David Paiva Martins, Aradas. Um olhar sobre a segunda metade do século XX. 1ª ed., Aradas, Junta de Freguesia de Aradas, 2011, págs. 25 e 26.

CIRCUITO CICLISTA DE ARADAS

No domingo seguinte ao da famosa Romaria de Nossa Senhora das Dores, que então o Major Lebre realizava, em Verdemilho, no primeiro fim-de-semana de Setembro após o dia 8 (4), a Casa do Povo de Aradas organizava anualmente o Circuito Ciclista de Aradas.

Cada edição constava de duas provas: uma, de seis voltas ao circuito, destinada a Populares, ou seja, atletas não federados; outra, de oito voltas, reservada a Amadores, ou seja, atletas já filiados na Federação Portuguesa de Ciclismo, na categoria de Amadores. À época, a categoria oficial mais elevada dos nossos ciclistas era a dos chamados "Independentes".

A primeira edição do circuito ocorreu em 1950. Seguiram-se outras, durante cerca de 10 anos. A Junta de Freguesia oferecia sempre uma taça de prata, que constituía normalmente o primeiro prémio da categoria de Amadores.

As provas decorriam num percurso com a extensão de cerca de 10 quilómetros por volta. A meta era em Verdemilho, na Rua Capitão Lebre, defronte da Sede da Junta de Freguesia. Os corredores partiam daí para a Rua Dr. Alberto Souto, no Bonsucesso e Rua dos Louros, até ao entroncamento com a Rua Direita, na Quinta do Picado. Voltavam então à esquerda, para o lado de Aradas, e seguiam pela Rua Direita até ao Eucalipto. Aí entravam na EN 109 e seguiam para Verdemilho. No cruzamento, onde agora existe o Restaurante Bota Fogo, voltavam de novo à esquerda, para a Rua Capitão Lebre, por onde seguiam até à meta.

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O Circuito Ciclista de Aradas constituía uma grande festa popular, com enorme adesão de gente de todas as redondezas. Alias, à época o ciclismo era um desporto de massas, que rivalizava com o futebol. Nome grande era o de Alves Barbosa, o popular Tó, ciclista do Sangalhos Desporto Clube – que na época tinha uma grande equipa, que integrava, entre outros, Simões Louro e os irmãos António e Antonino Batista. Alves Barbosa foi o primeiro ciclista Português a correr a Volta a França. Ficou em lugar de honra – o décimo. Só Joaquim Agostinho, anos mais tarde, conseguiu fazer melhor.

A certa altura surgiu outra grande promessa: Ribeiro da Silva, que representava o Clube Académico do Porto. Era enorme a rivalidade entre ele e Alves Barbosa – e ainda maior entre os adeptos de um e do outro. De tal jeito que, na última etapa duma Volta a Portugal, que terminaria no Porto, quando Alves Barbosa era o camisola amarela, os adeptos de Ribeiro da Silva fizeram-lhe uma espera em plena estrada, nos Carvalhos, agrediram-no e fizeram-no atrasar para perder a Volta para o seu adversário! Essa rivalidade doentia só não durou muito tempo porque Ribeiro da Silva morreu, de forma inesperada e prematura, num acidente de moto.

Pelo Circuito Ciclista de Aradas, embora modesto, passaram em início de carreira corredores que mais tarde, como Independentes, vieram a ser famosos: entre outros, recordo os nomes de João Alves Barbosa, primo do ró, que mais tarde também correu no Sangalhos, e alguns corredores do Bombarralense como Afonso Henriques, que depois representou o Benfica, ou José Lourenço Calquinhas, e sobretudo Pedro Polainas, que vieram a ser famosos corredores do Sporting.

O aumento do número de automóveis, com o inevitável crescimento de trânsito, tornou impossível fechar-se o trajecto durante grande parte duma tarde de Domingo para que o Circuito Ciclista se pudesse realizar. E, portanto, ele acabou naturalmente.

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(4) – MARTINS, David Paiva, Fragmentos de Vida - A Minha Terra, 2005, ACAD, pgs. 147/148.

 

 
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