Joaquim Leitão, Canção do Regresso, Vol. VII, pp. 263-282.

CANÇÃO DO REGRESSO

NOVELA

(Redacção definitiva)

I

Vai para século e meio, nasceu no Porto um homem de génio. Esse homem chamou-se − ALMEIDA GARRETT. A rua onde nasceu é íngreme e chama-se Rua do Calvário. Vizinha com o rio e com a cadeia. Dali se ouvem bater nos tolêtes os remos ribeirinhos e o ferro do carcereiro nas grades da Relação, a experimentar-lhes a segurança, ao dar das Avé-Marias. De lá se defrontam os pendores de Gaia e avistam os vagalhões da Barra.

A vida de GARRETT passa-se sob essa sina: acidentada como a rua natal, e ora desterrado, ora no cárcere.

No seu apelido anda sangue nobre do Piemonte; nas reminiscências da meninice andaram sempre as recitações com que a velha Brígida, criada de sua avó, o entretinha na Quinta do Sardão, e as lendas e contos de que a Rosa mestiça lhe tecera o gosto pelo maravilhoso popular; do nascedouro trazia o entendimento das liberdades públicas; e as suas nunca jamais alteradas relações com o Oceano, de doze anos vividos nos Açores, as nove musas atlânticas, rosário de nove Glória-Patri por onde reza o infinito.

Todas estas herdanças GARRETT honrou. Foi príncipe no vestir e no tratar, foi popular na fonte original da inspiração, portuense no guerrear pela Pátria, português no seu amor ao Mar. Cantou, criou o Romantismo, reconstruiu o nosso teatro, provou dos cárceres, conheceu os exílios, relanceou o Poder, saboreou a calúnia, privou com a Glória e correu mundo. Viajou tanto que até viajou Portugal. A prova é que escreveu um livro chamado Viagens na minha terra. Lera-o eu ali por volta dos meus... dezassete anos. Nunca mais lhe pusera a vista em cima. Um dia, passando por murada de livros menos à mão, reparei nos dois pequenos volumes das Viagens. Um acaso, pai de mais esta tentação − folheá-los. Agradei-me da primeira página, fiquei para a segunda e, sem dar fé do tempo, a todo o primeiro capítulo me prendi.

GARRETT vai a Santarém, Tejo arriba. Bem de ver, entra a descrever a abalada do Terreiro do Paço e o caminho. Passa Enxobregas, as hortas de CheIas, deixa na esteira a tauromáquica / 264 / Alhandra e, por alturas de Vila Franca, apetece-lhe estender as pernas até à proa. Aceso o bem-humorante charuto no lume de prestimoso cigarro, atenta na companhia. Dentre os passageiros topa dois grupos: num, cinco atletas, de calção amarelo e jaqueta de ramagens, que voltavam da última corrida na praça de Sant' Ana; noutro, seis ou sete figuras trajando o saiote grego dos varinos e o tabardo siciliano. A gente do norte testilhava com a do sul. A aparição de GARRETT acomoda a contenda; mas prestado o fogo, um dos ílhavos roga-o para juiz. Os campinos lá por pegarem toiros imaginam que ninguém lhes chega. Apregoavam:

− «A força é que se fala. Um homem do campo que se deita ali à cernelha de um toiro que uma companhia inteira de varinos lhe não pegava, com perdão dos senhores, pelo rabo...»

Um dos varinos, embora atordoado pela gargalhada ribatejana, não descoroçoou:

− «Então agora como é de força, quero eu saber, e estes senhores que digam, qual é que tem mais força, se é um toiro ou se é o mar.

− «Essa agora!...

− «Queríamos saber.

− «É o mar.

− «Pois nós que brigamos com o mar, oito e dez dias a fio numa tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro, qual é que tem mais força?»

Os campinos dobraram a cerviz.

Para lhes travar para sempre as campainhas, bondava agarrar-lhes pela jaleca e levá-los ali à Torreira, numa madrugada em que o búzio soasse e duas companhas arrancassem para a « recachia»(1).

Os de Ílhavo são peixes de água salgada. Vivem no mar. O comando da nossa marinha mercante está nas mãos deles.

Os da Murtosa, esses não se contentam em ser mareantes. Acham aquilo monótono e, salvo horas naufragantes, luta branda. A pesca, sim, que é movimentada, pede força, tira de condição a coragem, faz preço à audácia, requer do homem a agilidade da onda e o segredo do ritmo. É a paixão dos murtoseiros. Não é este nem aquel'outro. Observem-nos e verão que aprender um é conhecê-los a todos. Todos parecem irmãos do António do Monte, um homem do cano do remo. Para eles não há mar picado nem onda brava: há ou não há sinal de peixe, lá ao largo. O mar pode estar um lago, sem farrapo de nuvem, e as companhas não saírem. Mas o arrais lobrigou, no entreluzir da manhã, o bater dos alcatrazes? O enorme búzio soa, trespassando, com o seu chamadouro rouco, a / 265 / dormente serenidade da vila. É a chamada para combate. Toda a Murtosa desperta. A vaga ruge mais alto que o som do búzio. Deixá-lo! O arrais viu os alcatrazes baterem de bico para baixo, é o sinal de sardinha. Ninguém pensava em ir ao mar naquela manhã. A companha da «Carneira», confiante em Nossa Senhora do Carmo, sua padroeira, resolveu ir, vai tudo. Correndo, no seu correr de sombras, miudinho e compassado, no jeito de trilhar a areia, uns de «malaias», que só lhes dão pelo joelho, outros de calça de ganga azul e a camisola de lã da indústria caseira, as companhas achegam ao embarcadoiro.

