Aida Viegas, Abandonar Angola. Um olhar à distância. Aveiro, pp. 41-45.


Lobito

No fim de semana seguinte tinham programado um passeio e os três puseram-se a caminho da cidade do Lobito; partiram no sábado bem cedinho com intenção de regressarem na segunda de manhã pois nesse dia apenas iriam ter aulas da parte da tarde.

Já que estavam em férias e até eram férias remuneradas, escolheram um bom hotel para ficarem, o Hotel Restinga. Eram umas quatro da tarde quando saíram para darem um passeio pela cidade após o qual tencionavam jantar num restaurante que fosse bem do seu agrado e que iriam procurar.

Como nada conheciam na cidade, ao chegar a hora do jantar resolveram perguntar a um taxista se lhes indicava um restaurante regional de boa comida. O bom do homem, não se sabe com que fim, indicou-lhes o Flamingo não se cansando de tecer elogios à boa cozinha, ao preço e mesmo ao serviço impecável. Satisfeitos por terem batido à porta certa na recolha de informações seguiram no seu Fiat Millecento à procura do Flamingo. A filhita dormitava no banco de trás. Ao fim de uns dois quilómetros encontraram um reclame em néon que indicava o restaurante. O prédio era já antigo. Foram informados à entrada que no final do jantar haveria variedades.

Óptimo, disse a Matilde para o marido, como vês é sempre bom perguntar aos taxistas, eles conhecem tudo muito bem.

Claro, admitiu João, este até era mesmo muito simpático e olha que umas variedades vêem mesmo a calhar, não podia ser melhor.

Entraram, o restaurante era constituído por um salão bastante grande, com muitas mesas espalhadas tendo de um dos lados umas escadas em madeira as quais davam acesso a uma pequena galeria também com mesas. Ao fundo situava-se um palco.

Subimos? - lá em cima ficamos mais à vontade com a menina, disse Matilde.

Subimos, concordou João.

Escolheram um prato de bacalhau, uma especialidade da casa.

O serviço era lento, mas também não tinham pressa, iriam até ficar para as variedades que só começavam lá para as dez da noite e eram apenas oito e meia.

O jantar foi servido à luz da vela, a Clarita pouco comeu, era difícil fazê-la comer fosse o que fosse, nunca tinha apetite mas o que lhe faltava em vontade de comer sobrava-lhe em energia; brincou, brincou correu toda a galeria, sentou-se a todas as mesas, falou com toda a gente, até que caiu exausta num sono profundo num cadeirão almofadado que ficava no canto junto da mesa onde estavam. Uma vez adormecida nada a acordava, dormia como uma pedra.

A sala foi-se enchendo, primeiro com pessoas que vieram jantar, depois com outras que vinham beber uns copos. O ambiente que a princípio parecia recatado foi-se modificando lentamente à medida que o tempo avançava. Os clientes que iam chegando agora tinham pouco a ver com os primeiros a entrar para jantar muitos dos quais já tinham saído. Porém só à distancia no tempo se descodificaram estas mudanças. João e a mulher na altura nem deram por nada, queriam era ficar para ver o show!

O vozerio enchia a sala onde um piano que acom­panhara o jantar com seus acordes quase já nem se ouvia. Matilde comentou com o marido que os trajes das mulheres que iam entrando e circulavam entre as mesas lhe pareciam demasiado extravagantes. Observando os pares que chegavam a cada momento tudo se lhe afigurava desajustado, é certo que não era frequentadora habitual destes espaços, mas, pareceu-lhe no mínimo estranho tudo aquilo.

Aproximavam-se as dez e não se viam indícios de começar o espectáculo.

Chamaram o empregado que informou ser habitual um certo atraso. A menina como continuava a dormir profun­damente no cadeirão que tinha ao lado um reposteiro, ninguém dava por ela.

Finalmente abre-se o pano ao som de música e dum forte bater de palmas e um cavalheiro anuncia que irá começar o show de strip-tease Só então caíram em si e se certificaram do caricato da situação: estavam num cabaré; ela grávida com um enorme barrigão até á boca e a seu lado a filha, uma criancinha de dois anos que dormia serenamente. Assistir ao espectáculo, embora esses lugares na época fossem apenas frequentados por pessoas de porte duvidoso, não os molestaria muito pois nem eram conhecidos no meio, e além do mais estavam escondidos num local onde o pessoal nem circulava não dando nas vistas. Deixaram pois correr o tempo e viram o que nenhum dos dois nunca tinha visto já que lhes estava vedado pela decência assistir a espectáculos daquela índole.

Sair no final do show é que foi o diabo!

Lá pelas duas da manhã houve que ganhar coragem e pôr pés ao caminho por mais que lhes custasse. João pegou ao colo na menina, que continuava a dormir, e acompanhado da mulher grávida que procurava em vão encolher a barriga, esgueiram-se por entre a multidão das columbinas e arlequins que enchiam o salão onde a música e a bebida faziam subir os ânimos.

À saída, nem de propósito, um fotógrafo apontava a sua objectiva para uma actriz de cabaré famosa que ainda nessa noite se iria exibir. O insólito da presença dos três despertou de imediato a sua atenção e num repente disparou a sua máquina sobre o jovem casal com a mulher grávida e a filha adormecida no colo do pai.

O fotógrafo era repórter dum diário e João teve de se impor para que a sua foto com a família não fosse publicada no jornal da manhã seguinte.

— Bons tempos aqueles, em que se podia andar à-vontade por essa Angola fora. Como esta terra cresceu desde sessenta e um para cá!... disse João para a esposa, e continuou, quanta gente vimos chegar carregada de esperança! Parece que ainda estou a ver: o António Alves e a mulher, o Pereira com a Rosa e os filhos, os pais do Abreu e tantos outros...

E a Zulmira? Recordas-te quando ela chegou da Metrópole com os filhos, João?


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