GUERRAS COLONIAIS

As operações militares no Sul de Angola

EM 1905

A situação em princípios de 1905

O QUADRO que apresentava o Sul da província de Angola, e em especial o distrito da Huíla, nos primeiros meses de 1905, era de molde a causar as mais sérias apreensões a quem residisse na região e a quem quer que tivesse a responsabilidade do governo daquele território.

As correrias dos povos de além Cunene assolavam constantemente as regiões pacíficas e fiéis das Ganguelas e Ambuelas e de Caconda, no distrito de Benguela, e a Dongoena, o Humbe, o Cafo, a Camba, o Quiteve e o Capelongo, no distrito da Huíla, com incrível menosprezo da linha de fortes que marcava o limite da nossa ocupação e que eles transpunham impunemente quantas vezes lhes apetecia. Na própria margem direita do Cunene, havia uma vasta região insubmissa – o Mulondo – interceptando as comunicações ao longo do rio e constituindo uma base de operações para os salteadores da outra margem, um refúgio de criminosos, e um perigo para a segurança de todos os territórios da margem direita; às autoridades era por ali vedada a passagem, e os europeus que obtinham licença para lá penetrar tinham que pagar tributo e conformar-se com as humilhações que lhes impunha o despótico e perverso senhor daquelas terras. Nos Gambos, a nossa soberania não se fazia respeitar senão até ao alcance da fortaleza do comando; o telégrafo era cortado a cada passo; e uma força que saiu em apoio do soba, colocado pelo governo, teve que retirar, desfeiteada, e deixando mortos no campo um sargento e um soldado.

O gentio fiel daquém Cunene estava apavorado por supor não termos força para evitar os roubos de gente e gado, e as mortes, que as guerras do outro lado do rio frequentemente lhe estavam fazendo; e, por seu turno, a insolência do gentio alastrava-se por toda a parte e os rebeldes impunes cresciam de audácia, multiplicando os assaltos e vindo adiante dos nossos fortes gritar insultos e desafios aos brancos. O comércio tinha desaparecido por completo; e, para tornar mais crítica a situação, o temido fidalgo Luhuna, do Humbe, de acordo com Maquire e outros salteadores, andava a fazer pelas terras avassaladas proezas não menos de temer que as das guerras de além Cunene. Os boatos alarmantes eram de todos os dias, e tarde e dificilmente se podia apurar o que neles haveria de verdadeiro.

Ao passo que isto estava sucedendo, o elemento não indígena preparava como podia a sua defesa e a segurança que as autoridades lhe não podiam garantir: todos os gados se afastaram do Cunene, a importante povoação do Catequero ficou deserta, alguns residentes fortificaram-se com fossos e paliçadas, os missionários armaram-se e construíram no / 280 / Chiapepe uma grande muralha para receberem gado e gente, e para se entrincheirarem em caso de ataque.

Contrastando com a arrogância do gentio, triste e duro é confessá-lo, o moral das tropas da guarnição estava agitadíssimo; descriam do seu próprio valor e avolumavam fabulosamente o número e a força de qualquer inimigo com que tivessem de defrontar-se. Do que as tropas então valiam, falam os tristes episódios do Humbe e dos Gambos, ambos passados em 1905, um com uma força europeia de dragões e o outro com uma companhia indígena de infantaria.

O grande desastre do Cunene, de 25 de Setembro de 1904, os insucessos do Humbe e dos Gambos, em princípios de 1905, e a atitude de defesa passiva em que sistematicamente nos estávamos mantendo haviam determinado este grave estado de coisas a que urgia dar remédio.

 

O reconhecimento do Cunene e das regiões vizinhas 

Na qualidade de chefe de estado-maior da província, coube-nos o encargo de seguir para o distrito da Huíla, a fim de fazer os estudos necessários à adopção de medidas tendentes a garantir a segurança nos territórios da margem / 281 / direita do Cunene e à preparação de futuras operações na margem esquerda daquele rio.

