Impressões de Portugal

O que pensam de nós estrangeiros ilustres

À gentileza de uma ilustre escritora alemã, entusiasta por Portugal e pelos portugueses, devemos o brilhante artigo que segue. Duplamente brilhante, pois que, se pelo assunto nos interessa e lisonjeia o nosso orgulho patriótico, a pureza da linguagem em que é escrito mostra o subido apreço que ao nosso idioma consagra a talentosa escritora. Esse apreço pela nossa língua e pela nossa literatura tem sido aliás repetidas vezes manifestado por Madame Louise Ey, em primorosas traduções de obras de poetas e prosadores portugueses.

Actualmente em Portugal, a insigne senhora prometeu-nos uma colaboração mais aturada, de que o presente artigo é o magnifico início. Por ele se vêem as agradáveis impressões que de Portugal levaram os congressistas médicos estrangeiros, com quem Madame Ey travou relações, sobretudo os do longínquo Japão, que lhe deixaram recordações amáveis.

Seria curioso cotejar os sentimentos dos civilizados japoneses, visitando a «ocidental praia lusitana», com as impressões deixadas há mais de três séculos pelos primeiros portugueses que puseram pé no Japão, ainda bárbaro. Tais impressões acham-se consignadas em vários livros preciosos, entre os quais avulta essa formidável «Peregrinação» de Fernão Mendes Pinto. O confronto marcaria sem duvida os gigantescos progressos da humanidade, mas não deixaria de marcar a viva e remota influência que tiveram portugueses para o recente ingresso do Império nipónico na civilização ocidental. O artigo de Madame Ey é um precioso elemento para esse curioso confronto.

Em nome dos nossos leitores, efusivamente agradecemos à ilustre senhora o seu belo artigo e as suas esperançosas promessas, entre as quais temos desde já a indiscrição de revelar um próximo estudo sobre a evolução do feminismo, de que Madame Ey é uma das mais notáveis propagandistas.

 

PEDE-ME V. para a sua interessante revista «Os Serões» algumas linhas que reflictam as impressões dos congressistas que tive ocasião de conhecer e acompanhar durante a sua estada nesta capital.

É-me este convite duplamente grato, por isso que escrever impressões de Portugal não é senão dar-me à minha ocupação predilecta, ao meu quase oficio, pois, há muitos anos para cá, não faço outra coisa.

Além disso, se de outras vezes as dera sob a minha própria trade-mark, desta vez irão sob a responsabilidade de outrem, de maneira que eu não ficaria mais responsável do que um interprete ou um gramofone, caso aos dou tos visitantes sucedesse dizer e eu repetir disparates como o daquele viajante que, passando por Paris e sendo num restaurante servido por um criado gago, vesgo e de cabelo ruivo, lançou na sua carteira este apontamento como característico da metrópole: «Em Paris os criados são gagos, vesgos e têm cabelo ruivo».

Se dum lado não teria de assumir responsabilidade / 472 / de algum juízo menos exacto por falta de conhecimento e de tempo, de outro lado não teria nenhum mérito, mas também não seria suspeita de adulação, se transmitisse exclamações declamatórias como as teve aquele turista francês que, temendo o conhecido melindre português, exclama em cada página do seu «Livro de impressões»:

«Que vous êtes jolis, que vous me semblez beaux: Vous êtes tous fils d'Albuquerque!»

Pois, se disse que o convite de V. me é duplamente grato, é porque me dá a bem-vinda ocasião de ser eco, não de disparates, nem de adulações, mas sim de palavras tão sinceras, como agradáveis de dizer e agradáveis de ouvir. Nem V. me teria pedido estas linhas, se não conhecesse esse facto, como também que é uma fanática por este seu belo país a pessoa a quem as pede e que, ainda que o culto por este nosso querido Portugal não a cega absolutamente, não seria capaz de falar em impressões de estrangeiros – se as houvesse – próprias a impressionar os nacionais ou então só no intuito de chamar-lhes a atenção, para que, tomando-as em consideração, ficasse mais eficaz a nossa propaganda por este velho Luso, que menos anos precisou para descobrir o mundo, do que o mundo levou de séculos para o descobrir a ele.

Os doutores e as senhoras que acompanhei não acharam – apesar da sua muita ilustração – termos que exprimissem a grata surpresa e admiração que lhes causara em primeiro lugar a Escola Médica, que declaravam ser a mais bela do mundo, e a admirável organização do Congresso, tanto na sua parte acientífica, como na parte recreativa.