Toca a carregar: calas a um lado e outro, rolos de cabos no fundo, ao de cima a rede, outra bateria de cordas, tudo arrumado ritualmente, num preceito de equilíbrio que dir-se-ia não pescadores a lastrar um barco, mas trovadores do século XII pesando, em balança de oiro, os hemistíquios dum alexandrino.

A companha mete ombros à nave. O arrais comanda, num ritmo grave:

− Bo... ta abaixo! Bo... ta abaixo!

O barco estremece, despega-se, dá uma corrida nos rolos de madeira, e estaca. O arrais não se cala com a sua ajuda rítmica:

− Bo... t'abaixo!

Os homens procuram jeito, agarram-se ao casco, dão novo lanço, o canto do arrais desentranha do solo aquele peso de penitência:

− Eh!... Bota! Bo... t'abaixo!

O trilho é mais a pique, a gravidade puxa também, a ondina vem à praia chamá-los, e a cada cadência do comando − «Bo... t'abaixo!» −, os ombros dos homens rojam o casco, balançam, os movimentos tornam-se cada vez mais frequentes e isócronos, o avanço aguenta-se quase contínuo, e o esforço rude já não pára até o depor aos pés do mar.

António do Monte e os companheiros benzem-se, saltam para dentro. Os quarenta homens estão a postos; uns tantos sentados, outros de pé, ao remo, e os restantes aos cambões.

Esperam apenas que a vaga quebre de feição para dar calado.

Outra companha aguarda também que o mar dê um jeito.

Cada uma é uma orquestra sinfónica, presta a obedecer à batuta do mestre. O arrais, agarrado ao golfeão, ergue o braço que empunha a corda do comando, dá uma pancada na proa, e a marcha rompe num intróito de fortes. Os remos dão a arrancada. A outra companha arranca também. O mar, que a princípio não dera fé, enfurece-se, e atira uma, duas, três vagas que espadanam, com bramido de cólera. Na praia, a abençoar a largada, as mulheres respondem ao mar em côro de angústia. A corda do arrais continua a reger a remada. Os homens deitam proporções mitológicas. Os músculos parecem espias de guinchos. E as duas campanhas remam, remam, num desafio / 266 / indiferente à braveza do mar e à grita que vai em terra... É a «recachia», uma regata através dos obstáculos temerosos de procela.

António do Monte vai, soberbo, de pé, ao cano do remo, atirando os punhos para diante. Cada vez que a pá escava a água, o mar, ressentido, alteia-se. O barco soergue-se. Uma vaga, de curiosa, não querendo crer que aquela menisca de luz seja batel tripulado por mortais, forma um salto, a espreitar para dentro da nave. O barco adeja, os remos tornados asas, e desaparece uns momentos na vertente da vaga. Na praia, o alarido reboa, aterrador. Há mulheres feitas um novelo de pânico, o lenço da cabeça descido em alpendre sobre os olhos, sem coragem para presenciar a desgraça. Outras, de joelhos, rezam, a tremer pavor de sezões. Um baixo relevo, entalhado na areia deplora os trabalhos que passa quem anda sobre as águas do mar.

Outra torre de espuma. O barco, uma palhinha a prumo, escala a onda: Milagre que as companhas não selam baldeadas! O arrais continua a marcar o compasso à proa. Os braços, afinados pelo diapasão, mantêm o ritmo do esforço, e o barco corta a onda, com elegância de nereida, coleando, descendo, como raio de luz que brincasse no côncavo dum espelho. Mais outro castelo denteado de verde. Outra grita em terra. Outra escalada do barco que, rachada a primeira onda, e topada outra na dianteira, vai, vem, como se a vaga andasse a brizá-lo para o adormecer.

Quadro eterno: mar da costa portuguesa, gente duma bravura mitológica e humildade cristã venerando catedrais de espuma.

Tábua humilde, sem armação guerreira nem astrolábio descobridor, o barco é instrumento que o mar gosta de pôr em vibração para lhe ouvir a marcha da audácia, − batalha de duas ondas: onda marinha, temerosa e traiçoeira, onda musical da energia humana tornada graça. Em terra, já longe, responde o côro das mulheres − a consciência das duas vagas.

A «recachia» continua, assim, em remadas fundas, desafiadoras. Quando António do Monte atira o cano do remo, dir-se-ia que todo o Oceano sente o estremeção do remesso.

E com ardor de semi-deuses, as companhas alcançam a linha da pesca.

Ao rumor da luta sucede silêncio religioso. É o lanço. O arrais da proa persigna-se, e atira a bóia. Acabou o seu reinado. Começa o do arrais da ré, governo mais acidentado, pesado a perícia e a destreza.

Lançada a rede, a companha aí volta, corda bem testa na mão do comando. Olhos na vaga, mal se aproxima e ergue na frente dele o gládio glauco, o arrais passa a corda em oito no leque da ré. Uma remada estica ainda mais o cabo. O barco é aríete apontado ao cabeço da vaga, esperando o ataque. / 267 /

O mar estruge e o madeiro risca a onda que tenta volteá-lo, erguendo-lhe a ré. Mas ainda a nave vai na crista da onda, o arrais, numa manobra de acrobata desdá o nó, e o barco afasta-se, deixando-a prosternada. O mar não desarma. O arrais não afrouxa o cabo que a lonjura reduz a uma linha. Quarenta vidas estão suspensas daquele fio. Vaga sobre vaga, o arrais faz e desfaz o nó, trazendo sempre a corda na mão, bem retesada, presto a defender-se de onda que queira surpreendê-los de costado. Lesto, perito, mantém e leva o barco em seta, riscando onda a onda o caminho marítimo do retorno.

