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É na intimidade que melhor se conhecem os homens. O
ditado «não há homem grande para o seu criado de quarto», foi
decerto inventado por quem servia um medíocre com prosápias de
grandeza.
Não há como a intimidade, em que se não afivelam
mascaras, em que se não assumem atitudes postiças, em que se não
pretende armar ao efeito, para se surpreender a cada instante os
tesouros nativos da bondade, do carácter e da inteligência dos que
são verdadeiramente possuidores desses dons.
Mesmo para os homens que, como Luís d’Almeida e
Albuquerque, aborrecem todas as exteriorizações, e em toda a parte
se apresentam tal como são, mesmo para esses, a luz da intimidade é
a que põe em maior e mais nítido relevo as qualidades e as linhas da
sua fisionomia moral, que é a mais digna de análise e de apreço em
todas as individualidades. Foi sobretudo nos ultimas anos da sua
vida, em que, arredado das lutas e trabalhos que haviam agitado o
homem público e o jornalista, passara a sentir em volta de si uma
grande pacificação serena, dourada por uma rara e admirável
dedicação de filha, foi nesses ultimas anos que melhor se acentuaram
as suas qualidades, na livre expansão do que nelas havia de
realmente simpático e bom.
Os seus livros, que foram a paixão de toda a sua
vida; os estudos que eram o seu único entretenimento; os seus
escritos, quer sobre as ciências que versava na sua cadeira de
economia política, quer para a imprensa, de onde ficara com o hábito
de falar ao público, em efusiva comunhão de ideias e sentimentos; as
suas filhas, muito principalmente aquela que durante os últimos 25
anos lhe consagrara toda a sua vida, e a quem dias antes de morrer
dizia ser-lhe indispensável como o ar que respirava»; os seus netos,
principalmente aqueles que tomara mais directamente a seu cargo,
dirigindo-os, educando-os, vigiando-lhes os estudos e dando-lhes, a
um, posição social, e a outra, um curso de arte de que é solicita e
inteligente cultora; os seus amigos, raros mas fieis, que até final
o foram procurar ao seu retiro de Belver, – tais foram as
predilecções daquele coração e daquela inteligência, que entre o
amor pela cultura do espírito e o amor pela família, dividiu as
atenções, e viveu satisfeito, alegre, de uma alegria comunicativa e
sã, que naquela fisionomia de velho octogenário, sempre bem disposto
e sadio, representava como que uma perene aurora espiritual por
entre os nimbos crepusculares da vida que ia chegando ao seu termo.
Até aos últimos instantes, irradiaram na sua palavra
as cintilações / 220 / duma graça exuberante, que já fizera época em
Coimbra, nos bancos das escolas e no turbilhão académico, onde só se
destacam as individualidades bem acentuadas.

Não há ninguém que o conhecesse que não repita os
ditos e as graças de Luís d'Almeida e Albuquerque.
A redacção do “Jornal do Comércio”, por ele
fundada e por ele durante 30 anos dirigida, era nesse tempo o centro
de reunião dos homens mais eminentes do país, nas letras e na
política. Nele colaboraram todos, e dali saíram alguns para os
bancos do governo.
Havia um, mais tarde alta sumidade política, que não
sabia escrever artigos sem os rechear de citações de autores; às
vezes, a propósito das cousas mais insignificantes, era: – segundo
Kant, segundo Maquiavel, segundo Rousseau…
Uma vez, em pleno conclave de redactores, o nosso
homem leu pomposamente o seu artigo. A cada instante ouvia-se:
– Segundo este... Segundo aquele… Segundo aquele
outro…
Quando terminou, Luís d'Almeida pôs-se a troçar da
abundância das citações. O sábio jornalista não gostou. Travou-se
discussão. Luís d'Almeida, que era um argumentador arguto, levava
constantemente à parede o adversário. Este, perdendo por fim as
estribeiras, saiu-se com esta:
– Sabes que mais? És um tolo!
– Sim, retorquiu serenamente Luís d'AImeida; sou um
tolo; – mas, olha lá, segundo quem?
Imagine-se o êxito deste coup de Jarnac, da
mais genuína e espontânea graça!
Uma outra vez, havia jantar de festa em casa de Luís
d'Almeida e Albuquerque, pelo seu aniversário. Reuniram-se a família
e alguns amigos mais íntimos. Uma dessas filarmónicas que se ocupam
em ir cumprimentar pessoas por ocasiões festivas, à caça de
espórtulas, soube do caso e, ao meio do jantar, ouviu-se de repente,
com estranheza de todos, romper no pátio o hino da Carta. Quando
este terminou, apareceu um criado apresentando numa bandeja um
bilhete que dizia:
– Fulano de tal, Director da filarmónica tal,
cumprimenta V. Ex.ª pelo seu aniversário natalício.
