F. de Moura Coutinho, Casa solar da Oliveirinha, Vol. X, pp. 243-259.

CASA SOLAR DA OLIVEIRINHA1

A FREGUESIA da Oliveirinha fica nas proximidades de Aveiro, e no seu concelho, e nela está a casa (vinculada até 30 de Junho de 1860) do morgado da Oliveirinha, onde nasceu a 14 de Dezembro de 1834(2) o Sr. Conselheiro José Luciano de Castro Pereira Côrte-Real, filho segundo génito do último morgado, o senhor Francisco Joaquim de Castro Côrte-Real.

Algo irei dizer da genealogia do chefe venerando do partido progressista(3), sem dúvida a primeira individualidade política da lusa praia, onde, mercê de Deus, não faltam estadistas; e ser o testa do rol nesta superabundância, alguma coisa significa.  / 244 /

Vai isto à puridade, que não se traduza por cumprimento bajulador nem por enfileiramento entre os filhos de Passos − pois que para políticas não tenho inclinação.

E do Senhor José Luciano simplesmente acrescentarei pelo dever de genealogista que casou em 1865 com a senhora D. Maria Emília Seabra, filha do distinto jurisconsulto Alexandre Seabra e de sua esposa, a senhora D. Justina Cancela, pessoas do maior respeito que eu (já lá vão trinta e cinco anos) ainda conheci em Anadia.

As senhoras D. Henriqueta e D. Júlia de Castro, que se conservam solteiras, são as filhas, como é sabido, do sr. José Luciano.

O pai deste foi, como já disse, o sr. Francisco Joaquim de Castro Pereira Côrte-Real, vogal da junta governativa de Aveiro em 1845 e presidente da Câmara Municipal da mesma cidade de 1857 a 1858. Pelo seu casamento em 1826 com a senhora D. Maria Augusta de Meneses da Silveira, foi senhor do vínculo da Oliveirinha e ainda dos de Salgueiro, Rabaçal, Fontão e Espinhal. Morreu em 2 de Maio de 1876, deixando os seguintes filhos:

− D. Antónia Augusta de Castro, que foi casada com José Henrique Ferreira, natural de Albergaria-a-Velha, antigo deputado da nação, administrador geral do distrito de Aveiro, cônsul de 1.ª classe, etc. C. g.

− Francisco de Castro Matoso da Silva Côrte-ReaJ, nascido em 23 de Novembro de 1832 na casa da Oliveirinha (da qual foi o herdeiro), par do reino, juiz do Supremo Tribunal de Justiça, do conselho de S. M., etc., etc., que casou em 1856 com a senhora D. Maria José Huet de Bacelar, filha do marechal Silva Pereira. O conselheiro Dr. Francisco de Castro Matoso, já falecido, deixou dois filhos.

− D. Maria de Castro, casada com o Dr. Domingos Manuel Estêvão Pires, de Estarreja, juiz de direito que foi de diferentes comarcas. C. g.

− José Luciano de Castro, já referido.

− D. Ana Amélia de Castro, que casou com o engenheiro João Carlos de Almeida Machado, natural de Aveiro. C. g.

− E, finalmente, o senhor doutor Augusto Maria de Castro, nascido em 22 de Março de 1846, casado com a senhora D. Isabel Maria de Sousa Sampaio, de Cantanhede, com geração, entre a qual o Dr. Augusto de Castro (Dr. Augusto de Castro Sampaio Côrte-Real), deputado da nação em várias legislaturas, dramaturgo, escritor consagrado e distinto jornalista e publicista, que / 245 / casou em 29-7-1905 com D. Maria Emília da Natividade de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon.

Era natural que seguíssemos agora a linha genealógica do pai do sr. conselheiro José Luciano de Castro, mas, como a casa da Oliveirinha veio para a família pela da mãe, tratarei primeiro da ascendência da senhora D. Maria Augusta de Meneses da Silveira, que foi filha e herdeira de António Venâncio da Silveira Matoso e Vasconcelos, fidalgo de geração, senhor da casa da Oliveirinha e dos vínculos atrás nomeados, e de sua mulher D. Maria Albertina Henriqueta Álvares Pereira de Melo.

António Venâncio foi filho de Bento Venâncio da Silveira e Vasconcelos, e este de Romualdo de Almeida da Silveira Matoso.

Até ao 3.º avô do sr. José Luciano quase que segui o que escreveu o Sr. MARQUES GOMES num opúsculo que em 1897 publicou em Aveiro(4), mas agora tenho de deixar a amarra, porque iríamos errados.

Diz o publicista aveirense que Romualdo de Almeida era filho de Bento de Almeida Cabral e de sua mulher D. Isabel da Silva e, seguindo desta uma larga ascendência, vai-lhe buscar a origem em Aires Gomes da Silva, regedor das Justiças e IV senhor de Vagos.

Tudo isto era muito bonito e honroso porque uma procedência da ilustre prosápia dos Silvas é de tentar, mas de verdade tem o pequeno senão de ser falso...

Romualdo de Almeida não era filho de D. Isabel da Silva e, mesmo que o fosse, eu ponho as minhas dúvidas na descendência desta dos senhores de Vagos; era filho da segunda mulher de Bento de Almeida Cabral, de nome D. Joana de Almeida de Figueiredo, como ele próprio o diz na petição que dirigiu ao Santo Ofício (Torre do Tombo, m. I, n.º I, dos processos deste tribunal) para ser admitido como familiar, como efectivamente foi, e obteve carta em 25 de Junho de 1726.