Durou a nossa missão desde 9 de Abril até 17 de Julho de 1905, e efectuámos durante este período o percurso que o mapa junto indica. Acompanharam-nos nesta viagem, servindo de guias e de intérpretes, o velho residente da Ioba, António Carlos Maria, conhecido companheiro de Capelo e Ivens na sua travessia de África e um dos Vidigais, o comendador José António Lopes, homem que conhece a fundo aqueles territórios e que entre os indígenas goza de um extraordinário prestígio.

O gentio dos Gambos não acatava então as ordens da autoridade; mas, ao contrário do que supunham alguns colonos do Planalto, não hostilizou a pequena expedição: o soba D. João, com a vida ameaçada e abandonado dos seus, havia-se acolhido à fortaleza do comando; o pretendente Cander, senhor de quase todo o sobado, andava em conferências com o irmão Munguela e com Oorlog, chefe dos muximbas, sem se conhecerem precisamente os seus intuitos; as povoações próximas da estrada seguida estavam, em geral abandonadas.

No Humbe e na Dongoena, fomos recebidos com agrado pelos diferentes secúlos e chefes de povoação. Estes povos queriam que lhes dessem meios para se defenderem dos assaltos dos quamatos, e alguns secúlos da Dongoena pediram com instância o estabelecimento de um posto militar nas suas terras. Ligações com os quamatos parecia não as terem; as passagens do Cunene estavam guardadas com gente armada e defendidas por covas e estacas, algumas povoações fortificadas com fosso e paliçada, os caminhos fechados com abatizes, e nas margens do rio quase todos os dias se trocavam tiros entre o gentio de um e de outro lado.

O Cafo, o Pocolo, a Camba e o Quiteve, regiões de população pouca densa, onde residem alguns europeus e mestiços, estavam decididamente pelo lado dos brancos, assim como o Quipungo e o Capelongo, ao Norte, onde o gentio se mostrava extremamente dócil e submisso.

O Mulondo mantinha-se na altitude que era de prever – o povo obedecia cegamente ao seu tirânico soba Hangálo, e este não reconhecia a nossa autoridade e não consentia ao pé de si delegados do governo nem nada que pudesse fazer sombra ao seu poder, ao mesmo tempo que abrigava nas suas terras os salteadores de além Cunene, de cujos roubos compartilhava. Era um rebelde declarado e um perigoso inimigo com que havia a contar. O soba de Mulondo, contudo, havia já em tempos consentido na visita do Rev.º Padre Antunes, superior das missões do Planalto, e não se opôs também agora a que atravessássemos as suas terras, recebendo-nos até na embala. À entrevista que nos concedeu, faremos adiante referência especial.

Dos povos da margem esquerda do Cunene, quanto tanto se podia ajuizar de informações incompletas, por vezes desencontradas, e sempre de pouca confiança, sabia-se estarem contra nós os dois Quamatos, Grande e Pequeno, a Hinga, a Quanqua e os Quambes. O Quanhama parecia não querer envolver-se em questões que o comprometessem e mantinha-se desligado dos quamatos. O Evale conservava-se isolado, sem se unir aos quamatos nem aos quanhamas, parecendo desejar viver bem connosco e desfazer a má impressão da morte do irmão Dionísio.

/ 282 / A população das tribos hostis e o número de combatentes que elas poderiam apresentar não era fácil de calcular; contudo, a estimativa grosseira que os dados obtidos permitiam formular dava 10.000 combatentes aos dois Quamatos, 1.000 aos pequenos povos da Hinga e Quanqua que deles dependem, 2.000 aos qualudes e quambes refugiados que se julgam solidários com os quamatos na guerra contra os europeus, 5.000 aos auxiliares Quanhamas, Evales e de outras tribos, que independentemente da vontade dos respectivos chefes viessem unir-se aos quamatos, ou seja, um total de 18.000 combatentes para o inimigo de além Cunene. Sobre armamento, diziam as informações que eles dispunham de umas 8.000 espingardas, sendo 1/8 destas, armas aperfeiçoadas, e que as munições não faltavam. Sobre qualidades bélicas, os quamatol passavam por ser mais aguerridos que o gentio do Humbe, e muito mais que o do Quanhama.

