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Artes - Letras - Ciências
Suplemento do n.º 271 do "Litoral"
Dezembro de 1959, Ano I, n.º 4
págs. 29, 30 e 32

 

Entrevista com o

DR. JOSÉ PEREIRA TAVARES
 

— Como foi levado a frequentar o Curso Superior de Letras? Que recordações guarda dessa Escola? Qual a influência dos que a cursaram, na nossa Literatura?

Terminado o Curso Geral dos Liceus em Aveiro, segui para o Liceu de Alexandre Herculano, a fim de aí tirar o Curso Complementar de Ciências, necessário para a formatura em Medicina.

No começo do 7.º ano, porém, desisti dessa carreira e resolvi abraçar a do Magistério Secundário, que mais se adaptava ao meu feitio.

Depois de fazer, no ano imediato, o exame do Curso Complementar de Letras no Liceu de D. Manuel II, matriculei-me no Curso Superior de Letras, que constava de três anos com cadeiras obrigatórias para todos os futuros professores, e de mais um ano de especialização, conforme o grupo que cada um escolhia: Português e Latim (1.º grupo), Português e Francês (2.º), Inglês e Alemão (3.º) História e Filosofia (4.º), História e Geografia (5.º).

Era isto em 1910. As aulas, que costumavam abrir em 2 de Outubro, só vieram a iniciar-se no dia 17, em virtude da visita oficial de Hermes da Fonseca, Presidente eleito do Brasil, e da revolução que determinou a mudança das Instituições Políticas.

Foram meus professores: Teófilo Braga (Literatura Portuguesa); José Maria Rodrigues (Latim e Filologia Latina); Adolfo Coelho (Filologia Portuguesa, Pedagogia e Didáctica e História da Pedagogia); José Leite de Vasconcelos (Filologia Românica); David Lopes (Francês e Literatura Francesa); Alfredo Apell (Inglês); Gustavo Ramos, antigo aluno (Alemão); Silva Teles (Geografia); Agostinho Fortes (História Universal); Oliveira Ramos (História de Portugal); Silva Cordeiro (Filosofia e História da Filosofia); Queirós Veloso, director (Legislação e Organização do Ensino Secundário).

Tendo as Faculdades de Letras de Lisboa e Coimbra, criadas pelo Governo Provisório da República, começado a funcionar no ano lectivo de 1911-1912, pertencia, portanto, à última camada dos diplomados pelo Instituto que D. Pedro V fundara e que aquelas vinham substituir.

Foram de grande proveito os ensinamentos e a orientação que nos transmitiram aqueles Mestres, alguns da mais alta categoria intelectual. Os benefícios recebidos reflectiram-se no ensino, cujos primeiros progressos, verdadeiro revolução nos métodos docentes, se ficaram devendo aos diplomados por aquela Escola.

E, para mostrar que esses benefícios também se fizeram sentir na Literatura, bastará citar os nomes, admirados e respeitadíssimos, dos seguintes alunos: António do Prado Coelho, Damião Peres, Fidelino de Figueiredo, Hernâni Cidade, Vieira de Almeida.

— Quando principiou a interessar-se pela publicação de textos de autores portugueses? Tenciona prosseguir nesse labor?

Comecei a minha carreira de professor no Liceu de Viseu, onde estive desde 16 de Fevereiro a 31 de Outubro de 1916. Transferido para o Liceu de Aveiro, logo esbarrei com uma grande dificuldade ao ensinar Literatura Portuguesa: a falta de textos de muitos dos nossos escritores. Ao alcance do estudioso, pouco mais havia do que os volumes publicados pelo Doutor Mendes dos Remédios na sua colecção dos «Subsídios /página 30/ para o Estudo da História da Literatura Portuguesa».

