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O CORCUNDINHA
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o
tempo das fadas houve um soberano a quem chamavam o Rei das Maçãs.
Naquele reino havia muito frio e por isso as maçãs e outras frutas,
apesar de serem grandes e terem bonita aparência, deixavam muito a
desejar enquanto a gosto, porque lhes tinha faltado o sol para as
amadurecer bem.
Ora o rei tinha uma tal paixão por maçãs, que uma vez mandou deitar
um bando pelos seus estados, dizendo que a mão de sua filha única,
uma princesa de rara formosura, seria para o homem que lhe trouxesse
uma dúzia das melhores maçãs.
Houve quem pensasse que o rei não estava bom de juízo, mas ninguém
se atreveu a dizê-lo e o caso é que dali a pouco pelas estradas que
iam dar ao paço caminhavam milhares de pessoas cada uma levando um
açafate com maçãs.
Havia gente de todas as classes naquela multidão: duques, marqueses,
soldados, jardineiros, lavradores.
Um destes, chamado Francisco, tinha no seu cerrado muitas macieiras,
que davam excelentes frutos. Como ouviu o que dizia o bando real,
mandou o seu filho mais velho, chamado Ricardo, que fosse apanhar as
mais lindas maçãs para levá-las ao rei, dizendo-lhe que tivesse toda
a esperança, pois ninguém apresentaria outras mais saborosas.
O Ricardo, que era um bonito rapaz, forte e espadaúdo, foi ao pomar
e escolheu doze maçãs, que eram mesmo uma perfeição.
– Vais com certeza apanhar o prémio. – dizia-lhe o outro filho do
lavrador, que não se parecia nada com o irmão. Chamava-se António e
era enfezado e corcunda.
Pôs-se o Ricardo a caminho, muito cheio de si, julgando que ia ser
marido
da princesa.
Depois de fazer uma grande caminhada, parou para descansar e
sentou-se à beira de um regato. Como já estava com fome, abriu o
farnel e entrou de volta com a comida, que a mãe lhe tinha arranjado
para a jornada.
Nisto passava uma velhinha, tão acabada que já mal se podia
arrastar. / 465 /
– lrmãozinho, – disse-lhe ela com muita humildade – dê-me alguma
coisa com que matar a fome.
– Vai-te embora. – Respondeu-lhe de mau modo o Ricardo. Não dou de
comer a pedinchonas.
– Pois não dês, filho. – respondeu-lhe a velha, seguindo o seu
caminho. Ai!
Corno são lindos os sapos!
O rapaz disse consigo mesmo que a pobre era doida, pois não pôde
entender estas últimas palavras, e dali a migalhinha, continuou a
jornada.
No dia seguinte de manhã chegou às portas do palácio e entrou para
um grande pátio, onde já estavam mais de cem pessoas à espera, cada
um com seu cestinho.
Apenas o rei acabou de almoçar, veio ver as maçãs. Ao cabo de muito.
tempo, chegou a vez ao Ricardo.
– Deixa lá ver as tuas maçãs. – disse-lhe o rei.
O rapaz, todo ancho, abriu o açafate e levantou a toalha branca de
neve que estava ao de cima. Apareceu logo uma dúzia de sapos muito
feios, que se remexiam na ânsia de fugir dali para fora.
O rei desviou-se para trás, muito zangado, e deu ordem aos seus
guardas para que prendessem o Ricardo e o fossem meter na masmorra
mais escura do castelo, que ficava ao pé do palácio.
Passaram-se dias e dias sem que o lavrador soubesse novas do filho.
Andava tão aflito que já quase não tratava das macieiras. Afinal o
corcundita ofereceu-se para ir à cata do irmão, levando também uma
dúzia de maçãs ao rei.

– Para quê? – perguntou-lhe o pai. Serás tão tolo que também queiras
casar com a princesa? Se teu irmão, rapaz desempenado e perfeito,
foi mal sucedido, pior te acontecerá a ti, que és tão enfezado, e,
de mais a mais, corcunda!
Mas o António tais pedidos fez, que o pai afinal lhe deixou levar as
maçãs. Os frutos, como já não andavam tão bem tratadas as macieiras,
não eram
dos melhores, mas ainda assim o António apanhou os doze que lhe
agradaram mais e pôs-se a caminho, cheio de esperança.
