Acesso à hierarquia superior.

Secundária José Estêvão

Cintura de Lírios, Duarte Morgado, 1997/98

CRIAÇÃO TEATRAL NA EDUCAÇÃO

FUNDAMENTOS

PROCESSO PEDAGÓGICO

O processo de transmissão de conhecimentos quer na sua forma formativa, quer na sua forma meramente informativa, é um processo informativo. A teoria da informação ensina-nos que em todo o processo informativo existe um emissor, um receptor e um canal de informação que liga o emissor ao receptor. Para que as mensagens enviadas pelo emissor ao receptor sejam recebidas, é obviamente necessário que o receptor esteja sintonizado com o emissor e que seja capaz de receber ao ritmo que o emissor envia. Se estas duas condições não existirem, a informação perde-se. Para que a informação seja transmitida a um bom ritmo, é também necessário que o canal seja o mais adequado a esse ritmo de transmissão.

No processo pedagógico o emissor é quem dá as aulas, o receptor é o estudante e o canal de informação são as ferramentas de que o docente se serve para transmitir a sua mensagem, por isso o ensino tem de ser motivante.

Nesse sentido, o docente tem de ser capaz de motivar o estudante, respondendo às suas interrogações e, num processo formativo, ser capaz de lhe criar novas interrogações a que ele se sinta interessado a responder. O acto de ensinar implica uma atenção constante aos métodos de ensino que constitui o canal de informação. Conforme os assuntos a abordar, devem ser utilizados os meios mais convenientes para aproximar o docente do estudante.

Esta proximidade implica que o método de ensino seja democrático, ou seja, é necessária a participação activa do aluno. Este processo de realimentação é de capital importância. A participação deve ser encorajada, tendo como objectivo fundamental o desenvolvimento de um conjunto de qualidades que farão falta a qualquer quadro. São elas:

● decisão

● planificação

● organização

● trabalho em equipa

● domínio técnico-científico. / 10 /

 

É pela discussão do trabalho continuamente desenvolvido que se deverá procurar aumentar estas qualidades no estudante. O trabalho em equipa deve ser particularmente estimulado. Mas para que o ensino seja efectivamente democrático, é necessário encorajar os estudantes à procura da verdade pelos seus próprios meios, ultrapassando os limites da sala de aula, acabando por ser uma das formas de participação. Embora o docente deva fazer publicações dedicadas à actividade da aprendizagem, não devem ser essas obras as únicas a que o estudante tem acesso para consulta. Tal seria uma prática totalitária, contrária ao desenvolvimento dum pensamento aberto e dialogante. O desenvolvimento das capacidades dos alunos está ligado à forma prevista, executada e consequente, dos docentes. O docente é responsável pelo conhecimento de todas as condicionantes ao seu trabalho.

 

DIDÁCTICAS ESPECÍFICAS

Qualquer didáctica específica estuda cientificamente tendo em conta sempre o como, o porquê, o onde e o que foi leva sempre o docente a tornar-se mais performante, consciente, eficiente e responsável, à medida que evidencia uma autonomia que lhe será necessária para sempre na sua prática. É claro que a formulação de uma metodologia só é entendida se houver conhecimentos básicos de História da Pedagogia, para que os conceitos escolhidos sejam aplicados compreendendo as evoluções, tanto na sociedade como nas pesquisas científicas, consequencializando princípios pedagógicos. É por isso que as didácticas não podem funcionar como receita, porque o re-estudo dos métodos leva-nos sempre a reformular novos conceitos e novas fórmulas. Devemos é ter em conta uma realidade específica – o conhecimento e a realidade dos componentes dos grupos com quem se trabalha – para que a utilização de uma estratégia e método não se transforme numa experiência gratuita. Qualquer situação pedagógica deve-nos facilitar a análise explícita e justificada que provoque deduções pertinentes e coerentes ao processo. Daí a grande necessidade de uma planificação actualizante, que considere as condições epistemológicas e as circunstâncias didácticas. Se nos prevenirmos da justeza das circunstâncias escolhidas, todas as situações que se improvisem para além da programação correm menos riscos de insucesso. Os alunos terão tendência para serem mais colaboradores se as actividades preconizadas lhes parecerem úteis no sentido de resultados, e credíveis, se for aplicado rigor na manutenção e na orientação dos conteúdos. É evidente que, quando se definem objectivos, temos de pensar que estamos a definir um pouco a "construção humana" que se espera. Daí que os conceitos de vida devem respeitar a construtividade positiva a todos os níveis. Nunca será só programar por programar, jogo pelo jogo, prazer pelo prazer, mas sim programar para construir sabendo, jogo pelo dinamismo do controle das regras sabendo fazer, prazer para que a alma estética do indivíduo se eleve com amor sabendo ser.