Exultaram em palavras de máximo elogio aos organizadores e ao trabalho gigantesco por eles realizado, assim como à maneira fidalga e discreta, com que se houveram durante todo o decurso do Congresso, já recebendo os estrangeiros, já dirigindo os trabalhos acientíficos ou as festas que tanto brilho deram a esses dias memoráveis.

Se com tudo houve também palavras de sentimento, significavam elas mais uma lisonja para Lisboa e Portugal: lamentavam os médicos o facto de o Congresso de Lisboa ser precedido pelo de Madrid, o qual, ao que parece, não deixou gratas recordações aos congressistas, que em parte nem esperaram o fim dele para se retirarem. Concordaram todos que o Congresso de Lisboa ficou prejudicado por esta precedência, que afugentara muitos médicos de participar nele, com receio de encontrar aqui uma segunda edição do da capital do país vizinho.

Lamentemos este facto e o prejuízo resultante dele, mas congratulemo-nos também, / 473 / porque ele duma vez para sempre estabeleceu e fez ver dum modo positivo a todos esses povos cultos do velho e do novo mundo, – que contudo apenas conheciam até hoje «coisas de Espanha» e não coisas de Portugal – que

«Vós, oh geração de Luso, digo,

«Que tão pequena parte sois do mundo»,

Todavia não quereis, nem deveis ser confundidos com outras nações, nem nas vossas fronteiras, nem na vossa língua rica e viril, nem nos vossos costumes pitorescos e suaves, nem no vosso carácter, na vossa ilustração, nas vossas tradições!

«Que gente tão diferente dos espanhóis!» diziam os médicos admirados. E que essa diferença / 474 / foi toda em favor de Portugal («seu protegido», diz a nossa amiga D. Ana de Castro Osório com a sua fina graça satírica) foi para mim causa de íntima satisfação.

Fica pois registada a realização do desejo de Camões:

«Fazei, Senhor, que nunca os admirados

Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses

Possam dizer, que são para mandados,

Mais que para mandar, os Portugueses».

Lusíadas, Canto X, 152

 

Como não pôde deixar de ser, causou também o mais sincero entusiasmo a garden party em Monserrate, o passeio por Cintra e as vistas que ali se desfrutam.

O grupo que me deu as honras de cicerone, levei-o entre outros à propriedade do Sr. Monteiro, em Cintra, vedada por um enorme portal fechado, que porém, como tudo neste abençoado país, se abriu como por encanto diante dum pedido formulado em termos persuasivos da suave língua de Garrett.

Subimos à torre-mirante, estendendo-se aos nossos pés o risonho vale com as suas alegres verduras, matizadas de árvores em flor; quadro encantador, emoldurado por uma facha de «argênteas ondas Neptuninas». No primeiro plano a pitoresca vila de Cintra, caracterizada pelas gémeas chaminés do Paço, gigantesco binóculo, que, ao que parece, o formoso céu, que está namorando esta terra, envolvendo-a no seu imenso olhar de azul profundo, depôs ali muito à mão, para sempre poder descobrir qualquer beleza escondida, que escapasse ao seu olhar enternecido de olho nu... Paisagem fim-do-mundo, antecâmara do Éden paradisíaco, que justamente abria de par em par as suas portas de ouro, para receber o astro do dia que recolhia, cobrindo com lânguidos e demorados beijos doirados a sua amada terra lusitana...

«E nas serras da Lua conhecidas

Subjuga a fria Cintra o duro braço,»

– a serra austera, a coroa da «Pena» na altiva testa, mirava imperturbável o majestoso espectáculo, a despedida do Sol, o eterno leito mar em que adormecia o dia – como quem por «saeculum saeculorum» não teve diante dos olhos senão espectáculos feitos para a realeza.

«Eis aqui, quase cume da cabeça

Da Europa toda, o reino Lusitano;

Onde a terra se acaba, e o mar começa,

E onde Febo repousa no Oceano.»

         Lusíadas, Canto III, XX.

 

Mudos de comoção se descobriram os meus companheiros de ante de tanta formosura.

«Vimos muita terra», diziam, «e de todas quanto havia de mais belo; mas este golpe de vista é ao mesmo tempo o mais grandioso e gracioso que temos visto».

E eu, sentindo-me orgulhosa e como que natural deste país de que tive o condão de poder fazer as honras aos meus patrícios, agradeci, como costumam fazer os amáveis nacionais dele, quando nos mimoseiam e ainda agradecem a nossa satisfação.

