Cabeçalho da página de Sérgio Paulo Silva e hiperligação para a hierarquia superior.

Sérgio Paulo Silva, À bolina pelo Vouga com os Ventos da Memória, 2013, 74 pp.

Rojões

Hoje os rojões fazem-se, nos restaurantes, um pouco como isto: compra-se a carne onde ela não morder – nos talhos dos hiper-mercados, p. ex. – porque a carne de algum porquito criado sacrificadamente morde quem a vende e quem a compra. Mas até nem vale muito a pena pensar nisso, porque quem os tem chama-lhes seus, claro. Compra-se a carne e compra-se gordura, o pingue, que vai para um tacho de alumínio. Estando o pingue liquefeito, fervente, recebe a carne que sofre um choque térmico que faz com que já não mingue como os outros. Fazem-se depressa e nas travessas metem raiva, de tão bonitos, aos comensais. Comem-se porque lá teremos que ir, cantando e rindo...

Os rojões das tripas (redanho) apuram-se, com um pouco de água e uns salpicos de sal, igualmente num tacho de cobre ou de alumínio e vão-se volteando na mesma com o machão (quem o não tem lança mão duma forte colher de pau), tal e qual como nos outros rojões, e quando começam a dar sinal, para meterem a tal raiva que desamarra tantas carteiras, chimpa-se-Ihes uma boa cerveja preta e... bota-e-vira que este século é o das pressas...

(Só cá para nós: a cerveja preta guarde-a para quando andar fraquinho, com uma gemada ou para quando apanhar algum susto, e deixe-os alourar sem cosmética nenhuma. Ficando os pedaços do redanho comme il faut, um bom tinto é muito mais recomendável.)