Na margem direita do Cunene, o Mulondo dispunha de uns 2.000 combatentes, dos quais 1.000 armados de espingarda, sendo 1/3 destas de precisão. Podia receber auxílio dos evales, e ainda dos quanhamas e dos quamatos, o que sem dúvida aumentaria muito a sua força; mas não seria difícil impedir esse auxílio, dada a situação do rio Cunene e a existência do deserto fronteiro ao Mulondo.

O rio Cunene, em todo o percurso do Mulondo à Dongoena, parece ser navegável por embarcações de pequeno calado, pelo menos durante grande parte do ano; em geral, a margem direita conserva-se baixa, cortada de braços de rio e povoada de lagoas, alargando-se a chana às vezes até 5 e mais quilómetros, e a margem esquerda segue marginada de uma linha de pequenas alturas, que ora tocam no rio, ora se afastam dele. No Mulondo, deixa o rio de ser navegável, começando os rápidos e aparecendo depois ao Norte as ilhas que os indígenas chamam Quissuco, e que são habitadas; a margem direita sobe, sendo em alguns sítios escarpada e com uma altura de mais de 50 metros. Para o Sul da Dongoena, e a partir do Monte Campiti, tornam a aparecer as ilhas, os rápidos e o leito pedregoso, e a margem direita a elevar-se. Toda a região que acompanha o rio para jusante do Monte Campiti é deserta e sem trânsito: os únicos caminhos que para ali se encontram são os dos elefantes, que abundam na região, ou, junto ao rio, os abertos pelo cavalo-marinho. No sítio em que o Cunene vence o desnível que vem pela serra da Chela correndo paralelamente à costa marítima, divide-se em três braços e cai a uma profundidade de 100 ou mais metros, formando as suas mais notáveis cataratas, conhecidas entre os indígenas pelo nome de Nanguári, cujo cachão se ouve a considerável distância. Os rápidos e as cataratas repetem-se para jusante até próximo da foz, que é desabrigada, perigosa e inacessível a navios de regulares dimensões, não podendo portanto alimentar-se a ideia de aproveitar o Cunene como via fluvial para as comunicações e abastecimentos da região Orampo. Naquela época e porque há 4 anos pode dizer-se não chovia, eram inúmeras as passagens a vau que o rio dava. Na carta das imediações da fortaleza do Humbe, vão indicados os principais vaus daquele sítio. A do Cunene é sempre uma água potável de óptima qualidade.

Ao contrário do que várias pessoas aqui na metrópole supunham, na margem direita do / 283 / Cunene, até algumas dezenas de quilómetros tanto para montante como para jusante da fortaleza do Humbe, não se encontra elevação alguma própria para testa-de-ponte, nem posição que, como base para operações no Quamato, ofereça vantagem sobre o local em que está a fortaleza do Humbe. O ponto dominante, salubre, farto de água e bem servido de comunicações, que devia existir junto ao Cunene, e que chegou a ser apontado como ficando a uma hora para Nordeste da actual fortaleza, não existe; toda a margem direita do rio é baixa e pantanosa até grande distância, e inundada na época das cheias vendo-se das / 284 / gramíneas e dos limos depositados nos troncos das árvores que o volume de água nas inundações chega a atingir, nalguns pontos, 7 e 8 metros de altura. Na época das cheias as comunicações nas proximidades do rio fazem-se em barco; as povoações estão construídas nas partes mais altas do terreno, mas apesar disso muitas delas são destruídas pelas águas ou têm que ser abandonadas.

A margem esquerda do Cunene começa a ser povoada para jusante do vau de Chikeke, sendo ocupada pelo Quamato Pequeno até ao vau de Heque, e pelo Quamato Grande até ao vau de Canama, seguindo-se depois a Hinga que chega ao vau de Chikende, e a Quanqua até à altura do monte Campiti, tornando-se daí em diante deserta como o é a margem direita. As terras do Quamato Pequeno são conhecidas entre o gentio pelo nome de Umpungo, e as do Quamato Grande pelo de Naloheque. As embalas, que têm os nomes dos sobas, respectivamente Igura e Chaúla, ficam a cerca de 30 e 45 quilómetros das margens do Cunene.

