Escola Secundária José Estêvão, n.º 3, Abr. - Jun. de 1991

História

e trabalhos realizados:

Em 1989, em consequência da extinção da Escola do Magistério Primário de Aveiro e com o apoio da Coordenação da Área Educativa de Aveiro, foi colocado na Escola o Professor de Movimento e Drama, Duarte José Furão Morgado. Nos primeiros meses desenvolveu-se actividade no campo da Expressão Dramática e do Teatro, integrado no Projecto «A Cultura Começa na Escola» do Ministério da Educação e da Secretaria de Estado da Cultura. Mas cedo se revelou que o professor, para além da capacidade de mobilização de grupos de estudantes para a expressão dramática, tinha capacidade para mobilizar e formar pessoas (alunos, professores e outros membros da comunidade) para a recuperação de peças de artesanato regional. Iniciaram-se então actividades em ateliers de Artesanato Religioso com a participação de membros da comunidade interessados nesse trabalho.

Em 1989/90, grupos de estudantes apresentaram as suas representações (expressão dramática, mímica, teatro de sombras, dança criativa) dentro e fora da escola (na cidade, mas também em outras localidades) e em colaboração com outros Projectos (especialmente Projecto de Dança de Aveiro). Pela primeira vez a escola participou no Encontro Nacional de Teatro nas Escolas Em Santo André (Santiago de Cacém). Ao mesmo tempo, realizaram-se trabalhos de artesanato religioso – ramos, rocas e registos. Os trabalhos revelavam uma grande perfeição técnica e elevado sentido artístico, embora mantendo as tradições com grande rigor, e revelavam sobretudo uma participação entusiástica dos membros da comunidade envolvidos. O projecto apresentou-se ao concurso «Educar Inovando/Inovar Educando do IIE», tendo sido contemplado com um pequeno subsídio.

Em 1990191, a actividade dos grupos de teatro de alunos foi ampliada. Em Novembro de 1990 apresentaram o espectáculo – Deslocações – em parceria (dos diversos grupos e com o Projecto Dança de Aveiro). Durante o ano, procuraram-se apoios. Graças à Associação de Pais, compuseram-se os panos de cena do Ginásio (cerca de 500 000$00), graças a apoios da Escola, de grupos da comunidade e da Fundação Calouste Gulbenkian instalaram-se projectores e órgãos de luzes (cerca de 500 000$00). Durante os meses de Abril e Maio, os grupos de Teatro apresentaram diversas peças (autores portugueses e estrangeiros, escolhidos e tratados pelos estudantes) e em 25 de Maio foram apresentadas as seguintes peças: «Esta noite improvisa-se» de Pirandello, «Eu sou uma mulher de bem» e «O avejão» de Raul Brandão e «Anna Kleiber» de Sastre.

No dia 1 de Junho vai apresentar-se a peça «O quarto mágico» para as crianças da escola e das escolas primárias da cidade. As duas primeiras peças referidas foram levadas ao Encontro de Teatro nas Escolas de Miranda do Corvo e as últimas vão ser representadas em Tondela, durante o mês de Junho.

Em 1990/91, também os ateliers de artesanato se diversificaram, quer em participantes quer em áreas de intervenção. Na exposição final de 22 a 29 de Maio puderam ser apreciadas novas obras de artesanato religioso, obras de artesanato marítimo e obras em Tecelagem Macramé.

Ao longo destes anos, o Professor colaborou em diversos projectos da escola e especialmente apoiou a restauração de peças antigas da escola que se encontravam em degradação acelerada, dando alento e vivacidade à decoração dos corredores. Entre os participantes, dos grupos de teatro e ateliers de artesanato, encontram-se alunos das diversas escolas secundárias e de ensino superior, professores desta escola e membros da comunidade.

 

Texto de intenções do animador:

«A escola deve ser um espaço que dinamize contactos e conhecimentos, para poder intervir e usufruir da intervenção, deve abrir-se à comunidade para a servir e dela se servir. Uma escola fechada ao seu próprio núcleo é fechada à vida. Pôr em causa uma escola fechada implica passar da acusação à responsabilização, que nos leva à reformulação.

Uma escola aberta à comunidade provoca confrontos, mas leva-nos a repensar a escola, o acto pedagógico no seu valor sócio-cultural.

O objectivo geral de todas as actividades expressivas, que eu proponho, residem na aquisição de instrumentos de cultura e no desenvolvimento de capacidades para um melhor equilíbrio do ser.

No campo da expressão dramática interessa-me vencer bloqueios, desenvolver autonomia, a iniciativa e a cooperação, explorar linguagens, para promover a disponibilidade psicológica tão importante no acto criador. No fundo, desenvolver a expressão e a comunicação através de criações lúdicas colectivas.

No campo do teatro, em termos pedagógicos, é tão importante o processo como o resultado. Começando por um trabalho de exploração técnica inerente a esta expressão artística, é um espaço de experimentação importante ao que virá a seguir; o contacto com o texto, a sua visualização no tempo e no espaço, a animação dessas imagens e o seu envolvimento sonoro, as suas características plásticas, a criação cénica final e a sua divulgação são as metas seguintes, que sem elas não haverá um processo acabado de criação artística teatral.

No campo específico do artesanato além do que se propõe no levantamento cultural de técnicas artesanais em desuso, impõe-se frisar que se dirigem à comunidade em geral no sentido de a ocupar e de a responsabilizar como agente pedagógico. Como pressupostos metodológicos, pretendo através de situações lúdicas, proporcionar o desbloqueamento psicológico do jovem face a si próprio e aos outros, processo que proporciona um enriquecimento da personalidade ao mesmo tempo que lhe permite perceber o potencial educacional que é a actividade expressiva.