Continuando a falar das impressões, causadas directamente pelos arranjos do Congresso: despertou todo o interesse, deixando a mais grata impressão, a simpática festa da Sociedade de Geografia, que proporcionou aos congressistas o conhecimento de música e de danças populares, como o das colónias portuguesas.

Igualmente as festas no Tejo e em Vila Franca deixaram-nos muito penhorados.

Interessante o parecer diferente dos indivíduos das diferentes nações sobre as touradas:

Os japoneses, que – dir-se-ia – estariam um tanto endurecidos com a vista de lutas e feridas, / 475 / declinavam em absoluto o espectáculo duma tourada, isto é: duma lide de toiros.

Os alemães, admitindo que seria algo brutal «enfeitar» o touro, concordaram em que não deixava de ser curioso ver provocada e vencida a força brutal da fera pela inteligência e destreza do homem, executada com arrojo, elegância e ligeireza. Comparada com a tourada espanhola era um torneio.

Um americano (ou foi uma americana?) antípoda dos japoneses, declarou simpatizar .com as touradas teórica e praticamente.

E todos, entusiasmados pelas «cortesias», aparatoso e elegante espectáculo, ficaram encantados com o jogo da rosa. Efectivamente não é. fácil ver cousa mais graciosa: um torneio, cujo prémio é a rainha... das flores; as armas um sorriso, o escudo uma elegante evolução dum nobre cavalo. Mesmo os filhos do Japão, desse país de flores e de festas de flores, confessavam: «Não temos no nosso país jogo que possa rivalizar em graça e formosura com este».

Foi-me especialmente interessante conhecer as impressões que tiveram os japoneses dum país distante do deles de toda a extensão dum hemisfério. E como além de falarem correctamente o francês e inglês, se expressavam admiravelmente em alemão, chegámos quase a sentirmo-nos como patrícios no «pays de connaissance» desta língua, conversando sem reserva.

Eram todos doutores e lentes de universidade. Além de sábio, um deles poeta. Escreveu-me uma poesia japonesa no meu leque, prometendo enviar-me mais poesias dele traduzidas à letra para o alemão, para eu as pôr em linguagem rítmica. Estudaram alemão tanto no Japão como na Alemanha, de que, diziam, importavam constantemente a cultura.

«Fizemos uma aliança política com a Inglaterra; com a Alemanha estreitámos uma duradoura aliança intelectual e civilizadora».

Estranhavam que aqui a língua alemã não estivesse mais propalada, e que, sendo uma das três línguas adaptadas pelo Congresso, houvesse quem reparasse que eles tivessem discursado em alemão.

«Viemos cá com muito prazer», diziam-me, «pois foi de Portugal que recebemos a primeira civilização e a primeira arma de fogo. Foi tanto por aquela como por esta, que ficámos vencedores da Rússia, numa guerra premeditada e preparada há 30 anos com conhecimento / 476 / de todos os nacionais do Japão e de cujo êxito nunca se duvidou no nosso país».

... E assim vieram filhos do extremo Oriente, revestidos da toga de lentes de universidade, para confirmar às gentes do extremo Ocidente, primeira fonte da sua cultura, o que o Poeta-Profeta prevê e conta:

«Mas não deixes no mar as ilhas, onde

«A natureza quis mais afamar-se:

.,..................................

«É Japão, onde nasce a prata fina,

«Que ilustrado será co'a Lei divina.»

(Lusíadas. Canto X, CXXXI)

E não desdoiram os discípulos os seus antigos mestres com respeito à cultura. Longe disso! Mas quem diria que o impávido japonês, esganando com mão de ferro o gigantesco Urso branco, se incomodasse com umas bandarilhas no pescoço dum touro, com as cambadas de passarinhos na Praça da Figueira ou com uma chicotada nas costas duma cavalgadura macilenta que não pode com um carro calçada acima?!

Eu lhes disse que tanto os pássaros como as bestas de carga já tinham encontrado o melhor advogado no poeta (1) de «O Ninho», e «O Burro e o Bêbado», e no coração de muita da melhor gente portuguesa.

(1)     Afonso Lopes Vieira: Ar livre.

Depois disso já apenas me surpreendeu que confessassem encontrar pouco encanto na sinfonia dos pregões de que tão harmoniosamente ressoam as ruas.

