Henrique J. C. de Oliveira, Os Meios Audiovisuais na Escola Portuguesa, 1996. |
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Também o ensino de nível
secundário é objecto da preocupação reformista dos republicanos. Num período
marcado por um ambiente positivista-comteano, que caracterizou os primeiros anos
da República Portuguesa, o
governo de Afonso Costa
[1] considera, no artigo /
111 /
126 do
Decreto de 17 de Abril de 1917, que, «para a transmissão de
conhecimentos materiais, em regra, o primeiro meio auxiliar é a presença
dos objectos, quando possível, a que estes conhecimentos dizem respeito; e
o segundo a descrição gráfica (escrita ou desenho). No caso,
porém, de grande superabundância de particularidades no objecto,
recorrer-se-á ao emprego do desenho esquemático para a clareza da
representação: a instrução é, em todos os casos, o primeiro passo (nº 1).» Relativamente às Ciências
Naturais e Geografia, embora o articulado não o diga explicitamente, deduz-se
que, devendo «sobretudo
cultivar-se as faculdades de observação, fazendo que o aluno se habitue a
comparar, a buscar as diferenças e as analogias, a relacionar os caracteres e
os fenómenos uns com os outros...», o ensino é feito ou pela observação directa ou através
de representações dos objectos pela imagem, entre as quais deverão incluir-se
logicamente as representações cartográficas. É necessário notar também que
no excerto transcrito se chama a atenção para o papel das representações gráficas
de tipo esquemático, mormente quando as imagens apresentam um elevado número
de elementos importantes, tornando difícil a sua leitura pelos alunos. Tal como
se refere, um diagrama, por exemplo, de uma máquina complexa, em que os seus
constituintes são apresentados de maneira destacada e por vezes numerados, com
a respectiva legenda, facilita a leitura e compreensão daquilo que se pretende
ensinar, pelo que poderemos considerar que os aspectos referidos no documento são
pertinentes e ainda válidos actualmente. O mesmo princípio de recurso
à observação para daí se inferirem as conclusões é aplicado a outras
disciplinas, sendo chamada a atenção para a importância das excursões e
visitas de estudo como forma de os alunos poderem contactar de maneira directa e
vivida com a realidade e com os objectos do estudo. A leitura dos documentos
desta época no que respeita aos materiais escolares revela-nos que estes
melhoraram significativamente em relação a épocas anteriores, pois faz-se
alusão a atlas geográficos, quadros para o ensino das línguas e exemplares
para a história natural: «Os nossos atlas de geografia,
os nossos quadros para o ensino das línguas, os nossos exemplares de
história natural, andam em contínuo passeio dos seus depósitos para as
respectivas aulas. Os nossos laboratórios de física e de química, os nossos museus
de zoologia e botânica, as nossas salas de desenho, a nossa biblioteca
escolar, a nossa secretaria dispõem de amplos espaços, especialmente adaptados
e providos. Vai longe o tempo em que todo o material de ensino se guardava num
pequeno armário de vidros quebrados e envelhecia na imobilidade e no pó.»[2] Os quadros para o ensino das
línguas deverão seguramente referir-se aos cartazes, idênticos aos que
actualmente se utilizam, em que se representam diversos objectos e cenas, tendo
em vista o desenvolvimento do vocabulário dos alunos nas aulas de línguas e
permitindo /
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o diálogo e a expressão escrita[3]. Os
museus de zoologia e botânica incluíam representações tridimensionais, também
designadas por modelos em relevo, de animais e de plantas, muitas vezes constituídos
por animais mortos e devidamente preparados para se conservarem, ainda hoje
