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Outro interessante monumento religioso, em estilo românico dos fins do século XI ou começos do século XII, quando os arcos eram ainda só de volta completa, as abóbadas de berço e as aberturas para entrada da luz do dia apenas frestas, janelas e óculos, é o templo de Cedofeita. Envolve-se o mistério da sua longínqua fundação numa lenda ou tradição que o dá como edificado por um rei suevo, para nele depositar umas relíquias de S. Martinho de Tours, por cuja intercessão se curara o príncipe seu filho. Reportando-nos, porém, à história, apenas sabemos que pertenceu a um mosteiro da Ordem Beneditina e que os documentos mais antigos que a ele se referem são uma disposição testamentária do ano de 1118 e a bula Officii mei do papa Calixto II, do ano de 1120, assim como sabemos que ao terminar o século XIII se transformara numa colegiada, cujo priorado foi, por vezes, exercido por altas eminências eclesiásticas, como o cardial D. Jorge da Costa, o bispo D. Nicolau Monteiro e o arcebispo D. Gonçalo Pereira.

A partir talvez do século XVII sofrera os mais bárbaros atentados. Rasgaram-lhe os muros para enxertos de janelas e para pouso de altares; cobriram-lhe interiormente, as paredes de reboco; alpendraram-lhe horrendamente a frontaria; cercaram-na de casario, e, no século XVIII, insculpiram no tímpano da sua entrada principal, para lhe completar o seu calvário, uma inscrição mentirosa! Mas, depois de todo este martírio, no ano de 1933, a linda igrejinha de Cedofeita surge-nos como que restituída à sua graça primitiva, pelo esforço artístico da mesma ilustre entidade que está cuidando do restauro da catedral. Mas... a inscrição ficou.

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Depois dos templos românicos, tem o Porto outro templo maravilhoso, em estilo ogival, que pertenceu ao extinto convento dos frades da Ordem Menor de S. Francisco. É corrente que a sua construção teve começo em 1383 e que se concluiu no primeiro quartel do século XV. É um templo de planta cruciforme, de três naves. O seu estilo sóbrio e ogival é uma transição do românico, o que denota ter sido construída inalteravelmente sobre um traçado primitivo. A abside e os absidíolos de forma poligonal, duma soberba elegância, são amparados por gráceis e altivos gigantes. Percorrem a cimeira lindos renques de cachorrada. Nas paredes das naves uma completa ausência de contrafortes.

Na fachada, voltada a Poente, uma das mais lindas rosáceas que a Arte tem esculpido no granito encima um portal do século XVII de colunas retorcidas, a que é uso chamar-se salomónicas. Dentro, uma maravilha! Subcoro, colunas, arcos, altares, tudo com uma profusão de exuberante talha dos séculos XVII e XVIII recamada de ouro! No transepto, do lado da Epístola, antecedido dum rendilhado portal manuelino, um vulgar e moderno retábulo retendo um painel primitivo S. João a Baptizar Cristo. Em baixo, do lado do Evangelho, o / 15 / altar com a pintura mural do século XV, conhecida pela Senhora da Rosa, pintura que fora muito danificada quando o templo serviu de arrecadação, durante o Cerco do Perto.

A poucos passos desta igreja fica a capela da Ordem 3.ª de S. Francisco, principiada a construir no fim do século XVIII e sagrada em 1805. É em estilo clássico da Renascença, bem uniforme, distinto, harmonioso. Embelezam a sua elegante fachada excelentes esculturas alegóricas das virtudes e deveres cristãos. No interior há telas de Vieira Portuense, frescos de Custódio Teixeira e primorosa entalha de artistas portuenses e do italiano Chiari. A capela assenta sobre uma cripta mortuária, que, pela sua relativa grandeza, é digna de ser visitada. No salão nobre da irmandade existe um famoso quadro de Vieira Portuense representando a Morte de Santa Margarida.

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O templo de Santa Clara pertenceu ao mosteiro de freiras claristas, fundado em tempo de D. João I (1416). Cimentaram as suas primeiras pedras o monarca e D. Fernando o infante-santo. À cerimónia, que foi imponente, assistiram a principal nobreza e cleresia. Segundo a Historia Seraphica, o convento já tinha monjas em 1427, enquanto que o templo só servira o culto em 1457. Dela, de arcaico, pouco se conserva digno de menção, a não ser o pórtico, misto de gótico e de renascença, danificado pela encimalha de nichos com um simulacro de imagens patriarcais; à sua direita, uma pequena porta ogival, muito mais antiga; em cima, na parede, à laia de símbolo de fidelidade, debruçando-se como que a guardar sua irmã coetânea, uma gárgula em figura de cão, e, dentro, junto à entrada, a velha pia de água benta, octógona, da mesma época. Depois é tudo posterior. Lá dentro, numa semi-luz de mística religiosidade, há exuberante entalhamento, um verdadeiro aglomerado escultórico numa mescla de ornamentação do século XVII, sem completa harmonia em seu conjunto, mas que nos esmaga e impressiona pela imaginativa e pelo peso do ouro. O retábulo da capela-mor guarda um painel do pintor portuense Joaquim Rafael, representando Santa Clara a mostrar a Custódia aos infiéis.

