HENRY FIELDING

Um grande romancista cujos restos repousam em Lisboa

A 22 de Abril deste ano, celebrou-se em Inglaterra o segundo centenário do nascimento de Henry Fielding, considerado o maior dos novelistas ingleses e um dos mestres incontestáveis do romance moderno. Esta consagração não teve o menor eco em Lisboa, que tem a honra de abrigar os restos mortais do grande romancista, sepultados no cemitério dos Ingleses. Os "Serões" não quiseram contudo deixar passar em claro esta importante comemoração literária, e o artigo que segue é uma homenagem à memória do eminente escritor, que merece de todos os amadores das belas letras um respeitoso culto, como o mais notável precursor de Dickens, Thackerey e George Elliott.
 

ISBOA tem há cento e cinquenta e dois anos, feitos no dia 8 de Outubro, a honra de hospedar no cemitério protestante da Estrela a ossada de um dos maiores escritores da Europa, o verdadeiro criador do romance inglês. Todavia, entre os quatrocentos mil habitantes da cidade, escassamente se apurarão duas dúzias de pessoas para quem o nome de Henry Fielding alguma coisa signifique. Quando Tennyson cá esteve no verão de 1859, não visitou o túmulo do seu ilustre compatriota por falta, diz ele, de quem lá o guiasse.

Henry Fielding nasceu a 22 de Abril de 1707. Era filho de Edmond Fielding, que militou sob o comando do duque de Marlborough e morreu no posto de general; neto de um dignitário eclesiástico de Salisbury e bisneto do primeiro conde de Desmond, par da Irlanda e da Inglaterra. Esta família era de remota origem alemã, parece até que um ramo da casa de Hapsburgo, mas estabelecera-se na Grã Bretanha em tempo de Henrique II e distinguira-se mais tarde na guerra das Duas Rosas.

Começar por uma genealogia uma notícia sobre Fielding deve lembrar aos raríssimos leitores portugueses do grande romancista o capítulo em que ele mete a ridículo no seu Jonathan Wild este processo habitual dos biógrafos.

É costume de todos os biógrafos, diz ele, ao começarem o seu trabalho, retroceder um pouco (tanto quanto lhes é possível) e buscar as origens do seu herói, como faziam os antigos ao rio Nilo, até que a impossibilidade de ir mais além põe termo às suas investigações. Não é lá muito fácil precisar qual fosse a causa primitiva desta prática... Tenho chegado a imaginar que seria para obviar à suposição de que tão altos personagens não são produzidos pelos meios ordinários da natureza e terá procedido (o costume das genealogias) de se recear que, não sabendo nós quem eram seus pais, venham a correr o risco de passar, como o príncipe de Prettyman, por não os terem / 453 / tido... Mas fosse qual fosse a sua causa, esta prática está hoje demasiadamente enraizada para que se tente lutar contra ela.

«Obedecer-lhe-ei, pois, do modo mais rigoroso.»

E segue depois uma impassível caricatura das genealogias de panegírico académico, que – como faz a neblina à aspereza das fragas e demais funduras dos valeiros – esbatem com frases discretas e descoloridas as manchas duma linhagem e com a empolada pompa dos termos a levantam e aplanam, quando ela se afasta por alguma depressão demasiadamente brusca da nobre harmonia do todo. A árvore genealógica do pickpocket Jonathan Wild tem por tronco um gentleman notável pela destreza com que extraia a mais recôndita bolsa e isto sem que o paciente por tal desse. E, continuando através dum companheiro do glorioso Sir John Falstaff e dum bravo que se declarara imparcialmente em luta aberta contra todas as facções políticas do seu tempo e depois de alguns feitos de armas felizes foi finalmente vencido e, contra todas as leis da guerra, cobardemente enforcado, ostenta em um dos seus ramúsculos uma dama que vivia em Londres, grande frequentadora de teatros, onde era notável pela particularidade de distribuir laranjas a quem delas se queria servir.