Eis a cópia do documento:

«Ex.º Sr. Diz Romualdo de Almeyda e Sylveira Cavalleiro professo da Ordem de Christo natural e morador no lugar da Oliveirinha freguezia de Santo Izidoro da villa de Eixo, filho de Bento de Almeyda Cabral natural que foi da cidade de Coimbra baptizado na freguezia da Sé e assistente no dito lugar da Oliveirinha, / 246 / aonde falleceu, e de sua mulher D. Joanna de Almeyda e Figueiredo natural da villa de Esgueira freguezia de Santo André aonde foi baptizada e moradora no dito lugar da Oliveirinha todos do bispado de Coimbra, que elle Supplicante he solteiro, e tem grande desejo de servir a Deus e a este Tribunal do Santo Officio na occupação de familiar por se achar com os requizitos para o exercitar. O supplicante he neto pela parte paterna de Luiz Cordeiro Mattozo natural do lugar do Espinhal, freguezia de S. Sebastião, aonde foi baptizado e morador na cidade de Coimbra na rua das Covas freguezia da Sée, e de D. Antonia Soares natural e moradora na dita cidade na Rua das Covas freguezia da dita Sée aonde foi baptizada. E pella parte materna he neto de Sebastião de Almeida Carvalho natural de Moimenta da Beira em cuja freguezia foi baptizado bispado de Lamego e morador na dita villa de Esgueira e de sua mulher D. Maria da Cunha da Silveira natural e moradora na mesma villa de Esgueira freguezia de Santo André aonde foi baptizada. E assim o pay do supplicante como o avô materno foram familiares do St.º Officio. P. a V. Em.ª lhe faça mercê admitir O supplicante para a dita occupação de Familiar do St.º Officio. E. R. M.ce»

Como se vê tem a casa da Oliveirinha de riscar do seu brasão o leão de púrpura dos Silvas e quedar-se com as três faixas vermelhas dos Silveiras, e vá que, se por um lado deixa de contar entre os seus avós os reis de Leão (Froilas, Ordonhos, Bermudas e outros nomes arrevesados), por outro pode derivar a sua estirpe dos Sousas, segundo escreveu o erudito linhagista D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA(5), que também contavam nos seus testas coroadas em abundância.

Romualdo de Almeida da Silveira Matoso foi cavaleiro professo da ordem de Cristo(6), familiar do Santo Ofício − como já disse −, senhor da casa da Oliveirinha e escrivão da câmara de D. Mariana de Áustria, que, como todos estamos cientes, era a esposa daquele bom D. João V a quem a sorte encheu as reais narinas de bom esturrinho e o papo de saborosos ladrilhos de marmelada, afora as horas em que ele refocilava, ora nos macios braços da madre Paula, ora no coro de Odivelas cantando cantochão que era uma delícia ouvi-lo...

Foi talvez com essas lições de solfa que o nosso Romualdo / 247 / houve por bem, num certo dia, marcar o compasso nas costas de um tal António de Oliveira, esforço que lhe ia saindo caro porque na refrega feriu também uma menina e moça, Sebastiana de nome, e vai daí os ofendidos clamarem por castigo do agressor no juízo dos cavaleiros de Cristo; e ele viu-se em trabalhos, e tanto que, para se livrar da negra masmorra, obteve duas provisões de seguro, tendo a última a data de 2 de Março de 1739, como se pode ver na Chancelaria da Ordem de Cristo, livro 206, fIs. 366 v.

Já então o morgado da Oliveirinha devia ter casado, porque em 4 de Junho de 1729 foi aviso à Inquisição de Coimbra de que tinham sido aprovadas as diligências sobre a sua futura, D. Joana Inácia Coroniel.

Coroniel lê-se no documento, mas eu, em boa verdade, não sei se era aquele o apelido, se Coronel, se Connell; o que eu sei é que aquela senhora era filha do desembargador João Coroniel, superintendente das ferrarias de Tomar, e de sua mulher D. Josefa Crispina de Vasconcelos, neta paterna do capitão de mar-e-guerra Estêvão Coroniel, francês de nação, parece que conterrâneo de Lamennais e de Chateaubriand e portanto de Saint-Malo, e de sua mulher D. Maria de Juro (?), natural de Lisboa ocidental, freguesia da Encarnação, e neta materna de Manuel de Lima e de D. Maria Pereira de Vasconcelos, da dita freguesia lisboeta.

Aquele apelido «Juro» de D. Maria deixa-me em dúvidas; aquilo deve ser erro de quem me enviou a cópia dos documentos de onde extraí a notícia, e a D. Maria não era de Juro mas talvez de Jaso, segundo creio.

De Romualdo foram filhos, que eu saiba, o bisavô do sr. José Luciano, Bento Venâncio da Silva e Vasconcelos, de quem já falei, e D. Inês Margarida Coroniel de Vasconcelos, que foi casada com António Veríssimo da Costa Monteiro Rangel de Quadros, 4.º administrador da capela dos Santos Mártires em Aveiro, de quem vem outra progénie ilustre na linda cidade da ria.

Bento de Almeida Cabral, já o disse, era pai de Romualdo de Almeida, foi familiar do Santo Ofício (carta de 28 de Fevereiro de 1692) e senhor da casa da Oliveirinha, parece que pelo seu primeiro casamento com D. Isabel da Silva, filha de João Tenreiro e de sua mulher D. Catarina da Silva, moradora na Oliveirinha; neta paterna de António Delgado e de Isabel Francisca, sua mulher, da vila de Aveiro, e materna de Sebastião da Silva e de sua mulher Isabel Vieira, do lugar da Granja da freguesia de Eixo.

Este Sebastião da Silva fá-lo MARQUES GOMES escudeiro de geração (?) e neto de Aires Gomes da Silva, regedor das Justiças e IV senhor de Vagos; mas repito o que já atrás / 248 / afirmei, que a actual família da Oliveirinha, contra o que escreveu MARQUES GOMES, não vem destes Silvas.

Ainda diz o mesmo publicista de Aveiro que Bento de Almeida casou em 1680 com D. Isabel e que o vínculo da Oliveirinha foi instituído em 13 de Junho de 1719, por ele, que já era administrador de outro no Espinhal(7).