Ao pôr em ordem, a pedido do reitor Álvaro de Eça, a biblioteca do Liceu, nela encontrei as «Obras Métricas» de D. Francisco Manuel de Melo (1665), que totalmente eram desconhecidas. Com todo o entusiasmo me entreguei ao estudo da parte portuguesa e logo me lembrei de organizar um volume de vulgarização desse autor como poeta, a que pus o título de — «O Poeta Melodino (D. Francisco Manuel de Melo) — Rimas Portuguesas e Orações Académicas» —, que a Companhia Portuguesa Editora, do Porto, me publicou (1921). Trabalho muito pobrezinho, fruto da inexperiência de um professor que na altura apenas tinha cinco anos de serviço...

No entretanto, ia condimentando a minha acção docente com a resultante da criação de um grupo cénico de alunas e alunos, que levaram à cena, em Aveiro e fora de Aveiro, além de teatro ligeiro, peças de Gil Vicente e cenas do Teatro de D. Francisco Manuel de Melo e de António José da Silva.

Em 1924, fui encarregado pelo Doutor Joaquim de Carvalho, administrador da Imprensa da Universidade, de preparar para publicação o texto da edição príncipe das Églogas de Rodrigues Lobo, que vieram a ser editadas em 1928.

Entre este ano e o de 1931, organizei para a «Colecção Lusitânia», da Livraria Lelo & Irmão, do Porto, além do volume intitulado «Poetas do Amor» (Égloga Crisfal, de Cristóvão Falcão; «Marília de Dirceu», de Tomás António Gonzaga, e «Folhas Caídas», de Garrett), os volumes relativas a peças de Gil Vicente, Teatro de Camões, poesias de Sá de Miranda, e «Peregrinação», de Fernão Mendes Pinto (excertos).

Em 1940, preparei para a colecção dos «Clássicos do Estudante», da Livraria Sá da Costa, o volume dos «Historiadores Alcobacenses», e no ano imediato o volume de «Poesias» (selecção), de Filinto Elísio, da Colecção de Clássicos Sá da Costa.

Por ocasião do primeiro centenário da morte de Almeida Garrett (1954), saiu, na mesma colecção, o volume das «Viagens na Minha Terra»; e, a seguir, já depois da minha aposentação, ordenei os quatro volumes das «Obras Completas», de António José da Silva, o «Judeu» (1958).

Finalmente, acabam de ser publicados pela mesma livraria os dois volumes de os «Apólogos Dialogais», de D. Francisco Manuel de Meio — essa notável obra do famoso escritor do século XVII, que pouca gente conhece, pois não é vulgar, há muitos anos, a segunda edição portuguesa, de 1900.

Em resumo: fui naturalmente levado a contribuir para a vulgarização de obras de autores portugueses, primeiro por minha própria iniciativa e depois por generosa incumbência de editores. E assim, qualquer trabalho da mesma natureza que venha a empreender será, dentre os indicados por casa editora, aquele para cuja preparação sinto alguma competência.

— Como estudioso da nossa História Literária, o que se lhe oferece dizer sobre o panorama actual da Literatura Portuguesa, depois de um rápido confronto com outras épocas literárias? E que época lhe parece ter sido mais fecunda?

É geralmente sabido que os períodos de maior relevo da Literatura Portuguesa são o da Renascença e o do Romantismo e Realismo.

Disse-o lapidarmente Fidelino de Figueiredo no seu estudo — «Depois de Eça de Queirós (1900-1933)» —: «Sem a «étape» romântica (1825-1865) e a «étape» realista (1865-1900), a literatura portuguesa seria essencialmente o seu século XVI, ainda mais pelo seu cunho nacional extra-clássico, reflexo da navegação e conquista, que pelo seu acabamento artístico, Gil Vicente e Camões exceptuados. Não bastariam as suas prioridades no lirismo peninsular, a criação do auto, alguns líricos italianizantes, a cooperação na novelística espanhola, a historiografia colonial, os prosadores do século XVII e a gestação da literatura brasileira para remontar as letras portuguesas da modesta esfera académica e erudita. Só os grandes escritores do século XIX a franquearam a todas as correntes de pensamento e sensibilidade, a fizeram instrumento obediente para exprimir todas as emoções e ansiedades, todos os problemas de consciência e prazeres estéticos do homem moderno, que na leitura busca mais a expansão e a aprendizagem da vida que a erudita interpretação de passados mortos. — Essa pujança literária do século XIX é um documento vivo do idealismo português, porque a galeria dos grandes nomes que a compõem brotou de um meio que não oferecia os estímulos compensadores da popularidade e a glorificação de uma crítica interpretadora. —... E foi esta grande literatura — Garrett, Herculano, Camilo, Júlio Dinis, João de Deus, Antero, Junqueiro, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Ramalho, Fialho... — a segunda coisa grande que Portugal realizou no século XIX».