Desde o Cunene até às embalas não se encontra rio algum, e é grande a falta de água na época da estiagem. Indo do Humbe à embala do Igura, dizem os indígenas que se encontram as cacimbas de Ahicucuto, Mafuatimbendje, Mupaia e Vifito: as de Mupaia ficam proximamente a meio caminho, e as de Mafuatimbendje são muito pequenas. Do Humbe para a embala do Chaúla, encontram-se a cacimba de Ontinde, a cacimba de Tchoyele, que fica a meio caminho, e várias povoações com reservatórios de água da chuva. O terreno em ambos os Quamatos é baixo, com pequenas ondulações, alagadiço na época das chuvas, e mais descoberto no Quamato Grande do que no Quamato Pequeno, onde as matas são frequentes.

A margem direita do Cunene estava ocupada com a fortaleza do Humbe e os postos militares de Quiteve e Capelongo: a comunicação do Quiteve com o Capelongo só se podia fazer por intermédio da Chibia, em vista da rebeldia do soba de Mulondo. A fortaleza do Humbe deixava tudo a desejar como obra de fortificação; os postos do Quiteve e do Capelongo estavam regularmente construídos. Quanto a guarnição, era relativamente grande a do Humbe, onde se achavam duas companhias indígenas no seu efectivo máximo, um pelotão de cavalaria e uma secção de artilharia; no Quiteve havia umas 30 praças de infantaria; e no Capelongo 50 praças de infantaria e os artilheiros indispensáveis à guarnição de duas bocas-de-fogo. À retaguarda da linha do Cunene, havia o posto de Quipungo, bem construído e com uma guarnição igual à do Quiteve, e a fortaleza dos Gambos, em reconstrução, guarnecida por uma companhia indígena e algumas praças de artilharia. O armamento distribuído à infantaria era a espingarda Snider, em muito mau estado, e, das bocas-de-fogo, só mereciam confiança as existentes no Humbe e nos Gambos.

O caminho que melhores condições oferecia (1) para uma coluna que da costa tivesse que seguir para o Humbe era a estrada carreteira Moçâmedes, Lubango ou Chibia, Gambos, Humbe. A picada aberta pela Companhia de Moçâmedes de Porto Alexandre ao Humbe, que em face da carta geográfica poderia parecer mais vantajosa, quase desapareceu já, e nem mesmo ao pequeno movimento do Humbe pôde nunca servir; ao grande areal que tem de atravessar ao largar a costa, segue-se-lhe depois uma região absolutamente falta de água, que o gado não pode vencer na época da estiagem. O desenvolvimento da picada da Companhia de Moçâmedes é de 448 quilómetros, e o da estrada Moçâmedes-Humbe (pela Bibala) é de cerca de 5 a 8 quilómetros, distribuídos da seguinte maneira: 234 quilómetros de Moçâmedes ao Lubango, 151 do Lubango aos Gambos e 133 dos Gambos ao Humbe.

Esta última estrada, desde a Chibia até ao Humbe, segue mais ou menos a direcção do rio Caculovar, em que toca várias vezes; em alguns sítios, porém, como no Bizambundo, Cachana e Cavalána, a estrada afasta-se do Caculovar e as cacimbas de que se abastece o / 285 /

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(1)  – Nesta época ainda não haviam começado os trabalhos do caminho de ferro de Moçâmedes, nem estava decretada a sua construção.

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 trânsito habitual não poderiam bastar para uma coluna de tropas, ainda que não fosse muito numerosa, tornando-se necessárias algumas obras para garantir o seu abastecimento de água. Conquanto esta estrada passe por povoações de alguma importância, como o Lubango, a Huíla, a Chibia e os Gambos, pode dizer-se que, sob o ponto de vista de comodidades a proporcionar à marcha de uma coluna, tudo havia a fazer. A partir do Lubango, a região atravessada, especialmente os Gambos, é rica em mantimento (massambala, massango e milho), que dá óptima ração para os solípedes e que em anos normais permitirá alimentar com recursos locais durante alguns meses um grande efectivo de indígenas.

