ACTIVIDADES DESENVOLVIDAS

2007/2008

Selecção de Excertos − 4/7

 

Pormenor da Avenida Dr. Lourenço Peixinho - 2008“Mas a minha cidade mudou. As casas subiram até às alturas impensadas. As ruas são de asfalto, mas proibitivas. O perigo espreita a cada esquina o momento da nossa distracção. O som lúgubre da sereia das ambulâncias não deixa perceber já a proximidade do mar. Afastou as aves dos beirais. O próprio sol detém-se lá muito em cima, acenando-nos com mágoa, como que desejando explicar o impedimento da apetecida aproximação.

Pormenor da Avenida Dr. Lourenço Peixinho - 2008

Hoje, apertam-nos em faixas riscadas de branco e, como rebanho de dóceis ovelhas, conduzem-nos com o chicote da luz de cores. (…) Foi preciso viver todos estes anos para aprender a percorrer as ruas aos soluços. Aquelas em que se consertavam redes, se empilhava o peixe, se franjavam os xailes, se enxugava a roupa, se conversava, se discutia, se tocava vida e se arriscava a cantiga brejeira, volveram pistas de máquinas desenfreadas. Irreconhecíveis. (…)”

“A iluminação das ruas reflecte-se no asfalto molhado (…). Não vale a pena escrever. Lugares comuns que só o suor pode transformar em arte.”

 

Variações quase sentimentais sobre uma cidade

Que posso eu fazer? Como falar dela? Repetir-lhe os lugares-comuns tão ao jeito de certas camarilhas?, de certos sectores imobilistas, e que há tanto nos magoam os ouvidos? Chamar-lhe a Veneza do país ou enfeitá-la com roupagem de igual quilate e de tão pronunciado ridículo? Uma cidade não se descreve, caros amigos, vive-se. Uma cidade não se retrata, respira-se. (…) E a luz desta cidade, amigos?! (…) A luz inunda-nos, simplesmente. (…) É que nunca nos habituámos a considerar essa ria, esses barcos, esses desenhos, uma coisa autónoma!; é que nunca conseguimos isolá-los do conjunto a que chamamos cidade, e essa… essa é para nós tão grande, que lhe não encontramos qualificativo capaz de a conter. (…) Defeitos?! (…) No cheiro da sua ria à hora da vazante, na agressividade do seu clima, um clima que nos enche de reumatismo e nos ensalitra as casas. (…) A minha cidade é o que é; nada mais.”

Aspecto da avenida Dr. Lourenço Peixinho - 2008
Aspecto da avenida Dr. Lourenço Peixinho - 2008

“A Avenida de Outrora
A Avenida é hoje, talvez, a artéria mais popular da cidade. O comércio tem ali a sua posição ideal e a gente de haveres os seus prédios de rendimentos.”

Vasco Branco (1919-…)
Áreas de trabalho: Literatura, Cinema, Pintura, Cerâmica
 



“Iria penetrar nas ruínas vivas de Aveiro, no sangue que animava aquelas gentes, conhecer-lhes a vida, obra e essência. Desvendar as marcas que as mãos houveram imprimido e moldado no tempo, em sonhos, glórias, fraquezas, tradições…”

João de Mancelos (1968-…)
Professor e Escritor


 

“A Cidade
Árvores infinitas
Povoando
O nosso espaço
E gritos
E sóis
E hinos matinais
Silêncios coloridos
Rios e mares
Alguma fome
E sempre a esperança
Na manga do dia seguinte

A cidade era agora
Um fogo sofrido do tempo
E a memória dos pássaros
Presente.”

Rossio de Aveiro - 2008
Rossio de Aveiro - 2008

Clara Sacramento (1948-…)
Professora, Escritora


“São seis barrilinhos d’ovos moles de Aveiro. É um doce muito célebre, mesmo lá fora. Só o de Aveiro tem ‘chic’… Pergunte V. Ex.ª ao Carlos. Pois não é verdade, Carlos, que é uma delícia, até conhecida lá fora?”

Eça de Queirós (1845-1900)
Escritor

 

Ovos moles de Aveiro - 2008
Ovos moles de Aveiro - 2008