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João Paulo Freire e Carlos de Passos, Mafra, Col. Monumentos de Portugal, nº 1, Porto, Ed. Litografia Nacional, 1933

FUNDAÇÃO DO PAÇO-CONVENTO

Galas de um dos mais imponentes monumentos, quer nacionais quer da Europa, ostenta o de Mafra, embora lamentavelmente decrescidas e amesquinhadas por brutas e mofinas vicissitudes. Saques – dos piores o provocado pela transferência da família real para o Brasil –, abandonos, senão desprezos, alguns manifestos por forma ignara e arrepiante, más aplicações(1), numa sanha ferrenha o têm hostilmente experimentado. De abrigo de frades passou o convento para caserna de soldados.

O critério deste aproveitamento revela bem o valor da mentalidade governativa e mais uma vez põe à meditação o alojamento dos estabelecimentos públicos. Qual seria ele se os frades não tivessem erguido os seus conventos?

Para agravo de tais males, que activamente lhe suscitaram o degradamento sumptuário e lhe originariam a ruína, salva pela robusta solidez da estrutura, surgiu contra essa magnifica obra a malquerença geral, fomentada tanto pelo escasso intelecto da maioria, alheia à compreensão do seu valor artístico, como por abjectas especulações políticas, que sempre arguiram D. João V, num juízo histórico de beócios, de déspota megalómano, mercê das suas ingentes despesas e das férreas condições com que, num período, se trabalhou no monumento.
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Espíritos superiores, até, não souberam rejeitar o influxo dessa lenda injusta de louca dissipação – a lenda dos tesouros desperdiçados por João V(2) – e contra Mafra iniquamente dardejaram rijos doestos.

Ainda que, porém, fosse real, devíamos perdoar-lhe o erro em atenção às vantagens artísticas da obra resultantes e do engrandecimento dos bens de arte da grei, tanto mais quanto, na verdade, nos sentimos lisonjeados a valer com a sua existência.

Muitos pela magnificência, em contraste com a pobreza do país, vituperaram o monumento, deslembrados, é claro, do quanto foi profícua e óptima escola de canteiros, arquitectos e escultores e vivamente fomentou o gosto das artes, em mísero declínio; outros por maldade simples e má-fé ignara o detraíram; por inveja alguns estrangeiros dele desdenharam. Por vezes, facto singular, em manifesta incoerência caíram os julgadores. Registem-se algumas opiniões como provas do valor crítico.

Ironicamente lhe chamou Camilo pia parvoíce; Pinheiro Chagas, numa retórica funérea, classifica-o de grande cadáver; reputa-o como fanfarronada de pedra e cal o padre-mestre Pinho Leal.

Para A Arte, de 1879, não passava duma enormidade indigesta, dum tentamen do colossal desabando no monstruoso. Rígido no seu julgamento, impregnado de romantismo, desta guisa Antero de Quental o deprecia(3) «...lúgubres moles de pedra, que se chamam Escorial e Mafra, para vermos que a mesma ausência de sentimento e invenção, que produziu o gosto pesado e insípido do classicismo ergueu também as massas compactas e friamente correctas na sua falta de expressão da arquitectura jesuítica. Que triste contraste entre essas montanhas de mármore, com que se julgou atingir o grande, simplesmente porque se fez o monstruoso, e a construção delicada, aérea, proporcional e, por assim dizer, espiritual, dos Jerónimos, da Batalha, da catedral de Burgos».
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Por monstruosidade hierática o caracterizou Patrocínio Ribeiro. Mestre A. A. Gonçalves(4) considera-o um monumento de vanglória dum autocrata opulento e despótico, no que mais impera a verborreia liberal que o alto valor do critério do artista. Este, porém patenteia-se franco noutro passo: A intensidade do luzeiro de Mafra estende-se radiosa e viva pelo reinado seguinte – só afrouxando pelo desaparecimento dos últimos artistas que testificavam os créditos da grande escola – até princípios do século XIX. Herculano concede-lhe foros de sensaboria de mármore e de bagatela maravilhosa, avalia-o como toucador de Lais ou Phryné assentado dentro do templo do Deus dos cristãos. Não lhe perdoa. Em desdéns implacáveis, condena Mafra como fria, convencional, solene, tal o poema da Fénix Renascida, como o monumento duma nação que dormita após um banquete de Lúculo. Mafra é a beataria duma velha tonta, afectando a linguagem da fé ardente e profunda de Orígenes ou Tertuliano. No entantoquem o diria?exalta-lhe a riqueza e perfeição artísticas e presta-lhe justiça: O luxo e a riqueza de João V foram favoráveis aos artistas. As obras magníficas e mais que tudo a edificação do fradesco palácio de Mafra fizeram aparecer estatuários, escultores e arquitectos.

Ora todas estas e outras depreciações relembram-nos o dito por Frei Martinho do Amor Divino(5), guardadas as circunstâncias: Nenhuma dúvida em que esta obra foi toda de Deus, sem embargo que dela houve alguns queixosos, o que costuma suceder em todas as obras grandes.

Através de censuras, ironias e menosprezos(6), verdade é que constitui um perfeito e grandioso exemplar da renascença italiana, / 20 / segundo as palavras de Alberto Teles, um admirável edifício de boas proporções, homogéneo(7) e de equilibrada harmonia no conjunto(8) e na decoração uma das obras que melhor dignificam a arte nacional. Embora, como a Ajuda, não lhe agradasse, qualificou-o Raczinsky de grand monument régulier, cujo acabamento o surpreendeu, por ser facto raro no país. Não merece, pois, os menoscabos e exprobrações, com que asperamente a têm tratado, talvez por ser obra de João V. Reproduzindo Manuel de Oliveira Ramos, esta maravilha de equilíbrio e harmonia tem sido sempre caluniada por mal compreendida. No entanto, o oiro do Brasil não serviu apenas para faustos de nababo e perdulárias ostentações(9), para fazer bulas e funções devotas, para regalar de prosperidades os conventos; em boa verdade, serviu também para rasgar estradas e canais, pagou obras de arte e utilidade pública, animou indústrias e a instrução, promoveu a cultura e o prestígio do país(10).

A obra, decerto, era estupenda pelo projecto e tanto que o embaixador da França, informando o seu país da empresa joanina, entendia não lhe bastar todo o dinheiro existente na Espanha.

É patente o absurdo da opinião. Mau grado os múltiplos / 21 / embaraços, efectivou-se e em condições de tal vantagem que aos estrangeiros, até, assombrou. Desta forma se lhe referiu o príncipe de Licknowsky: «Apesar do tempo e dos milhões gastos, parece incrível, após um exame detido dos pormenores, como se pode concluir tão descomunal edificação só no período dum reinado e com os recursos materiais dum único país.» Todavia, não lhe agradou o monumento, o qual, por isso, com estes desdéns deprimiu, à falta de lógicos argumentos: No plano dominou a mania infeliz da imitação, por cópia do Escorial, cujas analogias com a igreja, paço e convento, são flagrantes; porém, imitador ruim de Filipe II era João V, visto Mafra assentar numa planície escalvada e dominar o Escorial um largo território.

