qualidades profissionais por ele demonstradas lhe permitem facilmente conquistar as primeiras categorias, o marinheiro ilhavense encontra-se hoje, a bem dizer, em todas as tripulações e percorre todos os mares.

Procurando reflectir a vida local e propondo-se subsidiar a sua história, o Museu Municipal de Ílhavo havia necessariamente de ir buscar àqueles dois aspectos regionais os seus núcleos mais importantes. Recordações locais de variado sentido e alcance preencheriam o resto.

Ora em Portugal nenhum Museu público dispensa à vida marítima atenção e organização comparáveis ao que em Ílhavo se esboçou e se vai procurando desenvolver constantemente; nem o actual Museu marítimo de Faro nem as curiosidades, interessantíssimas, aliás, do Aquário Vasco da Gama, de Algés; apenas as magníficas colecções particulares do Sr. Henrique Maufroy de Seixas, em Lisboa, o excedem; pacientemente acumuladas durante grande número de anos, com notável inteligência, e tendo ao seu serviço recursos a que o Museu de Ílhavo nunca poderá aspirar, elas resgatam nobremente a negligência do Estado em arquivar as recordações e estudar a evolução do nosso contacto de muitos séculos com as águas do Oceano.

Também em nenhum outro Museu do País as porcelanas e os antigos vidros da Vista Alegre encontram a representação que até o presente nos foi já possível alcançar; em muitos dos Museus de Portugal a evolução artística da nossa primeira fábrica de porcelanas é inteiramente desconhecida; e recordo com tristeza a insignificância da sua representação em certos outros Museus onde, aliás, à secção de cerâmica foi sempre dispensada carinhosa organização e distinto apreço.

É por estas razões que o Museu Municipal de Ílhavo, Museu dum modestíssimo concelho de 3.ª classe, pobre de recursos, veio / 291 / contribuir para o preenchimento dos quadros representativos da vida nacional, cotando em interesse e significado gerais utensílios e aspectos que pareciam confinados apenas à categoria de particularidades da região.

Assim o compreendi em 1933, quando − solicitado para corporizar a generosa e nobilíssima ideia que, havia anos, lutava por enraizar e poder expandir-se − tive a honra de apresentar à Comissão Municipal Administrativa as bases para a organização do Museu(1), dela recebendo, em seguida, o delicado e dificílimo mandato, que ainda hoje perdura, de instalar e dirigir a prestimosa instituição.

Preconizei então, atendendo «à vida natural do Município ilhavense, passada e presente», duas secções fundamentais: a marítima, com todo o desenvolvimento que ela é susceptível de comportar; e a cerâmica, que documentasse largamente a vida histórica da fábrica da Vista-Alegre.

A par destas, propunha uma secção de vida agrícola local, outra de pintura e desenho, uma sala de Arte antiga, outra de indústrias locais de pequena representação que não justificassem sala especial para cada uma, outra de recordações locais − miscelânia da vida histórica e civil -, núcleos de comparação, biblioteca regional, e sala de arquivo.

Vão passados seis anos sobre a apresentação desse plano de Museu, demasiadamente modesto para os loucos sonhadores de grandezas e os demolidores profissionais de todo o esforço alheio, e que a timidez de certos outros espíritos considerava impraticável por falta de essenciais condições do meio a que se destinava.

Os estudos de Etnografia marítima não tinham grande ambiente ainda no nosso país e colecções desta natureza eram desconhecidas da maioria dos ilhavenses; duvidava-se das próprias forças e receava-se que o visitante procurasse apenas mostruário de preciosidades artísticas, desinteressando-se das miniaturas dos barcos da Ria, dos lugres bacalhoeiros, do
poleame, dos trabalhos de marinheiro, da agulha da rede, da macola da peixeira, do bolim do moliceiro.

Com a apresentação daquelas bases, no entanto, robusteceu-se a fé e redobrou a acção dessa alma de fina têmpera que é Américo Teles, o criador da ideia do Museu, trabalhador infatigável de todas as horas que em serviço do seu sonho soube congregar todos os esforços aproveitáveis, dando constantemente o exemplo edificante dos mais extraordinários sacrifícios pessoais para que o Museu pudesse triunfar e constituir prometedora realidade.

/  292 /

O projecto teve a boa sorte de ser compreendido por alguém.

A Câmara Municipal acudiu com casa indispensável, mais tarde com um guarda e a pequenina verba que lhe foi possível consignar do seu modestíssimo orçamento; da comissão organizadora, o pintor Teodoro Craveiro e os oficiais náuticos José Cajeira e Manuel Matias prestaram de bom grado o serviço que pela Direcção lhes foi solicitado por variadíssimas ocasiões e angariaram fundos para as avultadas despesas de mobiliário e instalação geral.

Na medida das suas forças, todos acorreram e cumpriram nobremente.