Chegou ao pé do regato e parou no mesmo sítio, em que o irmão tinha
descansado. / 466 /
Quando estava a rilhar um bocado de pão muito duro, apareceu-lhe a
mesma velhinha e pediu-lhe, pelo amor de Deus, alguma coisa com que
matar a fome.
– Só me deram para a jornada este bocado de pão muito duro, mas
estou pronto a reparti-lo consigo, avózinha.
E deu-lhe metade do pedaço de pão.
– A bênção de Deus te cubra, meu filho. – disse-lhe a velha. Ai como
são
lindas as maçãs!

Quando os criados do rei viram o António à porta do palácio, não o
quiseram deixar entrar, mas afinal o corcundita conseguiu meter-se
por entre o povoléu que invadiu o pátio.
Depois de se tirar a toalha de cima das maçãs, o rei ficou
entusiasmado com a beleza dos frutos e gritou para o rapazinho:
– Pertence-te o prémio. Vais ser meu genro!
Mas a princesa, que estava perto, recuou cheia de repugnância,
quando viu o António, e disse:
– Casar com um marreca! Lá isso nunca! Mil vezes antes morrer!
– Ele é realmente tão feio, – disse uma dama da côrte, também muito
nova e bonita – que, para casar com a princesa, devia ser obrigado a
fazer mais alguma coisa do que apresentar uma dúzia de maçãs.
– De certo! De certo! – Exclamaram os outros pretendentes.
O rei por fim deu-lhes razão.
No dia seguinte mandou o António pastorear pela tapada do palácio os
esquilos do paço. Devia deixá-los sair da gaiola pela manhãzinha
cedo, para os animaisitos se espalharem pelo campo e treparem às
árvores; e ao sol posto, havia de metê-los a todos para as gaiolas.
Se algum se perdesse, perderia ele também o direito de casar com a
princesa.
Quando ele, muito triste, ia para a tapada, levando às costas uma
gaiola com duas dúzias de esquilos, encontrou a velhinha, com quem
tinha repartido o bocado de pão.
– Não te aflijas, meu filho. – aconselhou ela. É mais fácil do que
julgas a tarefa que te deram. Aqui tens um apito de prata. Quando
quiseres juntar os esquilos, não tens mais do que tocá-lo com força.
Verás que não faltará nem um só. Mas Deus te livre de tocá-lo sem
ser preciso. / 467 /
Ainda o António não tinha acabado de agradecer-lhe e já a velha
desaparecera. Não queria crer o corcundita no que ela acabava de
prometer-lhe: e disse consigo mesmo:
– De certo esteve a caçoar comigo.
Quando chegou ao meio da tapada, onde à sombra do belo arvoredo
cresciam as mais lindas flores, abriu a porta da gaiola e os
esquilos saltaram para o chão e correram para as árvores, subindo
pelos troncos e pulando de ramo para ramo com tanta ligeireza como
se tivessem asas.
– Queira Deus a velhinha não me tenha enganado! – disse o corcunda,
quando os viu todos longe de si.
Era no começo de Outono.
O céu estava azul e o sol muito quente.
Como não lhe tinham dado merenda, António foi comendo avelãs e
amoras de silva, que não lhe pesaram muito no estômago.
Mal começou a fazer escuro, levou aos beiços o apito, com a mão toda
a tremer, e tocou-o por três vezes.
Houve logo uma restolhada nas copas das árvores, e, num abrir e
fechar de olhos, todos os esquilos vieram agrupar-se em roda do
António, quietos e dóceis como borreguinhos.
Imagine-se a alegria do rapaz!
Voltou para o palácio cantarolando alegremente, acompanhado pelos
seus esquilos, que davam saltos e cabriolas em redor dele.
Tanto o rei como a princesa ficaram muito admirados ao verem isto,
e, ainda mais, conhecendo que não faltava nenhum dos esquilos.
– Que hei-de eu fazer para me livrar do corcunda? – perguntou a
princesa à tal dama da côrte.
– Mande-o Vossa Alteza amanhã outra vez à tapada, mais os esquilos,
que desta feita havemos de pregar-lhe uma peça.
