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"Patrimónios" – n.º 6, Setembro 2007, Ano XXIX, 2ª série, 140 páginas


Na rua de S. Sebastião (Aveiro), a "marca" dos tempos, num conjunto urbano a merecer atenção

Amaro Neves

Nos últimos anos – e, certamente, por mais evidente, nos últimos meses – tem-se assistido a algumas alterações no património construído da cidade: nuns casos, avança a ruína completa, enquanto se demoliram casas velhas e, em seu lugar, construíram-se novos e mais volumosos prédios; noutros, alteraram-se e revitalizaram-se as fachadas e respectivos interiores.

Ora, tudo isto, numa cidade que cresce e deve oferecer melhores condições de vida, parece ser natural e deve ser visto como saudável, sempre que se mantenham as marcas identificadoras do bom desenvolvimento urbano – previamente assinaladas por quem deve zelar pelo Bem público – esperando-se que, neste caso, haja um diálogo entre as partes envolvidas, nomeadamente para esclarecer a razão das opções e estudar atempadamente formas de não defraudar, em absoluto, proprietários ou futuros interessados. E isto porque, acima de tudo, deve prevalecer e acautelar-se o interesse público. De resto, também se registam casos concretos – e por vezes bem desenvolvidos – desta forma de estar e de gerir as zonas urbanas, recuperando casas que, mesmo isoladas, são indispensáveis ao bom entendimento do património construído.


1. A Rua de S. Sebastião

Trata-se de uma artéria que ainda mantém boas marcas do traçado feito pelos meados da segunda metade de Oitocentos, encaminhando o fluxo do trânsito para o Largo da igreja do Espírito Santo (quando esta já entrava em ruínas), abrindo depois o caminho para rápida chegada à Rua Direita (de notar que, no centro desse largo ou praceta e a assinalar esse tempo de reajustamento viário e urbano nesta zona, se ergueu um dos melhores fontanários que a cidade ainda possui).

Ora acontece que, na verdade, desse traçado, chegaram até nós, do final de Oitocentos e primeiros anos de Novecentos, para além de uma vivenda do tipo "casa rural" de há muito consagrada, pelo revestimento azulejar(1), o conjunto que se estende, sobretudo, entre os nos 42-56, praticamente intacto quanto ao rosto – / 64 / para além de umas poucas vivendas, de tempos diferentes, também elas, na generalidade, revestidas a azulejo da época da sua edificação.

No essencial, porém, conjugam-se nesta quadra construções de diferentes orientações estilísticas, tanto a sugerirem influência brasileira quanto a denunciarem tardia assimilação de padrões estéticos da arte-nova ou mesmo já da arte Deco, mas casando-se uns com os outros em agradável harmonia, a ponto de merecerem o geral respeito público. E assim deverá acontecer na memória aveirense, mesmo que alguns digam que não foram casas de políticos influentes, de clérigos eminentes, de ilustres literatos ou militares, de grandes ricaços... É que, no fundo, tudo isso é relativo, devendo manter-se as ditas habitações pelo interesse do conjunto que é, no caso, o que mais importa.

E, porque se não valoriza o que se não conhece, tomemos como mero exemplo a "casa de brasileiro" – hoje rara, em Aveiro – aqui situada, com o nº 42-44, sobre a qual se deixa uma breve memória, esperando que a curiosidade popular encontre outros ecos e, em conjugação com as restantes, melhor possa justificar a defesa do conjunto.

 

2. A "casa", como referência do "torna viagem"

A casa acima referida, na Rua de S. Sebastião, foi construída no final do século XIX, devendo estar concluída (ou em vias disso) por 1895. Quem a mandou construir foi Inácio Marques da Cunha, um aveirense que emigrou para o Brasil pelos anos 80 desse século, em consonância com um forte surto emigratório desta região – e do país – para aquele estado, onde, em actividades diferentes na bacia do Amazonas (mais propriamente na cidade de Belém) reuniu cabedais suficientes que lhe vieram a permitir tornar-se empresário em Aveiro. Naturalmente, num tempo em que, nesta cidade, poucas casas se erguiam, pois não estava de todo ultrapassada a crise do tardio liberalismo português, mas davam-se alguns sinais de mudança económica e social pela política fontista e pelo incentivo industrial.

Então, foram muitos os que, retornando ao seu país de origem – os "torna-viagem" – depois de conseguidos meios de fortuna nos novos reinos da América do Sul (sobretudo no Brasil), lançaram novas fábricas ou relançaram velhos empreendimentos industriais (especialmente no sector cerâmico), muito contribuindo para um surto de desenvolvimento geral.
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De uma forma geral, como se compreende, o torna-viagem, no seu regresso, trazia consigo um projecto de habitação, muito usado no Brasil, que funcionava como o espaço familiar ideal, procurando dar-lhe forma quando se oferecia a oportunidade de construir a sua própria casa. E esta, baseada num esquema simples de quatro águas – e muitas vezes de quatro fachadas – nem sempre se adequava ao espaço disponível ou, por melhor orientação e adaptação ao terreno, procurava-se uma variante diferente, a exemplo da que, neste caso, se observa.
 