Assim chega a companha à vista de terra.

Agora é mister esperar a maré para varar. A corda mantém o barco que nem fateixa largada contra pedra. A maré vem, o arrais comanda, desfaz o último nó, os homens dão uma remada cega, e o barco aí vai no lombo da vaga que, um segundo, os ergue em triunfo e, espadanante e marulhosa, despedaçando-se em soluços de vencida, os restitui à praia, num penhor de paz.

As mulheres correm a levar-lhes camisas enxutas e ais de alívio.

Da beirinha do mar, as doze juntas de bois, atreladas aos cabos da rede, arrancam praia arriba. As cordas encharcadas vão desdobrando a cauda de sargaço e arando a areia.

Voltam os animais à linha da água; atrelam outra vez; outro puxão aos cabos, e a campanha doba o pesado baraço, doba, doba, duas horas a fio.

Abre o sol. Avistam-se gaivotas. São as núncias da rede.

Uma voz grita:

− Estão as «calas» à vista!

Daí a nada, empós as bóias vem a rede. Bóia o «saco». É a messe. Há aleluias nos olhos das mulheres. Toda a Murtosa está em festa. Corações alagados da mesma ansiedade enxugam ao mesmo sol.

Vai de boca em boca:

− A companha da «Carneira» está a alijar!

De feito, tão pesada vinha a rede que foi preciso tirar sardinha do «saco», ainda na água. Era um regalo ver entrar os sacos bojudos dos redenhos, chatos que nem arcos de papel de
seda, e saírem carregadinhos de sardinha que, quando lhes passavam o bordão no aro de madeira, e os dois homens os carreavam para as latas, os ombros dos hércules davam de si, e os bordões vergavam. Para dar vencimento à fartura, acodem os redenhos mais pequenos, os xalavares, afunilados, jeitosos que é só enchê-los de peixe e pegar-lhes pela aselha terminal para baldear o pescado nos redenhos grandes. Reina a abundância. Só se ouve:

− A lata tem vinte redenhos! − Vinte e dois! / 268 /

Não faz minga contá-los: tem vinte, vinte e dois milheiros.

E os atletas continuam a correr para as lotas, até espremer as últimas malhas, conduzindo, a dois e dois, os redenhos, bordões estremes nas carnes, dorso nu, bronzes fundidos por tempestades.


II

Recolhida a rede, e deixada a escorrer, outra rede se apresta para segunda largada.

António do Monte volta com a companha, para outro combate de ritmos, peito a peito com o Oceano.

Para pescador fora criado de pequenino, assim se criara toda a sua gente. E na ressaca dos séculos assim haviam sido todos, desde que de algum golfo da Hélade se destacara a jangada criadora daquele colmeal piscatório. Filho do mar, afilhado da coragem, tão bem guardara as suas características, que não havia memória de rapaz da Murtosa, que andasse no mar, ir buscar mulher a casal agrícola.

Os braços de António, asas marinhas, não se cansavam daquele caminho. Mas cansou a sua alma, experimentando a desinquieta curiosidade de ir mais longe, por novos caminhos, demandar a fortuna. Na terra não queriam crer. Até à última, fiaram do seu amor à irmã e à velha tia que os criará, que ele não arrepiaria carreira. Um rapaz da companha dissera assim
da teimosia de António:

« − Cuidava que era uma teima pequenina, que cabia pela malha!... »

Qual! O António consultara o seu S. José e, desde que o patrono o não desaconselhara, fosse lá alguém tirar-lhe a ideia da cabeça. Na tripulação dum barco, que aquele ano foi à Terra Nova, viu-se excepcionalmente um rapaz da Murtosa. Ali por Maio, o «Açor» saiu a barra de Aveiro, bem metido na água, carregadinho de sal, muito ufano dos seus três mastros, fazendo-se ao mar com António do Monte, rumo a S. Pedro da Terra Nova.

A tia Mariana, que perdera o irmão, o pai do seu António, perdera o homem, perdera os filhos, cujo coração era retalhado de cruzes, já não podia dispor de muitas lágrimas. Entregou o demónio do rapaz ao Senhor Jesus, soltou um grande ai e cobriu a cabeça com o lenço preto, para não ver o «Açor» levar-lhe o seu António.

Maria do Carmo, a não ser o dó que a toda a Murtosa custara a desgraça da companha do arrais Manuel, essa não sabia o que fosse chorar. A abalada do irmão, tristura de raiz, cegou-a para qualquer alegria. Não o futurara quem tanto a ouvisse cantar. Mas, escutando a letra, logo dava porque a / 269 / cantoria era coração a espantar seus males. Tia Mariana, fazendo-se desentendida, repreendia-a:

− Ó rapariga! Vê se te calas, que quem te ouvir há-de cuidar que estás contente, por o nosso António andar por esse mundo além...

