Escola Secundária José Estêvão, n.º 11, Jan.- Mar. de 1994

 

Vê-se o mar, são os búzios, as conchas, as areias, as gaivinas e gaivotas, os araus, ondas e salsugem. Nasce no Porto mas passa na Granja grandes, longos momentos da infância; ali se inscrevem momentos da sua juventude. "Eu sou uma menina do mar. Posso respirar dentro de água como os peixes e posso respirar fora de água como os homens. E posso passar pelo mar todo e fazer tudo quanto eu quero e ninguém me faz mal, porque eu sou a bailarina da Grande Raia. E a Grande Raia é a dona destes mares. "Há por ali Porto, Granja, há Leça, Boa Nova, Moledo e Afife, painéis de Resende, "ímpetos de veIos, surdo rumor de búzios," e na sua Pátria lhe "dói a lua, lhe soluça o mar. "Porque tudo é perto do mar, em Portugal e na Dinamarca, essa Dinamarca que perpassa num murmúrio de genes e onde "há muitos, muitos anos, havia um certo lugar [...] no extremo Norte […] perto do mar," um certo Cavaleiro com que sonharão crianças e se deliciarão adultos. Haverá aquela "casa construída na duna [...] O rumor das ondas, o perfume do sal [...] o ar varrido de brisas e vento [...] o arfar ressoante do mar. "Há o eco de Navegadores, que "habitam entre um mastro e o vento [...] No oceano infinito / estão detidos num barco […] o barco tem um destino / que os astros indicam. "A Cidade? A cidade, essa, "é rumor e vaivém sem paz das ruas [...] vida suja, inutilmente gasta", quando se sabe que existe o mar e as praias nuas e ela está fechada na cidade e não vê nem o crescer do mar nem o mudar das horas. Vontade de ser pirata, gostar de uivar no vento com os mastros e de se abrir na brisa com as velas. A grande paisagem, – a Paisagem – é ao longe as cavalgadas do mar largo ou a verdade e a força do mar largo ou o regresso sem fim e a claridade / das praias onde a direito o vento corre. O mar, esse jardim, o Jardim do Mar, é toda a sua vida, a última esperança, mesmo que no desespero das Grades, mesmo que só evocação / desespero no Exílio, em que até a voz do mar se tomou, quando a pátria que temos não a temos / perdida por silêncio e por renúncia. Na sua infância, antes de saber ler, ouviu recitar e aprendeu de cor um antigo poema tradicional português, – a Nau Catrineta.

"Eu era de facto tão nova / 30 / que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio."

Assim, toda a vida tentou escrever esse poema imanente. Esse poema que a acompanha pelo velho claustro da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, – à Academia das Ciências, – que se projectará nos Cadernos de Poesia, em Távola Redonda, Unicórnio, Árvore, que está em Jardim do Mar, em Dia do Mar, em Coral, em Tempo Dividido, em Mar Novo, Livro Sexto, Geografia, a Nome das Coisas, Navegações, ou em Ilhas. É mesmo um poeta da Távola Redonda, David Mourão-Ferreira, que a diz uma voz única, não só pela difusa sedução dos temas ou pelos rigores da expressão, mas sobretudo por qualquer  coisa anterior a tudo isso e que em tudo isso se reflecte uma rara existência de essencialidade. Nos seus poemas como na obra dita de literatura infantil, em O Rapaz de Bronze, Menina do Mar, a Fada Oriana, Noite de Natal, o Cavaleiro da Dinamarca, A Floresta, ou ainda os Contos Exemplares e em Histórias da Terra e do Mar. Para trás de si fica o murmúrio / das ondas enroladas como búzios, mas não se perdeu nenhuma coisa em si, Eurídice que procura Orfeu, bebendo manhãs de nevoeiro, só vendo o rosto liso e puro da paisagem, ou ressurgindo sob os muros de Cnossos e em Delfos, ou ainda a dura luz de Creta.

Um dia alguém perguntava a Miguel Torga o que pensava da poesia de Sophia de Mello Breyer Andrsen. O que pensava de Sophia.

Miguel Torga não responde logo. Parece alheio ou procura distrair o perguntador, evitar o veredictum esperado por quem inquire. Mas este insiste. Insiste, recorrendo a um e outro assunto, voltando várias vezes. E é então que, a dada altura, Torga responde: – É uma corda molhada.

Os búzios, as conchas, as areias, as ilhas, as naus, o navio naufragado. (Vinha dum mundo / Sonoro, nítido e denso. / E agora o mar o guarda no seu fundo / Silencioso e suspenso. // É um esqueleto branco o capitão, / Branco como as areias. / Tem duas conchas na mão. / Tem algas em vez de veias / E uma medusa em vez de coração. // E em seu redor as grutas de mil cores / Tomam formas incertas quase ausentes / E a cor das águas toma a cor das flores / E os animais são mudos, transparentes // E os corpos espalhados nas areias / Tremem à passagem das sereias / – das sereias leves de cabelos roxos / Que têm olhos vagos e ausentes / E verdes como os olhos dos videntes.)

Os búzios, as conchas, as areias, as ilhas, as naus, o navio naufragado, as sereias, as gaivinas e gaivotas, os araus, as dunas e as ondas, o nevoeiro e a salsugem, o vento e os mastros e as velas, Cnossos, Delfos, Nau Catrineta, Creta e os piratas. Com o Porto (onde Portugal busca o nome), com a Granja, com a Praia da Boa Nova (onde um dia Nobre edificou o seu castelo), com Moledo, saudades do Ruben familiar, a maresia, ressonâncias helénicas, e, mais mar ainda, a Grande Raia, a dona dos mares, a menina do mar.

Torga apanhara, e dera, ao seu jeito, a definição lapidar. Como perante o oráculo, ao inquiridor competira adivinhar, completar o sentido, ao regressar de Delfos.

A tal corda molhada de Sophia. Sophia de Mello Breyner Andresen, sem dúvida. ■
 

Aliás, Escola Secundária José Estêvão

 

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págs. 29-30