Contudo, só conhecendo-se o nascimento de Fielding se pode bem explicar a lenda, hoje bastante abalada, de desregramento e boémia que sobre ele se armou e se foi com o tempo avolumando. Um escritor de origem plebeia ou obscura que tivesse sido como o autor de Tom Jones empresário de um teatro, panfletário e romancista e acabasse a vida na magistratura, teria deixado na memória dos seus contemporâneos uma imagem inteiramente oposta à do extravagante e desgovernado Fielding da tradição inglesa. Os elementos que se organizaram na construção dessa personagem, talvez igualmente falsa, não seriam então a boémia, o desleixo, a indiferença pela station, mas sim o desgosto da situação equívoca e quase desprezível do homem de letras profissional desse tempo e o naturalíssimo desejo de ascender à dum respeitável parishioner, ao lugar relativamente considerado, digno, compreensível, de um justice of the peace.

O depoimento mais importante sobre a feição boémia de Fielding é o de sua prima, Lady Mary Wortley Montagu, espirituosa epistológrafa, sua contemporânea. Mas, para uma grande dama como ela, um primo empresário dum pequeno teatro mandado fechar pelo governo, panfletário de profissão, casando em segundas núpcias com uma criada de sua primeira mulher, devia realmente ser a / 454 / mais excêntrica e divertida coisa do mundo e uma mina de matéria-prima para as frases pitorescas em que a ilustre blue-stockings tanto se comprazia. Esta fonte biográfica, aparentemente tão preciosa, mais nos prova portanto que o perfil do grande romancista geralmente aceite pelos seus compatriotas é devido ao contraste entre o seu nascimento ilustre e a sua situação real na hirta sociedade inglesa. E o principal veículo de popularização desse perfil, um capítulo de Thackeray em The English Humorists of the 18th, Century, é, como o têm provado os especialistas em investigações acerca do século XVIII, cheio de anacronismos e de traços em irredutível contradição com factos bem documentados. É uma pura criação literária, interessante e portátil, mas historicamente falsa.

A crítica não tem todavia conseguido erguer sobre as ruínas dessa espécie de Bocage inglês, que é o Fielding da lenda, um Fielding real com a mesma nitidez de contornos. Esse trabalho de erudição tem sido muito mais negativo que positivo. Combinando porém as confissões voluntárias ou involuntárias espalhadas na obra do escritor com as restrições da crítica e o resíduo da verdade que não pode deixar de existir no fundo da lenda, parece-me que se pode aceitar aproximadamente este Fielding: um temperamento rico de seiva, de impulsos fortes, com molas de boa têmpera que o faziam esquecer num imprevisto prazer de ocasião quaisquer dificuldades sérias em que se achasse inextrincavelmente envolvido, sem que o sabor daquele fosse pela ideia destas atenuado; duma lealdade sem mancha, generoso até à imprudência e incapaz de se fazer rogado para uma garrafa ou mais – de old sack –, como qualquer bom inglês de todos os tempos, mas muito especialmente do século XVIII: – pouco mais ou menos o carácter com que ele ","orou o seu Tom Jones e o seu capitão Booth. Uma natureza destas devia aceitar com risonha coragem e bonomia a situação subalterna para onde a avareza paterna o arrojou e acomodar-se nela o melhor possível, sem os desdéns e as lástimas do snob que quer passar por príncipe destronado.

Fielding não se envergonhava de tratar publicamente com a mais cordial camaradagem aqueles para cuja classe as circunstâncias o tinham deslocado. É frequentíssimo encontrar nos seus romances, a propósito duma fisionomia caricatural, a citação dum quadro do «seu amigo» Hogarth, a comparação herói-cómica de alguma situação grotesca das suas personagens com atitudes e inflexões do «seu amigo» Garrick, em alguma tragédia de Shakespeare. É palpável nele a tendência para julgar as pessoas pelo que individualmente valem e não pela posição social que ocupam. Em Joseph Andrews, o personagem episódico Wilson, gentleman de excelente linhagem e educação, depois da desgraça lhe ter feito conhecer o mundo, casa com uma mulher da pequena burguesia, cuja bondade simples e cujos benefícios o enterneceram e encheram de gratidão. O seu próprio casamento com aquela a quem sua prima Lady Mary Worthey, já citada, chamava cook-maid, mas que além de ser formosa e ter certa educação, era qualquer coisa como aia, e não cozinheira, foi em grande parte determinado, dizem biógrafos recentes, pelo carinho materno que nela encontravam as duas filhas que lhe ficaram do matrimónio.

