|
|
A estátua de Dumas filho
Txt_A estatua de
Dumas
(filho)
ARIS, 13-6-06. - T res horas da tarde. Na praça Malesherbes,
emergindo como um oasis discreto de verdura e sombra entre as duas
longas avenidas dardejadas pelo sol faiscante,
agglomera-se n'uma impaciencia mal contida por policias de luva
branca o Tout-Paris-badaud, que não falta a um enterro de sensação
ou a uma inauguração d'estatua - os dois espectaculos favoritos
d'este povo para o qual um dos maiores atractivos é contemplar as
suas celebridades, todas essas creatuas d'excepção que, pelo talento
authentico ou pela voga efemera, conservam ainda, n'esta epocha
democratica, o prestigio romanesco e o privilegio raro d'uma
aristocracia à parte.
Dos automoveis trepidantes e dos lanàaus de luxo, cujas portinholas
batem com estrepito insolente, apeiam-se, mostrando as meias de seda
entre o turbilhão d'espuma dos dessous de rendas, damas do mundo e
semi-mundo, em toiletes claras, maquilhadas e floridas como para uma
matinée.
Na grande tribuna descoberta, verde e oiro, que as folhas em cocar
das palmeiras e massiços azues e roseos de hortencias decoram, o sol
aviva as manchas cloridas das umbrelas abertas e dos immensos
chapeus da ultima
moda, equilibrados como açafates de rosas e de plumas, sobre os
altos chignons em cascata, que dão às elegantes d'este verão o ar
das marquezinhas futeis e preciosas das telas de Wat
teau e de Lancret. Ao seu lado, sentados nos bancos estofados de
carmezim, destoam n'um contraste de mau gosto as manchas pretas das
sobrecasacas mal talhadas, - porque em França, na maioria, os homens
celebres vestem deploravelmente. Ào fundo das escadas tapetadas,
junto da meza coberta com um panno de veludo já coçado pelo uso de
tantas exhibições identicas, quatro guardas municipaes, com os seus
capacetes d'oiro empennachados de vermelho e a excentricidade
vistosa do seu uniforme d'opereta, perfilam-se na pompa hirta das
suas poses marciaes.
Em torno do monumento velado ainda por um panno branco, como uma
surpreza, o enxame innumeravel dos fotografos, de machinas
assestadas, espera.
No circulo dos curiosos que se apinham à volta da praça, ha
impaciencias, empurrões, protestos. As damas coqueteiam, com
risinhos impertinentes, e como n'um intervalo do Vaudevile, flirtam
para matar o tempo, n'este scenario de comedia intelectual e
mundana. Reporters apontam os nomes de todo esse publico
d'assignatura que veiu menos para honrar a memoria do ironista
implacavel do DemiMonde do que para ser visto. Com um grande manto
sobre os hombros d'estatua, Made
r.:oisele Bartet faz uma entrada theatral, entre-C um sussurro de
curiosidade.
De repente, um novo murmurio, um movimento na multidão:
- Les voilà, les lmmortels / les voilà /. . .
Rebate falso. ., São apenas quatro ou cinco empregados de banco que
a turba confundiu
/ 302 /
com os academicos, pela analogia dos seus chapeus de bicos.
Na verdade, o espectaculo vae-se demorando.
Esses senhores do Instituto de França fazem
se esperar com mais insolencia do que os seus colegas da Comedie
Française I O sol arde.
Sobre as faces transpirantes tremúla a palpita
_ão viva dos leques. Da avenida, onde as cam
painhas estridulas dos tramways retinem, vem
a espaços o echo dos pregões vibrando no ar parado, em que nem a
mais leve aragem arripia a folhagem empoeirada dos castanheiros
densos e dos altos platanos. No passeio, uma
velha de touca bretã apregôa Jimonadas. ..