Já outro estrangeiro, antes do príncipe, amesquinhara Mafra no mesmo sentido, pois disse que pelo tamanho e forma se podia chamar o Escorial português, parecendo que o fundador o aproveitou como modelo. Não satisfeito, acrescenta: Se os tesouros que custou fossem aplicados em melhor plano com certeza constituiria edifício superior ao Escorial, sob o aspecto arquitectónico. Infelizmente, o arquitecto não tinha nem espírito para conceber nem mão para executar, não já o plano duma basílica ou palácio mas de simples cabana.

Não seriam, afinal, más vontades contra o arquitecto e não sofreria duras críticas a obra por sua acção reflexa(11)? Assim parece.

Dever-se-á a estes estrangeiros, ilustres, embora não libertos de pechas humanas, a ideia feita, tradicional já, de Mafra / 22 /  ser cópia do Escorial, parelha da que firmou o palácio de Queluz como reprodução de Versalhes, inexacta, inadequada(12).

Ocupa o vastíssimo edifício a enorme área de 4 hectares(13), assente numa planta quase quadrada, constituída pela junção de dois rectângulos(14) e apresenta a frontaria principal ao poente(15). Indubitavelmente, é uma obra pesada, pouco graciosa, mas não sombria, tal o domínio do volume, da massa e do peso (exceptuada a basílica), onde a magnificência do robusto suplanta a do artístico. Pedras pequenas não se lobrigam; só grande silharia foi cortada. Múltiplas são as abóbadas (muitas de mármore); superabundam os arcos e os portais emoldurados; palmilham-se corredores compridíssimos(16); os pés direitos assombram; por todos os lados surgem os mármores; sobejam os vastos salões. Nele se contam umas 880 salas e quartos, 390 celas, 4500 portas e janelas, 154 escadarias. Nalguns lugares os alicerces contam 5 metros. Das escadarias se distinguem, pela majestade, as principais do palácio e, pelo singular das combinações, as da portaria-mor, que partem de lados opostos e se encontram em todos os patamares, e as duplas das Torres, pelas quais uns sobem e descem outros sem se verem.

Na feição oriental, cobrem o edifício terraços de tijolos, ligeiramente convexos(17). Deles se desfruta o admirável aspecto do conjunto, sugestivo de cidade mourisca.

Eis as principais partes do mesmo: Igreja, Sacristia, Lavabo e Casa da Fazenda – Refeitório, Cozinha e lavatório dos Frades / 23 / – Biblioteca – Portaria-mor – Sala de Benedictione – Claustros e Capela do Campo Santo – Sala dos Actos – Casa do Capítulo – Torres e Carrilhões – Sala das Colunas, Capela Real e Enfermaria dos Frades(18).

Quanto custou esta pasmosa e ingente mole, cuja feitura apenas requereu treze anos? Ignora-se. Uns a computam em 28 milhões de cruzados(19), orçam-na outros em 48 e 54 milhões(20). A magna despesa alentou Frei Martinho do Amor Divino a dizer que, sendo para pobres a casa, parecia querer o rei madeirá-la de prata e soalhá-la de oiro(21).

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Decididamente, os fados tinham predestinado Mafra para gozar os regalos espirituais e materiais dum convento.

Já em 1624 intentara D. João Luís de Vasconcelos e Menezes(22) / 24 /  fundar na vila uma casa monástica para os frades da província da Arrábida, outorgando-lhe uma renda anual que na Ericeira possuía. Com o intento e o sítio escolhido concordara o provincial. Ficou, porém, a obra empatada por em Madrid ter morrido o devoto varão(23).

Rodaram os anos. Era em 1705 senhor de Mafra o visconde de Cerveira D. Tomás de Lima Vasconcelos de Brito Nogueira. Na sua quinta, um dia, o visitaram dois frades arrábidos. Um dos temas da pia conversa foi o malogrado projecto de D. João Luís, o qual também manifestou o visconde. A ele o provincial anuiu depois. Mas por se convir na pobreza da terra estipulou-se que seria pequeno o convento. Às mãos do rei chegou o requerimento da licença; o Desembargo do Paço, porém, votou contra: estava o reino muito onerado de conventos mendicantes e era fazer maior opressão dos povos, além doutros inconvenientes.

A terceira tinha de ser e com desforra portentosa dos malogros anteriores(24). Em vez dum modesto edifício ergueria a munificência joanina um dos maiores conventos da Europa.

Estava-se em 1711 e D. Mariana de Áustria, a rainha, não demonstrava raça de fecundidade, necessária para a sucessão da Coroa, embora com três anos volvidos sobre o matrimónio com João V. Inquieta vivia a corte, mercê do lastimoso facto. Ora em certo dia – eis a explicação tradicional das origens conventuais  –  calhou de na sala da galé do Paço se encontrar o arrábido Frei /  25 / António de S. José(25), que fruía cheiros de santidade, com o bispo capelão-mor D. Nuno da Cunha(26). Conversaram sobre a esterilidade régia e o bispo pediu-lhe para encomendar el-rei a Deus, afim de se dignar conceder-lhe filhos. Sibilinamente retorquiu o frade: El-rei terá filhos se quiser. Aturdido ficou D. Nuno e na resposta matutou uns dias. Sem conseguir decifrar o enigma, do arrábido inquiriu a explicação. E ele disse: Prometa El-rei a Deus fazer um convento na vila de Mafra, dedicado a Santo António, que logo haverá sucessão.

Passado isto aos ouvidos dos régios consortes, logo por João V solene voto foi feito de fundar o convento germinada que fosse a prole. Semanas depois, Mariana de Áustria sentiu-se grávida e a 4 de Dezembro de 1711 nasceu a princesa Maria Bárbara, que no trono de Espanha se sentou.

Como aceitar este milagreiro descritivo dos fundamentos de Mafra? Pura mistificação? Facto verídico? Atentemos no que dizem os autos à volta dos dois acontecimentos primaciais: O voto real e a escolha de Mafra.

Autêntica era a infecundidade da rainha, que cessou em dado momento. E logo correu o milagre do fradinho. Ora conta-nos o manuscrito pombalino, apregoado por A. Pimentel, que a João V dissera uma vez D. Jaime Pereira de Melo, duque de Cadaval: Que trabalhasse a rainha para ter filhos que era obrigada a isso, de contrário lhe podia suceder mal.

