O Liceu de Aveiro durante a 1.ª República
A Primeira República comete um acto de clara injustiça ao exonerar de
funções Francisco Regala. Não transparece da leitura das actas ou dos
Anuários qualquer animosidade contra o antigo reitor, vulgar em tempos
de ruptura política. Antes
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pelo contrário. O novo reitor tece rasgados elogios a Francisco Regala
no seu relatório relativo ao ano de 1910/11. Depois de abordar a questão
da transferência de poderes, regista Álvaro de Almeida de Eça: «(...)
deix[o] aqui consignado o desgosto que nos causou a retirada do antigo
reitor sr. Francisco Augusto de Fonseca Regalia que, durante 15 anos,
consagrou com proveito digno de menção, a sua culta inteligencia e
notavel energia ao progresso da instrução e especialmente do
estabelecimento que habilmente dirigiu.»(13)
O período da Primeira República é marcado pela passagem do liceu a
Central. A frequência dos Cursos Complementares obrigava os alunos a
deslocarem-se para outros estabelecimentos de ensino fora do distrito,
com todos os inconvenientes que este facto acarretava. Depois de muitas
solicitações nesse sentido e dos esforços de Barbosa de Magalhães,
deputado aveirense e futuro Ministro da Instrução, publica-se no “Diário
do Governo” de 24 de Setembro de 1915 a elevação do Liceu de Aveiro a
Liceu Central de Aveiro, custeando para isso as despesas as 17 câmaras
municipais do distrito.(14) Como estas não se entenderam para
custear os cerca de 4 contos de réis que teriam de despender, ficou a
decisão governamental sem efeito imediato.
Adiada a elevação de facto (em termos legais o Liceu de Aveiro já era
Central, mas não podia leccionar os Cursos Complementares) foi preciso
esperar que a Câmara de Aveiro assumisse a responsabilidade das despesas
previstas para que o Governo autorizasse a matrícula dos alunos dos
cursos complementares o que foi feito pelo decreto de 18 de Novembro de
1916.
Anos mais tarde, em 1919, e por decreto de 7 de Janeiro (decreto 5 096,
publicado no “Diário do Governo” n.º 8, de 13 de Janeiro), foi dado ao
Liceu o nome de Liceu Central de Vasco da Gama, não tendo o ilustre
navegador nada a ver com a história da cidade ou do liceu. Uma decisão
claramente política e tomada sem a audição do Conselho Escolar.
Na parte final da 1.ª República cresce a importância do Liceu de Aveiro
a nível nacional. Os acasos da história fizeram com que um conjunto raro
de professores de elevada qualidade pertencesse aos quadros da escola.
Desde 1916 era professor do liceu José Pereira Tavares. Em 1918 entra
para a escola Francisco Ferreira Neves. José Barata chega em 1919 e em
1920 Álvaro Sampaio. Todos eles fizeram grande parte da sua carreira de
ensino neste liceu. Mais tarde hão-de chegar Armando Dias Coimbra
(1923), Fernando Morais Zamith (1924), Pedro Filipe dos Santos Gradil
(1926), Luís Tavares de Lima (1926) e Alberto Martins de Carvalho
(1926). Enfim, uma plêiade de professores reunidos como raramente
acontece ao longo da história de um liceu. Estavam lançadas as bases
para o "período de ouro" do Liceu de Aveiro, durante a fase inicial do
Estado Novo.
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(13)
– Anuário do Liceu Nacional de Aveiro (1910/11), Aveiro, 1912, p. 5.
Note-se que não se trata de um qualquer discurso para consumo interno, o
que, tendo em vista a permanência do corpo docente, se compreenderia.
Trata-se de um relatório enviado às autoridades republicanas que haviam
exonerado o anterior reitor.
(14)
– Cf. Anuário do Liceu Central de Aveiro (1915/16), Aveiro, 1916, pp.
12-13.
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