 

A travessia do Mulondo – Uma audiência do soba

As terras de Mulondo estendem-se junto ao Cunene, desde a mata que corre para o Poente, na altura do vau de Caimone, ao Sul, até ao vau de Vitundo, ao Norte, numa região deserta. Governava as terras o soba Hangálo, que entrou na embala pela força, há muitos anos, e que ali conseguiu manter-se mais pelo horror das atrocidades que cometia do que pela afeição dos seus infelizes vassalos. O Quipungo, o Quiteve e a Camba estavam cheios de fugitivos de Mulondo que, para salvar a vida, tiveram que escapar-se à fúria dos seus instintos sanguinários; em compensação, no Mulondo, encontravam-se rebeldes fugidos à perseguição das nossas autoridades, e ladrões e facínoras que seriam mortos se aparecessem nas terras em que cometeram os seus crimes.

Para os europeus, a entrada no Mulondo só era permitida a quem pagasse suficiente tributo e, a quem não oferecesse suspeitas de espionar ou de tramar contra a vida e o poder de Hangalo. Esta permissão queria dizer que o viajante não encontraria oposição armada à sua entrada nas terras, mas de modo nenhum significava qualquer garantia à sua vida ou à sua propriedade enquanto lá estivesse. Assim negociantes que se aventuravam a ir funar no Mulondo, depois de pagar ao soba um não pequeno tributo de pólvora, aguardente, fazendas e coral, tiveram algumas vezes, para salvar a vida, de se deixar espoliar pelos lengas e grandes da terra, entrar descalços na embala para pedir perdão de supostas ofensas, e... beijar os pés do soba, para conseguir que a ira dele se desse por aplacada com as extorsões que já tinham sofrido!

Não estando nós em circunstâncias de nos impormos pela força e desejando arredar dificuldades que nos impedissem de levar a cabo um reconhecimento da região do Mulondo, apressámo-nos em mandar com antecipação emissários ao Hangalo, anunciando-lhe a travessia das suas terras sob o pretexto de estudo do curso do rio Cunene, e mostrando-lhe ao mesmo tempo desejo de ser recebidos na embala. Os emissários deviam voltar com a resposta sobre a projectada viagem e com a notícia do que por lá tivessem visto e ouvido acerca das verdadeiras disposições do soba.

No dia 12 de Junho, à tarde, chegava a expedição à altura do vau de Cabale, já em terras do Mulondo, onde se acampou. Os emissários não tinham ainda aparecido, nem deles havia notícia; mas, apesar disso, resolvemos continuar a viagem até que aparecesse algum obstáculo, e efectivamente na madrugada seguinte punha-se em marcha toda a comitiva, que, além dos dois guias Carlos Maria e José Lopes, era também constituída pelos residentes do Quiteve, Miguel e Bernardino, que quiserem agregar-se, duas ordenanças de dragões, um carro boer, uma carroça e algum pessoal indígena.

Logo aos primeiros passos, foi-nos tomado o caminho por um grupo de gentios armados, que pela fogueira que ainda ardia se via terem passado ali a noite: eram gente de Muene Pango, secúlo que tinha a seu cargo a guarda da entrada das terras, que vinham dizer que a comitiva não podia avançar sem que viesse ordem da embala. Com alguma argumentação e uma distribuição generosa de panos e aguardente, consentiu Mueno Pango que entrássemos e fôssemos seguindo a nossa viagem, mandando contudo a toda a pressa um escuteiro ao Hangalo a participar-lhe o ocorrido.

Às 10 horas da manhã, chegava a expedição ao vau do Cácua, e ali a aguardava novo grupo de gentio. Não houve então remédio senão parar e esperar as ordens do soba, que pouco tardaram. Quando se estava preparando o almoço, chegava ao acampamento uma deputação de gente da embala, de chapéu na cabeça, uns com casacos, outros de camisa todos armados de armas finas e cartucheiras à cintura: eram Muene Chassa, irmão do Hangalo, vários lengas (chefes de guerra), o / 286 / intérprete Calenga, e o chicaixeiro (ajudante de ordens do soba); e vinham também, desarmados, os dois emissários que tínhamos mandado adiante e que eles não mais deixaram sair.