Ante a ameaça, como justamente alvitrou A. Pimentel, dispor-se-ia Mariana de Áustria a calar despeitos e quebrar friezas, / 26 /  provocadas pelas perfídias do rei, para impedir uma bula de divórcio com base na falta de progénie, a qual bizarramente pagaria o magnânimo senhor.

O influxo milagrento deve ter brotado desse perigo. Como, no entanto, dele não haveria notícia a corte, é de crer que se tivesse conchavado uma cabala para obter do rei o desejado convento. Seriam os interessados o visconde de Cerveira e estribeiro-mor D. Tomás de Lima, os arrábidos, predilectos seus e de João V, e, talvez, os jesuítas, pois o conde de Santa Cruz era criatura deles e compadre do fradinho oracular. Combinados estes empenhos com a devoção régia, facilmente o rei formularia o voto, que ficou expresso na pedra da fundação – o que balda quaisquer dúvidas a respeito do mesmo.

Pretendeu Conceição Gomes contestar a realidade desta causa tradicional, por a obra ter começado alguns anos após o voto (1711-1717), sendo já nascidos os príncipes Maria Bárbara, José, Carlos e Pedro, o que, logo, não se harmonizava com o voto. Seria falaz o agente da promessa, mas pelo seu argumento C. Gomes não o derroga, a retardamento da execução nada prova contra.

Também Aires de Sá combateu a causa, reputando-a pueril, um pretexto de último recurso, procedente do fausto real, do gosto de deslumbrar e impor a sua grandeza. De ponderar é a alegação, mas não basta para justificar a empresa portentosa.

É óbvio que ao visconde interessava o convento. Só por razões pias? Eis o que também não se pode facilmente apurar. Decerto, a obra régia muito iria valorizar as suas terras de Mafra, tal permitindo crer num interesse material encadeado no espiritual. Relata Frei Cláudio, porém, que a João V oferecera ele a sua quinta para cerca dos frades, visto se compõe de hortas e pomares, mais um bosque de árvores silvestres cortado por ruas e cercado de altos muros.

Diz o Ms. pombalino que Frei António de S. José não mencionara a vila de Mafra na profecia; por isso o monarca escolhera o lugar do Coração de Jesus, perto do colégio dos bentos da Estrela, onde se tomaram medidas e para o qual mandara fazer / 27 / o risco. O visconde, todavia, conseguira anular estas disposições. Deverá aceitar-se este depoimento, único nas suas declarações?

Quer sobre a escolha de Mafra quer sobre as razões do voto régio não há, por ora, elementos bastantemente esclarecedores. Tudo apresenta um aspecto sibilino tal como sibilina foi a predição do frade leigo.

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Determinado João V a erguer em Mafra o convento, lá enviou para examinar o terreno adequado à obra, segundo consta, o seu criado António Rebelo da Fonseca(27). Como não o satisfizeram os informes do mandatário, tempos depois, parando em Sintra, até Mafra deitou o rei e então escolheu o sítio da Vela, sobranceiro à vila e a nascente da mesma; encostado a um cerro, bem provido de água, com 234 m de altitude e largo panorama. Logo foram expropriados os terrenos(28).

Comportava o projecto inicial espaço para 13 frades arrábidos(29), tal parece, em memória dos 13 dias do culto de Santo António, o padroeiro; tal número subiu depois até 40 e 80. Com este por base foram delineados os riscos do concurso. Afinal, em 1729, decidiu João V dilatar o âmbito da obra por estender até 300 o número dos frades. Novas expropriações se efectivaram(30) que incluíram os terrenos da cerca e da tapada; muitas obras já realizadas(31) tiveram de ser destruídas. Além de outros prejuízos importantes e graves embaraços, surgiu o da necessidade de arrasar um monte, erguido ao sul, cuja rocha era tão dura que por / 28 / dia obrigava ao gasto de 30 arrobas de pólvora (em mil tiros). Ano e meio durou este serviço, feito por 5.000 homens e 500 cavalos diariamente; em cada mês a despesa com eles era de 70.000 cruzados.

Ao concurso apenas acudiram três projectos de arquitectos estrangeiros – António Canevari, abade Filipe Juvara e João Frederico Ludewig, dos quais o do último foi o preferido. Em tão mesquinha decadência jaziam as artes nacionais que nem um só português apareceu para salvar os brios pátrios. Com justiça, pois, recriminou Watson o lamentável facto.

Irada celeuma pelos tempos fora instigou a preferência de Ludewig (ou Ludovici), ainda recentemente deslouvada, a qual se imputou não aos méritos e à capacidade do arquitecto mas a um nepotismo propiciado pelos jesuítas. Cumpre-nos, no entanto, afastar as causas secretas da escolha de Ludovici e reconhecer francamente que não lhe falecia o valor artístico, que era notável construtor, devendo-se-lhe o estabelecimento das boas regras da arquitectura clássica, de sobejo expressas quer em Mafra quer nas suas restantes obras(32). Não firmou, talvez, o bom gosto nas artes, como alguém alega; isso, porém, tarefa árdua seria, ainda que mui apurado o tivesse, por no país tal fruto pouco proliferar(33). Todavia, como Vilhena Barbosa opinou, foi o fundador duma nova escola de arquitectura em Portugal e o seu restaurador após uma longa e triste decadência. Tal aconteceu não só pela feitura do monumento de Mafra como pelos desvelos com que guiou e fez prosperar a Aula do Risco, escola de arquitectura aberta por João V para formação de bons mestres e oficiais, cuja falta era tão grande que se tornava mister importá-los de fora raias. Nela se criou, juntamente com a prática nas obras, um grupo de excelentes arquitectos, mais tarde notabilizados por várias construções. Isto moveu / 29 /  o Dr. Manuel Ramos a com justeza afirmar que mal se pode compreender a arquitectura religiosa e civil do nosso século XVIII sem se seguir a genealogia artística dos mestres que saíram da escola de Ludovici(34). Na Aula do Risco(35) também se realizou hábil e cuidadosamente boa escultura até à chegada de Justi(36), o qual chefiou com lustre a nova escola, só fundada nos meados do século. Com grande relevo se distinguiu esta escola de escultura, a 1.ª do país, que perdurou até 1820 e cuja influência artística continuou nas obras do palácio da Ajuda. Mestre A. A. Gonçalves qualificou-a de vasto laboratório onde uma dezena de vocações se instruiu e retemperou, com tão grande êxito que podia defrontar-se com os notáveis artistas do tempo. Para o brilho desta notável escola de Mafra, de carácter nacional oposto ao da escola italiana constituída pelas esculturas importadas da Itália, deveras contribuiu o esforço e o zelo de Alexandre Giusti(37).