O heroísmo obscuro das mulheres comovia-o profundamente. Todos os que leram “Amélia” devem ter presente certa passagem em que a protagonista, tipo burguesmente angélico de dedicação conjugal e virtude doméstica, espera debalde para a ceia o marido, o bondoso mas fraco captain Booth, que passava a noite com alguns vadios, seus amigos, para cujas algibeiras é transferido ao jogo o pouco dinheiro que possuía.

Ainda há um instante, não tendo aberto esse romance há mais de dois anos, encontrei de pronto esses períodos para aqui os traduzir, conservando nitidamente na memória a altura do volume e o sítio da página, onde eles se encontram:

«E aqui não podemos deixar de relatar um pequeno incidente, por mais insignificante que ele a alguns possa parecer. Depois de ter estado algum tempo sozinha a reflectir na desgraçada situação da sua família, Amélia sentiu-se mais e mais descoroçoar; e por duas ou três vezes esteve para chamar a criada e mandar comprar meio pint de vinho branco, mas dominou este apetite para poupar a pequena quantia de seis pence, o que fez mais resolutamente lembrando-se que tinha pouco antes recusado aos filhos o mimo de uns bolos à ceia, pelo mesmo motivo. E fazia este sacrifício muito provavelmente para economizar seis pence ao mesmo tempo que seu marido pagava / 455 / uma dívida de uns poucos de guinéus por causa do às do trunfo se encontrar em poder do seu antagonista.»

A quem por acaso este meio pint de vinho branco como remédio para desânimos faça sorrir, lembrarei que o vinho na Inglaterra, decerto por ser género importado e caro, gozou por muito tempo, como nos romances se vê a cada passo, e continua talvez a gozar, as honras de eficacíssimo cordial.

Fielding não era bucólico e romanesco na sua concepção da plebe rural e das classes inferiores das cidades.

As pinturas pasmosas de crua verdade da família do guarda-caça Seagrim, da criada de miss Western, em “Tom Jones”, e da sinistra população das prisões, mostram bem que os seus olhos não usavam óculos azuis que lhe transformassem o mundo em quimérica égloga pintada em azulejos. Mas por ser despido de sentimentalidade piegas não tinha a misantropia feroz de um Swift. Não, muito pelo contrário. A família Seagrim, protegendo e aproveitando a indústria da filha, Molly; as irmãs dela invejando-a e odiando-a por a verem vestida de «senhora» com um vestido velho que lhe dera miss Western; a criada desta procurando atear-lhe a paixão nascente pelo enjeitado Tom Jones e auxiliando-a na fuga, só por amor do clandestino e da intriga, não lhe causam indignação nem são exibidos, à Tolstoi, como produtos duma organização social injusta, que o revolta. São apenas animais de fortes instintos, ingénua e divertidamente vis, que ele gosta de criar e de contemplar nos seus viveiros. Nem a indignação me parece nele sentimento com tenacidade suficiente para inspirar e desenvolver a criação de caracteres interessantes e originalmente concebidos. Os seus hipócritas, as suas personagens de índole traiçoeira são bastante convencionais. E a veneração pela sisudez e pela virtude sem mácula, também não actuava consideravelmente nele como força criadora, do que resultou saírem-Ihe o irrepreensível e ponderado squire Allworthy, em Tom Jones, e o doutor Harrison, em Amélia, o primeiro sobretudo, simples manequins, cobertos de máximas excelentes. Se o parson Abraham Adams, de Joseph Andrews, se salva, é porque a sua virtude é acompanhada duma candura e duma ignorância do mundo que o colocam a cada instante nas mais divertidas situações cómicas. A simpatia instintiva de Fielding vai toda para a exuberância de vida e abrange todas as leviandades e loucuras que lhe andem anexas, quando essa energia se manifesta numa mocidade generosa como a de Tom Jones, todas as brutalidades e extravagâncias burlescas, quando ela anima um esplêndido selvagem, como o velho squire Western. A simplicidade de espírito, misturada com um pouco de vaidade, tomando excessivamente a sério os palavrões como Honra, Brio, Cavalheirismo, Bravura, e obedecendo-lhes com uma rigidez maquinal e cega, sem proporção com as circunstâncias, tem nas mãos do criador do coronel Bath o cómico particular desenvolvido pela gravidade digna com que os autómatos executam o seu movimento. O excelente e ridículo Bath percorre parques e cafés, hirto e solene – stately –, cabeleira empoada, chapéu debaixo do braço, mão no punho da espada, olhando zelosamente em redor para castigar de pronto a mais leve sombra de ofensa que por acaso descubram os seus melindrosos brios sempre alerta. É visível o prazer malicioso e consumada a / 456 / arte com que Fielding, no desenvolvimento da acção de Amélia, acotovela a cada passo, como por inadvertência, a sensível mola motriz desse mecanismo explosivo, provocando nele inesperadas chispas de dignidade fulminante.

