2ª parte do filme

Aqui estou de novo. Já bebi uma Seven Up com uísque e conversei um pouco. Disse-me o médico que perdi um bom filme de guerra. Mas creio que não! Também estive num filme de guerra. E creio que bem melhor do que o dele. Nem ele imagina como tenho aqui estado divertido na vossa companhia, a rever mentalmente a operação e as imagens de um filme real, com as nossas pessoas como actores. Aliás, nunca pode saber, nem imaginar sequer, como é o nosso filme. Geralmente, os médicos nunca andam metidos em operações no meio das matas. Têm outras. E às vezes bem piores que as nossas, especialmente quando lhes surgem situações dramáticas com gente acidentada ou com doenças pouco agradáveis, se é que se pode falar de doenças agradáveis. A não ser que sejam forjadas, para justificar alguns atestados médicos. Mas isto é coisa que aqui não é preciso, porque só nos queixamos quando efectivamente temos razões para isso.

Vamos lá retomar o nosso filme, porque o intervalo já acabou e os actores já se recompuseram de um ataque formigal.

Escolhemos novo local próximo da mesma linha de água, mas liberto de companhias indesejáveis. Como é que soubemos que o novo local era mais saudável e propício à nossa presença? Simplesmente observando os habitantes que o povoam. Em todos os locais, existe bicharada por todo o lado, especialmente insectos rasteiros e menos incomodativos que certas espécies de mosquinhas pretas, pequeninas e irritantes, que teimam em enxamear à nossa volta e penetram nos nossos ouvidos e se enfiam pelos interstícios dos camuflados. Quando temos o azar de atravessar nuvens destas mosquinhas pretas e pequeninas, não há repelentes militares que nos valham. Borrifam-se plenamente para os repelentes de insectos e zurzem-nos a paciência. Bem atiramos por vezes com água para a cara, na esperança de as enxotar, mas de nada nos vale. No novo local, felizmente, não havia destas mosquinhas irritantes, mas insectos rasteiros, inclusive formigas de outras espécies mais amigáveis. E se esta fauna existe é porque estamos distantes das formigas terroristas que nos atacaram. Onde elas andam, até as outras formigas tratam de pôr os corpos esguios a salvo enquanto é tempo. E, por falar em tempo, tenho de me apressar, para não ficar a noite inteira a relatar-vos as minhas peripécias angolanas. Amanhã é dia de muito trabalho. Saio da selva e regresso à floresta das papeladas e dos processos.

Página anterior Home Capítulo seguinte