Logo, poder-se-á inferir que censuras e hostilidades não se fundamentaram em razões de ordem artística e antes as promoveu o factor do patrocínio acordado a Ludovici pelos jesuítas, visto que em Portugal o facciosismo, o ignaro espírito de seita, do qual redunda a bruta certeza dos raciocínios, move mais as opiniões que a inteligência. Daí, o ver-se em Ludovici não o artista mas a criatura / 30 / dos jesuítas, o bater-se nele para de ricochete se bater nos outros. Com este critério de beócios não podemos concordar, por negativo dos direitos da razão e da inteligência.

A peita foi outro bordão tocado para deprimir Ludovici. Já em 1795 declarava Murphy – nem os estrangeiros o tragavam – que ele recebera a obra por influência dum ministro de João V, no qual o dinheiro de Ludovici actuara mais que o seu talento, sob o título especioso de arquitecto. E como alemão e ourives o desdenhava. Ora tal desdém pela sua profissão primitiva de ourives era deploravelmente inepto. Na verdade, quantos notáveis escultores da renascença italiana, em especial florentina, começaram a vida artística em lojas de ourives, a lavrar oiro e prata?

E frequentes surgiam os artistas que tanto sabiam riscar um edifício como esculpir em madeira e metal e modelar a figura humana. Supérfluo seria notar exemplos.

Consta que o projecto de Juvara era o mais elegante, belo e gracioso, luxuriante de ornatos. Não devia agradar ao pedantesco formalismo da corte e do rei, trecheios de severas composturas – assim como de libertinagens, embora clandestinas, para resguardo dos princípios –, um palácio para festas e deleites de voluptuosidades elegantes afeiçoado às ideias e aos costumes da França de Luís XIV e da Regência. Isso ignorava Juvara, apesar de vir a Lisboa por causa do projecto(38). Se, porém, perdeu as honras de construtor de Mafra outras de tomo ganhou, além das de oiro cunhado. Já Ludovici largamente conhecia os bons costumes do país, pois nele vivia desde 1713(39). É claro que não se pode estipular o / 31 / dever-se a tal facto a rejeição de Juvara; os motivos foram vários e são mal conhecidos. Alguns menciona Sanches de Baena. Propício era a Ludovici o ambiente da corte pelo influxo alemão dominante, que três circunstâncias fomentavam: a da rainha mãe de João V (apesar de falecida em 1699), a dos familiares do arquiduque D. Carlos (1704) e a dos vindos com a rainha Mariana de Áustria. Ora Ludovici, homem de vontade firme e galhardos talentos, saberia aproveitar quaisquer elementos vantajosos para a aprovação do seu projecto, com cuja feitura, bem compreendia, conquistaria importância e fortuna(40). Decerto, alheio não seria ao caso o jesuíta, então preponderante. Conjugado isto com a natureza do projecto, mui adaptada à daquela época nacional, teremos talvez a explicação do problema(41). Longe fica, pois, a superficial afirmativa de exclusivamente / 32 /  caber aos jesuítas a preferência outorgada a Ludovici. Desde Pombal não se vêem no país outras sombras que as dos jesuítas. Já é tempo de abrir os olhos e de não marchar como os carneiros de Panúrgio.

Aprovado o plano, entregou-se a obra de alvenaria à chefia do milanês Carlos Batista Garvo e a de cantaria, ao filho António B. Garvo, artistas muito hábeis. António Soares de Faria, sargento-mor de Mafra, recebeu o encargo da tesouraria, cujos pagamentos em parte se fizeram pelos rendimentos da casa de Bragança. Coube a António Rebelo Fonseca o lugar de fiscal; a superintendência foi confiada a Leandro de Melo Faria, corregedor da comarca de Torres Vedras(42). Nas ausências, substituía Ludovici o filho João Pedro(43).

Constitui uma resenha estupenda a dos números e factos relativos à execução da obra monumental. Completa não é possível aqui determiná-la; registar-se-ão alguns, apenas, para o devido esclarecimento histórico da obra.

Foi lançada a 1.ª pedra aos 17 de Novembro de 1717 com faustosa imponência e plena obediência ao ritual(44) e custou ao erário público a quantia de 200.000 cruzados(45). A família real e a corte foram hóspedes do palácio dos viscondes de Cerveira.

Para o acto se construiu uma igreja de madeira, com tectos de velas de navio e paredes forradas de brim, guarnecidas com tapeçarias; damascos carmesins, com galões e franjas de oiro, ornavam portas e janelas. Nela rezou missa de pontifical o patriarca D. Tomás de Almeida. No final lautos banquetes foram servidos à corte, aos convidados e aos operários. Abriram os alicerces 600 / 33 /  homens; em partes mediam 5 metros de alto. Em todas as artes laboravam em média 20.000 operários diariamente. Para beberem água e para amassarem cal enviou 400 pipas o Porto, além de 200 dornas. Por todos os lados se amontoavam a pedra britada e a areia da Ericeira, a cal virgem e o cascalho; as cordas, em rumas, e as pilhas de tijolos(46) enchiam largas zonas. As madeiras cortadas nos pinhais de Leiria e Torres Vedras, para obra e lenha, formavam barreiras colossais. A mais destas havia os montões das chegadas de fora: do Brasil inúmeras pranchas de angelim para portas, janelas e soalhos(47); de Itália, a nogueira para cadeirais e arcazes de sacristia(48); do Norte, navios carregados de tabuado e mastros para andaimes, telheiros e barracas dos operários, tão vasto era o espaço ocupado por elas que se lhe chamou a ilha da madeira(49). Cobriam a área duma vila os abarracamentos de homens e animais e os telheiros de trabalho dos alvenéis, canteiros, serventes, entalhadores, carpinteiros, ferreiros, serradores, torneiros, serralheiros, latoeiros, vidraceiros, pintores, etc., formando um enorme e extravagante arraial.

De Torres a Cascais fumegavam continuamente centos de fornos de cal, assim como nas terras da tapada, onde também se cortava pedra.

Não se descansava nas pedreiras de Pêro Pinheiro, a légua e meia distante, e de Sintra, donde saíam os mármores finíssimos (os pretos sem veios brancos). Os carros de bois, no serviço dos carretos, executavam o moto contínuo; em certos dias rodavam 2.500 na estrada de Cheleiros, uma das mais íngremes de então.

Juntas de bois eram 3.000 e só duma vez João V comprara 630.

Havia mais 1.800 carros de cavalos e 7.000 carrinhos de mão para os desaterros.

Mais de cem arrobas pesavam algumas colunas. Das pedras / 34 /  cortadas foi a penúltima a mais notável(50); destinava-se ao fecho do zimbório ou lanternim(51) e transportaram-na 86 juntas de bois num dia, acompanhados por 612 homens. Apesar de medir 96 m de circunferência e 13 de altura, em menos de duas horas subiu 66 metros por meio de um guindaste de quatro rodas aguentadas por 160 homens(52).