No dia imediato, o António voltou efectivamente com os esquilos para
o meio do arvoredo.
Quando era meio dia a dama da corte foi levar-lhe uma boa merenda e
uma grande garrafa de excelente vinho. Sentou-se ao pé dele, na
relva, e foi brincando com os esquilos, enquanto o rapaz comia e
bebia.
– Que lindos animaisinhos. – disse ela. Vende-me um?
– Não! Não posso dispor dele, nem que me desse uma mancheia de
moedas de oiro por um só que fosse.
– Dou-lha por este, que é tão bonito. / 468 /
Tanto dinheiro por um esquilo! Nunca em toda a sua vida ele se tinha
imaginado senhor de uma só moeda, quanto mais das que a outra
dizia...
– Uma mancheia de moedas de oiro e um beijo. – respondeu o António,
para não ceder logo às primeiras.
– Só as moedas de oiro. – respondeu a fidalguinha.
O corcunda, porém, insistiu e recebeu tanto a mancheia de moedas de
oiro, como o beijo.
A dama partiu muito satisfeita, com o esquilo embrulhado no lenço,
mas ainda não tinha dado muitos passos quando se ouviu o som do
apito, e o esquilo saltou para fora do lenço e correu a juntar-se
com o António.
– O corcunda é feiticeiro. – foi ela dizer à princesa.
– Pior ainda! – disse muito apoquentada a filha do rei. Para
sabermos com certeza se é ou não é, mando-o amanhã outra vez à
tapada. Custe o que custar, hei-de comprar-lhe um esquilo, que não
deixarei fugir, como tu deixaste.
No dia seguinte a princesa levou ao António uma bela merenda e duas
grandes garrafas do melhor vinho que havia no palácio. Depois de
regatear com ele por algum tempo, comprou-lhe um esquilo por duas
mancheias de moedas de oiro e dez beijos.
– Tira-o agora daqui, se és capaz! – disse-lhe ela, depois de ter
metido o animalzinho num saco de couro.
E encaminhou-se para o palácio.
Quando o som do apito retiniu pela tapada, o esquilo rasgou o fundo
do saco e tornou para junto do rapaz.
À noitinha, voltou o António com todos os esquilos.
– Deve agora marcar o dia da boda. – disse ele à princesa, diante do
rei e dos cortesãos. Fiz tudo o que se exigiu de mim e ganhei a sua
mão duas vezes em lugar de uma só. / 469 /
– Ainda queria pedir-lhe uma coisa, mais uma unicamente. – respondeu
a princesa, dando-lhe um saco.
– Satisfaço o seu pedido, seja ele qual for.
– É que me encha este saco de verdades. Depois disso casamo-nos
imediatamente.
– Nada mais fácil, – acudiu o António – e é coisa que vou fazer num
abrir e fechar de olhos. – disse o rapaz voltando-se para a tal dama
da côrte e perguntou-lhe: Não é verdade que foi ter comigo à tapada
e que me deu um beijo e uma mancheia de oiro por um esquilo?
A dama pôs-se muito corada e respondeu, indo-se embora:
– Não o posso desmentir.
– É quanto basta. – fez o António. Aí vai uma verdade para o saco. E
virando-se para a princesa, que já não estava muito à sua vontade,
perguntou-lhe também:
– E não se lembra, minha querida princesa?...
– Nem mais uma palavra! – acudiu ela. Casamos amanhã.
Foram admiráveis as festas da boda. O Ricardo foi tirado da masmorra
e serviu de padrinho ao irmão.
Quando os noivos voltavam da igreja ao som da música, em companhia
do rei e de toda a côrte, encontraram-se com uma velha, que tinha na
mão uma varinha branca.
A velha aproximou-se do noivo e tocou-lhe com a varinha nas costas,
e logo desapareceu a corcunda e o António tornou-se lindo e
desempenado que nem o mais perfeito rapaz que tem havido no mundo.
As festas duraram dois meses e acabaram por um grande banquete, em
que o rei comeu tantas maçãs do cerrado do pai de seu genro que no
dia seguinte morreu.
O António e a mulher reinaram muitos anos e fizeram o seu povo muito
feliz, o que outros reis não têm conseguido.

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