Maria do Carmo não fazia caso; continuava a cantar, na melopeia das naus:

Já lá vão... Porque baloiças
Docemente, negro mar?
− « É iam aprender o jeito
De trazer quem fui levar».
(2)


Dos meus olhos nasce um rio
Que ao teu coração vai dar;
.As águas do mar salgado
Todo o rio vai parar
(3)


Oh! Senhora da Saúde,
Sois pequenina e bem feita;
Livrai os homens do mar,
Dai-lhe a vossa mão direita.
(4)


Nos primeiros nove dias de viagem, a Senhora da Saúde ouviu os rogos de Maria do Carmo; dera a sua mão direita ao António e vento propício ao barco. Ao cair do nono sol, o Carapinha fitara o pensamento no céu e dissera para o Manuel da Barroca:

− Temos o tempo voltado...

− Qu'ais! − desfez o Manuel.

− O' «home». «Nam» vês as nuvens amarelunças? É chuva.

− O mais que pode vir por'i é um pedaço de nevoeiro... − teimou o Manuel da Barroca, no sestro de contradição dos embarcadiços.

Quem tinha razão era o Carapinha, pescador do mar alto que fora fazer vinte anos à Terra Nova e trinta e seis vezes lá festejara os seus natais. No décimo dia de navegação, ali por alturas das Flores, quando o homem que ia de quarto ao leme repetira no sino as seis horas que o relógio da câmara marcava, começou o mau tempo. O Manuel da Barroca surdiu de barlavento para render o quarto. Perfilou-se e, levando a mão ao barrete, exclamou no ritual:

− Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! / 270 /

− P'ra sempre louvado seja! − respondeu o que saía de quarto; e em seguida: − O rumo é oeste-noroeste. Aproveitar o mais que puder.

Manuel já não pôde aproveitar. Carregaram a toda a pressa o pano(5), deixando apenas o triângulo(6), e em árvore seca(7) correram com o tempo, vento pela popa, indo para fora do rumo, aproando vezes sem conta a Portugal. No segundo dia de temporal, todo o navio foi traçado com cabos, para a tripulação se agarrar. Ao leme, dois homens amarrados. Todo o pessoal, à popa. O capitão gritou para o contra-mestre:

− Olha os colhedores de bom bordo!

O contra-mestre correu à gaiuta do leme, colheu Uns cabos e amarrou as enxárcias. O navio tinha uma guinda(8) muito grande. Os colhedores dum bordo rebentaram todos com o
balanço, tal a chicotada que deram os mastros, e mais eram quase todos novos, que não refrescados
(9).

O mar endoidecera. Três dias e três noites durava já a tempestade. O capitão enfurecia-se:

− Ah! mar! Ah! ladrão!

À popa praguejavam os homens:

−- Ah! mar dum cão! − e cuspiam.

Ti' Firmino, possesso de medo, ergueu os punhos para o céu, e foi a voz mais praguenta:

− Se não sabes governar, vem cá para baixo, que eu governo melhor do que tu!

− Home! vocemecê tenha lá mão na língua, que Deus Nosso Senhor inté o pode castigar, e pagamos todos! − advertiu António do Monte, transido da heresia.

− Não t'assustes, verde(10). Deus faz que não ouve. Ele bem sabe que tudo isto é cá um probe de Cristo a chamar por ele! − respondeu o outro, já repeso.

Cresceu a tormenta. Toda aquela gente caiu de joelhos, passando da praga à oração e à promessa.

− Meu Senhor do Bonfim, salvai-me, que eu prometo levar na procissão aquela vela branca! − rogava um.

Outro:

− Prometo uma missa...

Como o grego, António do Monte nunca maltratara o mar nem lhe jogara uma praga. Oito braças de água salgada eram para a sua alma de pescador uma catedral gótica. Frente à imensidão, sorria e estendia-lhe os braços. O mar repelia-o? / 277 /

António do Monte respeitava o seu furor, e reconhecendo-lhe a divindade, anunciava, humílimo, as suas oferendas:

− Na festa de S. Paio hei-de levar na procissão uma cruz do tamanho dum mastro!...

O Carapinha, esse jurava e trejurava:

− Se escapo desta, não torno a embarcar, mil anos que eu viva!

− Bem se fia o mar no que tu dizes! Vens sempre com a mesma cantiga!...

− Quando é que tal ouviste da minha boca, Manuel João?

− Quando? Inda na última «viage»...

O Carapinha, fora de si, batendo com as mãos nos joelhos, soltou o chuveiro dos insultos máximos:

− Enganador! Inda o mar te «espadace»! E para mais, se o disse, melhor. Tu «nam» sabes que um «home» nestas «incasiões» «nam» sabe o que diz? Em a gente se apanhando em terra, são águas passadas!...

O Firmino achou bem tirá-lo de ali.

− Ó Carapinha, vai vestir o fato de oleado...

− Tanto se morre com fato de oleado como sem ele.

− Vai comer.

− Para morrer não é preciso comer.

− E um cigarro?

− Isso vai...

Com o cigarro caiu a exaltação, e com o empardecer disse terceiro dia o temporal.

A alma do marinheiro exalta-se numa volta de vento, encoleriza-se até o enrouquecer, e, de repente, acalma, numa mansidão repêsa.

É como o mar.

III

O «Açor» lá pôde enganar o vento e tomar para oeste das Flores. Boas mil e cem milhas andadas, a uma singradura de duzentas por dia, o Carapinha pôs-se a olhar para o mar. O Manuel da Barroca passou por ele e desfez:

− Estás espantado, «home» de Deus!

− É que somos chegados ao Banco.

− Daqui até lá não me doia a cabeça!

− A quanto apostas? A quanto?