Para conduzir as pedras dos telheiros para os locais devidos havia 448 mariolas (homens que trabalhavam com paus e cordas), afim de evitar as quebras de arestas e dos cantos das pedras já lavradas e afeiçoadas.

Faziam a guarda e o policiamento 7.000 soldados, que, muitas vezes, ajudavam os serviços.

Da repentina acumulação de tanta gente péssimas condições de salubridade reverteriam(53). Breve, pois, se manifestaram várias e graves doenças, mormente desenvolvidas desde 1729, que obrigaram a estabelecer um hospital(54). Determinou, sobretudo, o empilhamento deplorável a alteração do plano do convento, o qual de 80 frades passou para 300, como em 1729 deliberou João V, estando já, desde Setembro 1728, abertos os alicerces. Daí o inutilizar-se grande parte das obras efectivadas. Embora grande fosse a cópia dos operários, lentamente decorriam os trabalhos, deveras / 35 / ingentes. O rei, todavia, principiava a impacientar-se, a mover pressas, por querer realizar aos 22 de Outubro de 1730, dia do seu 41.º natalício, a sagração da igreja. Calhava num domingo esse dia. Ora, como só nos domingos permitia o ritual da Igreja as sagrações, não queria perder o ensejo desse duplo e simultâneo júbilo. Ordens foram passadas, então, para os ministros das províncias despacharem para Mafra todos os operários que pudessem angariar. Tão excessivo e brutal foi o zelo das autoridades que doentes, inúteis e fracos, chegaram a Mafra misturados com os sãos e fortes – mau grado o prejuízo da Fazenda real e o perigo das vidas –, que se prendiam os homens e seguros por cadeias se levavam pelas estradas. Praticaram-se, é indubitável, despotismos e violências, vexames e opressões(55), cujas culpas só pertencem aos executores. Em regra, facto velho e sempre novo, os mandatários tendem a exorbitar, a oprimir e abusar, já por maldade já por trop de zèle e ainda pelos empenhos subservientes, tornando, afinal, odiosos os mandantes. Com este forçado e bruto alistamento juntaram-se em Mafra e em Julho de 1729 uns 47.836 homens(56) e 52.000 em 1730(57).

Através de todos os esforços e tours de force no dia da sagração ainda faltava à igreja o zimbório; do convento estavam só meados os corpos do norte e poente(58). Todavia, aos 22 de Outubro de 1730 efectivou-se a sagração, a qual constituiu uma / 36 / função estupenda de magnificência(59), a mais célebre do mundo, muito superior à da inauguração. Durou oito dias (um oitavário)(60) e forneceu matéria para com a descrição Frei João de S. José encher um volume, de curiosa leitura(61); competência lhe sobrava, visto haver sido o 1.º mestre de cerimónias da igreja, as quais estudara em Roma por ordem joanina. A missa, de pontifical, durou das 8 horas da manhã às 3 da tarde. Em todos os dias do oitavário houve sagrações e sermões. Executou a principal o patriarca D. Tomás de Almeida, assistido por cónegos mitrados, capelães e beneficiados da Sé lisbonense, cobertos com capas magnas e capelos de arminho, e tendo por adjuntos os bispos de Leiria (D. Álvaro de Abranches), de Portalegre (D. Álvaro Pires de Castro), de Pátara (D. Frei José de Jesus Maria) e de Nankim (D. António Pais Godinho). Na basílica reboavam os seis órgãos. Rezaram as 1.ªs missas, depois, os cardiais da Cunha, Inquisidor-mor, e D. João da Mota e Silva. A todas as festas assistiram as maiores dignidades da Igreja, a fama real e a corte, farta nobreza e 300 frades.

Na tarde da sagração-maior lauto jantar absorveu a comunidade servido pelo rei, pelos infantes e camaristas, enquanto os sinos repicavam e no adro 4 regimentos da guarda real fuzilavam descargas de escopeta. Verdadeiramente estupendo!

O povo também comeu à grande, pois João V às suas ucharias ordenara que se desse de comer a quem quisesse. Da opípara vantagem aproveitaram 9.000 pessoas.

Em paralelo com as obras arquitectónicas corriam as da sumptuária e ornamentação, também de custos enormes. Para Roma, Veneza, Milão, França, Holanda, Génova e Liège, de contínuo seguiam as encomendas das peças de culto e adorno: frontais, relicários, paramentos, custódias, cálices, docéis, rendas, estátuas, tocheiros de bronze, banquetas, lâmpadas, castiçais, candeeiros de latão, etc.
/ 37 /
Depois da sagração frequentemente aparecia o rei para assistir aos ofícios divinos e outras cerimónias, sempre de grande pompa. Só no trono de 5.ª feira santa ardiam nos tocheiros e castiçais de bronze 440 velas; de Trevas à Páscoa gastavam-se 62 arrobas de cera. Eis o que animou a dizer o padre Tomás Silva, mestre de cerimónias da Patriarcal, que nem em Roma nem nas outras cortes da Europa, por onde passara, vira coro com tão primorosas vozes, culto com tanta riqueza de paramentos, festividades com tanto custo de luzes(62).

A fúria das pressas quebrara após a sagração. Calmamente decorriam as obras e se verificavam as contas. Daí o aconselharem a João V a prática das arrematações, por ele aceite; daí o afixarem-se editais nas comarcas do reino a convocar os credores de Mafra para apresentação nas vedorias das suas notas. Gente honrada, que pagou a todos que apareceram! Claramente demonstra o facto a desorganização dos serviços, natural em tão desvairada lufa-lufa. Em boa hora, porém, surgia o bom senso.

Postos em arrematação os serviços(63) tomaram os de pedra os nove mestres que então lá trabalhavam(64). Em 1 de Abril de 1733 começou o novo processo e breve se verificou a sua vantagem, quer pela economia e regularização das obras(65) quer pelo avanço das mesmas(66).
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Quando faleceu João V estava pronto o convento e alojava 210 seráficos franciscanos. Em 1771 foram substituídos, à ordem de Pombal e por breve de Clemente XIV, pelos cónegos regrantes de Santo Agostinho (de S. Vicente de Fora), que só se mantiveram até 1792. No convento e na igreja gastaram muito das suas rendas e naquele instituíram um colégio de línguas mortas e vivas e de belas-artes, o qual só subsistiu 30 anos. Em 1792, por ordem de Maria I(67), regressaram os arrábidos.

Pela extinção das Ordens religiosas o convento ficou incluso nos bens da Coroa.

