Ainda Viegas, Santo António. A Freguesia e o Padroeiro, 1ª ed., Aveiro, Maio de 2011, 160 pp.



Teatros e entremezes

A tradição dos teatros populares vem de longe pois o povo sempre gostou de representar a vida. Este era um dos entretenimentos da época em que nem cinema, nem televisão eram sonhados.

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Apresentamos uma peça levada à cena num palco improvisado, no lugar da Lomba por volta dos anos 1945/46.

Teve como actores:

● O avô – João Caneiro
● O neto – Fernando Martins Anacleto
● O doutor – João Capela
● A criada – Lurdes Catarina
● O Cabo de Ordens – Manuel Regalado

Da música não tendo sido encontrado o original, para darmos uma ideia, apresentamos uma versão pelo ouvido de Ricardo Ramos.

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Eram tocadores:

● Manuel Mateus – violino
● Aquiles Capela – bandolim
● Silvino Catarça – violão, da Vigia
● João Narciso – concertina, das Vergas

Espectadores: Muitos! Entre eles, Maria do Céu e o marido João Cipriano, tendo-nos afirmado este que ainda agora costuma trautear as canções que ali ouviu e aprendeu.

Reconstituição possível do enredo.

Avô e neto andavam a pedir de porta em porta. Exaustos de tanto caminhar e cheios de fome, deixaram-se cair na valeta. Próximo estava uma grande casa que parecia de gente abastada.
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O velho, sem forças para se reerguer, volta-se para o neto e diz-lhe cantando:

Levanta-te ó meu netinho
É noite já cai orvalho
Vai bater àquela porta
Ver se nos dão agasalho.

O garoto levanta-se, a custo, e quase se arrasta até junto da porta. Aí chegado estica-se todo até à aldraba que estava acima da fechadura e bate.

Passado algum tempo a porta abre-se e do interior surge, precedida de um enorme cão que ladrava, uma mulher com aspecto de criada ou governanta.

A criança implora comida e um palheiro para pernoitarem.

A mulher olha-os com cara de poucos amigos e entre eles trava-se o seguinte diálogo:

Boa noite minha senhora
O que desejas menino?
Está-se a aproximar a noite
Tenha dó de um peregrino.

Aqui não é nenhum hotel
Nem casa de hospedaria
Aqui mora um bom doutor
De alta categoria.

O menino insiste e a mulher grita com ele para que se vá embora. Ele quase chorando volta-se então para o avô:

Avozinho tenho fome
Dê-me pão aí que horror!
Espera aí ó meu netinho
As ordens desse doutor.

A mulher ouve isto e para se ver livre deles manda chamar o Cabo de Ordens. O garoto que não suporta mais as dores no estômago clama pelo avô.

No meio de tanto barulho chega o Cabo de Ordens pronto a pôr cobro ao desacato e o médico, ao ouvir a confusão, sai de casa e vem ver o que se passa.

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Grita o miúdo com medo do Cabo, grita a mulher que os quer dali para fora. O Cabo de Ordens diz ao velho que o acompanhe e vai a pegar-lhe no braço quando o médico se aproxima do portão e fica parado a ouvir, enquanto o catraio implorando diz para o avô, no intuito de dissuadir o Cabo de os levar:

Avozinho que tristeza!
Mendigar de terra em terra.
Fiquei sem o meu paizinho
Que morreu na Grande Guerra.

Já não tenho pai nem mãe
Sou filho da orfandade
Tenho hoje por meu amparo
Meu avô já desta idade.

Teu avô já desta idade
E com esta triste sorte!
Que grande infelicidade.
De joelhos peço a morte.

Tenha dó, ó meu senhor,
Deste pobre desgraçado
De dois filhos que eu tinha
Por ambos fui desprezado.

O médico acha estranha a história que ouve e atenta mais nas figuras que tem à sua frente.

O Cabo insiste em os levar, por pressão da criada. O avô tenta explicar que nada de mal haviam feito, apenas pediam pão e um poiso para dormir, mas a crida insiste em que ali não é nenhum hotel e que os quer dali para fora. Esgotados todos os recursos, o velho já resignado diz para o neto que chora cada vez mais:

Filho meu querido filho
Vamos parar à prisão.
Por causa deste sarilho
E ninguém tem compaixão.