Mas eil-os emfim ! Empertigados nas casacas
bordadas de verde acido, como papagaios, os
espadins inofensivos batendo-lhes as pernas
daudicantes, os Immortaes desfilam em bicha,
tomam os seus logares nos fautei/:; da primeira
fila. Na crueza ironica da luz que lhes revéla
<lS rugas da pele pergaminhada de velhice, dir-se-ia uma exposição
imprevista e comica
das figuras de cera do Muzeu Grévin! Hirtos,
em pose deante das machinas dos fotogra
fos, mas com o ar de nem sequer as verem,
como todos esses geniaes fantoches teem o
<Ir duro de bonzos, o desdenhoso olympismo
de manipansos das Letras, apezar d'esse
sorriso permanente e immovel, como o das bailarinas, com que
correspondem aos cum
primentos das "preciosas ridiculas» que deante
d'cles se curvam em salamaleks servis.
Palmas. .. Do outro Jado da praça, um ve
lhote de frack rapado e de côco triste puxa o
cordel que prende o envo]ucro do monumento. E, na crua e nitida
alvura do marmore escul
pido pelo cinzel de René de Saint-Marceaux, destaca em fim, na
rutilancia d'oiro do sol que
<I nimba, a figura poderosa do Mestre ainda hoje sem par no theatro
moderno.
Envolto na ampla blusa de trabalho, sentado
n'um banco de pedra, Dumas filho ergue a cabeça severa n'uma atitude
a um tempo de
força tranquila e de contemplação commovida
como se escutasse as vozes dolorosas e ins
piradoras das quatro mulheres que gravitam,
n'um grupo symbolico de todas as emoções
femininas, em torno do pedestal da estatua. Uma d'elas, encarnando a
maternidade e o abandono, levanta, para o defensor das humi
lhadas, o filhinho nu. Outra, mensageira florida
da primavera, tem nas mãos ergui das um ramo
de rosas e na bocca desabrochante, como elas,
o sorriso luminoso da adolescencia. Na atitude
melancolica e romantica da renuncia, Maria Duplessis desfolha as
suas camelias nos dedos exangues de tysica amorosa. Esvoaçante na
clamide que o gesto de perdão dos braços es
tendidos abre n'um movimento d'azas angelicas,
a ultima figura parece unir o abandono, a esperança e o sacrifício
das suas tres irmãs de marmore no mesmo culto de gratidão ado
rante por aquele que soube amal-as, evocalas e eternisal-as no
Theatro e no Romance.
Aos pés do Mestre jaz a mascara de Thalia,
da Musa inspiradora das verdades novas a que
o seu genio deu voz. E na mão que gravou em paginas imperecíveis os
seus pensamentos de moraJista, tem o estylete acerado que, mais que
uma penna, foi um bisturi de anatomista do
coração humano, até às suas fibras mais intimas. Entre ramos de
louro, os ti tu los da longa
obra que immortalisa a sua gloria estão gra
vados na outra face da columna. E no ultimo dos tres degraus em que
ela se apoia, esta simples inscripção :
ALEXANDRE DUMAS
SOUVENIR D'UN AMI
E os discursos começam, esses infindaveis discursos que tanto tedio
inspiravam ao ironista das Ideias de Madame Aubray, que ao morrer os
prohibiu sobre o tumulo e pediu que as cerimonias do seu enterro se
realizassem n'um silencio humilde. Ele mesmo não
pronunciou senão dois durante toda a sua vida: o primeiro, à beira
da cova da actriz Aimée Desclée, a interprete admiravel das suas
creações, que sentiu por Dumas uma paixão roma
nesca a que ele só correspondeu com uma amizade casta; e o segundo,
obrigatorio, no acto da sua recepção academica.
Entretanto, na assistencia espectante, chius! . " tosses abafadas
deJicadamente nos lenços. " todos os surdos rumores do pubJico que
se prepara para saborear, com regalo,
nobres imagens e adjectivos solemnes.
- Mr. Henry Roujon! annuncia o mestre de
cerimonias.