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NOTAS

(1) Tais a da Escola de recrutas, que em 1859 substituiu o Colégio Militar, instalado em 1849, e a Escola Prática de Infantaria, criada em 1884 pelo ministro da guerra visconde de S. Januário. De 1863 a 74 acolheu o Asilo dos Filhos dos Soldados. É justo salientar que a actual chefia da Escola Prática de Infantaria pela 1.ª vez está entregue a um oficial inteligente e zeloso da boa conservação do edifício – o coronel Vítor de Sousa Teles.

(2) Lúcio de Azevedo, in Épocas de Portugal Económico, segura autoridade na matéria.

(3)Causas da decadência dos povos peninsulares.

(4)Estatuária Lapidar.

(5) Crónica da Província de Santo António, I, 38.

(6)Tanta crítica detraídora, afinal, não enobrece a nossa cultura. Bastas igrejas de grande sumptuosidade, que absorveram magnas riquezas, possui a Itália. Todos nós as louvamos e admiramos; nunca nenhum italiano censurou os seus autores. Todavia, nós clamamos, vibramos imprecações, possuindo raros exemplares de arte pomposa. Quanto custou a Batalha? Quanto custaram os Jerónimos? Quem brada contra eles? Pode concluir-se, pois, que tiveram os críticos uma função política, de ataque a João V. Cometeram-se brutalidades? Sem dúvida. No entanto, praticam-se hoje iguais, quando não piores, sendo de luzes os tempos. E sempre se praticarão, por mais grada que seja a civilização a não ser quando chegar a hora mítica da perfeição humana.

(7)Vantagem da realização livre de lacunas, de interrupções.

(8)Disto diverge Aires de Sá. Reconhece a beleza da parte divina e a imponência da régia, mas declara faltar harmonia na ligação – causa de exageros nos elogios e censuras.

Também Watson julga que não é possível encomiá-lo por inteiro, embora certas partes (igreja, claustros, sala da livraria) sejam superiores ao que da época se poderia esperar.

Licknowsky achou-lhe defeitos de valor arquitectónico. Em compensação considerou excelentes as obras de alvenaria.

(9)Quanto à capela de S. Roque (Lisboa), opinava Sousa Viterbo que se devia amordaçar a boca atrevida em reprovar o seu gasto.

(10)O prof. Francisco A. Correia, apesar de haver como improdutiva a despesa de Mafra, confessa ter sido óptima escola de exploração e aproveitamento dos mármores nacionais. Todas as medalhas têm anverso e reverso, mas, de João V só se tem visto uma face. É tempo de apreciar a outra.

(11)O intento, incompreensível, depreciador do autor da obra fica, de certo modo, corroborado por Ferd. Denis, no Portugal, quando alude a um tal Justi como encarregado da escultura. Justi, vê-lo-emos, não era um tal, mas, sim, um artista notável. Opina Watson que João V quis sobrepujar o Escorial, o que é admissível e natural. Acrescenta, porém, que muito diferem os dois monumentos, tal como divergiam os seus construtores. No Escorial manifesta-se o fanatismo sombrio de Filipe lI; em Mafra surge o feitio sensual e megalómano de João V. Das analogias não é justo inferir uma cópia. Basta atentar nas épocas, de índoles diversas.

(12)Vd. Queluz, de Matos Sequeira (da Colecção Monumentos de Portugal, vol. X).

(13)Aproximada à do Escorial. Nisto é semelhante.

(14)Em confronto com o Escorial (começado em 1563 e findo em 1584, obra de Juan de Herrera, custo 66 milhões de reales) nota-se que a igreja fica neste reentrante, no fundo dum pátio, e em Mafra na linha da frontaria.

(15)Se ficasse perto de Lisboa, julga Raczinsky, podia servir a um tempo de palácio real, quartel, arsenal, ministérios, e ainda sobrava casa.

(16)Bastam para patentear a ampla concepção do plano.

(17)Dispostos em duas camadas para melhor vedação das chuvas. De mármore são os da igreja, tendo chapas metálicas isoladoras entre as duas camadas.

(18)Não destoa, nem como antecipação, o fixar uns decassílabos pareados, descritivos do monumento, escritos por João Jorge de Carvalho em 1781, no poema herói-cómico Gaticanea:

Ele tem quatro frentes ou fachadas
Com janelas tão grandes e rasgadas
E feitas com tal arte que por belas
Um pórtico parece qualquer delas.

No frontispício a bela arquitectura
Brilha com tão distinta formosura
Que julgo ser (e nisto bem me fundo)
Maravilha maior de todo o mundo.

As ordens tosca dórica e composta
A jónica, a coríntia bem disposta
Tudo se vê com gosto executado
No grau mais singular mais levantado.

Colunas de grandeza portentosa
No pórtico maior a vista goza
Nas três portas soberbas, que na entrada
A perspectiva formam da fachada.

Mil estátuas de mármores polidos

O chão todo em xadrez com embutidos

As torres que nos lados vão subindo

Mil sinos pelos ares retinindo

Que sendo por mão dextra ali tocados

Os minuetes formam bem trinados.

 

Dois grandes torreões que na grandeza

Outros não tem a vasta redondeza

Um zimbório soberbo e sumptuoso

 

De festões adornado e belas flores

Formados em diversas lindas cores

De pedras muito finas e polidas

Na região do vento suspendidas.

(19)Ou 11.200 contos oiro.

(20)Ou 19.200 e 21.600 contos oiro.

(21)Exactamente nunca se saberá o que Mafra custou. Decerto, porém, se têm exagerado os cálculos, como em tudo o mais referente à Fazenda Real no período joanino. Será custoso aceitar os do embaixador francês, segundo o qual por ano importava em mais de 12 milhões de cruzados – só em salários. L. Azevedo, op. cit.

(22)O 1.º do nome.

(23)A essa corte fora tratar do seu empenho no título de conde de Ribamar.

(24)Em 1707 ordenara o capítulo da Província que à quaresma de Mafra assistissem dois arrábidos, afim de, pelo zelo do bem das almas e do amor a Deus, acudirem à grande necessidade que o povo dali padecia por falta de confessores. Alojaram-se na albergaria de peregrinos, contigua à ermida do Espírito Santo, na qual rezaram missa, confessaram e deram a comunhão, com muita anuência do povo.

Destinar-se-ia o acto a estimular as boas vontades refractárias, sobretudo a real? É de crer. Baldado foi, no entanto, mas a semente frutificou exuberantemente alguns anos depois.

(25)Dito o da Índia, para onde fora em 1692 com D. Pedro de Noronha, conde de Vila Verde. Era natural de Cheleiros, arrabalde mafrense, e frade leigo da Província da Arrábida. Tinha compadrio com o marquês de Gouveia por lhe baptizar um filho. Morreu em Março de 1711. Não gozou, pois, o triunfo da profecia.

