Aida Viegas, Abandonar Angola. Um olhar à distância. Aveiro, 2002, pp. 47-51.


A hora da chegada

África tem em si uma atracção fatal e um feitiço que prende irresistivelmente quem a conhece. O seu clima, as suas águas quentes, os seus espaços infindos; savanas, estepes, suas florestas virgens com densas matas, a suprema riqueza da sua fauna e flora, a sua vida selvagem, os desertos, enfim um sem número de aspectos fazem daquelas terras se não o paraíso, pelo menos uma prova de que ele existe. Quem algum dia viveu naquelas paragens passa forçosamente a ver a vida com outros olhos, os seus horizontes jamais serão comportáveis em espaços exíguos, a sua mente estará sempre aberta a grandes dimensões.

Não admira que durante todos aqueles anos, apelidados de guerra colonial, muitos dos soldados que para África foram mobilizados, não resolvessem apenas ficar, mas chamassem para sua companhia as esposas, os filhos, os pais, os amigos.

Todos os dias chegavam a Angola inúmeras pessoas vindas do continente para se juntarem aos familiares e amigos que as aguardavam ansiosamente.

Nos anos sessenta a chegada de um contingente de tropas era motivo de festa e grande alegria. A população de Luanda tirava o dia para aguardar a saída dos militares do porto; esperavam-nos ao longo de toda a Avenida Marginal e aí os recebiam calorosamente. Negros e brancos aca­rinhavam-nos à sua passagem com palmas, sorrisos, abraços, beijos e flores.

Com o passar dos anos estes acontecimentos tomaram-se rotineiros. Os batalhões e as companhias passaram a chegar com regularidade e a maior parte por via aérea, razão pela qual já não se fazia o desfile das tropas à chegada.

Mas não eram só os militares que diariamente chega­vam a Angola, passaram a chegar os familiares, os amigos, os vizinhos e era sempre com grande contentamento que se via atracar um dos majestosos paquetes da frota portuguesa: o Infante D. Henrique, o Príncipe Perfeito, o Pátria, o Vera Cruz... e embora já não acontecesse como relatam os mais antigos que no dia de S. Barco ninguém trabalhava, se entre os passageiros vinha um amigo, um parente, um conhecido deixava-se tudo para ir esperá-lo, desejar-lhe as boas vindas e, quiçá, saber notícias da própria família que estava na Metrópole.

Jaime, um conterrâneo e compadre do João, um pouco mais velho do que ele, casara e tinha oito filhos, sendo o sexto um rapaz chamado Gilberto que contava agora treze anos, e era afilhado do João.

O curto vencimento que o Jaime auferia numa fábrica onde trabalhava em Aveiro, há muito tempo que era escasso para sustentar a família. Ele, ao saber que o compadre casara e mandara ir a esposa para junto de si, lembrou-se de lhe pedir para lhe arranjar emprego em Luanda. Viera já lá iam quatro anos e achou que era tempo de mandar chamar a esposa e os filhos.

Chegaram a Luanda numa manhã de Março. Atracado o barco, o Pátria, algo de anormal acontecia no porto que estava a atrasar o desembarque dos passageiros e bagagens. Dentro do navio, os bagageiros, não havia maneira de aparecerem. Zulmira, a esposa do Jaime, que esperara todos aqueles anos, mais os infindáveis dez dias da viagem não conseguiu aguentar mais a demora e decidida como sempre o foram as mulheres portuguesas, tratou de pôr à cabeça um saco onde transportava alguns haveres, chamou os filhos pegando pela mão do mais novo e com os outros em fila atrás de si, toca de descer as escadas, sendo a primeira passageira a pôr pé em terra.

Na semana seguinte, ela com os filhos eram capa da revista Notícias, que relatava um problema havido entre o pessoal de estiva e ilustrava o acontecimento com a foto da Zulmira e seus filhos.

Na fotografia via-se a Zulmira toda risonha de saco à cabeça descendo as escadas do navio acompanhada dos filhos precisamente com esta legenda: «Esta mulher decidida não precisou de bagageiros, deitou o saco à cabeça e ala que se faz tarde que o marido estava à espera».

Foi Matilde que ao folhear a revista “Notícias de Angola,” se deparou com a foto e ainda hoje guarda a revista como recordação.

 

Iam bem longe esses alegres dias da chegada. Sem saber como, estávamos já na dolorosa hora da partida. Também a família do Jaime e da Zulmira aguardavam angustiados o momento de deixar Luanda.

— Tanta esperança e tanta canseira para quê? Para agora termos de partir sem nada e desesperados. Comentou Matilde entristecida.

De repente pareceu-lhe ouvir marchar e disse para o marido:

Escuta, não ouves marchar?

— Marchar? Estás enganada. Quem é que queres que ande por aí a marchar?

— Os pioneiros, devem ser os pioneiros. E dizendo isto, pousou o uísque que estava a tomar e foi espreitar a Avenida.

— Vem cá, aonde vais com essa pressa toda? Não sabes que os pioneiros que nos habituámos a ver já não existem?

Agora...

Na realidade, na Avenida nada de anormal se passava, apenas o tráfego igual aos dias anteriores.

— Foi imaginação minha, pareceu-me mesmo ouvir marchar... disse Matilde, voltando ao seu uísque e sorvendo um trago, tentando assim desfazer o nó que de repente lhe apertava a garganta, nem a deixando ouvir o que João começara a dizer-lhe.

Este, aproveitando a sua distracção, com habilidade mudou de assunto, não prosseguindo a explicação que parecia ter iniciado. Era seu propósito mantê-la afastada da realidade o máximo tempo possível.

Só alguns dias mais tarde Matilde viria a tomar conhecimento que os pioneiros, que imaginara ouvir e que outrora costumavam marchar nas ruas da cidade, se haviam transformado em bandos de guerrilheiros que atacavam e perpetravam ocupações, roubos, mortes e crimes de toda a índole e entre os quais as crianças já pouco ou nada significavam.


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