A Biblioteca Pública do Porto

————

I

SUA FUNDAÇÃO E INSTITUIÇÃO

DUM portuense, e portuense ilustre por benemerência literária e artística, dimanou a primeira ideia da criação duma livraria pública na segunda cidade do reino; pois, havendo os lentes da Academia Real de Marinha e Comércio do Porto, João Baptista Ribeiro e Raimundo Joaquim da Costa, escrito para Paris em 1818 uma carta ao Morgado de Mateus, D. José Maria de Sousa, louvando o modo por que ele se desvelara em elevar um monumento à memória do poeta imortal da nacionalidade, de Paris em 22 de setembro do mesmo ano lhes respondeu, cativadamente agradecido, o preclaro editor, que apenas acabada sua edição lhes declara que um dos seus primeiros cuidados fôra indagar se no Porto existia uma Biblioteca Pública, para fazer-lhe a oferta devida e pedir-lhe depositasse o exemplar, que era sua mente remeter-lhe, na sua colecção. Mas não sem mágoa soubera que o Porto carecia de um semelhante estabelecimento; observou então que este objecto não pode ser esquecido e adita que se persuade que, se a Academia, a cujo corpo docente pertenciam os destinatários da sua carta, fizesse a proposição à Câmara, esta não deixaria de empenhar-se em promover uma fundação tão útil, terminando por consignar o desejo de que a um portuense desculpada fôsse a expressão dos votos que acabara de exarar.

Não se esqueceu João Baptista Ribeiro do honroso encargo moral que, por assim dizer, lhe cometera o Morgado de Mateus, antes dele se lembrou em momento que lhe pareceu azado e propício, por isso que durante o heróico cerco do Porto e em uma das entrevistas em que por vezes se encontrara com o duque de Bragança, aconteceu ter ele ocasião de submeter à leitura do Imperador aquela carta que o insigne promotor da luxuosa edição Camoniana de Paris, em 1818, lhe dirigira a ele e ao seu colega, lente de gravura, Raimundo Joaquim da Costa, e na qual o delicado patriota lembrava a criação de uma Biblioteca Pública no Porto.

Alguns dias depois, durante os quais / 292 / João Baptista Ribeiro se encarregou de sondar e preparar a opinião dos que então geriam os negócios do município, apareceu, na data do primeiro aniversário da entrada do exército liberal no Porto, o decreto instituidor da biblioteca pública portuense. Esse decreto é referendado pelo ministro do reino, Cândido José Xavier; seu art.º 4.º determinava que a livraria pública do Porto seria instituída na casa que servia de hospício dos religiosos de Santo António de VaI de Piedade, sita na Praça da Cordoaria, edifício alinhadissimo onde se estabeleceu ao depois a «Roda dos Expostos». Para aí se mandou recolher as livrarias das ordens religiosas, e na casa da viúva Carneiro, alquilador, onde funcionava o «Correio Geral», as livrarias sequestradas pertencentes aos diversos cidadãos de opinião absolutista que, tendo-se ausentado do Porto durante o cerco, foram considerados proscritos, ficando, ainda assim, a maior dessas livrarias no local onde se encontrava, a do Paço Episcopal, por ser propriedade do bispo D. João de Magalhães e Avelar, que também se tinha ausentado da cidade. O bibliotecário Eduardo Allen dá nota que estas livrarias particulares foram ao depois todas pagas a seus donos: a do bispo, avaliada em vinte e quatro contos de reis por Alexandre Herculano e outro perito, paga pelo Estado, bem como a de Alexandre Garrett e as de alguns outros; pela Câmara, poucos anos havia à data em que o rememorava Eduardo Allen, a do visconde de Balsemão.

Ao cabo de algumas hesitações, optou-se por serem todos os livros que formavam a nova Biblioteca removidos do restrito edifício da Cordoaria, aliás escolhido outrossim para alojar a entidade também nova do Tribunal Comercial. Destinou-se-lhes o Paço Episcopal, incorporando-se todos os volumes recolhidos na livraria do bispo e ficando no andar térreo do mesmo paço.