(26)Conta outra versão: Palestravam sobre o facto D. Nuno e o conde de Santa Cruz (depois marquês de Gouveia) quando chegou o frade. Alargou-se a discussão, finda com a citada rogativa do bispo.

Ainda outra, a do manuscrito da casa Pombal, referida já por Alberto Pimentel: O leigo, que passava por milagrento, foi ao paço pedir esmola. O marquês de Angeja o demandou porque não obtinha ele de Santo António que fizesse ter filhos a rainha. Que os teria, respondeu, mas era mister fazer casa ao Santo.

(27)Escrivão das cozinhas régias e homem da sua confiança.

(28)Avaliados em 358.000 reis pelos louvados capitão José Batalha Leitão e José Rodrigues Silva, sendo presentes o juiz da terra Manuel Silva e o escrivão local Francisco Correia Soares, no dia 21 de Janeiro de 1713.

(29)A Província da Arrábida, de observância rigorosa, foi criada em 10 de Maio de 1560 pelo breve de Pio IV Sicut aliquando exposuit nobis. A Província da Imaculada Conceição de Portugal, também de rigorosa observância, foi criada pela breve Nuper pro parte dilectorum, de Clemente IX e de 24 Abril de 1705.

(30)No valor de 12.842.000 reis. Lavraram-se 33 escrituras nas notas do tabelião Martinho Roussado.

(31)Entre elas as plantações e os pomares da cerca, trabalhos do zelo de A. Rebelo Fonseca.

(32)Capela-mor de S. Domingos de Lisboa, dita da Sé de Évora, portal da Patriarcal (hoje em S. Domingos), o seu palacete no alto da calçada da Glória.

(33)Não é justo, pois, censurá-lo por isso. Subordinou-se ao gosto do Século, mas não por inteiro, visto que moderadamente, tal já referiu Volkmar Machado, tomou algumas liberdades.

(34)Deles deve citar-se Mateus Vicente de Oliveira, um dos construtores do palácio de Queluz, reedificador da igreja de Santo António da Sé e arquitecto da Basílica da Estrela, a qual é uma reedição, atenuada, de Mafra. Tais obras executou como arquitecto da Casa do Infantado e da Câmara de Lisboa.

(35)Ao contrário das praxes, os alunos eram pagos (bom exemplo para os tempos de agora), aumentando os salários à medida dos seus progressos.

(36)  – Alexandre Giusti (ou Justi) veio a Portugal para reconstituir a capela de S. João Batista da igreja de S. Roque (Lx.). Deixou-se ficar pelo convite áureo de João V, o único mecenas régio das artes portuguesas, o que bastaria para o honrar. Antes de ir para Mafra executara para a igreja do Palácio das Necessidades as imagens de S. Filipe de Néri, S. Pedro e S. Francisco de Sales. Cegou em Mafra em 1773.

(37)A esta operosa escola donde saíram os estatuários em pedra que ilustraram o século 18, nas palavras de A. A. Gonçalves, pertenceu Machado Castro, que em 1770 a abandonou por causa da estátua de D. José. Por sua vez fundou em Lisboa uma escola da sua arte, da qual saiu o trabalho escultural da basílica da Estrela, além de outros. A Giusti, afastado da direcção pela cegueira, sucedeu Joaquim José de Barros Leborão e a este, Brás Toscano de Melo, por cuja morte, em 1820, fechou a escola de Mafra.

(38)Era já artista consagrado por obras feitas em Turim. Convidou-o João V por intermédio de Victor Amadeu, rei da Sardenha.

(39)João Frederico Ludewig era filho de Pedro Ludewig e natural de Hohenhart (Suábia), luterano de credo e ourives de profissão. O irmão João Pedro foi notável jurisconsulto, professor de história e filosofia, chanceler da Universidade de Halle e do ducado de Magdeburgo. Nasceu em 1670 e aprendeu o ofício com o pai. Aos 19 anos assentou praça em Augsburgo. De 1698 a 99 viveu na Penitenciária de S. Pedro de Roma a praticar na religião católica para abjurar o protestantismo e ingressar na Companhia. Para lá o haviam levado os jesuítas, que nele reconheciam grande inteligência. Antes de findar o noviciado enamorou-se duma formosa rapariga, Clara Ignez Morelli, filha dum sapateiro, com a qual casou em 1700. Italianizou então o nome, que ficou Ludovici, com que passou à história. Todavia, ficou sujeito à Companhia, na classe dos seculares, em cuja qualidade veio para Lisboa mui recomendado e aqui residiu ao pé do Colégio de Santo Antão (e depois na rua dos carros), trabalhando como abridor e ourives de prata. Eis o que prova ser falsa a tradicional afirmativa de ter vindo de Roma em 1707 como enviado pelos jesuítas de Roma aos de Lisboa, por estes lhes terem pedido um arquitecto para as obras do Colégio de Santo Antão (hoje hospital de S. José), o que até Aires de Sá aceitou. Casou 2.ª vez em 1722, morando já na sua quinta de Alfarrobeira, com Ana Maria Verney, filha do francês Dionísio Verney e irmã de Luís António Verney, o célebre restaurador dos estudos e autor do Verdadeiro Método de Estudar. Esta nota baseia-se em Sanches de Baena e no genealogista António Feio Castelo Branco, contemporâneo de Ludovici. Baena organizou a biografia do artista com os processos pela inquisição instaurados por quererem os filhos ser familiares do S. O.

(40)Fê-lo João V coronel de engenheiros e baptizou-lhe um filho, pelo que o tratava por compadre. Com a morte do rei a família Ludovici caiu do seu prestígio na corte. Todavia, José I, em 1750, nomeou-o arquitecto-mor do reino com a patente de brigadeiro de infantaria «pela grande capacidade com que serviu por tempo de 43 anos ao senhor rei D. João V, desempenhando e fazendo modelos com tal acerto que, executados, deixam vir a magnificência de quem os mandara pôr em execução, e instruindo os operários empregados em tais obras com tanto zelo que à sua doutrina se deve o grande adiantamento em que se acham as artes nestes reinos».

(41)Eis como V. Barbosa, no Elogio Hist. de J. F. Ludovici, ajuíza da escolha: O desenho de L. tinha por si uma grande razão moral para carear a aprovação real, que era a do seu plano estar em harmonia com o estado da sociedade de então, pois desenhou um palácio modelado nos hábitos, crenças e aspirações do rei e do país, uma igreja onde se representava o espírito religioso da época, pelo que prodigalizou nela as galas da moderna arquitectura italiana. Na severidade das fachadas do palácio e na sua frieza expressiva debuxou a fria e rígida etiqueta da corte, a devoção ostentosa do rei e dela, o viver meio fradesco da sociedade, os hábitos tristes e monótonos do povo, com que todos procuravam encobrir a corrupção própria. Se D. João V tivesse de escolher livre de influências teria de escolher este projecto. Razão teve, pois, Herculano ao dizer que Mafra ficou duvidosa no desenho entre o mosteiro e o palácio.