O médico resolve intervir e pergunta ao velho quem é e de onde vem. O velho responde:
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Já não tenho pai nem mãe
Nem neste mundo parentes
Sou filho das tristes ervas
Neto das águas correntes.

O médico com ar de intrigado insiste:

– Mas quem é você, ó velhote? Diga-me lá o seu nome.

O ancião admirado de o doutor se interessar pela sua vida, responde:

– Estou sozinho no mundo com este meu netinho, já não posso trabalhar como antigamente. Veja vossemecê se me ajuda, por alma de quem lá tem, pois o garoto está doente de tanta fome passar. Sou o Jaquim da Antónia, ali das bandas de Mira, vossemecê conhece?

Morreu-me a minha mulher, a Maria Antónia do Rito há um ror de tempo, criei os filhos a custo, um morreu na guerra, outro perdi-o de vista vai para trinta anos Fiquei com esta criança porque a mãe também bateu a bota, com a tuberculose.

O doutor que o ouvia estático e o olhava cada vez com mais ansiedade, mal o deixou terminar. Correu para ele, abraçando-o e com as lágrimas a correr pelo rosto exclamou:

– Meu Pai! Meu Pai! Como é possível termos andado perdidos durante todos estes anos! Tanto que o procurei! Eu sou o João, o seu filho.

A criança olha-os intrigadíssima. O Cabo de Ordens fica especado, como que colado ao chão, de boca aberta, e a criada, de mãos na cabeça e olhos arregalados, resmunga coisas ininteligíveis, gesticulando.

O povo eufórico aplaude sem parar.

Já as mãos doíam ao João Cipriano quando a cachopa que estava a seu lado, de nome Maria do Céu, lhe diz:

– É João! Foi lindo, não foi?

– Coisa rica. A malta trabalha bem!


Entremez

Na mesma ocasião, também foram levados à cena um entremez (diálogo jocoso entre um comerciante e o seu aprendiz) e uma outra peça. Destes apenas conseguimos recolher alguns fragmentos dispersos, três quadras de um e duas sextilhas da outra. Soubemos, no entanto, que fizeram parte do mesmo programa e foram apresentados no mesmo dia e no mesmo local, sendo as músicas de um e de outro ainda lembradas.
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(comerciante)
Vendo café sem bolota
Bom presunto e bom toucinho

(aprendiz)
Até já tacões de bota
Lhe vi deitar no moinho.

(comerciante)
Manteiga da boa, eu vendo
A mais barata de Ruivães.

(aprendiz)
Feita de sabão de amêndoa
Que até mete nojo aos cães.

(comerciante)
Chouriço coisa afamada
De Arraiolos obra pura.

(aprendiz)
São feitos pela criada
Com seu ratito à mistura.

(sextilhas da peça)
Ramos meu querido Ramos
Por mim foste p'rá prisão
E ainda hoje estás aí
Não me percas o sentido
Tu vê se casas comigo
Estou desflorada de ti.

Nas grades desta prisão
Estala meu coração
Por pecar louco de amor
Eu não te perco o sentido
Sou teu futuro marido.
Eu sou ramo e tu. .. flor!

/ 87 / A tradição da representação teatral manteve-se com altos e baixos ao longo dos anos, visando o divertimento e a ocupação das pessoas, para além de uma certa dose de crítica social, passando mais tarde a ter funções didácticas e formativas.

Entre as peças apresentadas nos últimos tempos destacam-se "A Rosa do Adro", "A Filha do Mar" e "O Processo de Jesus" tendo este sido levado à cena em 1976 e exibido não só em Santo António, mas também em Calvão, Fonte de Angeão e Ouca. O ensaiador foi Dario da Rocha Martins.

Sabemos que nelas participou muita gente de diversas idades.
 

Outras actividades culturais

Outra actividade interessante que aqui teve lugar foi um passatempo, tipo concurso de televisão, composto por várias etapas, decorrendo de meados de Outubro até ao Espírito Santo o qual visou o levantamento de tudo o que de interesse ocorreu na freguesia envolvendo vários temas tais como "Recordar é Viver" que visava relembrar o tempo da escola, ou "História da Nossa Terra" que tinha em vista factos reais e tradições. Não conseguimos, com pena nossa, apesar dos esforços levados a cabo, recolher nada mais do que este pequeno apontamento sobre esses evento.

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