Os resultados esperados deste projecto são perfeitamente viáveis e impõem-se como realidade:

– exposições de artesanato, fotografia e material cinético-dramático;

– espectáculos de expressão dramática, teatro, dança, feiras de expressão e comunicação, tanto na escola, como em divulgação do nosso trabalho fora da escola.

Tendo em conta o ponto de partida ao qual este projecto dá resposta e, que é a finalidade da Educação, a concepção do homem e a concepção da Escola, a partir da resposta com o trabalho, surgem naturalmente determinações internas com as quais me confronto tanto no sector administrativo, como no sector pedagógico da escola. Perante as metas atingidas, faço uma reflexão do vivido, analisando em que medida as actividades proporcionaram a consecução dos objectivos específicos, visaram os objectivos gerais e respeitaram os princípios psico-pedagógicos e que desenvolvimento proporcionaram as actividades, o que se alcançou, adquiriu e revelou. / 26 /

Face aos dados recolhidos nesta reflexão e, em conjunto com a escola e com os participantes do projecto perspectiva-se o «a viver».

Em vez de uma educação voltada para o «ensino» de «conhecimentos» tidos pelo adulto como importantes, certos e imutáveis, tendo por finalidade «formar», entendo ter melhor efeito uma educação voltada para a satisfação das necessidades do jovem. Pretendo uma mutação não só nos aspectos administrativos e programáticos da educação, mas também nos métodos e princípios pedagógicos. Urge uma escola onde haja espaço, onde o jovem de acordo com o seu carácter se eduque através de experiências livres e conforme o desejar, vividas por ele próprio. Em relação à expressividade e à criatividade, que é onde se centra toda a minha conduta pedagógica, não desejo impor padrões pseudo-estéticos de conduta expressiva ou criativa. A prática do acto criador propõe iniciativa, formando assim a personalidade ao mesmo tempo que ensina a viver com os outros.

 

Na expressão dramática interessa-me mais utilizar o contexto expressivo do que uma conduta artística para possibilitar o desenvolvimento das aptidões do jovem.

A minha intervenção pedagógica no campo do teatro, além dos princípios pedagógicos que regem a expressividade no drama, contempla todos os aspectos técnico-artísticos, desde o trabalho de voz e do corpo até ao trabalho de cena e fora de cena.

Este projecto inserido numa escola, onde alunos de várias escolas coexistem nos seus tempos livres, tem a intenção de dar resposta como escola dentro de outra escola, como meio do jovem se servir expressiva e artisticamente das suas capacidades com a finalidade de desenvolver a personalidade para um melhor conhecimento de si próprio, dos outros e do que o rodeia.

Em relação à pesquisa, levantamento e confecção de artes tradicionais, nomeadamente de temática religiosa, marítima e tecelagem, pretendo que os participantes se transformem em núcleos duros de animação nestes aspectos culturais e de preservação do património. É positiva a vinda de pessoas à escola, a maior parte delas não afectas ao campo do ensino.

Isto só prova que a escola não deve estar apenas voltada para o «ensino» de «conhecimentos», mas também ser eficaz como espaço de auto-desenvolvimento e de luta para um melhor equilíbrio psicológico.

Não é possível abrir uma escola à comunidade com Educação pela Arte sem correr RISCOS, mas neste projecto têm-se levantado vozes com ECOS de apoio e positivismo, onde numa escola sobrepovoada e com falta de espaços físicos está a ter cabimento.»
 

Trabalho a realizar:

Manter os grupos de teatro na exploração de autores portugueses e estrangeiros e levar à cena na escola e fora dela as representações das peças que foram e forem sendo encenadas. Desenvolver animação teatral, especialmente mímica, na cidade. Estão em andamento projectos de animação de rua, apoiados pela Câmara e Associações de Comerciantes.

Manter e desenvolver os trabalhos de recuperação de artesanato regional, de acordo com as tradições. Revigorar e divulgar as tradições da região. Reforçar os ateliers da comunidade na escola. Aprofundar o trabalho com os alunos no campo da confecção de artesanato.

Criar um espaço – área escola – com ligação profunda aos sectores de Arte & Design (Artesanato) e à Área de Estudos Humanísticos (teatro).

Estabelecer uma ligação efectiva ao Projecto VIDA – pela ocupação de tempos livres que proporciona – mas também servindo de animador de espectáculos e outras actividades culturais e recreativas.

Estabelecer uma ligação ao Instituto da Juventude, pela prestação de serviços e núcleo animador de perspectivas da delegação de Aveiro do Instituto.
 

Meios:

1. Humanos.

Absolutamente necessária a colocação do Professor Duarte José Furão Morgado.

2. Físicos.

Na situação actual, não é possível ceder mais espaços do que a ocupação a tempo inteiro da antiga sala de Madeiras e a ocupação eventual do Ginásio. Dos equipamentos necessários só estão a faltar, para o Ginásio, a instalação do equipamento de som e a compra de uma câmara de vídeo que permitisse guardar memória dos espectáculos e dos diversos aspectos do trabalho.

3. Financeiros.

Até agora têm-se buscado apoios fora das instâncias das Direcções do Ministério de que a escola depende. Assim vai continuar a ser no futuro. Todas as ajudas para completar o quadro da instalação física são bem-vindas.

Duarte José Furão Morgado
 

Aliás, Escola Secundária José Estêvão

 

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