(42)Depois premiado com a toga de desembargador da relação do Porto, sem exercício para poder servir em Mafra.

(43)Formado em cânones por Coimbra e discípulo do pai na arte do risco. Em paga dos seus serviços ganhou o hábito de Cristo.

(44)Colocada a pedra, até ao sítio levou o rei outra de mármore num cesto dourado (só tinha 1 palmo de largo por meio de comprimento), em acto de humildade, no que o imitaram alguns fidalgos, para os quais já havia pedras iguais e cestos de prata. O visconde, para variar e mostrar mor piedade, levou à cabeça um coche de cal. Santa gente!

(45)Oitenta contos ouro.

(46)Idos do Algarve, do Douro e do termo de Santarém, por mar, até ao porto de Santo António do Tojal, a 4 léguas de Mafra. Fabricavam-se outros nos arredores. Foi tal a quantidade que bastaria para construir uma cidade.

(47)Licknowsky disse que, por causa das tintas com que as pintaram, não contribuíram para a beleza de salas e quartos.

(48)S. Carlos Borromeu recomendou esta madeira para tais aplicações.

(49)A nascente do convento, ainda duradoiro o apelido.

(50)Outra das colossais a lembrar: a da varanda da sala de Benedictione. Pesava 2112 arrobas e gastou 6 dias na viagem (de P. Pinheiro), puxada por 100 juntas em duas filas. Frequentes eram as que demandavam 30 e 50 juntas.

(51)Já desbastada, vazada interiormente e com as 8 janelas cortadas, na qual trabalharam 41 pedreiros a um tempo.

(52)Facto tanto mais notável quanto a engenharia coeva não dispunha de poderosos maquinismos elevatórios. Supriu a deficiência o talento de Custódio Vieira, que inventou os engenhos de subir as pedras às torres e ao zimbório, por maiores que fossem, os quais até no estrangeiro foram admirados. Recebeu a nomeação de arquitecto das reais obras com patente de capitão de engenharia e, depois, de sargento-mor.

De apreensões, porém, não se livraram os mestres pedreiros, temendo que os calabres rebentassem. Para obviar ao perigo mandaram cantar missa e pregar um sermão. A pedra subiu adornada com ramos de flores e bandeiras e a colocação festejou-se com repiques de sinos, descargas de bombardas e de escopetas; à noite, com fogos de artifícios.

(53)Junte-se-lhes a escassez de alojamentos e víveres e o mau acondicionamento do trabalho, durante largo tempo sujeito às intempéries.

(54)Tinha 8 enfermarias com a lotação de 535 doentes; serviam-no 2 médicos, 2 cirurgiões, 3 boticários e uns 90 serventes. De 1729 a 33 recebeu, consta, 17.097 enfermos, cujo gasto importou em 86 contos ouro.

(55)Sobre isto um abade beneditino escrevia a um colega: Não se ajusta com a lei de Deus o erigir templos à custa do sangue dos pobres, de cujas veias correu o sangue para amolecer as durezas do mármore. A carta foi achada em Tibães e publicada por Camilo na Silva e Mosaico.

(56)A féria mensal comportava 404.376.400 reis.

(57)Operários 45.000, soldados 7.000. Este número baixou em 1731, segundo o mapa de 2 de Maio publicado por Frei João do Prado, para um terço, desta sorte discriminado: Soldados e oficiais de infantaria 5.510, de cavalaria 614, canteiros 3.997, carpinteiros 1.162, entalhadores 54, torneiros 2, tanoeiros 4, serradores 29, seleiros 2, vidraceiros 6, alvenéis 2.359, paisanos trabalhadores 1.347, carpinteiros de sege 20, apontadores paisanos 20, mariolas 344. Teriam cessado, porém, as arbitrariedades? Parece que não, dado o que Albano Belino refere: Em 1731 trabalhava na igreja de Santa Cruz de Braga, por ameaçar ruína, o mestre de pedraria Manuel Fernandes Silva. Forçadamente largou a obra. Então a confraria, pelos prejuízos resultantes para a igreja, pediu ao rei que ele e os seus oficiais fossem isentos das obras de Mafra.

(58)Já tinham duas ordens de celas habitadas. Até aí viveram os arrábidos no seu hospital do Espírito Santo, em que houvera sido transformada a velha albergaria pelos frades Carlos da Madre de Deus, Bonifácio do Rosário e o leigo João de Santa Maria. Em 1721 fora erecto em guardiania regular com voto.

(59)Em muito sobrepujou a do Escorial, feita por Filipe lI, a mais notável até então.

(60)A do Escorial durou só um dia.

(61)O Monumento Sacro.

(62)Notável pelo volume era o tocheiro do círio pascal: 235 Kg de peso, 2,86 m de alto e 16 centímetros de diâmetro no bocal. Correspondiam-lhe os apagadores. E refere J. Conceição Gomes que, pasmado ao vê-los, exclamara o visconde de Castilho: Oh, mas são os apagadores do sol!

(63)O zimbório, desde o pedestal (já feito) à cruz foi arrematado por 400.000 cruzados (160 contos oiro) e pelo prazo de 3 anos, fora o engenho elevatório, os calabres e ferros, que custaram 45.500 cruzados. Ficou pronto em 17 de Setembro de 1733, data em que foi firmada a cruz de bronze numa esfera igual, assente em peanha piramidal oitavada. Depois de benzida até ela subiu um frade e na esfera guardou uma caixa de cobre (com inscrições gravadas externamente), contendo uma relíquia do Santo Lenho, metida numa cruz de cristal e um Agnus Dei de Inocêncio XI.

(64)Manuel Álvares, Félix Oliveira, Simão Coelho, Jorge Abreu, José Mendes, Francisco Santos Moreira, Caetano Tomás, Francisco Xavier Pinto e António Luís.

(65)Em todos os ofícios labutavam só uns 3.000 operários.

(66)  – A despesa mensal consignada era de 50.000 cruzados: 36.000 para os pedreiros, 2.000 para os carpinteiros e o resto para os outros.

(67)A rainha, talvez por achar pequeno este convento, quis fundar outro, em 1791, no lugar da Rossada, para oferecer à Ordem seráfica da reforma de S. Pedro de Alcântara. Fez o risco o tenente-coronel Manuel Caetano de Sousa, arquitecto do Infantado. A rainha ainda lançou a 1.ª pedra, mas a obra ficou suspensa e empatada por doença da fundadora.
 

 
 

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