E um cavalheiro de bigode encalamistrado à Napoleão III n'uma
fysionomia burocratica de chefe de repartição atencioso, com seu
atestado de bom comportamento no trapo vermelho da Legião d'honra
que lhe condecora
a casaca mal feita, pousa com devoção o chapeu alto sobre o tapete
velho da meza, tira :lo bolso um rôlo branco e, voltado para sua
/ 303 /
Excelencia o sub-secretario d'Estado das BelTas Artes, que o encara
n'um sorriso protector
<:omeça a ler, com o ar modesto e facil de quem o não fez, o
discurso de Victorien Sardou, a quem a operação d'um anthraz
impossibilitou de o pronunciar, em pessoa.
N'um paralelo rhetorico e scenografico, segundo os preceitos
classicos do bom Quintiliano, o tremendo melodramaturgo da Tosca,
confronta as obras dos dois Dumas, na literatura franceza.
- Dumas pae recusa-se a ver do presente tudo quanto possa
entristecel-o. Não se importa com o futuro. Do passado nada mais
conhece além dos seus aspectos legendarios, pitorescos e amenos. ..
Dumas filho ignora e desdenha o passado. A sua preoccupação
constante é o futuro, o que o interessa apenas no presente são as
suas tristezas e os seus pro-blemas perturbantes... Um dissuade-nos
de pensar. O outro incita. nos e obriga-nos a pensar. O pae é todo
invenção e imaginação.
/ 304 /
o filho é todo observação e reflexão. As unicas coisas que considera
realmente dignas d'interesse são os factos ao seu alcance...
Lentamente, com pausas reverentes, n'uma voz monotona e diligente, o
ilustre maçador continua sempre, voltado para Sua Excelencia -
emquanto ao longo da avenida os tramways deslizam nos rails
estridentes.
Na luz fulva do sol que tons terrosos de caveira teem alguns d'esses
Immortaes veneraveis Um, velhissimo, todo calvo, pequenino,
catracego, tem o ar demasiado atento de quem não ouve uma palavra.
Recostado no alto espaldar vermelho, lembra uma mumia n'um
sarcofago, veneravel reliquia ! . " De sobrecasaca condecorada (está
claro i), seu colete de setim sarapintado de pintinhas roxas.
François Copée agita nos dedos enluvados de amarelo a bengala rica,
de castão de prata - e na sua mascara rapada de sacrista janota, os
labios franzidos exprimem o mais evidente e catholico desdem por
aquele factotum do seu colega Sardou.
- Q:tel raseur / -dizem claramente os olhos esverdeados e felinos de
Paul Hervieu, ao seu lado, constrangido na sua casaca nova de membro
do Instituto. E que eloquente scena muda na atitude de sacrificadas
di's preciosas que fingem escutar, como n'um templo, ao mesmo tempo
que espreitam com o canto do olho os fotografos que dispõem as
machinas para apanhar o aspecto das tribunas. . . )
- Da formula de Dumas - vae dizendo o outro _ devemos reter sómente
o que é justo e louvavel, e o que ele resolutamente poz em pratica:
a demonstração, na scena, de certas verdades desconhecidas,
contrarias às opiniões acceites, e que é preciso fazer acolher por
um jJublico mais ou menos recalcitrante. . .