E assim se criou e se tem mantido o Museu; entregue em 1937 ao Município, apresenta já uma secção de navegação organizada com certo desenvolvimento, outra de pesca, outra relativa à indústria do sal, bastante completa, uma sala de porcelanas da Vista Alegre com magnífica documentação histórica, e tem esboçadas subsecções de fauna e flora da Ria, a sala do moliceiro, a sala do trajo, esperando em breve instalar as muitas recordações históricas locais que possui.

O aplauso alheio tem sido reconfortante; o visitante retira agradavelmente impressionado, e a população compreende o seu Museu, reconhecendo-se a si própria na exemplificação das colecções apresentadas.

Esboça-se e vai-se definindo a fisionomia colectiva deste povo.

 

Entre os muitos objectos de real valor e de alto e salutar significado que o Museu exibe, impressiona o visitante, pelas suas dimensões e pelo realismo da sua execução, a escultura do artista portuense AMÉRICO GOMES, intitulada O Homem do Leme; é a maquette original do bronze que presentemente ornamenta a avenida marginal da Foz do Douro.

AMÉRICO GOMES realizara o seu trabalho para a Exposição Colonial do Porto, de 1934; aí o vimos, dominando admiravelmente o conjunto da nave do Palácio de Cristal, emprestando-lhe grandeza e dalguma maneira dando sentido e direcção a tudo o que ali se acumulava.

Impressionava, sobretudo, a vida que o escultor soubera comunicar à maquette; não era uma estilização a compreender e a estudar; o artista transmitia ao observador a realidade que surpreendera, sem artifícios, naturalmente, com sinceridade e correcção absolutas.

Manifestado o desejo, de que a expressiva obra de arte recolhesse ao Museu de Ílhavo, terminada que fosse a Exposição, um favorável conjunto de circunstâncias e de boas vontades o permitiu; restava saber como se combinaria a escultura com as colecções do Museu, de dimensões reduzidas e em salas que / 293 / ficavam a perder de vista da grandiosidade da nave para a qual o trabalho tinha sido realizado.

Era um problema delicado, que ameaçava inutilizar a cedência que de boa mente fora feita a Ílhavo.

Submetida assim a tão extraordinária prova, foi então que a solidez da concepção do escultor se revelou perfeita e completa.

Colocada num ambiente de exclusiva e forte evocação marítima, de absoluta e integral realidade, a escultura não destoou nem pelas dimensões nem pelo pensamento; ganhou novo sentido e integrou-se admiravelmente no conjunto, logo constituindo uma das mais impressionantes peças do incipiente Museu e causando a justa admiração de quantos a observavam.

Era o triunfo da Arte, a glorificação do Artista.

Moldada depois em bronze pela diligência duma benemérita comissão em que injustiça seria não destacar o esforço e a modelar organização que lhe imprimiu o portuense Sr. Almiro Braga, quis ainda essa distinta comissão consagrar o artista organizando um primoroso álbum com palavras alusivas à obra de Arte, traçadas na quase totalidade por eminentes escritores e artistas do nosso país, expressamente convidados.

O Director do Museu de Ílhavo recebeu a imerecida e desvanecedora honra de ser chamado a tão distinta companhia; disse, singelamente, o paradeiro último da maquette e procurou explicar a escultura no seu novo meio. O álbum de autógrafos foi depositado no Museu Municipal do Porto; fez-se, porém, uma luxuosa edição reproduzindo os originais recolhidos, mas de reduzida tiragem e exclusivamente destinada a ser distribuída pelos colaboradores e subscritores, componentes da lista previamente organizada.

O álbum ficou assim constituindo, por seu turno, uma preciosidade bibliográfica interessantíssima.

Porque o artigo do Director do Museu Municipal de Ílhavo constitui, de certo modo, um elemento para a história desta benemérita instituição, e reproduzirá, porventura, a opinião do próprio povo que sente, como ninguém, a verdade e a vida da impressionante escultura, com autorização dos distintos organizadores da merecidíssima homenagem ao trabalho de AMÉRICO GOMES aqui se reproduz tal como no referido álbum saiu.

As gravuras que o acompanham pertencem igualmente à magnífica publicação.

Divulgando esta homenagem, pretendemos chamar a atenção para a expressiva obra de Arte, para o distinto escultor, e para o Museu que muito se honra com a preciosidade que possui. / 294 /

Aspecto do «Homem do Leme»

*

« DA EXPOSIÇÃO COLONIAL DO PORTO, DE 1934,

AO MUSEU MUNICIPAL DE ÍLHAVO .

NA ARTE COMO NA VIDA

O ulterior destino, em hora feliz proporcionado à maquette do «Homem do Leme», cujo expressivo realismo fortemente me impressionou desde que na Exposição Colonial do Porto tive ensejo de admirar tão equilibrada composição escultórica, veio pôr em evidência as reais e extraordinárias qualidades de observação e a técnica apurada do seu consciencioso autor.