Aí começou a faina da escolha e colocação dos setenta a oitenta mil volumes que a Biblioteca Portuense em seu / 293 / princípio possuía, e já mesma da sua catalogação se encetou, cuidando com probidade, cumprinda as empregadas da casa a labariasissima tarefa, que durau desde 1835 até 1840.

Entretanta dava-se um conflito entre a Câmara e o prefeito do Douro, Manuel Gançalves de Miranda, homem de iniciativa e de firmeza – the right man in the right place, a característica Alen lha aplica e atribui, – visto como a Câmara preferia para a Biblioteca a Paça do Bispo, em contra do judicioso alvitre do prefeito, que lhe destinara o edifício onde actualmente ela se encontra, o convento de Santo António da Cidade, sito a S. Lazaro.

Aí, depois de convenientemente instalada, em dois vastos salões, com uma galeria um pouco acima do meio e correndo a todo o comprimento deles, forrado tudo de estantes de alto a baixo, se inaugurou a livraria pública portuense no dia 8 de dezembro de 1842, pronunciando, em presença de todas as auctoridades e inumerável concurso de pessoas das classes ilustradas do Porto, o discurso de abertura, o segundo bibliotecário João Nogueira Gandra. O ensejo se aproveitou para igualmente inaugurar o retrato, a óleo e corpo inteiro, de D. Pedro, pintado por aquele João Baptista Ribeiro, então director da Academia de Belas Artes.

Quando se criara a Biblioteca, escolheram-se imediatamente para ela seu primeiro e segundo bibliotecário; logo, a 10 de Julho, foi nomeado primeiro bibliotecário Diogo de Góis Lara de Andrade, que fôra redactor da “Gazeta de Lisboa” e que estivera preso, porque, deixando-se iludir pela falsa assinatura do marquês de Loulé, autorizou a publicação naquela folha oficial do anúncio para a arrematação das bestas que tinham puxado o carro de D. João VI na sua volta de Vila Franca em Junho de 1823. Célebre a esse anúncio chama um actual douto inquiridor das antiguidades modernas do Porto e celebérrimo ressoara, de facto, a coeva retumbância da audácia tão escandalizante quão perigosa.

No dia 17 foi feita a nomeação do segundo bibliotecário da Biblioteca do Porto, ao qual no imediato dia 22 de Fevereiro / 294 / desse pelejado ano de 1833 se lhe mandou coadjuvar o bibliotecário-mor na assiduidade de efectivo serviço. Era ele um simples soldado do batalhão dos voluntários da rainha; porém da maneira como se havia portado nas refregas sanguinolentas do ano anterior, o comandante da terceira companhia, o capitão José Joaquim Esteves Mosqueira, disse que «teve sempre uma conduta, civil e militar, irrepreensível e digna do maior elogio, granjeando a devida consideração de todos os seus companheiros de armas pelo distinto e singular comportamento com que se houve em todas as ocasiões de fogo, realçando, pela sua bravura e denodado valor, entre os demais». De um homem que assim se assinalava – entre os demais – no batalhão de voluntários da rainha, ninguém poderia supor (justiceiramente o pondera o ilustradíssimo investigador portuense) que se afastava das fileiras para escapar aos perigos; mas, se essa suspeição poderia haver, em termos bem precisos a desmente um atestado oficial, assinado pelo capitão Joaquim António Nogueira, que foi subalterno da 1.ª companhia dos voluntários e, com referência a esse voluntário, duas vezes glorioso, pois, então pelas armas, ao diante pelas letras, se expressa nestes honrosos termos: «Dispensado de todo o serviço, não houve um só fogo nas: linhas de defesa em que ele espontaneamente se não unisse à 1.ª companhia, batendo-se com o maior sangue-frio e chamando os seus irmãos à glória, porque foi sempre um dos primeiros a avançar contra o inimigo».