(Positivamente, Jules Claretie está sofrendo uma crise epathica, com
aquela côr biliosa que lhe esverdeia afiictivamente a cabeça
descarnada de santo d'egreja d'aldeia, pobre martyr! Como ele
inveja, n'este instante, o anthraz providencial de Sardou, que o
livra da estopada, com um calor assim! . . . )
- Os Dumas amaram sempre a lucta (prosegue o manga d'alpaca, n'um
tom impertur" bavel de quem lê um oficio.) O avô, o general,
lançava-se na refrega e espadagava austriacos como um simples
soldado. O filho passou a vida a debater-se, alegremente, de resto,
contra
as dificuldadaes com que se comprazia em
obstruil-a. E o mesmo espírito batalhado r
vamos encontrar no gosto do filho pela controversia e pela polemica,
no seu desdem pelas ideias correntes e no seu parti pris de advogar
no palco as causas antecipadamente mais desacreditadas, tomando como
clientes habituaes a virgem seduzida, a mãe solteira, a mulher
galante e a mal-casada. . . A virgem seduzida, culpada d'uma
fraqueza de que a accusam com crueldade, ao passo que todos
consideram com indulgencia aquele que a provocou! - A mãe solteira,
a quem o seductor deixa todo o encargo da sua triste maternidade,
sem que a lei o obrigue a associar-se-lhe e testemunhe o menor
interesse pelo filho, nascido
d'uma falta de que ele é irresponsavel ! - A
mulher galante, a peccadora arrependida, que ele quer rehabilitar
pelo verdadeiro amor e pela dedicação maternal! -E finalmente (uf/)
a esposa abandonada, traida, e que em seguida esquece os seus
deveres, para quem ele reclama a mercê das circumstancias atenuantes
e do perdão evangelico! São estes arrojados pleitos que fizeram
dizer com uma intensão d'ironia muito injusta, segundo o meu modo de
ver. .. (e egualmente de Mr. Lepine, o pre-feito da policia, que
abana a cabeça, approvativo !)... que cada peça de Dumas é uma
these. . .
(Na poltrona d'honra, ao sol, Sua Excelencia o sub-secretario das
Belas Artes sua como um heroe... o suor corre-lhe em bica pelas
bochechas, pelos refegos do cachaço taurino, sem que ele tenha a
fraqueza d'um gesto para o enxugar. E na cadeira ao lado, o velho
jarreta, com a calva de mumia descaida sobre o hombro, resona, o
bemaventurado!)
- O que a sua linguagem um pouco brusca, a sua amizade um pOIlCO
rude, a sua beneficencia um pouco rispida encobriam de verdadeira
bondade, só o podem dizer aqueles que viveram na sua intimidade e a
quem ele honrou como a mim com a sua amizade. . .
- Sacredieu J É odioso de declamação, de sonoridade esganiçada! ilva
Henri Lavedin, entre os dentes contraidos, com o ar furioso
de quem tem uma bota de verniz a aperrearlhe um calo.
- Tordant / accrescenta o visconde de V 0gne, com odio.
Mas de repente, ha uma esperança. A voz gorgoleja, enfraquece,
hesita com gosma... O homem começa a cuspinhar. Fecha a bocca.
Sempre é o fim ? . . .
Palmas estalam. O publico tem a impres
/ 305 /
são momentanea de saír d'uma secretaria onde cheira a bafio e a
rato. Mas oh deuses immortaes! É uma' falsa esperança. Manga
d'alpaca parára apenas para tomar folego. E eil-o que de novo, como
a agua d'uma goteira sobre um passeio, a voz continua, obsidiante,
tragica, immutavel, eterna. . .)
- Quando a esta tua do avô, do soldado
patriota se erigir sobre esta praça, entre as do filho e do neto,
saudaremos n'eles a conjuncção dos dotes mais preciosos da
inteligencia e do coração: a bravura e a caridade, o odio de toda a
oppressão, de toda a injustiça; o bom humor, o bom senso e o
espirito ao serviço de todas as boas causas! E nenhum povo poderá
oferecer à admiração do mundo
/ 306 /
inteiro uma praça comparavel à dos Tres Du
mas.
- Bravo torero I exclama Victor Marguerite, n'um sorriso de
gavroche.
Alguns não querem crêr ainda, mas d'esta vez sempre é certo. O
supplicio terminou. E as palmas, a ovação de todos esses joviaes
tartufos, ha momentos tão mordazes, e que agora dizem alto:
«Esplendido! magnifico !" -n'uma d'essas reacções de enthusiasmo que
devem sentir aqueles que caíram ao poço, ao entrever de novo a luz.