− «Nam» te quero ganhar o cachimbo!

Num remesso, o Carapinha foi por um balde, atirou-o ao mar; puxou, e, metendo a mão, confundiu o Barroca:

− «Nam» vês? Água mais fria... e a cor é outra. «Nam» te dizia que estamos no Banco?

O capitão mandou fazer a sondagem e reconheceu-se que o Carapinha acertara. A cerração confirmou também logo ali / 272 / que estavam no Banco Grande, com todas as suas surpresas. O Carapinha, vesado naquelas águas, ia de olho no mar, prevendo de longe os maus encontros. A sua sensibilidade, óculo de longa vista, avisou o Firmino:

− A gente tem aí uma ilha de gelo(11), não tarda um credo! Não sentes o frio?

Passados momentos:

− Lá está!

E satisfeito de avistar o perigo ao longe:

− Estes vê a gente bem. Agora os «filhos» é pior. São canalha miúda, vêm sorrateiros, rente à água, e quando um «home» mal se precata, estão em cima do navio. Aquele que acolá vem é «mãe». Pelo tamanho, o mar me coma a alma se não é «avó»... Olha! Olha!...

Pela proa via-se o perfil geométrico do Adamastor polar. Havia calma. Ao fim da tarde, o «iceberg» estava quase em frente do navio. O José Gaiteiro, cruzando com o Carapinha, mexeu com ele:

− Ó Carapinha, tu inda t'astrevias a montar o urso branco?

− Sendo preciso...

− «Nam» me parece.

− Também daquela vez ninguém dava nada por mim, veio a ilha de gelo, rebentou o navio, e eu saltei-lhe para cima, escarranchei-me, e andei a passear a cavalo nela até que outro navio me salvou.

− Hoje já lá «nam» ias. Tremem-te as pernas...

O Carapinha fez menção de correr José Gaiteiro com a ponta dum cabo, mas só o apanhou com uma das suas pragas:

− Até te «escalava», se t'apanhasse!...

O pior é que o navio levava tacada da vaga e não saltava como era mister, «adormecia».

− Dá aí uns nós nesse cabo, alma do diabo, a ver se esse raio desse vento acode à gente! − gritou o Carapinha.

Os que tal ouviram, deram os supersticiosos nós, para enxotar a calma. Outros rogavam:

− Sant' Antoninho do Porto! Socorre-nos! Dá-nos bom vento!...

O «iceberg» avançava para eles. Então, abriram a escotilha do sal, tiraram a braço trinta toneladas de carga, e jogando-a ao mar gritavam:

− Vá disto!

O capitão disse para o Carapinha:

− Se a ilha avança e a calma nos não larga, arriamos os «dories» e reboca-se o navio a remo.

É p'ra já. / 273 /

− Lá mais p'rà noitinha...

Não foi preciso. Antes do anoitecer, tinham o «iceberg» pela alheta.

Contente, o capitão entrou com as suas teorias:

− O peixe deve andar no sul.

O ideal seria recolher nos «rocos»(12), ponto muito característico e pequenino, difícil de encontrar com o cálculo à estima e a corrente.

Desistindo de localizar essa meia dúzia de braças onde os pescadores vêem o peixe puxar o anzol e onde há sempre pesca − foram fundear no sul. Lançado o ferro, o vigia gritou:

− Lula!

A tripulação correu acima; tudo se pôs à pesca do isco. E dormido o sono bem ganho, ao romper do dia, acabado que foi o almoço, o capitão comandou:

− Arriar!

N um repente de ânsia de salvação, deitaram os «dories»(13) ao mar. Cada «dory» levava um homem, uma «agulha» e o seu equipamento − dois remos, mastro com uma vela pequenina, ferro com a respectiva «bossa»(14) e... Deus.

Foi a primeira «linha»(15) com rumo indicado pelo capitão. Era o Carapinha, tendo de estreante o António do Monte, imponente com as suas botas novas de borracha e o seu sueste.

Mestre Carapinha olhou o mar e deitou sentença:

− «Nam» 'me parece mau!... Qu'isto com mau tempo é sério! Nem há leme...

− Também «nam» o temos na minha terra, e «nam» se deixa por isso de pescar.

− Isso é que tendes, − é a corda! Aqui as vidas nem por cordéis andam seguras. Que a gente cá se arranja: corpo a barlavento arriba, a sotavento orça, e lá vamos. Com bom tempo é uma fantochada...

Enquanto António remava, o corpo afeito do Carapinha dava a direcção. E sempre a desenferrujar a língua, ia industriando pitorescamente o outro nos costumes do ofício:

− Pescar, todos pescam. Mas, com'ó oitro que diz, cada roca com seu fuso e cada pescador com seu anzol. Os franceses pescam ao «troly». «Nam» sabes o que é? Também eu não sabia quando cá vim a primeira vez festejar os meus anos. O «troly» é assim a modos dum cabo, atadas as pontas cada uma à bóia... − E atento à manobra: − Ceia. Ceia daí... / 274 /

E já despreocupado:

− Pendurados do cabo, os «franciús» põem anzóis a modos de balões. Vão-se embora, beber «giné», e quem fica a trabalhar é o peixe. Os «franciús», ó depois, vêm por aí abaixo e, já se sabe, recolhem o «troly» todo iluminado! Os ingleses, esses, são uns finórios. Cada lúzio! Arranjaram um raio d'anzol que parece mesmo o capelim(16) que vem a ser o peixe de que se sustenta o bacalhau. O mar me coma a alma! s'inté eu não caía naquele anzol. Chamam-lhe eles pescar à «azagaia», que são dois anzóis unidos por chumbo, e que botam ó depois a forma do «cápelim». Nós cá, «antão», «semos» uns burros de carga: pescamos à linha, uma em cada braço. Vai s'a pôr cerração!... Raio de mar traiçoeiro que é este! P'ró capitão é que nunca há nevoeiro. Às vezes, o barómetro a anunciar mau tempo, e ele diz: «isto não é nada». Vai-se a ver, vem o mau tempo, e um desgraçado é qu'assassina a sua vida. Sequer ó menos, a morrer é melhor aqui, que há bacalhauzinho para a gente fazer bem à barriga!