O soba tinha efectivamente recebido o nosso recado, mas nada havia respondido por estar muito desconfiado; não compreendia o que era esse estudo do rio Cunene, e ao mesmo tempo sabia que o parente do Muene Puto (como ele nos chamava) levava consigo o cabeça do Humbe (comendador Lopes), o cabeça da Chibia (Carlos Maria) e o cabeça do Quiteve (Miguel), e não acreditava que se tivessem reunido estas pessoas simplesmente para o ver ou para estudar o rio Cunene. Sucederam-se as dúvidas e as explicações sobre o fim da visita; mas, certificados de que não trazíamos mais gente do que eles ali viam, que era bem pouca para qualquer hostilidade, permitiram-nos que avançarmos até à porta da embala, onde o Hangálo resolveria definitivamente sobre a recepção. Tomaram conta dos presentes destinados ao soba, e lá seguiram com eles.

Enquanto os lengas e fidalgos se demoraram no acampamento, pediram de comer e sobretudo de beber, pediram panos e tabaco, e foram também fazendo justiça a seu modo; em volta do acampamento tinha-se agrupado já um bom número de indígenas do povo, gente desarmada, que vinha ver os brancos e trazia galinhas e fuba (farinha), para a permuta de panos; as galinhas e a fuba foram logo confiscadas – não tinham licença para vender, diziam os apreensores –, e o sjamboch (cavalo marinho) trabalhava, castigando um e outro que por gestos ou por palavras não tinham para com aquelas altas personagens o respeito devido.

Depois do almoço, seriam duas da tarde, a comitiva dividiu-se; os carros e os serviçais indígenas continuaram seguindo junto ao rio, e nós tomámos com os cavaleiros na direcção / 288 / da embala, guiados por gentio de Mulondo. O caminho era todo a subir, e por entre mato espinhoso muito fechado; os guias fizeram-nos, ao que parece, dar algumas voltas escusadas, de modo que só às 4 horas chegámos à embala, à porta chamada djumbi, que quer dizer porta das armas. Já ali estava o intérprete Calenga, que nos anunciou que Hangálo receberia a visita, mas não consentia que entrassem na embala mais de três pessoas, nós, o comendador Lopes e Carlos Maria.

A embala, cuja grandeza se não podia bem avaliar daquele ponto, era fechada por um espesso parapeito de terra, coroado de paliçada, tendo à frente um fosso profundo; a porta, baixa e estreita, dava ingresso para um beco vedado de ambos os lados por sebe viva, que ia ter a outro recinto também fortificado, onde se penetrava por uma porta tão estreita como a primeira, mas mais baixa e com um degrau alto, parecendo antes um postigo do que uma porta. Tanto à porta exterior como a esta última, havia sentinelas armadas de espingarda Snider, e algumas palhotas que pareciam destinadas à casa da guarda.

Depois de entrarmos no recinto interior, seguimos por um corredor que tinha várias comunicações e dava muitas voltas, até um espaçoso pátio fechado por alta paliçada, onde havia uma grande mulemba (árvore do género Ficus, vulgar na região). Sentado num tamborete, junto ao tronco da mulemba, estava o jota, representante do soba, e em volta dele, acocorados e apinhados, uns duzentos homens robustos, todos de espingarda na mão e cartucheiras à cintura e nos braços. Era aqui a sala em que tínhamos de esperar que o Hangálo se aprontasse para nos receber.

Aquela gente falava em voz baixa, mas havia constante sussurro no pátio e cruzavam-se os ditos e as chufas às nossas humildes pessoas, que, a um canto e de pé, tiveram a paciência à prova durante cerca de meia hora. Cansados de esperar, fizemos saber ao soba por intermédio do jota que era tarde e não nos podíamos demorar mais. Apareceu então o chicaixeiro, para nos conduzir à presença do Hangálo.

Tornámos a seguir por um labirinto de corredores, e chegámos a outro pátio, onde não estava menos gente que no primeiro: os homens, acocorados e armados de Martinis e Sniders, formaram círculo em volta de um cacto arbóreo, à sombra do qual estava o formidável e obeso Hangálo, repotreado numa esteira, tendo ao pé de si vinte e cinco mulheres. O Hangálo estava vestido à europeia, camisa de chita, grandes calças de bombazina presas por suspensórios, botas pretas de cano alto expressamente feitas para ele, chapéu de feltro, cachimbo na boca, e chapéu-de-sol, aberto ao lado. As mulheres estavam em traje de festa, pele de boi preto à cintura, corpo untado de manteiga, penteado de orelha de elefante com tromba de coral, manilhas de cobre nos braços e nas pernas.