Este voluntário da rainha chamava-se Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo; e, sobrevindo a revolução de Setembro de 1836, por lealdade para com a Carta, que, com o novo juramento exigido à superveniente constituição política do país, ele não quis perjurar, se exonerou do seu cargo de segundo bibliotecário da Biblioteca do Porto, como, por idêntico motivo, se demitiu o primeiro bibliotecário Diogo de Góis Lara de Andrade, que foi substituído por Francisco. Veloso da Cruz.

Através das consecutivas flutuações politicas que marcam o período da implantação do sistema representativo em Portugal, prosseguiu invariavelmente prestando seus serviços aos estudiosos a Biblioteca Publica do Porto, para a qual / 295 / elaborou um regulamento em 1856 o conde de Samodães (Francisco), regulamento que não logrou a aprovação do assíduo leitor na livraria pública portuense, por então, Augusto Soromenho. Verberou-o, no seu estilo áspero, em dois folhetins do “Portugal”, folha absolutista, de que eram redactores o Dr. Casimiro de Castro Neves e Luís Ribeiro de Sottomayor. Em defesa do seu trabalho e replicando às criticas de Augusto Soromenho, algumas das quais eram manifestamente improcedentes, acudiu o elaborador do regulamento censurado, retorquindo em outro folhetim do mesmo periódico, no n.º de 27 de Novembro do referido ano de 1856, onde consigna que sua mente estivera em que a Biblioteca não fosse um gabinete de leitura, porém sim de estudo.

De estudiosos se nobilitou, com efeito, desde logo da sua instalação a concorrência da livraria pública portuense e seria curioso percorrer as laudas dos livros de inscrição dos frequentadores da casa, no fito de apartar os nomes que se assinalaram nas letras e nas ciências portuguesas, desde sua abertura em diante. Curiosa seria a comparação das grafias das assinaturas daqueles leitores distintos que, de moços e sucessivamente, ali quase sem interrupção se foram instruindo e educando. Surpresas nos dariam as designações das ocupações que se reconhecem alguns desses leitores, à medida que avançam na vida, as situações materiais e morais mudam, as responsabilidades e as legitimas satisfações da consciência se substituem ou se fixam. Assim, enquanto Guilherme Braga se nos confessa humildemente como um mero «empregado público», Pedro de Amorim Viana constantemente adita ao seu nome a sua qualidade de «professor»; mas o seu antagonista na fé religiosa, começamos por o ver como «estudante teológico»; depois se nos afirma «jornalista»; finalmente reivindica-se «escritor»: Camilo Castelo Branco.

Visitantes outrossim os tem tido ilustres a Biblioteca Pública do Porto, pela situação social, reis, príncipes, ministros: o rei D. Pedro V e o rei D. Luís I, ainda quando duque de Bragança um e duque do Porto o outro, em 2 de Maio de 1852; a princesa Augusta de Montléart, em 30 de Maio de 1854; em 18 de Agosto de 1865, o príncipe Amadeu de Sabóia, próximo e efémero rei de Espanha; a / 296 / 28 de Dezembro de 1889, o destronado imperador do Brasil, que já ali estivera em 1 de Março de 1872 com sua esposa Teresa Cristina, a qual nesse borrascoso triste dia de 1899 expirava no Hotel do Porto; o marquês de Loulé, o visconde da Carreira, Sebastião Lopes Calheiros de Menezes, Anselmo José Braamcamp, Carlos Bento da Silva, à hora remota em que é ainda o que atrasadamente se subscreve, simples «funcionário».

Na sequência da ordem por cujo critério disciplinamos esta exposição, cumpria que reservássemos um pequeno espaço a ser ocupado pelos ofertantes, que os tem tido a biblioteca Pública do Porto, tanto do país como de fora dele, desde o quase português J. Charles d'Almeida, iniciador do Journal de Physique pure et appliquée, de Paris, até ao benemérito Émile Guimet, fundador na capital francesa do sugestivo museu das religiões, que lhe perpetua o nome; o Sr. Guimet fôra um dos visitantes da Biblioteca do Porto, pela ocasião da viagem científica que ao norte do país empreenderam alguns dos membros do congresso antropológico em 1880 efectuado em Lisboa, mercê da iniciativa do ilustre geólogo nosso português Carlos Ribeiro.

