ABANDONADA

Os olhos da outra gente hão-de envolver-te

         talvez, em mágoa pura…

Mas eu, pobre criança! não sei ver-te

         sem mágoa e sem ternura…

 

Que braços te embalaram, ave implume

         que chora, sem saber

(mas como que advinha e que presume...)

         quanto custa nascer?

 

Quem é que a luz embala em seu delírio

         e à vaga um berço deu?

Quem é que embala a nuvem? Quem o lírio?

         Quem a estrela do céu?

 

Como tudo o que sai da mão divina

         ao mistério conduz!

Nasceste pobre e linda – triste sina!

         À noite em tôrno á luz...

 

E dos anjos o céu – pátria que encerra

         um paraíso em flor.

– Anjo! Regressa à pátria, porque a terra,

         bem vês: é luto e dor...

 

E hei de eu olhar o azul que se recobre

         de jóias cintilantes,

e ver-te a camisita que mal cobre

         teus seios hesitantes!

 

Rodam séges dum brilho que se inflama

         no fulgor das librés...

Ou, mal podes andar... Calça-te a lama

         os melindrosos pés.

 

Em macios coxins dorme a opulência...

         E tu, se a noite esperas,

ai, tu nem sequer tens – triste indigencia!

         Um antro, como as féras...

 

Desdobra as asas, sobe! Quem pudésse

         voar, voar, voar!

Subir como o perfume, como a prece...

         Partir e não voltar!

 

Porque andas desterrada? Quem te oprime?

         Se é Deus que te condena,

que monstruoso, incomparável crime

         para tamanha pêna!

 

Senhor! Pode o teu braço enfurecido

         fulminar-nos até!

Mas a culpa do lírio ter nascido

         é do lírio? Não é...

        

Manuel de Moura

 


 

 

 

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