Em 6 de Junho da 1699 foi avisada a mesa da Inquisição de Coimbra de terem sido aprovadas as diligências a respeito de D. Joana de Almeida e Figueiredo, e Bento de Almeida Cabral casou, em segundas núpcias, nesse ano.

Era ele filho do licenciado Luís Cordeiro Matoso e de sua mulher D. Antónia Soares, moradores em Coimbra na freguesia da Sé, neto paterno de Gaspar Cordeiro e de sua mulher D. Ana Matoso, do lugar do Espinhal do bispado de Coimbra, e neto pela parte dá mãe de António Lourenço Soares e de sua mulher D. Luísa Gomes, que também moraram em Coimbra na freguesia da Sé. Este Bento de Almeida tinha uma irmã, D. Maria Soares, que era casada com o lente da Universidade Dr. Manuel Rodrigues do Vale.

D. Joana de Almeida e Figueiredo, a quem alguns documentos também chamam D. Joana da Cunha da Silveira, segunda mulher de Bento de Almeida Cabral e portanto 4.ª avó do senhor José Luciano, nasceu em Esgueira e era filha de Sebastião de Almeida Carvalho, juiz dos órfãos / 249 / em Esgueira, familiar do Santo Ofício, natural de Moimenta da Beira, onde nasceu aí por 1645, e de sua mulher D. Maria da Cunha da Silveira, natural de Esgueira.

Sehastião de Almeida Carvalho era filho de Rui Vaz Pinto de Figueiredo, de Lamego, e de D. Brites Morgado de Almeida, de Moimenta da Beira, irmã de D. Fr. Gabriel de Almeida, bispo do Funchal e revedor do Santo Ofício; neto paterno de Lourenço Cardoso de Meneses, de Lamego, e de D. Violante de Figueiredo, de Sernancelhe, e materno de Sebastião de Almeida Carvalho, também de Moimenta, e de D. Brites Morgado, de Ucanha.

Toda esta gente era nobre e de mui excelente prosápia, e por esta linha vai cruzar a família do senhor José Luciano na do Marquês de Pombal, que tinha um morgado em Sernancelhe instituído pelo seu 3.º avô Sebastião de Carvalho, desembargador do Paço.

A mulher do juiz dos órfãos de Esgueira, já o disse, chamava-se D. Maria da Cunha da Silveira, natural desta vila − que o era então − e foi filha de Nicolau da Silveira Bulhões e de sua mulher, D. Maria Madalena de Araújo; neta paterna do capitão Álvaro Góis Bulhões, senhor de Mataduços, e de D. Isabel de Oliveira e materna de Pedro Godinho Barbosa e de D. Petronilha Baptista de Araújo, todos de Esgueira e de uma linhagem ilustre.

Aquele Pedro Godinho Barbosa, que vinha a ser 7.º avô do senhor José Luciano, era irmão de D. Maria Gomes Godinho, mãe do licenciado Pedro Leitão Pinto, c'apitão-mor de Esgueira, que foi também meu 7.º avô. E assim fica estabelecida a ligação de parentesco que há entre as duas famílias, facto a que já algures aludi.

Mas como não há bonito sem senão, é o caso que estes Godinhos, de Esgueira, tiveram em tempo rumor de judeus (assim consta nos processos dos familiares Agostinho Coelho de Figueiredo, Sebastião de Almeida Carvalho e António Pinto Leitão, no Santo Ofício), mas não se provou e antes passou por calúnia; e de facto, vários destes meus antepassados tiveram cargos no temível tribunal, e entre eles o licenciado Pantaleão Afonso Alfena a quem foi passada provisão de comissário em 29 de Março de 1691.

Os nobiliários da casa vão buscar a origem destes a D. Godinho Fafes, senhor de Lanhoso, «a quem o infante D. Afonso Henriques no ano de 1132 fez doação do couto do mosteiro de Fonte-arcada» e fazem por aí fora um estendal de senhorios, honras, penachos, grandes feitos, santidades e sabedorias que bem se vê que estão a encher alheiras com farelo...

Tudo isso pus de lado, e o que escrevi foi havido em documentos do Santo Ofício, ainda que, da mesma forma, / 250 / mais podia dizer − o que só farei depois de completadas as investigações que trago entre mãos. E sob este critério dou por findas as informações genealógicas respeitantes à linha materna do chefe ilustre dos progressistas.


Vem agora a linha máscula da genealogia do senhor José Luciano.

Já escrevi, mas vi outra vez, que o pai deste estadista foi o sr. Francisco Joaquim de Castro Pereira Côrte-Real e este, por sua vez, foi filho do capitão-mor e juiz dos direitos reais da Vila da Feira, João de Castro da Rocha Tavares Pereira Côrte-Real e de sua mulher D. Antónia Luísa de Matos Côrte-Real, senhores da casa de Fijô na mesma supra dita vila.

Teve ainda João de Castro carta de brasão de armas(8) que lhe foi passada em 2 de Abril de 1813, como consta do Arquivo Heráldico Genealógico do VISCONDE DE SANCHES DE BAENA, págs. 282, n.º 1120.

Em duas palavras vou agora dizer para quem seguiu a casa de Fijô, solar dos Castros.

O capitão-mor foi também pai (além de outros) de António de Castro de Matos Curveira Pereira Côrte-Real que, como primogénito, herdou a casa; teve uma abalizada comenda da Ordem de Cristo e casou com D. Emília de Jesus Lobo Caldas, filha de Antónia Manuel Caldas, da quinta da Porta, freguesia de Tagilde (Guimarães); foi seu filho o bacharel António de Castro Pereira Côrte-Real, antigo deputado da nação, fidalgo da casa real e de cota de armas, 1.º visconde de Fijô, em duas vidas, e pouco depois guindado, só numa vida, a conde, falecido em 19 de Maio de 1905.

