A. G. da Rocha Madahil, Representação de 1893 sobre dragagens, Vol. XIV, pp. 119-122

A «REPRESENTAÇÃO APROVADA NO COMÍCIO QUE

EM 3 DE ABRIL DE 1893 SE REALIZOU NA CIDADE DE AVEIRO

COM O FIM DE PEDIR O ESTABELECIMENTO DE UM SERVIÇO

DE DRAGAGENS NA RIA DA MESMA CIDADE»

O ESTUDO que por intermédio do Arquivo do Distrito de Aveiro de novo se oferece, nas páginas que seguem, à curiosidade dos estudiosos e à meditação de quem tem a seu cargo a responsabilidade da orientação dos problemas económicos da Região, é mais uma das grandes raridades da bibliografia aveirense que vimos reeditando em homenagem ao Distrito.

Tão desconhecido que nem em citação meramente bibliográfica nos poucos escritores que a estudos desta natureza têm aplicado a sua atenção ele se encontra, constitui, não obstante, o mais ponderado relatório dos problemas capitais da Região em função da Ria, e não apenas em relação ao tempo em que foi escrito − 1893.

De facto, elaborado sobre perfeito conhecimento técnico da Região e do complexo jogo de forças naturais que a domina e incessantemente transforma, as causas da progressiva ruína da Ria aí se encontram delineadas, e previstas as suas consequências para a economia da Região.

Hoje, como há 55 anos, o problema é o mesmo, e iguais também as linhas gerais do plano a pôr em prática para contrariar a assustadora marcha do mal. / 120 /

Se deplorável era o estado em que se encontrava a Ria em 1893, no dizer da Representação que aos Poderes Públicos angustiosamente se dirigia, deplorável o é igualmente na actualidade, agravado mesmo em relação àquela data pela forma e nas proporções que à comezinha observação de todos claramente se apresentam.

O assoreamento da Ria domina a Região com a fatalidade do inevitável; várias causas para ele concorrem: os desgastes arrastados pelo Vouga e mais cursos de água, as areias das dunas que os ventos incessantemente projectam na laguna, e as que a acção avassaladora das marés introduz na Ria através da barra.

Decaimento das pescarias no estuário, progressiva escassez de moliços, dificuldade de obter águas com o grau de salinidade indispensável ao fabrico de sal em boas condições, inconvenientes de gravidade para a saúde pública pela falta de movimentação das águas, são as naturais consequências do progressivo assoreamento, evidenciadas em 1893 e mantidas e agravadas até nossos dias.

A moção aprovada no comício público realizado em 3 de Abril daquele ano para se pedirem providências ao Governo propunha, como meio de sustar o gravíssimo progresso de tamanho mal, o estabelecimento dum serviço metódico de dragagens na Ria e exaltava a arborização intensa, das margens e dunas.

São as soluções clássicas, então como agora, e ambas largamente compensadas pela riqueza a que dão lugar, quer pelo estabelecimento de valiosas matas, bem exemplificada no modelar revestimento das dunas e gândaras de Mira à Gafanha, quer pela adaptação dos areais à cultura cerealífera mediante a correcção do solo por meio dos lodos e dos moliços, fonte da prosperidade das Gafanhas que todos conhecemos, quer, ainda, pelo fomento das indústrias da pesca, de produtos químicos, de conservas de peixe, de criação de gados e seus naturais derivados, não falando já na maior facilidade de comunicações, barateamento de transportes fluviais, e fomento turístico, muito para considerar.

O problema tem perfeita actualidade e o programa proposto necessita apenas de adaptação ao preçário de agora e aos novos processos de trabalho e de transporte que o progresso técnico tem introduzido de então para cá.

O resultado prático compensará largamente, em serviço valioso prestado ao esclarecimento do mais cruciante dos problemas locais, o tempo dispendido na elaboração dos novos cálculos e na planificação total do programa para agora. / 121 /

Quando, porém, assim não fosse, ainda esta reimpressão e a consequente revisão do problema se justificavam plenamente como verificarão dos honestíssimos processos de estudo e de trabalho, de dedicação inteligente e criadora, dessa gloriosa geração aveirense do final do século passado, a que já noutro lugar prestámos a nossa homenagem de absoluto respeito e de incondicional admiração(1).

Não ocorreu talvez ainda aos aveirenses de hoje a realização duma grandiosa sessão pública onde o esboço da história local desde 1850 até à actualidade fosse apresentado nas suas linhas gerais, para seguidamente se fazer desfilar, em evocação pormenorizada, essa gloriosa teoria de estudiosos e de realizadores a quem a cidade de hoje tudo deve, como dedicadíssimos precursores que foram das efectivações actuais, dignas de absoluta consideração.

Não desejamos citar nomes; mas sem dificuldade se recrutariam ainda em Aveiro pessoas de incontestável prestígio e de provada capacidade realizadora que directamente conheceram essa grande geração, em número suficiente para entre si repartirem a grata tarefa dessa memorável sessão evocativa e resgatadora da triste e feia indiferença em que tudo hoje em dia − homens e coisas, instituições e acções, que brilharam e foram grandes − está caindo e se vai apagando.

O Arquivo do Distrito de Aveiro daria lealmente todo o apoio à realização de tal homenagem e colocaria a sua organização ao serviço duma comissão que se dispusesse a corporizá-la, como indispensável se tornaria.

As páginas da Representação que se seguem apareceram em público sem nome expresso de autor e unicamente como produto do comício onde o problema publicamente se debateu(2). Assinam-nas o Presidente da Mesa, Casimiro Barreto Ferraz Sacchetti, e os dois Secretários, Edmundo de Magalhães Machado e José Maria de Melo de Matos.

Qualquer destes dois últimos as poderia ter escrito, que lhes não faltava capacidade nem dedicação à terra; terão sido até, possivelmente, obra comum; certas formas de expressão, porém, a especialização do Engenheiro Melo de Matos, e o facto de ter sido este quem ofereceu, em dedicatória toda de seu punho, e em nome da Comissão promotora do Comício, o exemplar (hoje propriedade / 122 / nossa) destinado ao Governador civil à data, Visconde de Balsemão, inclinam-nos a atribuir, de preferência, ao último signatário, a autoria da Representação tal como apareceu em público; lealmente sujeitamos, todavia, esta atribuição à correcção de quem disponha de elementos mais decisivos para a elaboração do definitivo verbete bibliográfico e para a outorga da autoria deste notabilíssimo projecto de valorização regional que importa ter sempre presente a quem se proponha interferir na orientação da economia da vasta zona dominada pela Ria de Aveiro.

A. G. DA ROCHA MADAHIL

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(1)No prefácio da reimpressão que em 1947 fizemos da Exposição alusiva à Ria de Aveiro, do Engenheiro MELO DE MATOS (sep. do Arquivo do Distrito de Aveiro; Coimbra, 1947; 24 págs.).

(2)Aveiro, s. tip., 1893; 11 págs. 326 x 232 mm. 

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