O primeiro dos visitantes a entrar foi o comendador Lopes. Ao vê-lo, Hangálo exclamou «Zuza» (corrupção de José), sentou-se, estendeu a mão, que José Lopes lhe apertou, e disse algumas palavras de cumprimento. Seguíamo-nos depois nós, que fomos apresentados por José Lopes ao Hangálo, como um enviado do governo português que, andando em estudos pelas margens do Cunene, não queria deixar de passar pelas terras de Mulondo e de visitar um soba tão importante como ele: estendeu-nos também a mão e ofereceu um caixote para nos sentarmos. Entrou por fim Carlos Maria (Nongólo, entre os pretos), a quem disse conhecer de nome já há muito; mandou-o sentar no chão, assim como ao comendador Lopes.

Perguntou Hangálo o que desejávamos dele. Foi-lhe dito que vínhamos fazer-lhe uma visita de cumprimento, e aproveitaríamos a ocasião para falar sobre alguns pontos de interesse tanto para ele como para o governo português, como eram a passagem das guerras de além Cunene, e a abertura do caminho entre Quiteve e Capilongo através de Mulondo. O simples enunciado destes assuntos mal humorou o soba, que rompeu num azedo aranzel, dizendo que nada tinha com a passagem das guerras, e que não permitia comunicação nenhuma entre Quiteve e Capilongo, pois o que os portugueses queriam era estabelecer uma fortaleza nas suas terras e tal nunca ele consentiria, que nas terras de Mulondo só ele mandava, que não queria saber do governador do Lubango nem do Muene Puto, que se lhe quisessem fazer guerra estava pronto para guerra, etc. Com a habilidade que lhe dá a prática de lidar com o gentio, conseguiu o comendador Lopes acalmá-lo, desviando a conversa desses assuntos e enveredando pelo elogio da sua sábia administração, das suas virtudes pessoais, e pela admiração do seu / 289 / grande poderio. Em pouco tempo, Hangálo era outro homem, alegre e, se não amável, ao menos indulgente com as suas visitas. Permitiu espontaneamente que entrassem na embala os outros brancos da comitiva, e fez aproximar os presentes que lhe haviam sido oferecidos: examinou as fazendas, gabando um pano da costa, escolheu de dentro os corais um fio de noheba, que pôs ao pescoço, e mandou abrir os barris de aguardente e vinho branco. As primeiras canecas que se tiraram foram para os ofertantes, praxe seguida nas embalas para garantia de que na bebida oferecida não há veneno, e depois beberam os lengas e mais gente que ali estava; as mulheres do soba não beberam nada, e este, também à cautela, não quis provar o líquido dos barris, acompanhando todavia a festa com copos de macau (cerveja indígena), do fabrico de sua casa, que lhe eram servidos pela mulher favorita.

Hangálo não se fartava de falar, elogiando a sua pessoa e contando histórias da sua valentia e da sua destreza. Cada palavra que Hangálo dizia era coberta de aplausos pela multidão. As maiores sensaborias eram ditos engraçadíssimos. Petas chapadas eram a pura expressão da verdade. Toda a gente via que a obesidade do Hangálo não lhe deixava dar dois passos e muito menos andar a cavalo; pois uma das historietas que ele contou é que, na lua passada, tinha saído a cavalo, à caça do elefante, e que no mesmo dia matou dois elefantes, «dois valentes machos», – dizia ele para a sua côrte, «não é verdade?» «Quêto! Quêto!» respondia a carneirada que o rodeava, convencido cada um de que realmente tinha visto os elefantes mortos, e pondo-se a discutir uns com os outros o comprimento que tinham as pontas dos tais elefantes…  imaginários! A cor do Hangálo era pouco mais ou menos a de um tição; e uma exclamação dele, frequente, era: «Eu sou branco! Pois não sou?» «Quêto! Quêto!» – respondia sempre o côro, com a maior das convicções! Hangálo babava-se e cuspia muito, e as mulheres que estavam mais perto tinham que fazer a limpar o cuspo com a mão, ou, como elas dizem, «apagar o cuspo».

