oi este mosteiro fundado no século XVI, quando as ideias religiosas actuavam mais nos ânimos do que hoje em dia, e lhes apontavam o norte de obras pias como o mais seguro indicador da bem-aventurança.

Segurava o báculo do governo eclesiástico da arquidiocese eborense um filho do rei D. Manuel, o Cardeal Infante D. Henrique, primeiro Arcebispo dela.

Do terceiro casamento de seu pai tinha ele uma irmã de singular formosura externa e de peregrina beleza de alma, a Infanta D. Maria, herdeira de grandes haveres, que lhe deixara o pai, como mais avultados a mãe, que a política fizera, mais tarde, rainha de França.

Por mestre tivera a Infanta a D. João Soares, que foi, na sequência do tempo, Bispo de Coimbra.

O trabalho singular de boa crítica da senhora D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos: A Infanta D. Maria, dispensa-nos de miudezas.

A esta Infanta foi que o irmão, o Cardeal D. Henrique insinuara, por 1560, a ideia da fundação do Calvário de Évora, da Regra de Santa Clara de / 461 / Capuchas de S. Francisco, da Província do Algarve.

Fôra a célebre Justa Rodrigues, a estimada ama de D. Manuel, quem trouxera de Gandia para Setúbal, as primeiras freiras desta aspérrima Regra, e ali lhes fundara o Mosteiro de Jesus.

Bem recebida da Infanta a lembrança do irmão, e sob traça dele se começara sem delongas a construção do mosteiro, já quando D. Henrique deixara de ser Arcebispo e lhe sucedera D. João de Melo, vindo de Silves, que foi quem cedera para núcleo da edificação uma antiga ermida da Vera Cruz, que ali havia junto à muralha fernandina, por diploma de 29 de Maio de 1565.

De que o edifício não estava concluído em 1571 damos um documento, quiçá inédito, e aos 23 de Outubro de 1574, em vida da fundadora, entraram as primeiras habitadoras naquele seu túmulo em vida. Do convento da Assunção, de Lagos, vieram algumas e outras do de Setúbal, o primeiro da Ordem, em Portugal.

Helena da Cruz, ou Bernardina de Jesus, cousa que se não aclara bem, foi a primeira Abadessa desta casa religiosa, que ficou na história franciscana com o nome de Mosteiro de Santa Helena do Monte Calvário.

Não excedia o número de vinte e quatro o destas míseras servas do Senhor, que uma só vez foram obrigadas a sair do mosteiro, quando, em 1663, a artilharia castelhana o varejara, recolhendo ao convento de Santa Clara.

Pobríssimas, só viviam de esmolas que quatro donatos pediam pelo reino / 462 / para elas, e da que lhes legara a fundadora, de 208$000 reis anuais, que lhes daria a Misericórdia de Évora.

Andavam descalças estas pobres mulheres, e só nos últimos tempos tinham uma espécie de sandálias de madeira ou calopódios, vestiam camisa de estamenha sobre as carnes, dormiam numa cortiça, encostavam a cabeça a um travesseiro de palha e jejuavam sempre.

Extrema pobreza revela ainda o mosteiro, muito arruinado. Nada há nele digno da contemplação do arqueólogo; nem uma inscrição mortuária relembra o nome de uma só monja. Obras de arte nenhuma: talvez alguns maus quadros de Josefa de Ayala.

Apenas no transceptum da igreja existe o epitáfio do Arcebispo D. Joaquim Xavier Botelho de Lima, da casa dos condes de S. Miguel, que ali jaz em campa rasa.

Deixara a famosa fundadora o mosteiro à proteção dos reis de Portugal, e assim, foi D. Sebastião quem lhe deu um anel de água da Prata, e D. Filippe II cinco mil ducados de prata, para reparos no mosteiro, e D. João IV lhe fizera obras importantes.

Nesta casa foi que o Marquês de Pombal mandou enclausurar a Dona Isabel Juliana de Sousa Coutinho, a heróica mulher que não consentia na consumação do matrimónio com o filho dele, José, até que, morto o rei, o matrimónio foi anulado e ela casara com D. Alexandre de Sousa, formando o tronco da casa Palmela.

Dádiva ao mosteiro por D. Isabel, ainda ali há um menino Jesus, de valor artístico, e, pelo facto, histórico.

Com a morte de D. Maria José, natural de Cabeção, sucedida em 7 de Setembro de 1889, fechou o ciclo das Abadessas desta casa religiosa. Subsiste apenas um pálido reflexo de tal mosteiro em poucas mulheres, que o Governo permitiu ali vivessem em comunidade sem votos, dadas ao culto divino e ao ensino das meninas da vizinhança, que ali vão buscar o pão do espírito em úteis ensinamentos. Eram estas senhoras as meninas do côro ao tempo da morte da última monja do Calvário.

Continuam a viver de esmolas e da protecção larga e variada da senhora D. Inácia Angélica Fernandes de Barahona, a notabilíssima eborense, cujo retrato aqui tem cabimento apropriado.

Mostramos o mosteiro visto da rua da Lagoa e de fora da estrada de circunvalação, cuja torre fernandina fora dada ao mosteiro para miradouro das enclausuradas, e acerca da qual se escreveu este documento que não vimos Impresso: / 463 /

«Juiz vereadores e procurador da cidade devora / eu el Rey vos envio m.to saudar. A Iffante dona maria minha tia me dise que era muito necesario fazerse a serventia e rua que ha de ficar ao longuo do mostr.º de freiras que manda fazer na dita cidade da manr.ª que affomso alvarez mestre de minhas obras a deixou ordenada e aballisada Pollo que vos ẽcomendo e mando que não recebêdo acidade niso prejuizo ordeneis como a dita rua se faça cõforme às ditas balisas que vos mostrarão mateus neto mestre da obra do dito mostr.º e domingos Roiz capelão da Iffante que tẽ cargo da dita obra e asy vos ẽcomẽdo que deis a torre que esta junto do dito mostr.º para miradouro das freiras dele da manr.ª e com as condições com q se costumam dar as semelhantes torres, porque por isto ser cousa q assinte me pede / gaspar de seixas a fez de Lx.ª a xxbiij de feuer.º de 1571. Jorge da costa a fez escrever e isto com condição q se não faça danificam.to algũ na torre E ficando pera se poder vsar dela quando for necesaryº p.ª defensão da cidade. – Rey.» (1).

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(1) – L.º 6.º dos originaes da Camara de Evora, fl. 256.

Évora.

A. F. BARATA

 

 

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