Tudo isto leva-nos sempre a uma avaliação, que no caso do uso de didácticas específicas da Expressão Dramática e Teatro na Educação não deixa de se fazer em dois sentidos – a avaliação do trabalho do formador e a avaliação do trabalho do formando, sempre mais no sentido de uma avaliação criterial do que normativa. / 11 /

 

INFLUÊNCIA ANGLO-SAXÓNICA

As actividades começam por ser ligeiramente fechadas no grupo, dentro dos conceitos psicopedagógicos defendidos por Brian Way, depois por Dorothy Heathcote e, um pouco mais tarde, por Gavin Bolton. Os princípios que norteiam as suas correntes são baseados na pedagogia do não directivo, que obriga o orientador a controlar todas as atitudes de emissão/recepção, de forma a que o grupo não entre em anarquia, mas que perceba, ou não percebendo, sinta a harmonia tão necessária para que a disponibilidade psicológica funcione; indirectamente em termos de estratégia, para o jovem não se sentir uma cobaia em experimentação, mas que a experimentação seja uma necessidade, um meio e uma luta que cada um terá de travar em função do seu próprio desenvolvimento. Não devo esquecer de referir um aspecto importantíssimo – o amor, para sensivelmente usar o saber e a intuição. Não impor completamente e sem sensibilidade as propostas, é para o grupo se sentir em situação de verdadeiro trabalho colectivo (sempre debaixo de uma auréola ficcional para melhor intrusar as linguagens dramáticas).

É este estatuto disciplinar de prática do drama, como promotor para o conhecimento e para a formação estética, que nos leva a um género de planificação que contemple factos e princípios como:

1 – O Jogo e o Teatro estão interligados por laços de Jogo/Acção onde o acreditar funcione;

2 – Ao acreditar que o Jogo é pensamento em acção, creio ser o sustento do jogo o enredo, e quando o jogo se sustenta no enredo, efectuam-se aprendizagens nas descobertas objectivas ao elaborar conceitos praticados em abstracções. Consequentemente, delineamos valores, atitudes e sentimentos; tudo é claro quando se joga o Jogo que se produz e entende, quando se constrói o sentido de colectivo na focagem de ideias para soluções;

3 – Como professor, não posso valorizar só a intuição, devo dominar uma série de técnicas para poder dominar as situações;

4 – A planificação deve ser clara no percurso da aprendizagem, no sentido de criar ambiente propício e espaço mágico de indução, na (re)construção de um mundo interior a partir da relação com o mundo exterior.

Gavin Bolton define nas suas teorias a base da sua causa estética/pedagógica, em que as suas convicções de estrutura dramática dão-nos claramente a conceitualização de improvisação num DRAMA FOR UNDERSTANDING.

Ao explorar situações para serem aplicadas posteriormente, o animador deve preocupar-se em fazer entender ao jogador as linguagens que ele próprio vai descobrindo, a sua análise e reflexão, para um futuro encontro com um destinatário em situação de Expressão/Comunicação. Claro que implica sempre uma exploração estética da criação e neste caso o orientador deve preocupar-se em que o grupo não fique em relação directa com estereótipos formais. Abrem-se outras perspectivas de fundamentar o trabalho não só no conteúdo mas também na forma de construção que implicam todos os apêndices da Linguagem Dramática. Não será só um ensino centrado no Jovem, nem na actividade, nem só centrado em atingir objectivos do domínio cognitivo.

Hoje podemos concluir que as teorias Anglo-saxónicas apresentam-nos um perfil / 12 / pedagógico e filosófico que vão além do querer desenvolver as capacidades do indivíduo. A Arte, a sua prática efémera, como o é no DRAMA/ACÇÃO onde as coisas acontecem em teia e se reconstroem constantemente, é o outro estandarte que norteia estas teorias e exigem de nós professores a tal noção artística e pedagógica de GESTOR DO IMPREVISTO / ARTÍFICE / PEDAGOGO / ARTISTA / COMUNICADOR / CIENTISTA.

 

INFLUÊNCIA FRANCÓFONA

É mais do que evidente que é importante conhecer as ideias de Gisele Barret, Augusto Boal e de Jean-Pierre Ryngaert, as técnicas, as actividades e os seus recursos para qualquer planificação em Oficina de Expressão Dramática.