Todos os aspectos desta altitude de espírito perante o Homem parecem pirilampear no tenuíssimo sorriso de bondosa malícia que, no retrato desenhado por Hogarth, ilumina o rosto do romancista, de feições bastantes grossas, nariz enorme, de cavalete, pendendo trombudo ao encontro do queixo redondo, de excessivo relevo. O lábio inferior, é verdade, alonga-se com certo desdém compassivo, mas descaindo um pouco, sem a expressão agressiva que teria se se premisse energicamente contra o outro, como o lábio de Swift, que parece reprimir por instantes o insulto, para lhe dar maior tensão e violência.

Sabe-se que era duma corpulência agigantada, que se adivinha logo no retrato, pelo seu tipo de perfil, geralmente ligado às altas estaturas: o prognatismo total, começando na glabela, o qual apresenta, com a cabeça coberta, uma aparência ortognata, por se alinharem na mesma vertical todas as regiões faciais salientes. Quando mergulho na fisionomia fixada neste desenho tão expressivo e tão sóbrio, vem-me sempre à ideia um gigante de Brobdingnag divertindo-se a brincar com Gulliver na palma da mão, ou as caras de alguns espectadores que sorriem serenamente, sem se envolverem na balbúrdia no célebre combate de galos do autor do retrato.

Confrontando este retrato autêntico com o outro suposto que nestas páginas vai reproduzido, a impressão permanece a mesma.

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Supõem os biógrafos que Fielding fez os seus estudos clássicos no histórico colégio de Eton. Mas ou fossem feitos aí ou em qualquer outra parte, dão abundante testemunho da solidez e vastidão deles as amiudadas citações dos antigos nas suas obras de humor, o tom respeitoso com que ele fala da erudição clássica, do learning, dos seus personagens predilectos, os discursos sobre Homero e sobre os trágicos gregos que lhes põe na boca e o desprezo com que apresenta os rabiscadores ignorantes, iliterate fellows, confundindo Lucano com Luciano e falsificando para os livreiros traduções de obras gregas e latinas por versões francesas.