O conde de Fijô havia casado com D. Brígida Varela Falcão: filha de José António Varela Falcão, da casa de Paçô, em S. João de Ver, da Vila da Feira, e deste casamento ficaram dois filhos, um dos quais é o actual visconde de Fijô, o bacharel José de Castro Falcão Pinto Guedes Côrte-Real, que casou com a sua parenta D. Maria da Assunção Soares de Albergaria, da casa do Buraco, no Couto de Cucujães.

O capitão-mor João de Castro teve por progenitor um sargento-mor de nome Francisco Joaquim da Rocha Tavares Pereira, que também foi juiz dos direitos reais de propriedade na Feira, e professou na Ordem de Cristo onde foi cavaleiro, casando com D. Violante Luísa Pereira de Castro, filha e herdeira de Manuel Pereira de Castro, senhor da casa de Fijô e do morgado de Sernadelo. / 251 /

E, assim, o apelido Castro e a casa de Fijô foram para esta família pela linha feminina.

Foi pai do sargento-mor Salvador dá Rocha Tavares Pereira Côrte-Real, senhor dos morgados de Castelões, de S. Martinho de Argoncilhe e de Pigeiros, padroeiro «in-solidum» da igreja de Santa Maria de Pigeiros e senhor da quinta e paço de Pereira. Morou em Ovar e casou com D. Ana Maria de Sousa Vareiro e Ávila, filha do desembargador do Porto, Dionísio de Ávila Vareiro e de sua mulher D. Mariana de Sousa Monteiro, pessoas nobres naturais e moradoras na freguesia de Leça de Palmeira.

De Salvador da Rocha foi filho primogénito e, portanto, herdeiro de toda a casa, Manuel Alberto da Rocha Tavares Pereira, que teve brasão passado com as insígnias heráldicas dos Rochas, Tavares, Pintos e Pereiras, em 15-10-1732. Esta carta não a cita SANCHES DE BAENA no seu Arquivo, nem o meu erudito amigo Dr. JOSÉ MACHADO nos Brasões inéditos, mas está o original na mão do meu primo Dr. Álvaro de Moura Coutinho de Almeida de Eça, de Esgueira, que é casado com a actual representante dos morgados de Ovar, Castelões, S. Martinho de Argoncilhe e tal e coisas, honra que não cabe aos Castros da Oliveirinha por descenderem de um ramo segundo génito de Salvador da Rocha, como veremos.

Ides, pois, agora saber para onde se «esgueirou» a representação da casa do morgado Salvador da Rocha Tavares Pereira Côrte-Real, e com muita propriedade emprego o pIebeismo «esgueirar» visto que essa representação foi para Esgueira, unindo-se à casa dos Mouras Coutinhos, dos quais sou humílima vergôntea...

Foi pai, Salvador da Rocha, de nove filhos. Cinco foram muito reverendos abades, monges e beneficiados; mais duas senhoras, D. Mariana Crisóstoma e D. Joana Paula; o sargento-mor Francisco Joaquim da Rocha, bisavô do sr. José Luciano, e, por último, Manuel Alberto da Rocha Tavares Pereira, que foi o primogénito e herdeiro de toda a casa de seu pai.

Casou este em Esgueira com D. Brites Margarida Pacheco Soares de Albergaria, filha de João Gomes Godinho da Fonseca Soares, fidalgo de geração e senhor da casa destes na então vila de Esgueira, e neta de Bento Pacheco Soares, capitão não sei de quê, que em 26 de Outubro de 1688 obteve carta de brasão de armas(9) − e por sinal que este Bento Pacheco era um dos meus sextos avós −. / 252 /

Do morgado Manuel Alberto e de sua mulher D. Brites foi filho primogénito e herdeiro outro Salvador da Rocha Tavares Pereira, que casou, como seu pai, também em Esgueira, com D. Angélica Violante de Sousa Colmieiro de Teles Coutinho, filha e herdeira de Xavier Francisco de Sousa Colmieiro de Teles Távora, fidalgo da casa real, capitão de cavalos, administrador das capelas de N.ª S.ª da Lapa em Condeixa e St.ª Marinha de Alquerubim, do prazo de Alaguela e reguengo de Eixo, etc. e neta de Baltasar de Sousa Colmieiro Teles Távora, fidalgo brigantino (nascido em Bragança em 30 de Abril de 1693) que aí por 1738 foi casar a Esgueira com D. Angélica de Moura Coutinho de Almeida de Eça, senhora da casa supra referida.

De Salvador da Rocha e de sua mulher D. Angélica nasceu o morgado Manuel Maria da Rocha Colmieiro, brigadeiro das milícias de Aveiro, fidalgo da Casa Real, senhor de uma grande casa recheadinha de bons e sucosos morgadios e mais partes por igual substanciais, e que deixou fama de grande valentia e desembaraço.

Folheando a História do Marechal Saldanha, de D. ANTÓNIO DA COSTA, lá se depara a narrativa de alguns feitos do façanhudo brigadeiro. Lembra-me agora um que ouvi contar ao senhor barão de Cadoro, carácter primoroso e um fino cavalheiro aveirense:

Esgueira, como antiga vila, tem um pelourinho: uma coluna torcida sobre um pedestal quadrilátero, encimada com um capitel coríntio, e do entablamento que lhe está sobreposto saem quatro espigões de ferro, tudo de um conjunto agradável e artístico. Como se sabe, um pelourinho representa o padrão das regalias e imunidades das antigas vilas, e Esgueira orgulha-se do seu como um testemunho das suas glórias idas.

Um dia, a câmara de Aveiro lembrou-se − visto que Esgueira já então não passava de uma simples freguesia do seu concelho − de levar para a cidade o pelourinho em questão. Os esgueirenses protestaram, e como a coisa cheirasse um tanto a esturro a câmara sempre lá foi, mas foi levando operários para fazerem a demolição e tropa para o que desse e viesse.