Para além do que é nitidamente comum às correntes francófonas e anglo-saxónicas, saliento a influência de Augusto Boal, que assenta na ideia de que todos podemos ser actores. Os esquemas de trabalho por ele propostos estão sempre de mãos dadas, tanto com a realidade da sua própria vida como com os seus próprios conceitos de "ser".

Há princípios básicos que procuram definir a sua causa estética/pedagógica, porque Augusto Boal entende (e bem) que todas as pessoas têm capacidade de expressão, precisam é que um orientador bem formado saiba fazê-las "acordar", vindas de dentro pela sua própria existência e vindas de fora através da forma que exerce sobre o que é o célebre "Teatro do Oprimido” como génese. Em qualquer projecto de trabalho que eu encete, há evidências do Teatro Jornal, do Teatro Imagem e do Teatro Fórum em que os seus conceitos estruturais definem as respostas de improvisação. Boal quer sempre, através do trabalho, que se valorize esteticamente o conteúdo, mas eu penso que não devemos ficar pela mensagem de um conteúdo.

Ao lermos Ryngaert, abrem-se outras perspectivas de fundamentar o trabalho não só no conteúdo, mas também na composição formal/estética que se aproxima das ideias partilhadas pelos didactas anglo-saxónicos ao querer implicar qualquer instrumento de linguagem possível.

 

REFLEXÃO / AVALIAÇÃO

Regras como conceitos de saber usar o corpo, a voz, a imagem, a cor, a luz, o som, a percepção de tudo o que nos rodeia, a composição de uma personagem com dados do jogador, dados da própria personagem, dados do orientador e de outros jogadores, domínio da focalização, tensão, contraste e simbolismo, são referências da Linguagem Teatral da qual nos devemos munir para se apresentar um trabalho destas linguagens de acção. O sentido da palavra e do corpo em acção num espaço, é diferente do sentido da escrita inicial (ponto de partida – quando é um texto inicial). Aqui está a fuga ao naturalismo como consequência do trabalho sempre que seja por mim proposto, em que a forma artística é conseguida devido ao processo. Se o jogador puder criar ilusão, tudo certo, mas a grande preocupação deve dirigir-se ao jogador no domínio do seu próprio discurso, ao mostrar-se numa situação de Expressão/Comunicação em que se trabalha ao mesmo tempo a forma e o conteúdo. É sempre um trabalho que leva os alunos a interpretarem o mundo que os rodeia, através deste espaço de criação, em que intervêm a partir das suas próprias emoções / 13 / e sentimentos.

Como animador, obrigo-me a estar num local de verdade, para o jovem se sentir e actuar na verdade, que implica jogo, regras, rigor, o seu desenvolvimento de competências:

– o estar disponível;

– o saber escutar e ser receptivo;

– o deixar-se surpreender pelo inesperado;

– o ser capaz de sentir o prazer do que é ser-se cúmplice no jogo, criando a afectividade anímica de grupo (implicação afectiva);

– e sempre a procura da inovação e da renovação.

Para levar a bom porto toda esta empreitada, há que cumprir regras, tais como:

– nunca jogar só uma vez – retomar sempre o jogo com algo novo, nunca pensar que já está tudo feito;

– propor, escutar e olhar – são aprendizagens constantes e evolutivas, cada um tem o seu próprio lugar dentro de uma forma de estar colectiva;

– ter consciência de que o imaginário dá-nos resposta às alternativas e…

 

LEVA-NOS INCONSEQUENTEMENTE AO DESENVOLVIMENTO DA SENSIBILIDADE, AO CONTROLE EXPRESSIVO, À ORIENTAÇÃO DO SENTIDO DE COMUNICAÇÃO E AO DOMÍNIO DAS COMPONENTES FUNDAMENTAIS DO TEATRO.

Apesar de já ter nomeado as regras principais de conduta, tanto para os alunos como para o orientador, devo deixar bem explícito que ser-se claro é fundamental para provocar melhor comunicação, apresentar propostas atraentes para provocar inovação, deixar experimentar para provocar melhor conhecimento de si, dos outros e do meio, e deve sempre reflectir com os alunos sobre o trabalho feito, processo/produto e avaliação.

A avaliação é um meio de personalizar a educação. Usa-se, neste caso, para reflectir na eficiência dos processos, tanto o dos alunos como o do professor. Ajuda a compreender o que se esperava ao partilhar-se o resultado, ajuda a compreender a análise, reflectindo para se concluir.

Não devemos esquecer que a educação (como dizia Dewey) não é a preparação para a vida, é a própria vida, e para ser sempre vida, devemos ser rigorosos e maleáveis ao mesmo tempo.
 

 

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