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Amortalhada! Rígida! Abraçada
Por quatro tábuas... – Rio-me e
suponho, 7
Que tudo aquilo é apenas mais um sonho
Desta pobre cabeça fatigada...
Faltou-me não sei quê do que eu vivia.
À tarde, ao som da música do vento,
Entre graves senhores, em passo lento,
Meu triste corpo um funeral seguia.
Julgam-me doido, inspiro dó; notei
Isso; que importa?.. é o sonho que
persiste
Porque isto é um sonho, e o sonho, não
existe,
E eu não devo chorar!... E não chorei.
Mas, se fosse ela, pensei eu, a
Querida!
E, por instantes, tive que parar...
Faltou-me não sei quê, talvez o ar,
O ar... uma coisa semelhante ávida!
– Não sei que amor perdi... custa-nos
tanto
Acreditar que nos morreu alguém
Que amámos muito, noiva, irmã ou mãe!
A tarde é que chorou todo o meu
pranto.
Ela!? Impossível! O exíguo vão
De quatro tábuas por eterno leito!?
Podia lá caber nesse caixão
O que não coube nunca no meu peito!?
Ser este o seu enterro e estar o céu
Tão negro, e o meu espírito
tranquilo!?
E então sorri e pensei... pensei...
naquilo...
Naquilo... que de todo me esqueceu...
Mas eu vi-lhe marmórea a fronte pura,
Singrada de uma lágrima... Sentia-a
Inerme, – E a lágrima bebi-a
Como quem bebe um trago de loucura!
Não sei que amor perdi... custa-nos
tanto
Acreditar que nos morreu alguém
Que amámos muito, noiva, irmã ou mãe!
– A tarde é que chorou todo o meu
pranto.
Descerram-lhe o caixão. Estou a
vê-la...
Nisto uma voz: – Permite uma pergunta?
Era o senhor o noivo da defunta?
E eu nada respondi a olhar p’ra Ela...
E a voz continuou, pausadamente:
– De estranha formosura ali está o
resto...
E dizer que o coveiro faz um gesto,
E outro, e outro, e a oculta
eternamente!...
...Mas a primeira pá, fria e pesada
De torrões negros despejou-se; e nisto
É que todo o meu ser exclamou: Existo!
Enfim, sentira a alma sepultada...
Depois... Depois... Recordo-me; corri
À terra a procurar-me e ainda
prossigo.
Nunca mais pude estar a sós comigo,
Nem recuperar a alma que perdi...
1905
JOÃO GOUVEIA
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