Entre risadas, decidiu:

− Fundeia!... − Aí!... isso!

Soaram então as horas religiosas da pesca. A principio, o peixe não aparecia. Mestre Carapinha, desapontado, praguejava:

− Rai's te partam, peixe, que já me não conheces! Vem daí!...

Acudiu o primeiro peixe ao chamadouro do Carapinha que deu outra lição ao António do Monte: puxado o bacalhau, entalou-o debaixo do braço, deu-lhe o golpe com a faca, e o bacalhau deixou cair o isco, que tornou a servir.

− A lula não se pode «'esperdiçar» ! − recomendou.

A messe começou presta e farta. Três horas depois foram ao navio descarregar o «dory» e voltaram para o mesmo ponto, aproveitar a sorte. O peixe não reconhecia o Carapinha, mas o veterano conhecia muito bem os sítios mais povoados, e não os procurava por palpite, ia direito aos «leijos». Aquilo foi fundear segunda vez, e continuar a puxar peixe, a puxar, até encheI'o segundo «dory».

A cerração aumentava. Ia cerrar-se o dia. Já de três em três minutos, o «Fog-Horne»(17) de bordo buzinava os avisos do código.

− Colhe o ferro!... Vamos embora.

E, no regresso, para entreter, mestre Carapinha foi desentaramelando a língua:

− Erguemo-nos com a graça de Deus! Dois «dories» carregados, num dia, não é lá qualquer coisa... − Sobre novos / 275 / [VoI. VIl - N.º 28 - 1941] sinais do «Fog-Horne»: − O capitão tem «soidades» da gente. Também, não nos faz grande favor! Isto, pelos meus cálculos, deve ir p'ràs quatro.

− Se o nevoeiro apertara, o capitão buzinava na mesma, isto digo eu... − comentou António do Monte.

− Mas se não houvera cerração era multo capaz de deixar aí moirejar um «home» até essas cinco horas... Assim que «havera» ele de fazer?  Um «home nam» vê a bandeira...

− Já é força de expressão! Um pedaço de serapilheira só na Terra Nova se chamaria bandeira, ti Carapinha!

− É p'r'aí uma coisa. Mas em a gente a não enxergando, o capitão toca o fole e inté vai tiro de canhão. E assim mesmo, quantos ficam por esse mar, perdido o tino do navio com o nevoeiro. Ele avisa porque é obrigação... Senão, tanto se lhe dava que morresse um como um cento!... Um «home» enquanto anda por aqui, seis meses entre céu e mar, é escravo e o capitão é rei. Numa «viage», «fize-a» há três estações, vi um capitão dar maus tratos a um pescador, um velhote que tinha ensinado os «capitões», mas quê? Não tinha sorte na pesca. O peixe tomou-lhe embirração, voltava com o «dory» vazio, e era pancada de criar bicho. O «provesinho», uma tarde, fugiu para bordo doutro navio. O capitão mandou lá buscá-Io, amarrou-o ao mastro grande, fê-lo dormir no sal. O desgraçadinho «resfriou». Nunca m'alembra aquela morte que não sinta a modos dum marmelo nas «guelras». E o «marvado» do capitão, que fora o carrasco, a fazer de condoído, a tripulação de joelhos e ele a encomendar: − «Rezem um Padre Nosso por alma do nosso companheiro!» O corpo saiu p'ró mar, e o infeliz era tam bô que se voltou a «despedir-se do navio.»

Já se ouvia mais perto o «Fog-Horne». Duas braçadas mais e atracaram.

Chegados a bordo, o cálice de aguardente com pimenta, dado ao pescador que mais pesca leve, coube ao Carapinha.

− Vai uma pinga, Tónio?

− Obrigado.

− P'ra dar fôrças p'r'à «escala»! (18)

− Ná!

− Levo em desfeita!...

António do Monte aceitou:

− Então cá vai à saúde de vocemecê... − e, tomado um comedido gole, restituiu o cálice.

Mestre Carapinha, pernas especadas em compasso, não fosse entornar-se o néctar, repreendeu:

− Fraco bebedor! Olha o chilro que ele bebeu!... Nem / 276 / que bebesses todo, não te em borrachavas. A gente leva aí vinho do Porto e pipas d'aguardente, mas quê?  O vinhinho tem «incelência», é só lá para o capitão, e a aguardente que ele dá a um «home» em toda a «viage», «nam» enche a poça dum saleiro... Deixa estar. Em chegando a Aveiro, hei de te ensinar a pegar numa caneca de vinho.