Aparece em Esgueira o ranchinho, e o povo que, repito, estava sedicioso, acobardou-se à vista dos soldados. Já os aveirenses iam deitar mão à obra, quando surge o brigadeiro Manuel Maria que subindo lesto os três degraus do monumento, de durindana em punho a brilhar ao sol, gritou:

− Paga com a vida o primeiro que desrespeite o padrão da minha terra!!!...

Bem se sabia que o homem não era para graças e a edilidade de Aveiro, os operários e soldados, voltaram como / 253 / tinham ido, e o pelourinho ainda hoje se ergue altaneiro numa praça de Esgueira.

Para amenizar, mais outra aventura do brigadeiro Manuel Maria, sempre na mira de mostrar que não era criatura com quem se brincasse.

No volume 7.º, pág. 25, do Portugal Antigo e Moderno, de PINHO LEAL, lá se relata o facto a que me vou referir; no entanto, é bom advertir que o nosso brigadeiro era um liberal de gema e o PINHO LEAL um esturrado partidário do senhor D. Miguel I, e daí a circunstância do escritor aludir ao militar não sem um certo desdém e má vontade.

Já o disse, Manuel Maria da Rocha Colmieiro, era senhor, além de outros, do morgado de Pigeiros, que se compunha − diz um documento, que possuo − do quintão, quinta, paço e do padroado «in solidum» da igreja da dita freguesia, morgadio que foi instituído no 1.º de Outubro de 1494 por Tomé da Rocha, cavaleiro do hábito de Cristo e cidadão portuense, com obrigação de umas certas missas na igreja de S. Francisco no Porto. Parece que estes bens andavam vinculados a uns outros: umas casas no Terreiro e rua da Reboleira, no Porto, e dezasseis casais em Pigeiros.

O morgado de Pigeiros apresentava o abade, que tinha uns 300$000 réis de rendimento, mas em 1834, visto terem deixado de existir os padroados das igrejas, ou direitos de apresentação, apossou-se de várias propriedades dela, alegando que lhe pertenciam. O abade colado de então, à vista do incidente, teve por bem o prudente gesto de deixar a terra...

Foi então para a freguesia, como encomendado, o padre António Caetano Osório Gondim, de Avintes, que também sabia amansar pimponices. Tentou contra o brigadeiro uma causa de reivindicação, gastou nela muito dinheiro, e depois de alguns anos de demandas acabou por vencer. Venceu, mas parece que só depois do bravo Colmieiro ter passado desta para melhor, vá-se dizendo...

E agora a prova de que o nosso herói era temível:

Durante a demanda a igreja foi incendiada, «ardendo tudo quanto estava dentro, sem nada se poder salvar», diz o PINHO LEAL, e acrescenta que o fogo foi posto, visto que principiou por várias partes, tendo as portas sido previamente ensopadas em aguarrás.

Como se está a ver, foi o que se chama uma tentativa de corte do mal pela raiz!

Havia casado, Manuel Maria da Rocha Colmieiro, com D. Maria Emília Leite Pereira de Berredo, da família do brigadeiro José Pereira da Silva Leite de Berredo, um dos revoltosos de 24 de Agosto de 1820, cuja vera-efígie podeis admirar a pág. 505 do 2.º volume da História da Revolução / 254 / de 1820, de JOSÉ DE ARRIAGA, e da genealogia dele, se vos apraz, podeis tomar sucinto conhecimento a páginas 200 e seguintes da Descrição topográfica de Vila Nova de Gaia, de MONTEIRO DE AZEVEDO, acrescentada por MANUEL RODRIGUES DOS SANTOS, edição de 1861.

Deste consórcio veio ao mundo D. Antónia Jesuína da Rocha Colmieiro, herdeira da casa, que casou com o seu primo João de Moura Coutinho de Almeida de Eça, doutor de capêlo na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (12 de Fevereiro de 1843), reitor por muitos anos no liceu de Aveiro, fidalgo da Casa Real, etc., e destes nasceu em Esgueira, a 22 de Junho de 1854, a actual representante e senhora da casa, D. Antónia da Rocha Colmieiro de Moura Coutinho, que em 2 de Setembro de 1876 casou com seu primo co-irmão Álvaro de Moura Coutinho de Almeida de Eça, bacharel formado em Direito, professor e reitor do liceu de Aveiro e abastado proprietário, filho do conselheiro Bento Fortunato de Moura Coutinho de Almeida de Eça, general de divisão, em cuja carreira seguiu a arma de engenharia, antigo director geral das Obras Públicas e Minas, etc., etc.

Chega o momento de volvermos ao morgado Salvador da Rocha Tavares Pereira Côrte-Real, de quem foram progenitores Manuel Tavares da Rocha Pereira, senhor da casa dita, e sua esposa D. Maria de Matos Soares da Fonseca (por quem veio o apelido Côrte-Real para a família, visto que esta dama era bisneta de João Nunes Cardoso Côrte-Real, senhor do Gafanhão, filha de Salvador de Matos Soares, nobre de Ovar e familiar do Santo Ofício, e de sua mulher D. Mariana de Pinho da Fonseca.

Na igreja matriz de Ovar, ao lado da capela do Senhor da Agonia, estão gravados estes dizeres numa pedra da parede:

«Esta capella é de Salvador de Mattos Soares e de seus herdeiros. Mandou fazer seu filho o prior de Carregoza. Anno de 1670».

Em frente do altar da mesma capela está no chão uma sepultura brasonada com epitáfio que não me foi possível ler por estar em parte coberta pelo degrau.

No alto do retábulo vê-se um brasão bipartido com as armas dos Soares de Albergaria e outras que me pareceram as dos Matos.