Na verdade, pensado para simbolizar o esforço consciente e tenaz das navegações portuguesas e realizado expressamente para a vasta nave do Palácio de Cristal, o «Homem do Leme», na salinha aconchegada do Museu Municipal de Ílhavo, onde veio encontrar carinhoso e seguro abrigo, nem destoa pelo inevitável contraste das suas dimensões nem corre o perigo de deixar incompreendido o pensamento que o inspirou.

Direi mais: no Museu de Ílhavo, em que à Etnografia marítima é dispensado particular acolhimento, onde cada objecto nos evoca o Oceano e o trabalho árduo e ignorado do nosso marinheiro, a realização do artista valoriza-se com o especial ambiente que a cerca; a atitude daquela figura, meramente simbólica na sua origem, humaniza-se mais e adquire maior compreensão: ganha em naturalidade o que, porventura, possa perder em valor de símbolo colocada neste meio, todo ele de evocação marítima também.

Desde a máscara enrugada pelo vento cortante de largos mares, fronte contraída dominando a emoção, atenção concentrada no horizonte distante, procurando divisar a linha da costa, até o oleado e o sueste por aquele corpo envergados, tudo se transmudou ali no marinheiro ilhavense que não receia desafiar as procelas medonhas nem as vagas alterosas dos mais longínquos mares do globo, onde a vida de tantos tem sido o preço da heróica aventura constantemente renovada.

Como a bordo dos humildes veleiros de Ílhavo, parece também que os nossos ouvidos ouvem bradar:

− «Seja louvado e adorado Nosso Senhor Jesus Cristo! Leva acima, ó Senhores do quarto, olha a quem toca o leme e a vigia!», que tal é o tradicional chamamento do quarto, à voz / 295 / do qual o «Homem do Leme» se encaminha ao seu posto de provação e sacrifício por toda a tripulação.

− «Seja louvado e adorado Nosso Senhor Jesus Cristo», pronuncia ele ao chegar junto do camarada que vai render.

E logo se descobre, se o tempo o permite, faz o sinal da cruz que o verdadeiro homem do Mar jamais esquece, e recebe o leme das mãos enregeladas que o precederam, ouvindo, em resposta à sua secular saudação, a breve e sentida fórmula, igualmente consagrada − «Para sempre seja bendito!»

Na religiosidade do momento sem par, um arrepio de emoção sincera passa naqueles dois homens fortes, em pleno alto mar, em face de Deus e do mistério insondável das águas.

Tudo isto, com particular felicidade, a escultura de AMÉRICO GOMES evoca, e eu, sinceramente rejubilo por ver a expressiva obra de Arte no Museu da minha terra natal − glorificação do trabalho do Mar, para quem o souber compreender −, que organizei e que tenho a honra de dirigir.

O Artista, procurando um símbolo de ordem geral que consubstanciasse a própria vida marítima, realizou, afinal, a plasticização do marinheiro de Ílhavo, que sulca todos os mares, intemerato, e tripula todos os navios.

NA ARTE COMO NA VIDA!
Ílhavo, Dezembro de 1937.

ANTÓNIO GOMES DA ROCHA MADAHIL

Director do Museu Municipal de Ílhavo »

Outro aspecto do «Homem do Leme»

*

Está em organização o catálogo do Museu. O Público que não tiver ensejo de visitar directamente as colecções representativas da actividade do concelho e de seguir este colorido e animado cortejo que nos permite a compreensão da vida local, poderá com os elementos do catálogo integrar o ilhavense no quadro geral do povo português e situá-lo na história da Humanidade; ali encontra os seus barcos de pesca de tipo normando, reminiscência viva das incursões dos Vikings no Ocidente da Península, suficientemente documentadas já; o tipo mediterrânico dos moliceiros da Ria evoca-lhe as passadas civilizações que por aqui se cruzaram; a epopeia portuguesa do Oceano revive na evolução das nossas embarcações do alto mar, lembrada em algumas dezenas de miniaturas que o próprio marinheiro / 296 / de Ílhavo amorosamente construiu, ex-votos da sua Fé imorredoira e da sempre viva confiança na protecção incomparável do Senhor Jesus dos Navegantes da sua terra.

O estudioso encontrará no catálogo relacionados todos os variadíssimos elementos de estudo que foi possível arquivar: trajos, utensílios, indústrias, Religião, actividade artística, actividade literária, a História, a Vida.

Percorrendo, contudo, essas páginas de descritivo e de evocação − que assim as projecto − há-de certamente no seu espírito, e talvez também no seu coração, desejar arquitectar o tipo do marinheiro ilhavense; é então que a escultura de AMÉRICO GOMES lhe surgirá com todo o seu luminoso valor de síntese; compreenderá então verdadeiramente o que é e o que significa «O Homem do Leme».

A. G. DA ROCHA MADAHIL

_________________________________________

(1) − Publicadas em 1937 com o título Etnografia e História − Bases para a organização do Museu Municipal de Ílhavo, Ílhavo, Tip. da Casa Minerva; 136 págs.

Página anterior

Índice

Página seguinte