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O Canto Norte, 1ª ed., Pombal, Quilate, 2008, 52 págs.

À MALTA DO COMBOIO

Era o ramerrão, ramerrão, lembram-se?
A velha máquina a vapor
A vomitar fumo e cinzas
Entre silvos estridentes
Como sinais de guerra;
Era o trucla, trucla, do rodado
Tosco e pesado do vagão jota
Que cheirava a mijo fora do prazo,
A bufas e arrotos de chouriço moiro,
A saltar as juntas de dilatação
Em contínuo baloiçar síncrono,
Cp...cp...cp...cp...cp...cp...
Como criança abandonada,
A soluçar, em severo estrebuchar,
E a Malta do comboio, encharcada,
Fustigada nos Invernos agrestes,
Suada e maltrapilha no Verão,
Ia e vinha como badalo de sino,
Movimento isócrono, afinado,
Pouca terra, pouca terra, pouca terra...
E o tempo, amainava,
O ânimo sossegava,
Nada acontecia, depois de nós.

Naquele tempo, as aulas e o fastio,
A eternidade entediante
Até a hora da partida, e
A louca ânsia de mudança;

Depois, surdia a besta a resfolgar,
Mal-cheirosa, em proa da, negra,
Acolhia a Malta, impaciente,
Silvava o apito, grunhido estridente,
Guinchavam ferros e engates,
Rangiam os metais e a raiva
Da Malta, a fingir serenidade
Mas desfiando tropelias
Próprias da idade, e
Sempre a pensar no regresso
Mesmo antes da chegada,
Alegre e triste, mas confiante,
No seu ofício de meditar:
Em lições alinhavadas
Em futuros envoltos
No negro fumo da máquina;
Caderno diário preenchido,
O resumo de um preâmbulo,
Porta aberta, porta fechada.

Oh andarilhos do lusco-fusco,
Por borrascas ou noites tenebrosas,
A folhear, ingénuos, os manuais,
Gestos lentos, maquinais,
Sem qualquer encantamento,
Cépticos e crentes, sem o saber,
Como quem encara o cadafalso
Ignorando a gramática da guilhotina.

 

 
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