Se fosse só aquele! Mas faltam ainda oito, mais oito, Pae celeste!
Por traz da meza vermelha, ja outro Demosthenes surge, entre os
guardas perfilados, de espada desembainhada. Em nome do Conselho
Municipal, o sr. Tintet, na ausencia de M. Chautard (outro feliz!),
agradece em nome da cidade de Paris a «preciosa oferta do
monumento", n'uma voz que guincha, estridula, entre o rolar dos
trens e das carruagens. O que ele sabe, o que ele diz, o sujeito de
lunetas, com a facha tricolor sobre o ventre conspicuo! Porque
n'estas solemnidades, estes senhores da Burocracia são sempre os
mais espicaçados pela abelha d'oiro da Rhethorica, como se
quizessem, na sua facundia, provar aos homens das letras : - «Não
são só vocês que teem direito de maçar os outros ouvintes!
- Quando a estatua do general Alexandre Dumas se erigir em face das
do filho e do neto (já o terrível orador precedente o disse pouco
mais ou menos, mas que importa!) esta praça será sem duvida a mais
original do mundo inteiro e tambem a mais evocadora. Ela dirá ao
transeunte que uma mesma família, durante tres gerações successivas
e por
formas diversas, augmentou a irradiação gloriosa da patria franceza
!
- Rataplan! plan!. . .
E logo outro, M. de Salves, prefeito do
Sena, tistissimo, icterico, o aspecto d'um perú nostalgico, lê uma
estirada perlenga, <:mfatica e aforistica, a que o reporter que a
vae notando com odio chamará inevitavelmente admiravel no seu
jornal:
- Alexandre Dumas filho projectou a mais viva luz sobre vicios
profundos da nossa sociedade. Fez obra util e grande. O seu
objectivo foi sempre nobre e elevado. É um grande antepassado, um
verdadeiro gentílhomem de letras. E nós saudamos respeitosamente a
sua imagem!. .
As noites que aquilo lhe levou a redigir, e as vezes que o digno
homem deve ter relido aquele período à pobre da senhora! Mete por
fim as tiras no bolso da casaca, religiosamente, e cae nos braços
abertos dos admiradores.
E n'um burborinho sympathico das velhas damas que se arrebitam para
o ouvir, Bourget, gorducho, mole, poseur, na sua casaca de papagaio
do Instituto, chapinhada de medalhas, as pontas do bigode caídas à
ingleza sobre o beiço sensual, de monoculo nas pal-pebras papudas,
sem nada, com tudo, do dandy que nos afizemos a concebt:r atravez da
leitura dos seus romances archimundanos, começa sem gestos, n'uma
voz branca e acida de snob, cheia de tedio impertinente:
- Na Academia Franceza, «n'esta calma atmosfera d'estudo", Dumas não
contava senão admiradores e amigos. Assim, a inauguração da sua
estatua é para a nossa Companhia alguma coisa mais do que uma festa
oficial, como o dia 30 de novembro foi alguma coisa mais do que um
luto d'apparato. Todos aqueles que conviveram intimamente com Dumas
hão de comprehendel-o. . .