Acrescentarei que aquele prior da Carregosa citado acima se chamava Teodósio de Matos.

Está-me parecendo que não cairei em pecado mortal deixando de escodear a progénie destes Matos Soares até / 255 / um certo Pedro de Assentar Soares, fidalgo de Entre-Douro-e-Minho, filho de Lopo Vaz Soares, que nas Terras de Santa Maria, ou da Feira, firmou os alicerces desta casa.

Seja assim e basta então que, ainda nesta etapa, refira que Manuel Tavares da Rocha Pereira e D. Maria de Matos foram pais, além do Salvador ,em que falei, de Francisco Matos, abade de Pigeiros por apresentação de seu irmão, Manuel de Matos Soares Tavares, beneficiado, e quatro senhoras, das quais duas foram servas de Deus em S. Bento do Porto, uma, D.Violante, sem mais notícias por agora, e outra, D. Joana, que casou com Diogo Leite Cabral, fidalgo de Arouca, com geração bastíssima.

− Francisco Tavares da Rocha Pereira e sua mulher D. Maria Lobato Godinho, moradores na sua quinta de Argemil, na ,antiga comarca da Maia, foram os progenitores de Manuel Tavares da Rocha Pereira e, portanto, salvo erro, quintos avós por varonia do senhor José Luciano.

Francisco Tavares foi senhor dos morgados de Castelãos e de Pigeiros, e sua mulher trouxe para a casa o de S. Martinho de Argoncilhe, instituído em 1613 pelos seus avós paternos Domingos Godinho Homem e sua mulher D. Isabel do Carvalhal Ferreira.

Foram irmãos do morgado Manuel Tavares da Rocha Pereira: António Tavares Pinto, mestre de campo no condado da Feira e familiar do Santo Ofício (Torre do Tombo, m. 20, dilig. 606); Roque Pinto Lobato, frade franciscano; André Homem, lente jubilado na religião beneditina e em 1717 abade de S. Bento, no Porto; mais um frade; duas freiras para contrapeso e ainda três meninas que morreram novas.

Aquele mestre de campo deu-se à trabalheira de tirar várias inquirições por onde mostrou que na sua família «ouverão Maltezes, Commendadores e Agentes da Curia Romana», diz um documento que aqui tenho...

De Francisco Tavares da Rocha Pereira foi pai Manuel Tavares da Rocha Pereira Pinto, senhor e administrador dos morgados de Castelãos e do de Pigeiros que, parece, «herdou por ser o parente mais próximo pela geração do instituidor e família dos Rochas»; viveu no Porto e foi casado com D. Marta da Cunha, filha de Jorge da Cunha e de sua mulher D. Madalena Nogueira.

Por sua vez este Manuel Tavares era filho de Francisco Tavares Pinto Pereira, senhor do vínculo de Castelãos, e de Margarida da Rocha, sua mulher, moradores no Porto, de quem a seguir falarei.

SANCHES DE BAENA no Arquivo heráldico-genealógico, escreveu que o apelido Rocha é de grandes senhorios e de ilustres casas na França, Castela, Aragão, Galiza, Nápoles e / 256 / na Hibérnia, e que da mesma forma os achamos em Portugal sem que se saiba de onde são oriundos, dizendo JOSÉ FREIRE MONTARROIO que já encontrou este apelido em documentos coetâneos de D. João I. Num calhamaço manuscrito que figura na minha estante, de nome Armeiro da nobreza em Portugal, diz o seu autor, JOSÉ MARQUES DA SILVA, ex-cátedra, que os Rochas são franceses, que fizeram assento em Viana e que já no ano de 1126 se acha Arnaldo da Rocha como companheiro de D. Gualdim Pais...

Mas estes de quem estou tratando têm o seu cipo num simples e modesto dourador. Com isto, claro, não quero menoscabar as tradiçães nobres de uma família que respeito e com quem mesmo estou ligado por diversos laços de parentesco. Enxertias destas, que nada deslustram e hoje nada significam que mereça reparo, há-as em todas, em todas as árvores genealógicas por mais besuntadas que estejam com o verniz da fidalguia...

Mas vamos ao caso.

Pedro Anes, dourador e morador na invicta cidade, casou com Isabel Fernandes e a eles emprazou o mosteiro de Santo Tirso o casal de Argemil, junto ao referido mosteiro, em 1528 «como tudo consta do cartório que vi», escreveu o Dr. ALÃO DE MORAIS (Sedatura Lusitana-Hispânica, ms. 321 da Biblioteca Municipal do Porto). De Pedro Anes engalhou Leonarda da Rocha e desta António da Rocha Vilela, s. g., e Margarida da Rocha, mulher de Francisco Tavares Pinto Pereira, como dito é.

Nestas famílias antigas houve quase sempre um frade rábula e trapaceiro que desenterrava e cronicava farófias nobiliárquicas da casa, e aos Rochas Tavares não faltou, mercê de Deus. Foi ele um padre prior, Fr. JOSÉ DE SANT'ANA, monge bento, filho de Salvador da Rocha Tavares Pereira Côrte-Real e de sua mulher D. Ana Maria de Sousa Vareiro e Ávila, criaturas de quem falei algumas páginas atrás.

