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“Mas a minha cidade mudou. As casas
subiram até às alturas impensadas. As ruas são de asfalto, mas proibitivas.
O perigo espreita a cada esquina o momento da nossa distracção. O som
lúgubre da sereia das ambulâncias não deixa perceber já a proximidade do
mar. Afastou as aves dos beirais. O próprio sol detém-se lá muito em cima,
acenando-nos com mágoa, como que desejando explicar o impedimento da
apetecida aproximação.
Pormenor da Avenida Dr. Lourenço Peixinho - 2008
Hoje, apertam-nos em faixas riscadas de
branco e, como rebanho de dóceis ovelhas, conduzem-nos com o chicote da
luz de cores. (…) Foi preciso viver todos estes anos para aprender a
percorrer as ruas aos soluços. Aquelas em que se consertavam redes, se
empilhava o peixe, se franjavam os xailes, se enxugava a roupa, se
conversava, se discutia, se tocava vida e se arriscava a cantiga
brejeira, volveram pistas de máquinas desenfreadas. Irreconhecíveis.
(…)”
“A iluminação das ruas reflecte-se no asfalto molhado (…). Não vale a pena
escrever. Lugares comuns que só o suor pode transformar em arte.”
Variações quase sentimentais sobre uma cidade
Que posso eu fazer? Como falar dela? Repetir-lhe os lugares-comuns tão ao jeito
de certas camarilhas?, de certos sectores imobilistas, e que há tanto nos magoam
os ouvidos? Chamar-lhe a Veneza do país ou enfeitá-la com roupagem de igual
quilate e de tão pronunciado ridículo? Uma cidade não se descreve, caros amigos,
vive-se. Uma cidade não se retrata, respira-se. (…) E a luz desta cidade,
amigos?! (…) A luz inunda-nos, simplesmente. (…) É que nunca nos habituámos a
considerar essa ria, esses barcos, esses desenhos, uma coisa autónoma!; é que
nunca conseguimos isolá-los do conjunto a que chamamos cidade, e essa… essa é
para nós tão grande, que lhe não encontramos qualificativo capaz de a conter.
(…) Defeitos?! (…) No cheiro da sua ria à hora da vazante, na agressividade do
seu clima, um clima que nos enche de reumatismo e nos ensalitra as casas. (…) A
minha cidade é o que é; nada mais.”

Aspecto da avenida Dr. Lourenço Peixinho -
2008
“A Avenida de Outrora
A Avenida é hoje, talvez, a artéria mais popular da cidade. O comércio tem ali a
sua posição ideal e a gente de haveres os seus prédios de rendimentos.”
Vasco Branco (1919-…)
Áreas de trabalho: Literatura, Cinema, Pintura, Cerâmica
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“Iria penetrar nas ruínas vivas de Aveiro, no sangue que animava aquelas gentes,
conhecer-lhes a vida, obra e essência. Desvendar as marcas que as mãos houveram
imprimido e moldado no tempo, em sonhos, glórias, fraquezas, tradições…”
João de Mancelos (1968-…)
Professor e Escritor |