(Ha sobretudo uma velha condessa, espartiIhada n'um vestido
princesse côr de pombo, tasquinhando bombons com um sorriso de
macaca extasiada, e cujo cocar de plumas se agita a cada movimento
admirativo da cabeça
maquilhada, que está positivamente apaixonada pelo romancista
favorito das Mensonges f
Deante d'ele, na primeira, Mr. Lepine, com um dedo huguesco na testa
de féto, escuta-o compenetrado, como ao representante oficial das
Boas Letras. E nada mais definitivo do que essa homenagem da Ordem
pelo defensor da tradição e do Nacionalismo! )
- Ha, meus senhores, (continua Bourget) uma frase de poesia
singular, d'aquela poesia que os antigos sabiam encontrar, simples e
tão humana, penetrada de ingenua familiaridade e tão impregnada de
profunda significação. Athenea, que acaba de absolver Orestes,
accusado perante o seu tribunal pelas furias vingadoras do
parricidio, justifica a sua indulgencia: «Eu amo os homens, diz ela,
como o jardineiro ama as suas plantas.» Um sentimento muito analogo
parecia despertar-se em Dumas quando descobria n'um recem-chegado
uma promessa viva, a germinação sagrada do talento e das obras
futuras. Aos seus antecessores não pudera oflerecer senão a sua admi
/ 307 /
ração, aos seus emulos senão a sua estima: aos seus cadetes tinha o
direito de dar alguma coisa mais: um soccorro, um apoio, uma
direcção, e com que delicia ele desempenhava este privilegio de
ilustre antecessor. Submet
tia-lhe algum debutante uma peça nova? Fazia mais do que leI-a, mais
do que conversar acerca d'ela com o seu auctor. Se lhe parecia que a
obra valia a pena d'isso, corrigia-lhe o scenario, retocava-lhe o
dialogo, redigia-lhe de novo paginas, scenas, actos. . .
(A velha reliquia dorme sempre, com a careca de mumia descaida sobre
a gola verde da casaca. Na rua, os tramways continuam deslisando,
cheios de gente alegre; os automoveis e as victorias batem já para o
Bois. Que bela sombra deve fazer à fresca, sob as folhagens da
Avenida das Acacias e à volta do Lago!)
Mas Bourget prosegue, de monoculo:
- A assembléa que hoje se congrega em
torno d'este monumento atesta a communidade de todos quantos se
assignalam em França em prestar a sua homenagem a este honesto
grande homem de letras tanto pelo seu caracter como pelo seu genio.
N'esta hora d'apotheose, e no momento em que acaba de desvelar-se
esta imagem de pedra devida ao cinzel
d'um artista ilustre, queriamos poder tambem desvelar nós todos, os
seus amigos, para a
cont_mplar e para a mostrar, a imagem moral que de Dumas trazemos no
santuario da nossa memoria. E sobre o pedestal gravariamos estas
simples palavras, nas quaes estão resumidas as virtudes que fizeram
d'ele um confrade excelente e um mestre incomparavel e, como direi?
se synthetisa o sentido secreto da sua obra
inteira: «Ajudou-nos a todos a valer mais,»
Oh! a salva de palmas das preciosas! A velha de côr de pombo deixa
cahir o sacco dos bombons para o applaudir, de pé, delirante,
devorada de paixão, com as plumas d'arara a tremerlhe sobre o
edificio dos cabelos tingidos. E magestoso como a encarnação do
Estado, Sua Excelencia aperta-lhe as mãos, n'uma venia de homenagem
oficial.
Bem engravatado, bem brunido, com a sua fysionomia gelada e correcta
de antigo diplomata, sem um cabelo desalinhado na obra prima do
penteado de dandy, queixo duro de prognatha irreprehensivelmente
escanhoado,
Paul Hervieu é mais uma vez colhido nas chapas dos fotografos de
cartões postaes. Em nome da Sociedade dos Auctores Dramaticos, n'uma
eloquencia reflectida e nitida, com a ironia grave do seu talento de
psycho
/ 308 /
logo, um pouco superficial mas brilhante, o auctor das Tenailes faz
a analyse rapida do theatro de Dumas, a cuja memoria agradece «por
ter mantido e fortalecido a altiva tradição, segundo a qual os
espectaculos da arte dramatica podem reivindicar, sempre que se
queira, o serem alguma coisa mais que um passa-tempo amavel ou uma
simples distracção para os ociosos.»
Referindo-se à ultima peça que Dumas, no seu testamento, prohibiu
publicassem, tem estas frases d'efeito:
- Chegado ao cume da experiencia e da fama, emprehendeu, emfim, mais
uma obra ainda, cuja publicação d'anno para anno foi retardando.