Vai-se agora ver como o caso do dourador lhe causou engulhos e como lhe ficou atravessado na sua «prezumsão»... Escrevia ele para o irmão, o morgado Manuel Alberto:

«O livro 3.º do Reçibo (?) se não pode ler, por má letra. No 4.º a fl.ª 35, anno de 1558, se acha no prazo de Argemil o seg.te Emprazo a vós Margarida da Rocha p.ª vos como p.ª pessoa, e q. vos possais nomiar a seg.da e a seg.da q. possa nomiar a 3.ª de maneira que sejão 3 pessoas q. não sejão de maior condisão, o nosso cazal de Argemil, o qual cazal trazia por titollo e prazo Pedro Annes dourador e sua Mulher, vosso Avô e Avó, q. foi 3.ª pessoa no do prazo vossa Mai Leonarda da Rocha, q. vos renunçiou a 3ª d.ª isto he a forsa do prazo. Inda / 257 / não tive ocasião de ver o tit. de Fran.co T.res em o vendo avisarei. Inda q. a palavra dourador dizem os reçebedores (?) seria apellido, contudo por q. não venha tempo em q. disso fassão misterio, na carta que me escrever, diga, q. quanto ao reparo q. eu fiz dessa palavra vendo a inquirição de Thomé da Rocha, acha nella q. P.º Annes lhe chamavam dourador por apellido, e não q. tivesse officio porq. hera pessoa da p.ra nobreza do Porto p.ª desvaneçer a prezumsão q. pode aver......»

Agora noutra:

«Achei q.m me lesse no livro 3.º dos prazos as folhas do prazo de Argemil, intitulado da capella, e diz assim: A vós P.º Annes dourador em prim.ra vida e a vossa m.er Izabel Fernandes e a hum f.º ou f.ª e não o avendo a huma pessoa q. o prim.ro de vós quizer nomiar em sua vida ou a hora da morte, q. não seja de maior condição q. vós...» etc.

E depois recomenda:

«...guarde para si estas clarezas q. não venha tempo em q. com ellas se nos retruque...»

Pois aqui ficam as «clarezas» com as tripas ao sol, por muito que custe à alma do troca-tintas do frade!

O que eu não sei explicar é como passou para o filho da Margarida da Rocha o morgado de Pigeiros, instituído por Tomé da Rocha.

− Francisco Tavares Pinto Pereira, agora na berlinda como ficou anunciado, era filho de Jerónimo Tavares Pereira, cavaleiro fidalgo, e de sua mulher D. Maria Pinto, dos Pintos de Paramos.

O Jerónimo, que viveu na sua quinta da Amoreira em Cambra, foi filho de Francisco Tavares, também cavaleiro fidalgo, instituidor em 1545 do morgado de Castelãos na sua capela de Nossa Senhora da Graça da igreja daquela freguesia de Castelãos de Cambra, e de sua mulher D. Maria Pereira, que uns fazem filha de Braz Pereira, homem fidalgo e primo do conde da Feira(10), e outros de D. Manuel Pereira, conde da Feira(11). / 258 /

Ainda há outras opiniões, mas para confusão já basta. Segundo uma vez me contou, se bem me lembro, o senhor marquês de Castelo Melhor, o conselheiro Francisco de Castro Matoso, fundando-se naqueles documentos que dizem que a sua nona avó era filha do 3.º conde da Feira, pretendeu para si a renovação deste título, que está extinto; mas a tal se teria oposto alguém da família dos viscondes de Vila-Nova do Souto de El-Rei, dizendo que eram eles os representantes daquele ramo dos Pereiras, e portanto a eles caberia a renovação do título. Mas adiante.

O instituidor do morgado de Castelãos, Francisco Tavares de nome, foi filho de D. Isabel Tavares «que casou com «João de Cabanas por namoro, contra vontade de seu Pay, porque este João de Cabanas era escudeiro da casa de Ruy Pereira chamado o Conde Pay do 1.º Conde da Feira D. Diogo Pereira(12) e era de inferior família de hum Lugar da Serra chamado Cabanas donde elle tomou o Apelido; já no tempo do dito casamento o tinha feito o mesmo Conde tomar o hábito de Christo, e lhe queria muito, principalmente pelo valor com que se houve na pendencia que o dito Conde teve com o Conde de Marialva, e como o dito Conde da Feira era oposto ao dito João Annes Soares(13) por este em nada lhe querer ceder solicitou meyos para o mesmo casamento não so por vingança ao mesmo mas para acomodar bem ao dito João Cabanas; morou na quinta do Ramalhal de Castelãos que era sua, e alguns dizem que o dito Conde lha dera o que parece ser falso por ser de natureza de praso de vidas de que são diretas senhoras as freiras de Arouca», prosa esta que textualmente copio de um manuscrito genealógico que pousa na minha mesa de trabalho.

Do Cabanas e de D. Isabel (que tiveram sete filhos) vem larga prole de entre a qual os Noronhas da quinta da Prelada, junto ao Porto, e os condes de Alentém, mas não vale metermo-nos nessa meada senão teríamos muito que nos alongar.

D. Isabel Tavares era filha de uma D. Maria do mesmo apelido, mulher de João Anes Soares, que outros também chamam Julião Soares, «Fidalgo da Casa Real m.to rico e «apotentado no concelho de Cambra aonde tinha varias quintas, / 259 / [Vol. X - N.º 40 - 1944] q. ao depois se repartirão em seus descendentes; morou na quinta do Outeiro da freguezia de Castelãos do concelho de Cambra, − não consta de q.m era filho mas sim que era da familia dos fundadores de Grijó e Tio de D. João Soares, Bispo de Coimbra», diz-nos o sobredito manuscrito.

Pelo que respeita à D. Maria Tavares não sabem os linhagistas, pelo menos os que consultei, de quem ela era filha, mas dizem as cartas de brasão passadas aos Castros, citadas anteriormente, bem como uns nobiliários da casa, que vinha dos senhores de Mira e Pescados de Aveiro.

Bragança, 1910.

FRANCISCO DE MOURA COUTINHO

 

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE

A noticia que acaba de se ler é um extracto da parte substancial de uma série de folhetins que, sob o mesmo titulo, meu Pai publicou no "Jornal de Bragança", semanário bragançano, nos números 5 a 9 e 11 a 16, de 23 de Março a 8 de Junho de 1910. Sobre esses folhetins escreveu ele depois um livro com o mesmo titulo, que se conserva manuscrito. Esse livro com bastantes notas, adições e algumas correcções não está presentemente em meu poder. Emprestei-o para que dele se tirassem algumas notas genealógicas para um «In Memoriam» do Senhor Conselheiro José Luciano de Castro, e, pela conveniência de se publicar agora este original, não tive tempo de solicitar a sua restituição.

