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Boletim da Biblioteca    

Um texto de José António Moreira
(professor de Geometria Descritiva da ESJE)

Mostra-me o teu clik que eu mostro-te o meu!

     

Já se cruzaram com ele nos corredores da Escola?

 
     
 

Reflectir sobre a minha experiência como professor de Geometria Descritiva, sobretudo reflectir sobre as abordagens iniciais dos conteúdos que envolvem a Dupla Projecção Ortogonal, atira-me, obrigatoriamente, para o meu tempo de aluno. Há trinta e dois anos atrás, passei pelas mesmas dificuldades com que a generalidade dos alunos se confronta — visualizar no espaço os elementos representados em Dupla Projecção Ortogonal.

O meu professor era um homem muito distante, permanentemente irritado, a quem não se podia perguntar nada, que se envolvia em batalhas terríveis para nos fazer compreender a diferença entre o ponto real e a sua representação e desenvolver em nós a capacidade de localizar um ponto no espaço a partir das respectivas coordenadas, enfim, esse conjunto de malabarismos e truques de ocultismo, que eu via fazer como se ele fosse um avô do Luís de Matos — via-o agitar freneticamente os braços, à medida que se sucediam autênticos milagres que permitiam que alguns dos meus colegas vissem coisas que eu não via.

Eu estava preparado para desconfiar de tudo aquilo. Se calhar os tipos até pertenciam a uma seita que praticava os seus rituais na Sala 19 do Liceu Nacional de Aveiro…

Restava-me a consolação de ter do meu lado muitos companheiros que não tinham sido tocados pela fé e que, consequentemente, tinham quase tantas dificuldades quantas as que eu tinha.

Havia uma pequena diferença — além de eu pensar que as minhas dificuldades eram em maior número, tinha a certeza que eram muito maiores!

Foi a medicina que me salvou de fazer uma peregrinação a Fátima, numa altura em que já me preparava para dizer ao meu pai que o melhor era não contar comigo para aquele projecto que ele tinha de fazer do filho mais velho um engenheiro electrotécnico de bata branca e olhos azuis! Afinal eu nem bata branca tinha, quanto mais olhos azuis!

O Fernando Jacob era, ao tempo, um futuro médico que se preparava para o último exame e que fazia do Café Tangará a sua Sala de Estudo. Nessa altura era assim e não era rara a falência dos cafés que não tinham colados vários indoors com textos do tipo “Proibido estudar nas mesas”.

Naquela noite, véspera do primeiro teste de Desenho (suponho que a disciplina se nomeava assim), eu dava cambalhotas esforçadas para tentar resolver uns exercícios que apareciam num livrinho de capa preta e branca, com umas bolinhas (não havia essa mania das cores, que os editores usam como se estivessem a embrulhar brinquedos para uma criança pobre que nunca recebeu um presente). Eu lá ia tentando fazer os exercícios, mas, quem fez o livrinho esqueceu-se de mim e as soluções que acompanhavam cada exercício, não acertavam com as minhas. Percebi que estava a acontecer qualquer coisa de muito grave, pois não havia meio de acertar um exercício que fosse e começava a sentir suores frios.

O Fernando Jacob percebeu rapidamente que eu estava à beira de um colapso e eproximou-se de mim com o cachimbo Peterson entre os dentes:

— Então, Moreirinha, ‘tás à rasca?

— Pois…

— Então o que é que é?

— Oh! Pá! É o teste de Desenho…

— Quando é?

— Amanhã!

— Ah!… Mostra lá isso…

Mostrei-lhe a língua, perdão, o livro de exercícios e as folhas onde rabiscava linhas e mais linhas e letras e mais letras com uns apêndices esquisitos que trocava sistematicamente — onde havia de ser ’punha’’ e onde havia de ser ’’punha ’.

O Fernando Jacob olhou para mim e disse aquilo que eu já sabia:

— É grave! É muito grave! Temos que fazer rapidamente um tratamento de choque…

Pensei que ia ter que apanhar uma injecção, mas não foi nada disso. Aliás, reparei que o Fernando nem sequer tinha desinfectado as mãos, nem me tinha auscultado… eu até pensei que ele não andava nada a estudar para médico…

Nessa altura, o Fernando sentou-se, não na minha frente, mas ao meu lado. Cheguei a pensar que ele estava a pensar na forma de me dizer qualquer coisa do tipo “diz as tuas orações, pois não passas de hoje”, porque, de repente, pareceu-me muito nervoso e começou a rasgar folhas de papel. Depois dobrava-as ao meio e escrevia sobre elas umas palavras muito curtas que, mesmo assim, eu nem conseguia ler. Eram coisas do tipo PVP, PHP, SPVPS, SPVPI, SPHPSA, SPHPSP e por aí fora. Eu julguei que o Fernando andava a estudar demasiado e estava a começar a derreter a massa encefálica…

Mas não era verdade! Não durou mais de meia hora este episódio que me levou a perceber o que era o Método de Monge e a acertar os meus primeiros exercícios de Dupla Projecção Ortogonal.

Foi uma experiência excepcional! Tão ou tão pouco excepcional, que me lembro dela como se fosse hoje. Seria capaz de indicar a mesa do café onde tudo aconteceu. Só lamento não ter podido fazer notar ao Fernando Jacob a importância decisiva que teve, para mim, aquela meia hora retirada ao trabalho que ele estava a fazer, pois, pouco depois, ele acabou o Curso e começou a trabalhar, em Santarém.

Quando comecei a leccionar Geometria Descritiva, não tinha muitas opções para escolher como modelo. Escolhi, obviamente, o Médico.

Nas aulas, usava as adaptações convenientes dos modelos em papel que o Fernando Jacob me construiu: a parede em frente dos alunos e o chão e os respectivos prolongamentos; uma bolinha de giz servia de ponto; as projecções das projectantes eram riscadas no chão e na parede.

Participavam todos os alunos em situações que eram criadas por mim e depois por eles, enquanto eu corrigia erros que eram cada vez menos frequentes. Cada aluno construía, depois, o seu próprio modelo, em cartolina e passava a experimentar nele as situações que eram criadas na aula e, tenho que concluir, também, durante a realização dos trabalhos de casa. Ninguém avançava deste ponto sem que eu pudesse ter a garantia que toda a gente estava a “ver a coisa”. Dito de outra maneira, o click tinha que acontecer nesta altura. E eu consegui que tal acontecesse, sem que, por isso, me considere mais do que um professor comum.

José António Moreira    

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