Nenhum biógrafo duvida do facto de ter Fielding passado dois anos em Leyde a estudado direito, apesar de não haver sobre isso documento algum. De volta à Inglaterra, por falta de recursos, pois parece averiguado que seu pai nada lhe dava da razoável mesada que lhe tinha arbitrado, Fielding lança mão de géneros literários inferiores para ganhar a vida. Passa então sete obscuríssimos anos, dos quais apenas se sabe que compôs algumas comédias originais bastante medíocres e adaptou à cena inglesa outras de Molière. É nesse período que a lenda, por confusão com certo Timothy Fielding, seu contemporâneo, o apresenta como actor e tendeiro. Aos vinte e oito anos estava Fielding já casado. Algum tempo depois, em 1736, aparece-nos ele empresário do Little Theatre, e fazendo representar pela sua companhia do «Grão Mogol» peças de sátira política. O encerramento desse teatro por ordem do governo em 1737 desviou a sua / 457 / actividade para a jurisprudência, e ei-lo instalado no Temple, a velha colmeia londrina de legistas e aprendizes de legista. Ia ao mesmo tempo colaborando em jornais, e em 1742, faz a sua estreia na alta literatura com a publicação de Joseph Andrews, que lhe rendeu 183 libras. Entre esta data e 1751 em que publicou Amélia está compreendida a sua carreira literária propriamente dita. É também neste período que perde sua primeira mulher, pelo que esteve a dois passos da loucura, que contrai segundas núpcias, que é nomeado Justice of the peace de Westminster, e chamado pouco depois para o cargo de chairman of quarter sessions, uma magistratura que tinha então funções mistas de juiz de instrução e intendente de polícia.

Eis-nos fora dos embrulhados conflitos entre a lenda e a crítica e podendo deixar o próprio Fielding contar-nos os últimos anos da sua vida.

Na introdução da sua Voyage to Lisbon, escrita provavelmente em Lisboa, como o foi o prefácio (o corpo da obra é sem dúvida um diário feito realmente durante a viagem) diz ele que passou o ano de 1753 e parte do ano anterior a tratar-se duma gota. Em Agosto o primeiro cirurgião do rei aconselhou-lhe uma estação em Bath e o romancista escreveu logo para a estância termal a certa Mrs. Bowden, hospedeira, a encomendar alojamento. Nisto, His Grace o duque de Newcastle manda chamá-lo e encarrega-o com a maior urgência de organizar um plano eficaz para limpar Londres e arredores da terrível quadrilha que cometia todos os dias roubos e assassinatos. A conferência valeu-lhe uma forte constipação por cima dos outros padecimentos e obrigou-o a adiar a viagem de Bath, para tratar sem demora de redigir o plano, que foi altamente elogiado no privy council e que com uma pequena despesa para o Estado se mostrou realmente eficacíssimo. Não se veja nisto porém o prazer do homem de letras em saltar escandalosamente por cima da rotina trilhada pela venerável mediocridade oficial e ir certeiro como uma bala, por esse caminho novo, onde ela pelo seu não consegue chegar: – um caso como aquele tantas vezes citado de Edgar Poe, demonstrando no conto de Mary Roget o mecanismo dum crime que desnorteara a polícia de New-York. Não; Fielding confessa o seu móvel nessa tarefa excessiva para as suas forças debilitadas pela doença. Tinha quarenta e oito anos feitos, estava, portanto, na idade da prudência e da reflexão. O seu cargo rendia pouco mais de trezentas libras, apesar de, à data da sua nomeação, render ainda umas quinhentas e de um seu antecessor se gabar de espremer dele mil.

A esse rendimento excessivo chama ele the dirtiest money, (o mais sujo dinheiro), e não poucas cenas nos seus romances se encarregam de explanar cruamente o que neste escrito autobiográfico é apenas deixado entrever acerca dessa sujidade. Basta lembrar, no começo de Amélia, a cena em que o justice of the peace pronuncia as suas sentenças absolutórias baseado em certo piscar de olhos muito significativo do seu amanuense.

