Encontro agradável

Imagem aqui se a houver

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Tive hoje o meu último dia de estágio. Amanhã, ou depois, devo regressar a Quimbele. Não retomei a escrita, tal como prometera, porque fui ontem ao cinema. Afinal, ao contrário do que pensei, quando vim a Carmona com a equipa de futebol de salão, esta cidade tem também esta diversão. No Clube Recreativo do Uíge, onde fui algumas vezes, costumam passar bons filmes. No domingo, vi «O Desejo de Amar». Ontem, os meus camaradas desviaram-me das escritas. Fui ver «A Passagem do Reno».

É verdade, antes que me esqueça, devo dizer-vos que já tive alguns encontros surpreendentes. Quando menos esperamos, encontramos pessoas conhecidas.

Na terça-feira, depois de uma noite incrível, penosamente longa, porque não consegui dormir em condições devido às dores de estômago, que teimaram em não me dar tréguas, tive algumas surpresas agradáveis.

A manhã foi toda passada entre quatro paredes, no Batalhão de Caçadores 12, a falar de deprecadas, processos de averiguações, procedimentos e muitas outras coisas relacionadas com a actividade judicial. A meio da tarde, depois da carrinha de oficiais nos ter largado em frente à messe, no Bairro Montanha Pinto, resolvi espairecer o espírito e libertar os neurónios de toda a terminologia e tipos de documentos com os quais tenho vindo a lidar ultimamente. Dei uma volta pelo jardim, para admirar os canteiros floridos que embelezam a praceta ajardinada em frente à messe. Parti, ao acaso, à descoberta de novos aspectos da cidade. Quando começava a afastar-me do local, ouço uma voz feminina:

— Senhor alferes... Senhor alferes Ulisses...

Da primeira vez que ouvi o apelo, não liguei. Tal como os chapéus do nosso célebre Vasquinho, alferes há muitos. Mas, quando após o alferes soou o meu nome, voltei-me para ver quem me chamava: uma mulher nova, atraente, acompanhada por uma bonita miúda dos seus sete ou oito anos. Olhei. E devo ter mostrado tal cara de espanto ou de surpresa que...

— O senhor alferes não está a conhecer-me? Fomos vizinhos, em Coimbra. Não por muito tempo, mas fomos vizinhos.

Para não estragar o entusiasmo da senhora e enquanto procurava voltar rapidamente as folhas da memória, disse que sim.

— Estou a recordar-me! Mas foi há já algum tempo...

— Fomos vizinhos. Morámos no mesmo prédio. Conversava muitas vezes com a sua mãe.

— Como é que aqui vieram parar?

— O senhor alferes não está a lembrar-se? O meu marido é sargento. Sou a esposa do senhor Cerejo, que veio para Angola em comissão de serviço, no ano passado. Estamos aqui em Carmona.

— Estou a lembrar-me perfeitamente. Cumprimentámo-nos e conversámos algumas vezes à entrada do prédio. Esta pequerrucha tão bonita é a sua filha? Lembro-me bem! Era muito mais pequena.

— Os filhos crescem, senhor alferes...

— Está uma senhorinha! Muito mais alta e bonita.

— O senhor alferes tem que nos visitar. Está aqui colocado em Carmona? Eu moro aqui mesmo, no Bairro Montanha Pinto, naquela moradia. E o senhor alferes? Está cá colocado em Carmona?

— Não. Infelizmente não! Estou só de passagem. Estou a frequentar um curso de justiça militar, no B. C. 12, aqui em Carmona. Agora... Agora estou a descansar. A dar uma volta. E somos vizinhos por pouco tempo. Estou ali instalado, durante esta semana, na messe de oficiais.

— Mais uma razão: o senhor alferes tem que nos fazer uma visita. O meu marido vai gostar de conversar consigo. Já cá está, aqui em Angola, há muito tempo?

— Há algum tempo. Vim em finais de Novembro do ano passado. Há pouco tempo ainda. Infelizmente, ainda me falta muito para sair daqui!

— E os seus paizinhos? Como é que eles estão?

— Penso que estão bem! Pelo menos, é o que penso, a avaliar pelas notícias que me vão dando. E a senhora e o seu marido?

— Cá vamos andando. Felizmente, bem! O senhor alferes vai dar-nos o prazer da sua visita?

— Bem que gostaria! Infelizmente, creio que não teremos muitas hipóteses.

— Então porquê?

— Passo a maior parte do dia entre paredes...

— Entre paredes? A fazer o quê?

— A acompanhar o que os meus professores me ensinam.

— Mas o senhor oficial não é doutor? Não é professor?

— Não, minha senhora. Isso é na vida civil. Agora sou oficial. E sou aluno. Estou a aprender muita coisa de justiça militar, para resolver os processos que me caem em cima, na minha Companhia.

— O meu marido vai gostar muito de conversar com o senhor alferes...

— Sinceramente, não creio que tenhamos essa sorte! Infelizmente, o tempo é muito curto... E passa muito depressa! Poucos momentos tenho livres!

— De qualquer modo, senhor alferes, a minha casa é aquela ali. Ao fim da tarde, o meu marido já está em casa. Teremos imenso prazer em recebê-lo...

— Agradeço o convite. E posso desde já garantir-lhe, minha senhora, que este encontro foi para mim uma surpresa que me deu muito prazer. Pode ter a certeza que não irei esquecer-me.

Despedimo-nos. Observei as duas simpáticas figuras, mãe e filha, afastarem-se. Acompanhei-as com o olhar até que entraram em casa. E, até hoje, guardo na memória as imagens deste encontro tão agradável. Tão agradável, que me esqueci completamente do que tinha para vos dizer e do relato do segundo dia da viagem ao Cuango. Por isso, saiamos rapidamente daqui. Deixemos estes encontros, apesar de agradáveis, e saltemos no espaço e no tempo, que a noite vai avançada. Está na hora do pessoal se levantar e deixar o Cuango, de regresso a Quimbele.

 

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