Luís d'Almeida endireitou os óculos, leu alto o
bilhete, e entregando-o ao criado, respondeu muito sério:
– Diz a esse senhor que lhe fico muito obrigado, e
que quando ele fizer anos lá irei também tocar-lhe à porta.
Era uma veia inesgotável! E com a enorme quantidade
de anedotas e factos que armazenava na cabeça, fazia a delícia e o
encanto de quantos o ouviam.
Sobrava-lhe o tempo para tudo. Levantava-se
geralmente antes do sol; e, em seguida a um banho frio, punha-se a
ler ou a escrever, até sair para a aula, que era sempre às 8 da
manhã, não faltando nunca, quer chovesse, quer ventasse, – ou até ao
almoço, pelas 10 horas, à antiga / 221 / portuguesa. Em seguida, ou
continuava trabalhando em casa, ou saía para as suas múltiplas
ocupações; e estas, apesar de bastantes para lhe absorver as
atenções e a paciência, davam-lhe azo para se ocupar do ensino dos
netos ou das crianças do seu conhecimento, para fazer versos
engraçadíssimos, para tratar dos negócios dos amigos, para se
interessar pelos pobres e desvalidos, e para todas as noites dedicar
umas horas ao casino em família, paixão dos seus últimos anos, mas
sob color de querer entreter... os outros. Lá lhe parecia que era
ocupação pouco à altura de quem, enquanto se lhe não enfraqueceu a
vista, até as horas nocturnas votara à leitura e ao estudo.
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Entre a curiosa série de ilustrações deste artigo vai
a reprodução de um primoroso retrato de Luís d'Almeida e
Albuquerque, gravado pela sua neta D, Madalena d'Albuquerque Gusmão,
distinta aluna de gravura na Escola das Belas Artes de Lisboa, que
ao reproduzir a fisionomia daquele tão querido ente, pôs nele toda a
sua saudade e toda a sua emoção de artista. É o primeiro trabalho,
em gravura, desta senhora que aparece em público, cumprindo aos
“Serões” agradecer a honra da primícia.
Tocante é o quadro que reproduzimos representando
Luís d'Almeida e Albuquerque a ensinar o português a uma sua
amiguinha alemã, frauleine Adriana von Brancas, no seu quarto
em S. João do Estoril, – tão tocante que a mãe desta menina o quis
fixar num Kodak.
O tinteiro que a nossa gravura representa, artístico
trabalho da ourivesaria Leitão, foi / 222 / oferecido em 1894 pelo
corpo docente da Escola Politécnica ao seu director quando este
completou naquele instituto 50 anos de professor. É em forma de meia
esfera, em prata cinzelada, estilo D. João V, todo recamado de
ornatos e flores. Na frente um escudo com concha e rocagens, e a
gravura 1844 a 1894. Na tampa, redonda, no seu maior bojo, uma
cercadura de ornatos, tendo a parte de cima, lisa, reservada a
receber o monograma gravado L. A. A placa lisa do fundo tem os
seguintes dizeres gravados:
A
LUÍS D'ALMEIDA E ALBUQUERQUE
DIRECTOR DA ESCOLA POLITÉCNICA
LEMBRANÇA AFECTUOSA DOS SEUS COLEGAS
AO TERMINAR O SEU 50.º ANO DE PROFESSORADO
Segue-se a assinatura de todos os lentes da Escola
naquela data.
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As outras ilustrações deste ligeiro artigo consagrado
à memoria do ilustre professor, que foi uma figura de tanto relevo
no nosso meio intelectual, mas que hoje encaramos apenas no seu meio
intimo, onde foi mais característica a sua individualidade –,
mostram-nos a casa onde ele nasceu em Serpa, na antiga rua das
Capelinhas, hoje honrada com o seu nome desde os seus 80 anos e o
quarto onde faleceu / 223 / na rua de Belver; representam-no à
janela enramada de verdura da sua sala de Lisboa; no seu
interessante quarto, olhando para o mar, em S. João do Estoril, onde
há dois anos o foi cumprimentar, pelos seus 60 anos de professorado,
o corpo docente da Escola Politécnica, e em diversas outras cenas
familiares, que mostram como ele era o centro e a alma de sua
família. Vemo-lo num grupo com uma das suas filhas, uma neta e um
bisneto, quatro gerações reunidas; vemo-lo, – ocaso e aurora! –
dando a mão à sua primeira bisneta, ele com 80 anos, ela com 19
meses; vemo-lo abraçado pela filha que era a sua companheira
desvelada, e de quem ele dizia pouco antes do termo da sua vida:
Se, em vez de só palpitar,
o meu coração falasse,
e, repousando em meu peito,
teu coração o escutasse,
ouviria que os prazeres
que alegram minha velhice
são o carinho inefável
da tua santa meiguice.