Com tão pequeno rendimento e numa idade e estado de saúde que lhe não permitiam já viver bastante para fazer economias ou tentar operações lucrativas, Fielding via que sua mulher e seus filhos iam por sua morte ficar ao desamparo. Queria, portanto, diz ele, pela grandeza dos seus serviços e com o muito provável sacrifício da sua vida recomendá-los à protecção do seu país. À gota tinha vindo juntar-se uma icterícia; a execução do plano policial levou tempo, sendo o resultado passar a época de Bath e chegar também a doença a um grau de intensidade e complicação, contra o qual as águas dessa estação termal seriam já improfícuas. A hidropisia auxiliava agora os outros sintomas na demolição do gigantesco arcabouço. O romancista não se abandonou à medicina expectante, que definiu espirituosamente em um dos seus livros «um método de tratamento que consiste em deixar obrar a natureza, ficando o médico ao lado a fazer-lhe sinais aprovativos para a animar a continuar pelo mesmo caminho». Passou o inverno a tratar-se com certo Dr. Ward, então célebre. Na primavera retirou-se sem melhoras consideráveis para uma casa de campo que possuía no condado de Middlesex, em sítio, diz-nos ele, muito abrigado e salubre.

Falando da ineficácia dos medicamentos do Dr. Ward contra os seus padecimentos, Fielding exprime uma noção de doença, notavelmente científica para o tempo: «… devia haver alguma coisa especial no meu caso, capaz de resistir à energia (dos remédios do Dr. Ward) que tinha operado tantos milhares de curas. A mesma doença em organizações diversas será provavelmente acompanhada com tão variados sintomas, que encontrar um / 458 / remédio com a virtude de curar uma mesma doença em todos os doentes deve ser quase tão difícil como a descoberta de um que cure indiferentemente todas». Mas o sofrimento acaba por abalar em assunto de doença as mais sólidas convicções científicas. Fielding logo a seguir declara que recorreu também por fim a uma panaceia. É verdade que a sua era a mais ilustre das panaceias: a célebre água de alcatrão preconizada anos antes pelo grande filósofo Berkeley. O pobre Fielding pôs-se no regime de tomar todas as manhãs e todas as noites um copo da mirífica bebida, porém com resultados mais duvidosos ainda do que a realidade do mundo material para o autor da receita. O Verão era esperado ansiosamente pelo enfermo e pelos seus médicos e amigos como devendo trazer-lhe as forças indispensáveis para atravessar os rigores doutro Inverno inglês. Mas, diz-nos Fielding, o tempo ia passando sem trazer consigo coisa que se pudesse chamar Verão. Durante o mês de Maio o sol mal se mostrou umas três vezes. Foi então que lhe veio a ideia, aprovada pelos médicos, de partir para um país do sul. O grande número de navios que saiam para Lisboa e a relativa comodidade da viagem determinaram a escolha de Portugal. Embarcou a 26 de Junho, içado pelo guindaste, numa cadeira, em meio das chufas e injúrias dos marujos e barqueiros, motivadas pela hediondez da sua figura de hidrópico, o que o faz deter um pouco nesta altura do seu diário em considerações melancólicas sobre a perversidade ingénita da humanidade em geral e muito especialmente da brutal e descaroável plebe do seu país. Mas confessa ao mesmo tempo que devia na verdade causar horror, e que as mulheres grávidas evitavam a sua presença com receio de um aborto.

Deixemos agora os episódios de viagem que durou à roda dum mês, com demoradas paragens e teimosas calmarias, as dores de dentes de Mrs. Fielding, as contas exorbitantes que a família pagou nas estalagens em vários portos de escala, e vamos esperar o navio pelas alturas das Berlengas, para assistirmos à redacção das páginas do diário que se referem a Portugal.

Diz ele que havia então nas Berlengas uma colónia penal, que as suas reminiscências eruditas logo fazem derivar humoristicamente duma semelhante, mantida pelos egípcios no mar vermelho, segundo Diodoro Sículo, para a parte honesta da população não ser contaminada pelos criminosos. Ao passar a Serra de Sintra fala duma ermida que se via no alto, propriedade de certo inglês, outrora dono dum navio mercante, «e que tendo resolvido mudar de religião e costumes, que não eram, estes últimos pelo menos, da melhor qualidade, ali se recolheu a penitenciar-se dos seus pecados. É muito velho e há muitos anos que habita aquele eremitério, tendo recebido sempre protecção da família real, principalmente da actual rainha, viúva, cuja devoção não se poupa a trabalhos nem a despesas para fazer prosélitos, costumando dizer que a salvação duma alma seria paga bastante para os esforços de toda a sua vida.