Por falecimento dum seu guarda-sala, a Biblioteca adquiriu uma colecção apreciável de gramáticas, vocabulários e outros tomos didácticos sobre a língua árabe; de comentários e volumes de crítica literária sobre obras arábicas e traduções destas; de historiadores árabes originais e de livros de história e geografia da Arábia por autores modernos; de obras impressas em árabe. Esta colecção proveio do espolio de José Pereira Leite Neto, que faleceu em 1882, na idade de quarenta e quatro a nos. Sua viúva, possuidora do manuscrito de um trabalho (Guia de conversação português-árabe, acompanhada da pronuncia do árabe figurada em caracteres latinos e; de notas relativas à gramática) que ele deixara inédito, requereu ao governo para mandá-lo publicar. Foi ouvida sobre esse requerimento a Academia Real das Ciências, cujo parecer lhe resultou favorável; e em presença dele mandou o governo que / 297 / fosse impressa o Guia de conversação portu-guês-árabe na Imprensa Nacional, de cujos prelos saiu, com efeito, a lume em 1902, precedida de uma advertência redigida pelo Conde de Samodães. Já em 1882, também na Imprensa Nacional, em Lisboa, se estampara o Catálogo das moedas árabes existentes no Museu Nacional Portuense, descritas, classificadas e ordenadas pelo referido J. Pereira Leite Neto, a rogo do director do dito Museu, que o era igualmente da Biblioteca, o hoje igualmente falecido Eduardo Allen. Este, no fascículo 2.º do Suplemento geral impresso ao catálogo da Biblioteca Pública do Porto, contendo as aquisições posteriores à sua fundação, em obras compradas e ofertadas, regista a inscrição manuscrita que se encontra no exemplar de oferta do editor das Notícias archeológicas de Portugal, pelo Dr. Emílio Hübner, traduzidas do alemão e publicadas, em 1871, por ordem da Academia Real das Ciências de Lisboa. O editor foi aquele Augusto Soromenho, e sua inscrição manuscrita diz assim:

«À Biblioteca Pública do Porto, onde fez os seus primeiros estudos e à qual deve a melhor parte dos seus actuais conhecimentos.»

Como que timbraram em briosa porfia os empregados da livraria pública portuense por proporcionar aos trabalhadores, portugueses e brasileiros, – saindo, assim, mesmo já do âmbito restrito de sua repartição – elementos de consulta e subsídios de informe, que facilitassem as buscas e esclarecessem e simplificassem os estudos. A afirmativa patenteia-se clara chamando-se a atenção para o relevante serviço prestado por um modesto opúsculo, impresso no Porto em 1871 e intitulado Indice alfabético dos nomes próprios de família (apelidos) dos autores incluídos no Diccionario Bibliográfico do Sr. lnnocencio Francisco da Silva (Volumes I - VII,

e 1.º do Suplemento). Este fatigante e proveitosíssimo trabalho dá-se, no rosto do folheto, como tão só para uso da Biblioteca do Porto; porém ele circulou desde a data de sua publicação entre o público culto de todo o país; abre-o uma dedicatória com que em Setembro do ano de 1869 Eduardo Allen Júnior o oferece ao honrado e promotor presidente da Câmara Municipal do Porto então, Francisco Pinto Bessa, em sinal do afervorado seu reconhecimento pela permissão que no Março pretérito, lhe concedera de na livraria publica portuense fazer serviço gratuito de guarda-sala supra-numerária durante a moléstia e impedimento de alguns guardas-salas efectivos.

Este Índice alfabético antecede de quinze anos o «Guia» (I e II) que constitui a parte principal do tomo décimo-primeiro, ou quarto do Suplemento, do Diccionario Bibliographico Portuguez, o qual se publicou em 1884; ele contém, de abertura, a tabela dos apelidos, sem a qual a obra de Inocêncio é inamanuseável, redundando estéril tanta fadiga e inútil tanto saber. Segue-se uma Tábua de referências entre os diversos apelidos dos autores mencionados nesse índice, complemento indispensando da faina encetada e que / 298 / destarte se antolha quase que completa e perfeita.