Porque já então começasse a desinteressal-o dos resultados d'este
mundo um legitimo orgulho? Ou devemos nós suppor que no coroamento
da sua vida radia a mais imponente timidez? O facto é que em quanto
ia proseguindo na sua "Route de Thebes» Alexandre Dumas foi detido
pela esfinge da morte.
Logo a seguir, sem intervalos (cinco horas e meia da tarde, sapristi
/) Paul Marguerite, o presidente da Sociedade dos homens de letras,
forte, corado, louro, o sorriso inteligente e vivo, orgulhoso da sua
força mascula e do seu talento, vaidoso talvez de ser ainda o
beaumále que as mulheres amam de certo ainda pelo que é e não pelo
que foi, como a esses velhos antepassados da Academia, declama de
papo, sobre a influencia social e moral do auctor do Ami des femmes
:
-Ele mesmo pôde constatar, não sem justo
orgulho, nas notas da Princesse de Bagdad: "O que ninguem pode
negar-me é o direito que tenho de dizer a mim mesmo, em face de
certos progressos realisados, o que dizem os operarios ao passar ao
domingo nos bairros novos: J' ai tout de même travailé d ces
maisons-là /»
Em nome da Associação da Critica, o senhor Camilo Léque, um
cavalheiro baixinho, com um ar de mocho triste, a luneta na ponta do
bico, meia duzia de cabelos lambidos sobre um craneo lizo de
cachorrinho recem-nascido, debita n'uma voz choramingas e fanhosa,
de quem péde para a cêra do Santissimo, uma bem elaborada lenga
lenga, que ninguem escuta.
Jules Claretie, representando a Comédie Française (o que ele deve
sofrer realmente do figado, com aquela côr de desenterrado, por um
calor d'estes!), géme mais do que pronuncia um pequeno discurso em
que se revela o seu talento anecdotico e impressionista de
chroniquew-, e céde emfim, depois das palmas do estylo, o logar ao
"ultimo».
Esse benemerito, que em nome do governo fecha finalmente essa orgia
declamatoria, deante de cujo desaforo até o grande morto no seu
'pedestal, parece enjoado, é o sub-secreta. rio Dujardin-Beaumetz,
que trombeteia, pathetico e convicto, com os olhos globulosos de
peixe fora das orbitas, as veias do cachaço entumescidas e o ventre
resfolegando como um fole de forja, n'um tom de desafio e de ameaça,
como se repelisse algum ultrage pessoal, estas coisas afinal
inofensivas :
- Dumas tinha uma concepção muito nobre da vida e da justiça social.
A sua rectidão, por vezes inflexivel, correspondia a um sentimento
particularmente elevado da honra. N'ele, o caracter e o espirito
egualavam a obra que nos legou.
E o fragôr das ultimas sylabas do seu discurso são tão tonitruantes,
que o pobre antepassado, no seu fauteil, acorda de repente,
espavorido.
Mas é o fim, o anciado epilogo d'este melodrama oratorio em nove
actos. Oh! o alivio, o consolado suspiro de desabafo de todos esses
pobres martyres da pose oficial. Todos aqueles senhores do Instituto
de França encaram-se com jactancia, consideram a sua tarefa el'1fim
cumprida e decidem-se a recolher ao seu museu d'antiguidades. N'um
cacarejar espevitado e estridulo d'araras, as preciosas, por tanto
tempo condemnadas ao silencio, retomam os seus automoveis e as suas
victo
rias, com a vaidade satisfeita pela pequenina comedia intelectual
que representaram. Mademoisp..le Barthet fez a sua saída tão
theatraI como a sua entrada.
E na pequena praça Malesherbes, d'ahi a pouco deserta, o ironista
severo do DtmlMonde fica emfim solitario, no desdem olympico do seu
isolamento, sobranceiro aos ridiculos e às vaidades d'esta sociedade
que ele escalpelizou com mão de mestre.
JUSTINO DE MONTALVÃO.
|
|