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O templo de S. Pedro de Miragaia, cujo primitivo fundamento a tradição atribui a S. Basílio, foi reedificado, no século XVI, pelo bispo e egrégio portuense D. Nicolau Monteiro. O templo anterior, velhinho, por certo a derruir, seria talvez uma igrejinha românica recordando um passado de doce e puro misticismo, onde, em certo dia de 1453, a população do então pequeno bairro piscatório acorrera a venerar as relíquias do Mártir S. Pantaleão, trazidas de Nicomédia pelos arménios cristãos foragidos, após a invasão de Constantinopla pelos otomanos.

Os arménios fixaram residência no lugar que ainda hoje tem a sua denominação e os restos do / 16 / mártir, na sua urna de mármore, repousaram no templo por espaço de quarenta e seis anos, até que, sendo chefe da diocese, D. Diogo de Sousa os fizera trasladar solenemente para a catedral, a 12 de Dezembro de 1499, proclamando, em substituição do mártir S. Vicente, o novo mártir padroeiro da cidade.

O templo actual, de modestas proporções e sem relevo arquitectónico, encerra, todavia, um dos mais deslumbrantes lavores de entalha religiosa que há nesta cidade a sua capela-mor, assim como guarda um belo e precioso tríptico, cuja parte central representa o Pentecostes.

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A Igreja do extinto convento de S. Bento, na rua da Vitória, rua que outrora se chamou de S. Miguel, por ser a que conduzia à porta da muralha do campo do Olival, da invocação daquele arcanjo, teve sua fundação pelo ano de 1598. O seu traçado arquitectónico duma só nave, em planta de cruz latina, é do mestre Diogo Marques, decalcado no estilo da Renascença adoptado por Vignola na Igreja de Jesus, em Roma, motivo por que muitos autores lhe chamam estilo jesuítico. Cobre-a uma abóbada de granito, em caixotões, com um vão de 12 metros. No mesmo estilo e na mesma época foram construídas as igrejas de S. João Novo, do Colégio (vulgo Grilos) e do Carmo. Em meados do século XVII foi revestida, interiormente, de lindos azulejos, talvez arrancados quando, em fins do mesmo século, se procedeu ao assentamento da prodigiosa obra de talha do retábulo da capela-mor, dos altares do transepto e do coro. Este último é extraordinariamente sumptuoso, não havendo no País nada que se lhe assemelhe. Servindo de pretexto a guarnecer o cadeiral, que é constituído por duas ordens de assentos de pau preto, as paredes do coro acham-se revestidas duma exuberante entalha Renascença recamada de ouro, cujo motivo ramagens e querubins emolduram 30 famosos quadros de madeira em meio relevo, policromados, representando as principais passagens da vida do Patriarca beneditino. Completam esta maravilhosa obra, lateralmente e em sequência do coro, dois órgãos duplamente monumentais pela sua grandeza e pela filigranada decoração que os reveste.

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Os dois templos carmelitas que se erguem no Largo do Carmo, junto à Praça da Universidade, são dois exemplares interessantes, juntos pela vizinhança, mas separados um século pelo estilo. Exteriormente, o primeiro pertence à arquitectura do século XVII, ou seja o chamado estilo barroco ou jesuítico. Foi construído entre os anos de 1619 e 1628. O segundo pertence ao século XVIII e, arquitectonicamente, é fruto da influência do estilo Luís XV entre nós, ou seja o que vulgarmente se denomina estilo João V. É de facto uma das mais belas edificações deste género, em granito. Mandou-o construir, em 1756, a confraria ou irmandade / 17 / que teve sua fundação na extinta capelinha da Batalha, em 1737. Interiormente, possuem ambos os templos apreciável obra de entalhamento.

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O templo dos Clérigos, cujo interior afecta a forma oval, foi começado a edificar-se em 1732 e foi sagrado pelo bispo D. Rafael de Mendonça. Erigiu-o uma irmandade de clérigos com fins hospitalares. É um arranjo arquitectónico do rococó da época. A torre, projecto do arquitecto italiano Nazoni, foi começada em 1748 e terminada em 1763. É a maior do País. Mede cerca de 75 metros de altura. Sobe-se ao seu último andar por uma escada com 240 degraus, donde, do seu varandim, se desfruta um panorama extenso e surpreendente.

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Finalmente, o templo da Misericórdia, na Rua das Flores, é uma construção do século XVIII, como se vê pelo seu estilo e pela data inscrita na sua frontaria (1750), que substituiu um templo anterior que, segundo o informe de Pereira de Novais, se edificou com o auxílio de esmolas «en el principio de la Calle de la Rua de las Flores, que entonces era Plaça del Monastério de Santo Domingo... y al fin se acabo en el año de 1555», isto é, 56 anos depois da fundação nesta cidade da piedosa e benemerente instituição criada pela Rainha D. Leonor. De arcaico portanto, apenas há, no arquivo desta irmandade, preciosa documentação e, na sala das suas sessões, um maravilhoso quadro dos princípios do século XVI, de autor desconhecido. Intitula-se Fons Vitae. Presume-se que o seu assunto seja alusivo à instituição da Misericórdia e que as personagens nele representadas sejam D. Manuel I e sua família. Desde 1844, ano em que o Conde Raczynski o observou, que os críticos e investigadores têm tentado desvendar o mistério da sua autoria. Inútil, no entanto. Ao fim de quase um século de estudo e discussão, apenas se mantém como certo e inabalável o conceito daquele grande crítico «C'est en fait de tableaux gothiques, une des plus belles choses que j'ai rencontrées en Portugal.».


Junho de 1934.


 

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