Duas cartas

Imagem se a houver

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Saiamos então de Carmona e recuemos no tempo. Lembro-me que, há dias, levantei a tampa de cabedal do meu relógio e fiz rodar no sentido inverso os ponteiros que nos marcam as horas. Estou até a pensar em utilizar a mesma estratégia. Mas não é possível.

Não é possível?! Não trazes relógio? Esqueceste-te dele em Quimbele?

Não. Não é nada disso que estão a pensar. Não me esqueci do relógio. Está aqui, na minha frente, no meu pulso esquerdo. Mas não posso levantar a tampa de cabedal, simplesmente porque não a trouxe comigo. Esta tampa é boa para proteger o meu Caunymatic. Agora não faz falta nenhuma. Não estou no meio do mato. Deixei-a na mala da roupa. Como não estou em nenhuma operação, não preciso de protecção para o relógio. Por outro lado, seria muito repetitivo e pouco original estar sempre a utilizar a mesma estratégia para recuar no tempo. Sejamos inovadores. Para que serve a imaginação? E para que serve a agenda que trago sempre comigo e tenho aqui mesmo por baixo do meu nariz? Aqui está ela! Foi só esticar o polegar e o indicador e enfiá-los no bolso da camisa.

Ainda bem que me lembrei de tirar a agenda do bolso. Acabo de efectuar a anotação relativa a este dia. Sabem o que acabo de escrever? Apenas isto: «Enviei bilhetes de avião para a Agência de Viagens Campeão, em Luanda.»

É verdade: antes de começar a escrever esta colecção de aerogramas, escrevi uma carta em papel normal, com envelope e selo, para a agência de viagens. Já tinha comigo os bilhetes para a ida de férias e tive de devolver tudo, explicando o que se passa. E vou faltar ao prometido, porque não vou transcrever-vos o conteúdo da carta. Qual o interesse disto? Limitei-me a explicar, sumariamente, os motivos do meu impedimento das férias nas datas previstas, por ter sido destacado para frequentar um curso de justiça e as férias terem sido adiadas para data incerta. E perguntei também se tenho alguma coisa a pagar pelas despesas originadas.

Depois da carta com a devolução dos bilhetes, escrevi um brevíssimo aerograma ao doutor Graça Marques, cujo conteúdo passo a reproduzir, dada a brevidade da mensagem:

 

«Caro Doutor Graça Marques,

Afinal, é com tristeza que tenho a dizer-te que sempre me lixaram as férias. Consequentemente, já não vou poder ir à metrópole, assim que terminar o meu estágio em Carmona.

Antes de sair de Sanza Pombo, fui informado pelo nosso comandante que terei de ir a Luanda, ao Hospital Militar, em virtude de um pedido para me apresentar numa junta militar, em resultado do meu acidente em Tomar. Como já te expliquei — creio eu! — embarcámos para Angola em Novembro, tendo eu bruscamente interrompido as minhas idas à fisioterapia no Hospital Militar de Lisboa. Deixei de lá aparecer a partir do momento em que nos mudámos para Santa Margarida. Como ficaram sem saber os resultados das sessões em que, diariamente, me colocavam uns eléctrodos no pulso para acelerarem a calcificação da zona da fractura e compensarem, segundo entendi então, um problema de osteoporose, foi recebido na sede do Batalhão um pedido de avaliação por uma junta médica.

Penso que ainda nos veremos antes de seguir para Luanda. Antes disso terei de ir a Quimbele e depois conversamos. Estou a pensar em aceder ao teu desejo de dar baixa ao hospital para tratamento do estômago. Continua a dar-me problemas, apesar da dieta rigorosa.

Mudando de assunto. Diz ao capitão Alberto que não me esqueci do problema dele. Antes de deixar Sanza Pombo, procurei averiguar o que lhe aconteceu à correspondência, enquanto esteve de baixa em Luanda. Ninguém me soube dizer. À messe de oficiais nunca chegou nenhuma correspondência. Falei com o pessoal ligado ao SPM e também nada me souberam dizer. Acho tudo isto muito estranho, tanto mais que, até hoje, nunca dei pela falta de nada. Tudo me tem chegado sempre às mãos com uma regularidade espantosa e, às vezes, até num curtíssimo espaço de tempo.

Não te maço mais. Cumprimentos para o pessoal e um abraço para ti.

Do camarada e amigo,

Ulisses de Almeida Ribeiro.»

 

E esta, hein? — diria o nosso amigo Fernando Pessa, se estivesse agora na minha situação. Estão a ver qual foi o resultado de ter tirado a agenda do bolso? Em vez de um recuo no tempo, fiquei encalhado no presente e foram-se escarrapachar nas linhas invisíveis dos aerogramas as palavras que escrevi ao médico da minha Companhia. Tudo isto por causa de um simples e breve registo de duas linhas no espaço correspondente ao dia de hoje. E o que é mais grave é que, daqui por uns minutos, são horas de deixar o meu quarto e ir até à sala de jantar. Acho até que é isto que vou ter de fazer, antes que apareçam aqui os meus companheiros de quarto: arrumo o maço com os onze aerogramas já escritos e retomo a escrita mais logo, se os meus camaradas não me desafiarem para uma volta pela cidade. E prometo pegar no relato da viagem ao Cuango.

 

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