Negando, com a cabeça, fé ao que vira, deu um balanço ao braço, a modos de quem lança um foguetão, despejou a pinga de aguardente; depois, com um contrabalanço ao dorso, abriu a boca num regalo de escaldadela e, batendo no ombro de António do Monte, declarou:

− Bebi à tua saúde e à saúde do mar, que é nosso amigo... Dá o pãosinho! Às vezes, também dá a morte. Isto quem dá o pão, dá o ensino, e não há com'ó mar p'ra nos ensinar a morrer. Raios o partam! Eh! Eh! Eh!

− O mar é sagrado, ti Carapinha! É o nosso «cemintério». Tem lá tantos dos nossos! É sagrado!

− Tens bô pensar, rapaz! Mas agora larga lá a escôta das falas e vamos à «escala».

Rápido que nem volta de mar, Mestre Carapinha atou o avental, calçou as luvas de borracha e foi-se às complexas operações(19) de decapitar, estripar e escorchar o peixe, até o enfiar pela mangueira de lona, goela do porão onde o esperam os salgadores.

Sentado num mocho, na atitude de «rajá» à chegada da carga preciosa, o capitão preside à salga, vendo-se, a despeito da frouxa luz das velas, a cupidez com que vai contando as equilibradas pilhas do seu tesouro.

Estreia excelente! Não podem meter mais peixe, enquanto não escoarem a água: uns dias de boa vida, a pedir vaga para que haja balanço e o peixe acame.

Ao termo de três dias, já arriaram os «dories». / 277 /

IV

António do Monte ainda fora uns tempos com o Carapinha. Mas em breve dado por pronto, logo começou a ser apontado como um dos mais prováveis vencedores do prémio que o capitão do Porto criara para os melhores pescadores da Terra Nova. Ou o António não fosse da Murtosa!

− Tenho S. José por mim! − dizia ele para o mestre Carapinha.

E tinha, e sempre alumiado pela fidelíssima saudade de Maria do Carmo. Desde que ele do Monte se partira, no oratório onde entronizara a imagem em vulto de S. José, a lampadazinha não deixara de fazer os seus humildes rogos. Ali fora o António rezar, antes de tomar a bateira para Aveiro. No seu lugar ficara a morena Maria do Carmo. Ela lhe tratava do oratório quando limpava a cómoda, ela lhe cuidava a lâmpada votiva. Se as saudades apertavam ou o mar se arrenegava, Maria do Carmo ajoelhava, rezava, rogava, lembrava a S. José o seu afilhado que andava nas águas do mar. Ajeitava o retrato do António que não saía do oratório, de modo a que os olhos misericordiosos do Senhor não despegassem dele. Erguia-se, então, consolada e crente que S. José o tinha de sua guarda.

Um dia, ali por Agosto, ao deitar o azeite, sem querer embarrou com um braço na lâmpada que tombou, entornando-se. Maria do Carmo persignou-se. Chamando a si toda a calma de que era capaz, apanhou a lampadazinha e tornou a enchê-la de azeite. Segunda vez o mesmo fracasso aconteceu: a lâmpada virou-se e o azeite alastrou pela toalha de crivo que fazia altar da sua cómoda pobrezinha.

Aflita, pegou no retrato de António, beijou-o como a relíquia, e gritou entre choros:

− Não saias hoje ao mar, António! Não saias, meu irmãozinho! Pelas cinco Chagas! Pelo teu S. José! Não saias!

O Senhor não quer a luz...

A tia Mariana acudiu, assustada:

− Que «estampatório» é este aqui, Maria do Carmo?... − O Senhor não quer a luz! Duas vezes enchi a lâmpada do oratório e duas vezes lhe embarrei e se verteu o azeite. Tenho o coração negro como a noite! O que vai ser do nosso António? O que vai ser de nós, sem ele?

− Sossega, rapariga! isso são coisas que assucedem. Olha agora! Tu não dizes que embarraste na lamparina do Senhor?

− Mas foi sem querer... E mais eu estava com todo o cuidado... / 278 /

− «Antão»?... Se ela se apagasse, pior era! Ou se se entornasse sem ninguém lhe tocar...

− A tia fala bem...

− Cala-te, Maria! Não estejas a dar espectáculo. O que há de dizer a vizinhança?...

Maria do Carmo sufocou a aflição, mas ficou-se num novelinho de dor, ajoelhada aos pés do Senhor, a chorar e a rezar.

Ao outro dia, o mar abonançara.

− Vês com'ó mar está bó?

− Mas ontem... ontem, tia?

− Sabes que mais? O teu irmão pode voltar quantas vezes quiser à Terra Nova, que quem não fica contigo sou eu.

− Ande, diga-lhe isso, p'ró António fazer suposições de que eu não tive juízo!

− «Nam» qu'eu sei como falo! Queres que te diga? Contanto que não fosse «tolêdo», tomara eu que tomasses afeição a qualquer. Sequer ao menos distraías-te dessa saudade do teu irmão. Não tens mais em que pensar...

− Melhor! Ele é meu irmão, faço eu muito bem.

− Olha, muito bem não te fará! Andas aí esmagriçada que, a continuar assim, desapareces. Só tens a triste armação da cara.

E a tia Mariana aproveitou o ter-se quesilado, para ir longe das vistas da rapariga passar o rosário das saudades, pelo seu António.

Maria do Carmo bem a conhecia, tanto que lhe jogou de lá: − A minha tia a fazer-se forte... e sabe Deus! E vontade de ralhar, pois é?

A tia Mariana voltou, para responder, terminante:

− Não ralhes tu, que eu de mim não me enfado por gosto. Bem me basta a ralação de te ver para aí a definhar. O que há de dizer o teu irmão?