(Nota de FILIPE GASTÃO DE MOURA COUTINHO)

_________________________________________

(1)Ver observação no final do artigo.

(2)Recolho a data de um biógrafo, não sei se está certa. − Nota do Autor.
Parece, de facto, que não está certa. No "Diário Popular", em um artigo publicado recentemente, da autoria do ilustre escritor Senhor ROCHA MARTINS, lê-se o seguinte:

«O próprio conselheiro José Luciano de Castro, o disse numa entrevista concedida a Luís Morate publicada no Heraldo, de Madrid, em 1907. «Entrei na política militante em 1854. Fui pela primeira vez deputado aos dezanove anos, notando que a Constituição exigia como idade legal para pertencer ao Parlamento a dos 21. Mas naquele tempo não havia registo civil, que cá foi estabelecido mais tarde, em 1862, e nos registos paroquiais eu figurava como tendo nascido em 1833 e não em 1835, verdadeira data da minha vinda ao mundo. Meu pai, pertencente a uma antiga família, gozava de um certo número de privilégios, não sendo o menor o direito a uma capelania que lhe permitia ter um capelão em sua casa. O capelão facultou-me o meio de entrar no liceu e depois na Universidade e aos dezanove anos eu era advogado e legislador». − Nota do compilador, FILIPE DE MOURA COUTINHO.

O assento exarado no livro de baptizados da freguesia de Eixo, arquivado no Arquivo da Universidade de Coimbra, declara que o nascimento se deu a 14 de Dezembro de 1834 (fI. 371). A certidão com que se matriculou na Universidade apresenta, porém, José Luciano como nascido a 29 de Setembro de 1833... (Nota de ROCHA MADAHIL). 

(3) −  Note-se que o original de onde se extrai esta noticia foi escrito em Março de 1910. (F. de M. C.).

(4)Memórias histórico-genealógicas da casa e solar da Oliveirinha, por MARQUES GOMES. Aveiro, Minerva Central, 1897.

(5)Mem. hist. gen. dos Grandes de Portugal, pág. 440.  

(6)Alvará de 9 de Março de 1724.

(7)Posteriormente ao estudo de MOURA COUTINHO, foi a história da instituição do vinculo da Oliveirinha revista pelo distinto genealogista Sr. Dr. ALFREDO VIEIRA MATOSO; sabedor de que as suas conclusões, documentalmente baseadas, divergiam das de MOURA COUTINHO, daquele nosso ilustre amigo solicitámos elementos que permitissem esclarecer melhor o leitor. É essa, portanto, a origem e a razão da nota que a seguir se publica e que neste lugar reconhecidamente se agradece (ROCHA MADAHIL):

O vinculo da Oliveirinha foi instituído por testamento do Desembargador Luís Matoso Soares, Cavaleiro da Ordem de Cristo, Desembargador dos Agravos e Corregedor do Crime na Corte, irmão inteiro de Bento de Almeida Cabral, testamento que se acha registado a fl. 139 do Livro n.º 102 do Registo de Testamentos.

Luís Matoso Soares, solteiro, faleceu em Lisboa, defronte da Igreja do Sacramento, e foi enterrado na Igreja do Carmo, e chamou para o vinculo a um filho natural, também de nome Luís Matoso Soares, e na sua falta, a seu irmão Bento de Almeida Cabral, que nomeou também seu testamenteiro.

Como aquele seu filho tivesse sido morto em Coimbra, com um tiro, quando estudante, pelo motivo de tentar reconhecer um homem que de noite passava junto à sua casa, acompanhado de uma mulher, veio a ser o Bento de Almeida Cabral o 1.º Administrador do vinculo da Oliveirinha. A este sucedeu seu filho Romualdo de Almeida da Silveira Matoso. (V. fls. 28 e 29 das «Noticias Genealogicas de tudo o que toca aos filhos do Bacharel Francisco da Silva Mattoso, da Vila de Soure, pelo P.e AGOSTINHO AURÉLIO DE MATTOS, Clérigo do Hábito de S. Pedro e Beneficiado da Igreja de S. Tiago de Soure. − Ms. principiado em Janeiro de 1744, indicado sob o n.º CMLIX, do vol. 3.º da Bibliografia Nobiliárquica Portuguesa, de EDUARDO CARCAVELOS)».

(8) Escudo esquartelado, no primeiro quartel as armas dos Rochas, no segundo as dos Tavares, no terceiro as dos Pereiras e no quarto as dos Castros. 

(9) Escudo esquartelado com as insígnias heráldicas dos Soares e Fonsecas, de cuja geração vinha. Vide Brasões inéditos do Dr. JOSÉ MACHADO, n.º 91, pág. 30.  

(10) Carta de brasão passada em 1732 a Manuel Alberto da Rocha Tavares Pereira, já citada.

(11) Veja-se o Arquivo Heráldico-genealógico de VISCONDE DE SANCHES DE BAENA, págs. 281 e 282, brasões n.os 1119 e 1120 passados ao bacharel João de Castro da Rocha Tavares Júnior e a seu pai João de Castro da Rocha Tavares Pereira Côrte-Real.

(12) Segundo D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA (Hist. Gen. da Casa Real, tomo 3.º, pág. 28) D. Afonso V fez conde de Moncorvo a Rui Pereira, porém ele quis intitular-se conde da Feira e os linhagistas contam este como o primeiro. D. Diogo Pereira foi feito conde da Feira por mercê de D. Manuel em 2 de Janeiro de 1515.

(13) Sogro do Cabanas. Logo falaremos dele.

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