Ao autor do Diccionario Bibliographico, Eduardo Allen Júnior tributa, na Advertência final do seu opúsculo, vivos e sinceros agradecimentos pela urbanidade e indulgência com que para com ele se houve Inocêncio, acedendo ao seu pedido de licença para empreender índice semlhante e distinguindo-o com uma carta amável em que o animava à publicação do seu trabalho, de que o Sr. Brito Aranha, diligente e dedicado continuador da obra de Inocêncio, deu conta no tomo terceiro do Suplemento, ou seja o primeiro a seu cargo.

Outro trabalho, neste prestante tipo, nos corre a obrigação de atender e registar (com o louvor que lhe é legitimamente cabido), oriundo da iniciativa e da operosidade doutro empregado ainda da Biblioteca Pública do Porto; aludimos ao Manual bibliográfico português, grosso volume in-4.º, editado, em 1878, no Porto, pela livraria Portuense; seu autor é o falecido Ricardo Pinto de Matos, de quem, em Abril daquele ano de 1878, dizia o revisor e prefaciador do seu livro: «O Sr. Ricardo Pinto de Matos exercita o seu emprego na biblioteca pública do Porto. Há anos que lida com livros e com o pensamento na organização modesta e proveitosa deste Manual. Compulsou de espaço as preciosidades daquele estabelecimento; pouco a pouco, foi avolumando as notas dos seus estudos; e, por vezes, transpondo as balizas de mero informador, colheu úteis notícias de livros estrangeiros, correlativos aos assuntos versados nas obras nacionais que inventariam. O revisor e prefaciador do Manual bibliographico de Ricardo Pinto de Matos foi Camilo Castelo Branco. Em sua Advertência, o aucor exara que, na confecção do seu volume, teve presentes muitos dos livros que possui a Biblioteca Pública do Porto e que os indicou com um asterisco, circunstância, crê, que aproveitará, de futuro, não só à Biblioteca mas ainda ao público em geral.

O público em geral seguramente que aproveitará também com a enumeração que, em seus idóneos catálogos, publicados respectivamente em 1883 e em 1885, lhe forneceu o oficial guarda-sala Bento Vieira Ferraz de Araújo, para as obras existentes na livraria pública portuense e respeitantes às secções de matemática e filosofia, compreendendo não só os livros do fundo primitivo como os das novas aquisições, em parte efectuadas pelo produto da venda de duplicados, os quais se leiloaram em 1867 em hasta pública.

Em 1884 o referido oficial bacharel Bento Ferreira Ferraz de Araújo organizara e publicara uma mui útil «Taboa geral metodico-alfabética» das obras enumeradas nas tábuas analíticas dos quatro / 299 / fascículos que compõem o primeiro volume do Suplemento Geral (aquisições desde 1841 a 1883) aos catálogos de todas as classes da Biblioteca Pública do Porto, segundo a classificação adoptada. Das várias especialidades contidas na livraria municipal portuense, catálogos parcelares existem ainda, consoante o de Geografia pelo empregado João d'Almeida Allen; os da Camoneana e Camiliana, pelo conservador José Pedro de Lima Calheiros, etc. A cabo do catálogo especial de filosofia, seu compendiador pôs-lhe como remate, extraindo-o de Brunet, um índice vantajoso dos nomes alatinados dos lugares de impressão das obras  desse catálogo, com a sua tradução nos nomes com que modernamente são conhecidos.

Recapitulando, parece não ser temerário o asserto de que amplamente, por em todo o sentido, foram satisfeitos os votos que com alvoroço patriótico sabemos desde 1818 formulados pelo portuense José Maria de Sousa, Morgado de Mateus.

