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farol n.º 24 - mil novecentos e sessenta e seis ♦ sessenta e sete, pág. 19.

Tentação

J. M.
(4.º ano)
 

RODEADO de livros, cabeça baixa mergulhada num estudo. Sem ardor... sem alento. Estudo, porque tenho um exercício difícil a preparar. Enfim, tem de ser... As palavras seguem-nas os olhos, mas o pensamento, esse voa em redor. Tanta canseira porquê? E porquê estudar?

A música, na feira, animando os que têm a dita de não terem aquele livro à frente, desespera-me. E, contudo, não o posso deixar. Não pode ser. Não! Que aconteceria se o exercício corresse mal? Um preguiçoso! Um inútil! Ou, talvez, um incapaz – diria o professor. E os meus pais? E eu? Que diria a mim próprio? Ainda que a aprovação dos meus pais e do professor, fosse, para mim, secundária, a minha sê-lo-ia? E andar de carro eléctrico, agora! Ou jogar com os colegas? Sim, porque, certamente, há inconscientes que não estão agarrados ao livro. E, então, eu não serei inconsciente se fizer o mesmo? E a música atrai-me constantemente e vou sendo arrastado lentamente.

Deixo-me vencer. Levanto-me. O pai está a trabalhar, fora de casa. A mãe? – Vou comprar uma sebenta. Depois? Foi na Avenida e estive com uns colegas. Saio, mas, quando vou a fechar a porta, vacilo. E porquê? Tantos fazem o mesmo e eu por que razão não o hei-de fazer? Contudo, penso. Estou indeciso. A voz do dever chama-me. Reflectindo torno a entrar em casa. Que vou fazer à feira? Divertir-me? E o livro abandonado na secretária não importará mais? O dever que tenho de dar boas provas nos meus estudos não é maior? Tantos sacrifícios custam a meus pais os meus estudos! Tantas canseiras e fadigas não suportarão, por vezes, aqueles que tudo querem que eu seja e que para isso contribuem! E não terei eu de lhes dar o testemunho da minha gratidão, fazendo a sua alegria, compensando o seu esforço com o meu? Sim, tenho.

Volto, triunfantemente, cônscio das minhas obrigações. Estudarei para ser alguém, não um inútil, um pobre inútil que faz dó à sociedade.

E a feira? Essa, depois de cumprir.

Vitoriosamente, sento-me e estudo. Venci a tentação. Terei, certamente, a paga dos esforços que faço agora e, qualquer que seja o resultado, a minha consciência acompanhar-me-á. Ela poderá ficar tranquila, terei a recompensa de Deus, se a não tiver no Liceu. O que importa é que quem foi o herói, quem venceu, fui eu!

 

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08-06-2018