Enquanto esperam maré para entrar a barra, Fielding descreve nestes termos a paisagem que tem à vista: «… o solo nesta estação é tal qual um forno de tijolo, ou um campo onde se ceifou a erva e pôs a arder em montículos, para adubar a terra. Não há espectáculo mais próprio do que este para fazer um inglês orgulhoso e amante do seu país, que em viço excede, penso eu, todos os mais. Outra falta aqui é a de grandes árvores; nenhuma excede o porte dum arbusto, numa área de muitas milhas.»

Nesta altura vem a bordo do navio um piloto português, cujo procedimento deu ao romancista uma alta ideia do religioso respeito dos naturais pelas leis do país. Sendo um crime gravíssimo desembarcar, ou auxiliar alguém no desembarque de um navio estrangeiro antes da visita da saúde, o piloto por uma pequena espórtula levou para terra um frade que vinha de Londres e cujas sandálias estavam impacientes por pisar o chão pátrio.

Ao chegarem à torre de Belém, a que Fielding chama Bellisle, um tiro de peça avisa-os de que não podem ir mais além sem «certas cerimónias a que as leis do país obrigam os navios, ao chegarem a este porto». O «magistrado da saúde» chegou pouco depois e recusou-se a entrar no navio antes de ver formados no convés todos os passageiros. Quando lhe disseram que Fielding vinha entrevado, exclamou em voz autoritária:

«Tragam-no para cima.»

Assim fizeram. «Era um sujeito de muita imponência e não menos zelo no desempenho dos seus deveres» – diz o romancista. «Ambos estes predicados, continua, são muito para admirar quando se sabe que os seus / 459 / vencimentos não chegam a trinta libras por ano.»

Depois de algumas considerações declara que nunca viu nem ouviu falar de país algum onde os viajantes para desembarcar fossem obrigados a tantos incómodos, «cuja única utilidade, visto tudo isto não passar duma série de formalidades, é deixar ao arbítrio de indivíduos ordinários e mesquinhos serem rudemente zelosos ou descaradamente corruptos, conforme prefiram satisfazer a sua soberba ou a sua cobiça.»

A visita fiscal é feita com grande impolidez e ridícula minúcia, obrigando os passageiros a deitar fora todo o pó do rapé e partícula de tabaco de fumo que por acaso tragam. Os empregados desse serviço eram, no dizer de Fielding a «escória da plebe» e a pretexto de procurar contrabando roubavam tudo aquilo a que podiam deitar a mão. Apenas entraram no navio, os marinheiros gritaram para os passageiros: «Façam favor de tomar cuidado nas espadas e nos relógios, meus senhores!» (1)

«Na verdade – comenta Fielding – nunca vi coisa igual ao ódio e ao desprezo que os nossos bons marujos a cada instante mostram por estes empregados portugueses».

(Conclui no próximo número. A leitura será possível recorrendo à versão em PDF da Hemeroteca Municipal de Lisboa.)

CARLOS DE MESQUITA

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(1) – Não deixa de ser curioso confrontar isto com o que dos colegas ingleses destes empregados diz o escritor italiano José Barreti que, vindo da Inglaterra, onde residia há muito tempo, esteve em Portugal e Espanha, de passagem para o seu país, seis anos depois de Fielding:

«Levaram-nos à alfândega, (Badajoz) onde os baús foram abertos e examinados, mas não remexidos sem cautela, como usam fazer certos mastins em muitas nações, especialmente em Inglaterra, ao desembarcar, onde, se aquela canalha t'a pode pregar, furta alguma coisa no acto do exame; e por isso é conveniente não perder de vista a bagagem, enquanto eles dão a busca.»

O trecho transcrito é da elegantíssima tradução das cartas de J. Baretti relativas a Portugal, pelo Sr. Alberto Teles, Lisboa, 1896 (fora do mercado).

 

 

 

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