existentes nos museus das actuais escolas secundárias mais antigas. [1] - Afonso Augusto da Costa (1871-1937), licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em 1895, foi o chefe do Partido Republicano Português, membro do governo em 1931 e Presidente do Conselho e Ministro das Finanças em 1915. Com a instauração da ditadura de Sidónio Pais, em Dezembro de 1917, exilou-se em França, nunca mais voltando a Portugal, apesar de ter posteriormente desempenhado cargos públicos como representante de Portugal junto da Sociedade das Nações, em que se conservou até 1926 na qualidade de embaixador. (Vd. verbete referente a Afonso Costa, da autoria de Banha de Andrade, na Enciclopédia Luso-Bra-sileira de Cultura, Lisboa, Editorial Verbo, 1967, vol. VI, cols. 128-129. [2] - Vd. Ensaios sobre a Educação III, citado por Pulido Valente em O Estado Liberal e o Ensino: os Liceus Portugueses (1834-1930), Cadernos GIS, Lisboa, 1973, pp. 154-155. Vd. também Filipe Rocha, op. cit., p. 305. [3]
- Em alguns liceus desta época, actualmente designados por escolas secundárias,
ainda se conservam exemplares destes "posters", hoje considerados
como documentos museológicos e históricos, pois as imagens permitiram
conservar os traços característicos de uma época da vida humana. É
interessante a observação das cenas registadas, por exemplo, relativamente
às diversas divisões de uma casa, com os vários objectos da época, ou
das peças de vestuário, que constituem verdadeiros documentos susceptíveis
de análise numa perspectiva histórica e sociológica. Em alguns antigos
liceus, segundo pudemos observar através dos anuários que então era
habitual publicarem-se, periodicamente, com o registo de todos os eventos
relacionados com as actividades liceais, havia salas cujas paredes
apresentavam, permanentemente expostos, cartazes ou "posters", ou,
mais correctamente, quadros parietais, utilizados para o ensino das ciências
naturais e das línguas vivas. Temos, no momento em que redigimos esta nota,
o Anuário do Liceu José Estêvão
(1916-1917 a 1926-1927) aberto na página com a gravura que tem a
legenda «Gabinete de Sciências-Naturais. Alunos da 6. classe em trabalhos
de microscopia (1926-1927)». Além dos armários a toda a volta da sala,
com as prateleiras cheias de diferentes espécimes zoológicos e minerais,
as paredes, desde o topo dos armários aos tectos, encontram-se cobertas de
mapas ou quadros zoológicos, mostrando de maneira esquemática a estrutura
interna de diferentes organismos. Em cima de alguns armários, três
exemplares de aves parecem, juntamente com um modelo desmontável do corpo
humano em tamanho natural, contemplar os alunos que, de bata branca,
observam atentamente (ou fingem observar para a fotografia) as amostras ao
microscópio. Diz o «Relatório do Director do Gabinete de Sciências
Naturais», a partir do terceiro parágrafo, que passamos a transcrever: «A pouco e pouco foram-se
adquirindo quadros parietais de zoologia, colecções de minerais e rochas,
alguns animais oferecidos pelos alunos, ovos de aves, e começou a
organizar-se a fauna e a flora de Aveiro. De então até hoje nunca mais
o gabinete de Ciências deixou de aumentar as suas instalações e o seu
material didáctico. O seu progresso tem sido enorme. Auxiliaram-me nessa
tarefa o já extinto reitor Dr. Álvaro de Eça, o actual reitor Dr. José
Pereira Tavares, os meus alunos e o empregado do gabinete, Francisco de
Morais Gamelas. Durante os anos de 1921 a 1927 o gabinete de Ciências Naturais do Liceu de Aveiro adquiriu: quadros parietais de zoologia do Dr. Pfurtscheller e de O. Schmeil; quadros com figuras esquemáticas dos aparelhos circulatório, digestivo, excretor, etc., e dos tecidos ósseo, epitelial, sanguíneo, nervoso, muscular, etc., feitos pelos alunos das últimas classes; quadros de botânica de Franck e Tschirch; sementes de plantas; ...» E o resto do relatório apresenta uma vasta enumeração de objectos, modelos e imagens, terminando com a data de Junho de 1927 e o nome do seu redactor, Álvaro Sampaio. |
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