Na sua preocupação de se mostrar pessoa civilizada, Hangálo mandou servir café às visitas, mandou buscar um harmónio que deu a um dos rapazes para tocar, uma caixa de música que moeu todas as peças do repertório, e até um relógio de algibeira a que ele próprio esteve dando corda.

Quando ia começar a escurecer, mostrámos desejos de nos retirar, mas o soba instou para mais um bocado de demora, e percebeu-se logo para que era: atravessavam dali a pouco o pátio da recepção quatro cavalos, e o soba não queria que perdêssemos aquela outra amostra da sua grandeza.

À despedida, o Hangálo disse-nos que, em retribuição dos presentes recebidos, tinha dois garrotes (bois pequenos) para nos oferecer; um mandaria imediatamente ao acampamento, para ser comido naquela noite, e o outro, o mandaria no dia seguinte, para a viagem.

Como já tivesse anoitecido, e nenhum de nós conhecesse ali os caminhos, veio connosco o chicaixeiro, para nos conduzir ao lugar em que estavam acampados os carros. O caminho era todo através de emaranhada mata de espinheiros, e contornava a célebre lagoa Biri, povoada de jacarés, onde eram sacrificadas as raparigas que concebiam antes de ter passado pelo mufico (cerimónia da festa anual da puberdade).

Chegámos ao acampamento, apareceu logo a seguir o primeiro garrote prometido pelo soba, e algum gentio da embala e das imediações que matou o animal e o fez em mil / 290 / pedaços para que a todos chegasse a nhama (carne), de que tão ávidos são; o outro garrote nunca apareceu. Um dos gentios, que pelo cabelo e traje se conhecia ser quanhama, pôs-se a dizer que os brancos haviam de ser todos mortos antes de sair do Mulondo, e que estava a chegar uma guerra que o Hangálo tinha chamado para os atacar no caminho: estava ébrio, e ninguém fez caso do que ele dizia; de resto, a insolência para com os europeus era corrente naquelas paragens.

A noite passou-se sem novidade, e na manhã seguinte retomava a comitiva a sua marcha ao longo do Cunene. Passámos pelas libatas de Bande, pai do Hangálo, e Chassa, seu irmão e sucessor ao sobado, e fomos acampar perto do vau de Diahuco, onde a população começa já a rarear.

Seriam 2 horas da madrugada, todo o acampamento acordou, com o ladrar insistente dos cães: era um cavaleiro que chegava; dizia vir da embala, de mandado do Hangálo, prevenir a expedição de que tinha pela frente uma grande guerra de quanhamas, e que devia esperar ali um dia para dar tempo a que ela passasse, sem o que o soba não se responsabilizava pelo que pudesse suceder-nos. O pessoal branco estava deitado dentro dos carros, porque o frio era muito, e quando saímos para segurar esse cavaleiro e colher dele esclarecimentos, já o não vimos. Os caçadores e criados que estavam em volta dos carros começaram comentando o caso de vários modos; mas o comendador Lopes entendeu que a demora que o Hangálo queria que ali tivéssemos era uma cilada que nos armava, e que a guerra de quanhamas ou de mulondos não estava pela frente mas sim pela retaguarda, e propôs, o que foi aceite, que a expedição se pusesse imediatamente em marcha e a andar quanto pudesse. Como os bois tinham ficado presos às cangas e todo o pessoal estava acordado, foi um instante enquanto carros e cavaleiros largaram o acampamento.

Com um bocado de esforço estavam os carros às 11 horas da manhã para além do vau de Vitundo, já fora das terras de Mulondo e a uma grande distância das suas últimas povoações. A guerra, que o soba dizia que a expedição tinha na frente, não foi encontrada.

(Continua)

EDUARDO AUGUSTO MARQUES

Capitão do serviço de estado-maior.


 

 

 

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