Sem embargo da existência de autênticos valores e da afirmação de cultura da parte da gente moça, acho ainda cedo para se formular juízo seguro e definitivo acerca do actual panorama literário, posto em confronto com os acima apresentados.  

— Nunca se sentiu atraído a escrever obras de ficção? 

Como orientador de grupos cénicos de alunos do Liceu de Aveiro e dado o entusiasmo que sempre tive pela literatura dramática, vi-me arrastado para a elaboração de peças ligeiras, destinadas às festas escolares que organizei ou em que colaborei.

Dessa actividade resultaram bastantes composições, umas que raparigas e rapazes do Liceu /página 32/ exibiram — algumas levadas à cena por organizações escolares de fora de Aveiro —; outras, ligeiras ou de intuitos mais ambiciosos, que não sei se têm algum valor artístico, pois só a ribalta e o público o poderiam averiguar... Uma dessas produções é um episódio dramático que se prende à execução de Gravito e doutros liberais, após a repressão da revolta de Aveiro contra D. Miguel, em 1828, outra, um drama rústico em três actos, no qual se patenteia a miséria a que pela avareza é levado um lavrador rico.

Tenciono publicar, talvez só para amigos e antigos intérpretes de peças minhas, um pequeno volume com algumas das mais típicas produções desse Teatro de amador, já exibidas, ou apenas lançadas ao papel.

— Tem, a respeito de gramáticos e de bibliógrafos, o desdém manifestado por muitos escritores, ou acha-os merecedores da nossa estima?

São já muito antigas as diatribes contra os gramáticos; mas, afinal, não é propriamente contra eles que os ataques se dirigem, pois não há ninguém, embora avesso a regras, que não reconheça a necessidade de se observarem, quando se fala ou escreve, certas normas de linguagem. Os ataques visam a maneira como muitos professores ensinam a gramática: obrigando os alunos a decorar todas as regras; não admitindo que se afastem do que o compêndio regista; considerando, em suma, a gramático, não como meio, mas como fim.

Justificam-se tais críticas e censuras, porquanto a boa pedagogia exige que as regras gramaticais se fixem praticamente, isto é, durante a leitura e interpretação dos bons autores, e que a gramática não seja mais que livro de consulta.

Considero como beneméritos e merecem-me, portanto, todo o respeito e admiração os bons gramáticos e demais linguistas, — que os tivemos desde os primeiros, Fernão de Oliveira e João de Barros, do século XVI, até à actualidade. Igualmente beneméritos são todos quantos nos dão ensinamentos acerca de bibliografia, antiga e moderna, como, entre nós, Diogo Barbosa Machado, autor da Biblioteca Lusitana (séc. XVIII), e Inocência Francisco da Silva, organizador do Dicionário Bibliográfico Português (séc. XIX), que Brito Aranha actualizou.

 

As imagens têm voz Entrevista com Mário Braga Correspondência dos Leitores Três Poemas de William Carlos Williams Rodolfo da Cantuária Crítica literária Carta a Mário Sacramento Considerações gerais sobre "factos" Carta a Luís Francisco Rebello Uma exposição de monotipias de Emanuel Macedo e José Paradela Digesto de Notícias Lembrança de Raul Brandão Ilusões (conto) Entrevista com o Dr. José Pereira Tavares Concerto do Silêncio (crónica) Do infinitamente pequeno ao infinitamente grande Poemas EscamasAsas cortadas Fac-símiles

 

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