AVENIDAS, RUAS, PRAÇAS E LOCAIS DE AVEIRO

Rua do Gravito

Quinta-feira, 31 de Dezembro de 1998 – pág. 15 Amaro Neves

Ora aqui está uma rua da cidade que tem um acentuado carácter de unidade em si e mesmo na relação com aquela que se lhe segue, a Rua do Carmo.

A Rua do Gravito vem na sequência da Rua de Manuel Firmino, isto é, vem lá mesmo do centro da Vera-Cruz, donde a "estrada real" dobrava, em frente à igreja paroquial, para rumar a Esgueira, depois de passar Sá, seguindo portanto um traçado antigo de muitos séculos e que deixa adivinhar, por baixo do tapete de alcatrão, a pedra roliça do rio que, durante séculos, lhe conferiu a robustez suficiente para desafiar os rodados das carroças de rodas revestidas a chapa de ferro. E, por isso, quase se pressente, também, perscrutando a memória do tempo, o chiar estridente e arrepiante dos rodízios, aos solavancos pela rua acima… Mas voltemos ao princípio.

Ao abrir a rua, com a Cooperativa de Ensino à esquerda, voltada para o Largo Maia Magalhães, mais parece que nada desses tempos imemoriais nos chegou.

Para os mais atentos, porém, não faltam por aqui, ainda que raros, alguns marcos da sua antiguidade e da sua importância como caminho régio, a partir das centúrias de Seiscentos e de Setecentos, apesar de se reconhecerem também algumas transformações dos tempos mais próximos.

Dessas raras marcas antigas, destaca-se à esquerda a casa onde nasceu D. João Evangelista de Lima Vidal, um aveirense que se evidenciou, sobretudo, pelos meados do século XX, depois da reorganização da Diocese. Nessa casa se colocou uma lápide alusiva à efeméride, ainda que a velha casa se mostre de cara sombria como sombria é, de resto, toda esta rua, mais animada sem dúvida com a presença de algumas casas comerciais que abriram, há anos, neste primeiro troço, como o restaurante A Nossa Casa (ponto de referência na gastronomia aveirense) ou a Grade – esta praticamente a única no género, no espaço da cidade, congregando artistas de todas as gerações com o objectivo de dar ao público local uma resposta de carácter vanguardista no campo das artes, indiferente às correntes e ao peso dos seus criadores.

Logo adiante, depois da abertura que se oferece à direita, (para a Rua de Alberto Soares Machado), resiste ainda aos desafios do tempo, mesmo que adulterada no seu conjunto, um bom exemplo das casas fidalgas que por aqui se disseminaram, atraindo por vielas e quintais os senhores da terra, em geral arrogantes no trato e no viver, feitos de «sangue azul» e brasão no frontispício. Para que conste, este era o paço dos Couceiros da Costa, desde muito cedo ligados à região com a sua casa em Vilarinho (Esgueira) e que ajudaram a escrever páginas de valentia da História de Portugal, particularmente em oposição às invasões francesas, no princípio do século XlX.

Mais adiante e do mesmo lado, já a fechar a rua, ainda um outro palacete (também alterado), mais modesto na antiguidade das genealogias, mas erguido em maior consonância com os padrões fidalgos da região. Se àqueles se configuram pergaminhos Setecentistas, já a este a certidão não iria para além da primeira metade de Oitocentos.

Um e outro, porém, se recompostos na sua traça original, seriam boas referências no espaço urbano aveirense, tão esquecido dos marcos de antigamente identificados com famílias que tanto se enobreceram ao serviço do rei e das suas terras.

Quanto ao nome da rua, evoca-se nele a figura de um notável aveirense que poderia estar condenado a não ter memória, pois não consta que tivesse sido merecedor de especial apreço dos seus concidadãos enquanto vivo, apesar da sua brilhante carreira de homem de Leis e da Justiça. Quis, porém, a opressão miguelista, a partir de 1828, livrar-se de algumas vozes incómodas. Uma dessas foi o próprio Gravito que se viu justiçado e a quem se aplicou a pena máxima e que, por certo, conheceu a primeira grande homenagem pública quando a Santa Casa da Misericórdia reivindicou as cabeças dos enforcados para aqui lhes dar sepultura cristã.

Triunfante o liberalismo, enalteceram-se as grandes qualidades dos justiçados e, neste caso, prestou-se a mais justa homenagem à coragem de recalcitrar contra o abuso do poder e as suas arbitrariedades.

Honra, pois, ao filho desta terra brutalmente sacrificado em defesa da liberdade, no mais amplo sentido do conceito.

 

A Rua do Gravito em 24-4-2017.

 

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