Ouviria que se a vida
me corre sem amargura,
é que vela sobre mim
tua incessante ternura.
É isto um indiscreto levantar de cortina que nos
deixa ver Luís de Almeida e Albuquerque na intimidade do seu lar,
aconchegado, querido, amimado por todos que o constituíam, e para
quem ele era o enlevo, o estímulo e o orgulho legítimo.

As nossas gravuras representam também as suas duas
casas, uma própria, em Colares, onde costumava passar o verão, e
outra, a de S. João do Estoril, chalet Âncora, onde ia passar
temporadas durante o ano, nos últimos tempos. Da primeira deixou
entre os seus papéis a seguinte / 224 / descrição que reproduzimos,
para mostrar o amor e a poesia com que ele se prendia às coisas que
o rodeavam:
«Quase no sopé de um monte de suave pendor, debruçado
sobre o vale onde serpeia a ribeira da Várzea, levanta-se a minha
modesta habitação.
Das janelas que olham para o N. alargam-se as vistas
sobre um vasto espaço que, descendo até o fundo do vale, daí ascende
e se dilata pelo lado oposto, quase insensivelmente, até findar no
longínquo horizonte, defendido pela linha ondeada de uma serra que
de Cintra corre até ir findar, formando a costa áspera e escarpada,
junto à Praia das Maçãs.
Forma este imenso espaço, como que um oceano de
verdura, não de superfície plana e uniforme, mas caindo ou
elevando-se conforme se ajusta às desigualdades do terreno, que ora
surge ora se abate, em continuadas dobras.
Ali se distinguem as variegadas cores, desde o
verde-escuro dos tristes pinheirais, até o verde alegre e claro do
canavial, que cerca a espaços os vinhedos.
A linha esguia dos choupos vai marcando a margem da
ribeira, e os pomares de todos os frutos matizam boa parte deste tão
variado quadro.
Alvejam, emergindo dentre o arvoredo, aqui e ali,
pequenos agrupamentos de modestas habitações rurais, e alguns
graciosos e modernos chalets, e, cortando a linha extrema e
afastada do horizonte, avultam três moinhos de vento.
Um muro espesso de folhagem perene emoldura a minha
casa por três lados, deixando-a assente entre um nicho de arvoredo.
Um sentimento de suave repouso é acalentado, nesta sossegada
vivenda, pelo afastamento do povoado. Aqui, quando esmorece o
rumorejar das árvores, soa apenas o canto do galo vigilante, ou o
chiar do carro ocupado na labutação rural.
«Deus nobis haec otia fecit». Aqui vivo feliz.
Para aqui me guiou a mão benigna de Deus, no declinar da vida; e
hoje, na fraqueza da velhice, aqui passo dias consoladores, em que
nem o horário, nem os silvos da máquina me anunciam a chegada, – que
não pode demorar se – à estação terminus. / 225 /
Neste florir e fresco verdejar da minha velhice,
obram, não só a sólida constituição de resistência física de que me
dotou a natureza, mas os incessantes desvelos que me cercam e me
alentam, prevenindo, até as mais ligeiras exigências, promovendo
todos os confortos, e aquecendo-me a existência daquele santo calor
do afecto que brota do coração desinteressado e puro.»
Como se vê, encontrara Luís d'Almeida e Albuquerque,
no último quartel da sua vida, aquela felicidade tão apetecida, mas
por tão pouco achada, e sabida cultivar, – a alegria serena do lar!
A sua casa de Lisboa é pegada com a da redacção e
tipografia do “Jornal do Comércio”, de tão prestigiosas
tradições. Como a de Colares mereceu-lhe longos afinas de desvelo.
Do que ele foi como fundador deste jornal, como
jornalista, como professor, como homem público, disse-o a imprensa,
em unânime consagração, quando foi da sua morte; nós, dando aqui uma
pálida ideia do que era o seu viver em família, decerto lhe
prestamos uma homenagem que, na modéstia daquele espírito seria – se
ele ainda pudesse assistir a ela, – de todas a mais agradável e
melhor aceite.

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