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Fig. 1 – Fachada da casa de Inácio Cunha, voltada para a rua de S. Sebastião

 

A casa apresenta frontaria simples de dois pisos com porta ao meio e, no andar superior, correspondendo a esta, janela de varanda, ficando em cada andar, a um e outro lado, duas janelas amplas. O restante espaço tem uma porta de serventia e, ao fundo, um portal gradeado.

Acontece que, depois, alguns ornamentos (poucos) e árvores específicas reportadas ao sertão brasileiro – normalmente com uma palmeira em destaque, à falta de outra árvore desta família – ajudavam a compor o cenário de uma casa da média burguesia que, com facilidade, denotavam a proveniência dos meios de fortuna que possibilitaram a sua construção. Acrescente-se que, de entre os ornamentos mais visíveis nas fachadas das casas do torna-viagem se salientava a aplicação de azulejo na fachada, muito comum nas cidades do Brasil – mas que era contrário ao uso e costume nas casas tradicionais feitas em Portugal, utilizado, então, nos interiores e em espaços menos luminosos – levando a que, para de certo modo / 66 / ridicularizar as pessoas enriquecidas e as suas casas que, no mínimo, se apresentavam com jactância, denominassem estas casas como "casas de penico".
 



Fig. 2 – Alçado lateral sul, evidenciando ampliação recente

   
     

Fig. 3 – Tecto em estuque, pormenor, em sala no interior do edifício

 

Uma casa com esta estrutura e de assumido bom gosto para a época, naturalmente, possibilitou momentos de interesse político, relevando-se, entre eles, / 67 / pelas relações internacionais que alguns elementos de família mantinham no exterior, o facto de ali terem sido acolhidos os pilotos da RAF, em 1941.
 

Inácio Marques da Cunha. Clicar para ampliar.

 
 

Fig. 4 – Inácio Marques da Cunha

 

Ora, neste caso, o edifício, de boa cantaria a guarnecer todos os vãos, mantém, no essencial as marcas de sólida construção dessa última década final de Oitocentos, não é genuinamente um projecto de torna-viagem, mas tem as características que denunciam claramente a afinidade. E, naturalmente, aproveitando as tradicionais fábricas regionais, mas também o gosto assimilado, o revestimento azulejar de boa qualidade. Falta-lhe, hoje, a velha palmeira... mas tem ainda o espaço envolvente, com boas áreas e curiosos aproveitamentos. E, na tradição aveirense, mantém algum estuques de boa execução em composições variadas que lhe dão uma ambiência requintada, estuques esses que os sucessivos herdeiros, na sucessão familiar, têm sabido preservar.


3. Inácio Marques da Cunha, no contexto aveirense

Quanto ao proprietário da casa e sua família, adiante-se, sumariamente, que, emigrado para o Brasil, entre outros projectos comerciais e industriais, montou em / 68 / Belém do Pará uma conceituada unidade industrial – a "fábrica palmeira" (2), descrita e elogiada na revista "Ilustração Portuguesa" – enquanto ia acompanhando a evolução da economia nacional e da região de Aveiro. Aqui constituiu família, afirmando-se como influente empresário ligado à recuperação e valorização de marinhas de sal e assumindo-se como sócio de algumas importantes Empresas Aveirenses. De entre estas, em 1927, seria um dos sócios fundadores da empresa Testa & Cunhas, S.A, essencialmente vocacionada para a pesca marítima longínqua, sobretudo do bacalhau, empresa que, volvidos 80 anos de existência, ainda é, actualmente uma das referências entre as empresas nacionais de pesca. Para além da vida empresarial, Inácio Marques da Cunha fez-se presente e activo na vida social da cidade, na qual procurou integrar, da melhor forma, os seus filhos – António, João, Raul, Artur (licenciado), Adília e Augusto Marques da Cunha (também, licenciado) – alguns dos quais tiveram acção relevante em Aveiro, em vários ramos, como também na vida empresarial da cidade e sua região.

Hoje, a citada casa da Rua de S Sebastião, mantém-se nos legítimos herdeiros da família de Inácio Cunha, de forma indivisa e bem recuperada e valorizada, como propriedade de três dos seus bisnetos.


4. Para a posteridade

Apresentadas estas breves considerações, importa olhar atentamente para o conjunto urbano referido quer pela sua arquitectura, embora aparentemente dissonante, quer pela azulejaria que adoça as frontarias e releva as linhas mestras dos alçados. Assim se justifica que, numa perspectiva de salvaguarda do património edificado, sejam valorizados os traços marcantes da evolução urbana aveirense, mesmo quando estes se nos oferecem diluídos num casaria que, por vezes, parece incaracterístico e de projecção mediana. É preciso saber apreciar a diferença e valorizar as marcas do tempo, não por mero interesse turístico mas, acima de tudo, por consciência cultural, em defesa dos valores da região e da cidade.

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Notas

(1) – Consulte-se Azulejaria antiga em Aveiro, pg.173, obra editada em Aveiro, em 1985.

(2) – Era dedicada à panificação, confeccionando sobretudo pão, bolachas e biscoitos.


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