Dir-se-ia que o japonês, apesar de guerreiro e medico, é efeminado, confirmando esta suposição o seu semblante imberbe e de tácita observação, o seu andar lento e cauteloso, o seu ser silencioso, que parece um protesto contra qualquer barulho que não seja indispensável e eufónico como o trovão dos canhões

E apesar de civilizador e poeta, talvez desconheça ainda esta poesia suprema, este cunho de suma civilização dos nossos países. cultos, que cá se apregoa em: «É o número setecentos e noventa e treeeeees!...»

Escutavam com amável deferência a minha zelosa defesa que nem todos os pregões eram números; havia também os pitorescos «melões de Coimbra tão bons!» os «cabazes de morangos», os «vintém cada mómómómómómólho», as «tesoiras e navalhas», as «ré-nda», o «azeite doce» e sobretudo as mil espécies de peixe... sorriam resignados: «Sim, e amanhã anda a roda! É o Dia! Já cá está o Mundo!...» Desisti.

Num ponto que, a par de sabão, cautelas e luz eléctrica é considerado medidor do grau da civilização dum país, todos os congressistas confirmaram um notável atraso de Portugal: / 477 / nenhum deles tinha dado pela falta da sua carteira ou bolsa, e esta levavam-na menos vazia que calcularam. Ainda bem!

Apenas o director dum grande instituto médico em Colónia se queixava entre riso e pranto da carestia dos caminhos-de-ferro na Espanha e em Portugal.

Tinha-se resolvido tarde a assistir ao Congresso, de maneira que já não houve tempo de se utilizar das regalias para a viagem.

Em compensação, como viesse pela linha do Douro, ficara extático diante das serras imponentes, o rio pitoresco, os ridentes campos das províncias do norte, que tanto mais alegram os olhos do touriste quanto mais áridas, desertas e faltas de interesse se mostram as vastas planícies da Espanha, percorridas pela via-férrea.

Se tivesse, como eu, estacionado algum tempo no país vizinho, teria também notado a considerável diferença no asseio que há entre os dois países.

Aplaudiram o grande asseio das cervejarias de Lisboa, não deixando de admirar o afã com que se varriam a toda a hora as ruas de mais movimento, sem até dar descanso à vassoira nas tardes do domingo.

E então os carros eléctricos?! Como os de cá não os havia em todo o mundo. Não se andava, voava-se. Rivalizavam com os automóveis, sendo porém muito mais agradáveis no seu deslizar.

E que belos passeios prometiam o Campo Grande e o passeio marítimo à beira do Tejo, já tão bem principiados! E havendo, como seria natural que houvesse um dia, carros eléctricos de Cascais para Cintra e para Colares, explorando-se também a formosa estrada, tão belamente delineada e tão deserta, de Alcabideche e Colares, como um ponto culminante de formosura paisagista, e povoando-se o rio Tejo com barcos de passeio... Oh, senhores, com que rastos de ouro todos estes passeios seriam depressa dourados, de ouro que não emanasse unicamente desses belos raios do sol de Portugal!

«E tu, nobre Lisboa, que no mundo

Facilmente das outras és princesa,

Tu, a quem obedece o mar profundo...»

 

Tu cais da Europa! Abençoada lembrança! E o clima?! Este tão afamado clima, que tem sempre as honras do primeiro lugar, quando se fala nas belezas de Portugal e / 478 / especialmente de Lisboa?! Ai, eu não lhes digo nada... Aqui vai em ultimo lugar, pois se ele se houve segundo a máxima popular: «Ganha fama e deita-te a dormir!»

Durante os dias do Congresso o clima esteve «desperto» apenas para assistir à garden-party em Monserrate e à tourada em Vila Franca.

Nos mais dias esteve «adormecido», substituindo-o um vento áspero e glacial, que como que tinha empenho em desmentir as minhas apaixonadas asserções, que era anormal este frio, que no inverno tinha estado mais calor do que então. As minhas patrícias tiritavam, lastimando não ter trazido a roupa de inverno, já posta de parte e perderam duma vez para sempre o medo dos calores de Lisboa. «À quelque chose malheur est bon

Todos levaram saudades, fazendo tenção de cá voltar, para mata-las neste

«Jardim da Europa à beira-mar plantado

de louros e de acácias olorosas;

de fontes e de arroios serpeado.

rasgado por torrentes alterosas.

onde hum cêrro erguido e requeimado

se casam em festões jasmins e rosas;

balsa virente de eternal magia

onde as aves gorjeiam noite e dia.»

LOUISE EY

 

 

 

 

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