Lamentável coisa fôra que antes de 1833 não houvesse tido o Porto uma biblioteca pública. Luís Máximo Alfredo Pinto de Sousa Coutinho, 2.º visconde de Balsemão, vendo esta miséria na segunda capital do reino, teve a generosidade de franquear ao público a sua grande e escolhida livraria, estabelecida no seu palácio da Feira das Caixas ou «Praça dos Ferradores», conforme o relembra, em seus amargos dizeres, o dicionarista Pinho Leal, que explica a seus juvenis leitores que essa Feira das Caixas ou Praça dos Ferradores era, no ano em que ele escrevia – 1876, – a praça de Carlos Alberto e o palácio propriedade estava sendo do visconde da Trindade. Agora trinta anos volvidos, se a praça ainda é de Carlos Alberto, o palácio é que já não é do visconde da Trindade, falecido de longa data, conde a quando de seu óbito, como falecido é já também o 2.º visconde do título referido.

Desde 1842 que o público estudioso ou meramente curioso possui, a S. Lazaro, uma livraria excelente a seu dispor e onde consultar com abundância e em todos os géneros da aplicação mental ou estética, científica, histórica, literária e artística. Lemos que Camilo Castelo Branco escreveu que ali existem preciosidades. Será exagero? Ou assim passará, de feito?

Assim é. De relance, e a espaços individuadamente, falar dessas preciosidades constituirá o particularizado objecto do artigo imediato.

Aí nos ocuparemos dos incunábulos e paleótipos na livraria pública portuense existentes e dalgumas dessas belas espécies detidamente trataremos, tanto quanto no-lo consinta a penúria da própria insuficiência. Aí de passagem rememoraremos um lamentável episódio da história do estabelecimento, de que ele foi a vítima.

 / 300 / Mas destas anunciativas linhas não se depreenda que a Biblioteca Pública do Porto seja, tão só e exclusivamente, um repositório de velharias e raridades, que de nenhum préstimo prático sirvam ao homem actual, absorvido na sua técnica e carecendo, sobretudo, da ajuda literária especializada e profissional. A livraria pública portuense está magnificamente apetrechada com o material positivo necessário ao estudioso e ao trabalhador, tão útil redundando, pois, para o comerciante e industrial, para o engenheiro e o médico como para o jurisperito e para o simples jornalista. Ela é frequentada e aproveitada pelos alunos das escolas superiores que ali se vão habilitar na lição dos mais modernos e mais completos expositores, ao mesmo tempo que os operários fabris ali recorrem aos manuais, resumos e dicionários tecnológicos.

De par e passo na Biblioteca Pública Portuense existem os monumentos estéticos de todas as literaturas, nos originais e nas versões célebres nos idiomas acessíveis da cultura geral; ali se encontram as vastas colecções clássicas, como a greco-latina de Firmin-Didot; as enciclopédias afamadas, a britânica, as duas francesas modernas; os grandes historiadores fundamentais, Michelet, Mommsen Bancroft; as revistas filosóficas, de filologia, de antropologia, de arqueologia; toda a produção, literária e científica, do Portugal moderno e da Espanha contemporânea.

Assim, a livraria pública portuense não se confina numa zona particularizada; ela serve amplamente todas as urgências do espírito, desde os debates áridos da economia e da finança, já nos volumes que constituíram a colecção Guilhaumin, atinente a publicistas e a economistas, acabando nas mais recentes teorias do socialismo marxiano, até às puras, independentes e abstractas especulações da metafísica e da moral.

Não sofrem os poetas as durezas platonianas na Biblioteca Pública do Porto, que, longe de os repudiar, lhes oferece acolhida simpática; e a estante das novelas contemporâneas, dos estudos críticos, das viagens e das impressões artísticas está preenchida por tudo quanto há de melhor nesses vários, delicados e cativantes géneros.

Preciosidades opulentam, pois, em todo o tipo, a livraria pública portuense. Todavia, o género daquelas a que mais particularmente quis aludir Camilo Castelo Branco, quando à Biblioteca Pública do Porto se referiu, será o que mais impressivamente nos afectará em o, como este, modesto artigo, imediato.

J. PEREIRA DE SAMPAIO (Bruno)
 

 

 

291 - 300