− Em ele vindo, engordo sem comer. Traga-mo Deus!... − Já faltou mais. Agora p'ra Outubro... temo-lo cá, se Nosso Senhor quiser!

− Eu bem lho peço...

− E eu bem te oiço... − respondeu a rir a tia Mariana.

− Só quem fosse surdo é que não dava pela cantoria que vai às vezes nessa casa.

− Pois p'r'à minha tia não me ouvir, daqui p'r'ó futuro vou cantar para onde ao mar...

− Bem sei. Cuidas que o António te ouve lá em casa de Cristo.

Os olhos de Maria do Carmo avermelharam-se, como se uma chapada de areia lhes houvesse batido; e, muito séria, disse para a bondosa tia Mariana:

− A gente sabe lá, minha tia! As vezes parece-me que ouço a voz do António chamar por mim... Ou, então, vejo-o / 279 / caminhar direito a mim, os olhos escuros a rir para a gente. Quando ele se foi de onde a nós, via-o alegre e de saúde. Agora... Vejo-o outro, falto de cor... estará doente?

− Nossa Senhora há de permitir que não.

− Olhe que ele já anda por lá há um bom par de meses! Faço ideia as saudades que terá desta casa... Tanto gosta de a trazer caiadinha!

E Maria do Carmo, saindo ao eirado, trauteou quase em salmo:

Ó Senhora da Saúde
Sois pequenina e bem feita...

Canastra à cabeça, o lenço vivo a sair do chapelinho, cor de breu, e caindo em ponta para as costas, blusa do castanho das redes usadas, saia rodada, pronta a bailar, cor do mar dormente, ensacada pela faixa negra do negrume das dezoito braças, aventalinho verde de alga, a Carolina passava, numa graça de Vénus nascida das ondas. Parou. E, na sua voz de vaga espreguiçada na areia, disse para o eirado:

− Estás a ensaiar p'r'ó S. Paio?

− Este ano o meu S. Paio é aqui entre estas quatro paredes.

− Porquê, mulher! Morreu-te o «home» no mar?...

− Mas trago lá o meu irmão, bem sabes.

Atraída por aquela melancolia, a Carolina dispôs-se a demora. Arriou, sentou-se na canastra, os cotovelos agudos nos joelhos, as mãos esguias, juntas nos pulsos, segurando o manto, donde os dedos longos partiam em duas ansas que iam prender às têmporas.

Era uma ânfora, em que houvesse ficado, esquecida pelos séculos, alguma gota de vinho de Thasos.

− Ele quando vem o teu António?

− Menos d'Oitubro...

− «Antão»! Hás de perder o S. Paio?

− Se em vez de Setembro, fosse para o mês de além... − Até o S. Paio pode levar a mal que lhe não vás pedir pelo teu irmão...

− Já lhe fiz a minha promessa... para cumprir para o ano.

− «Nam», nós não te deixamos faltar. Olha o pecado! Não ir ao S. Paio?... Vimos cá buscar-te.

− Perdeis o tempo.

E perderam. Não que Maria do Carmo não andasse agora mais alegre.

Começavam a cair as folhas dos castanheiros. Os barcos alados pelo florescer de Maio iam retomar da noite polar. Cada dia de ausência a mais era um dia a menos para o regresso.

Maria do Carmo era a alegria em ritmo. Na sua boca, as trovas abriam em cantos de esperança. Caminhava-se para o Outono, e dentro dela, no seu peito e no seu olhar, ardia a luz / 280 / das primaveras de Homero. Era Anfitrite purificada. Ver esse bloco de estatuária vasado em ritmo dava a certeza de que o mar é o eterno criador das obras de arte. Se não fosse filha dum trecho da costa musicada de Portugal, tinha forçosamente de ser uma deusa da Hélade, arremessada às nossas praias pelo orgulho do mar Egeu.

Na sua voz de agora andava a rememoração do azul da Grécia. Cantava, cantava sempre, mas a mesma canção tinha outra cor, mais movimento, vida.

V

Pelas brisas de Outubro, Maria do Carmo houve boa nova: com as recargas do tempo, entraram os primeiros barcos, e o capitão do lugre «Ondina» anunciava que dentro de dois ou três dias o «Açor» devia estar em Aveiro.

Quarenta e oito horas depois, Maria do Carmo e a tia Mariana tomavam, no lugar do Chegado, a bateira do Cadeirinha.

Maria do Carmo ia linda. Era a mulher da Murtosa, moreno de cera virgem, e aquela gravidade das estátuas helénicas que deve ser a consciência da sua graça misturada do pesar de não serem aladas. A sua chinelinha tinha gracilidade de escarpim, não ousando aflorar o tornozelo, modelado pelo cinzel grego que lhe tocara a cintura e a curva do pescoço. O xale, prendendo, o lenço em coifa, parecia o manto duma deusa do paganismo levada em procissão, Ria acima, uma Oceânide transportada, pelo istmo de Corinto, do Peloponeso para a Hélade acolhedora.

A sua alegria pegou fogo aos corações dos rapazes e raparigas. Cantaram toda a jornada. A luz da Ria doirou aquela manhã uma escultura da felicidade, e o silêncio daquela água ouviu o tumulto musical das suas trovas conhecidas:

Oh! S. Paio da Torreira,
Abri a vossa capela,
Que eu quero entrar lá dentro
Com o meu barquinho à vela.


Oh! S. Paio da Torreira,
Arregaçai os calções
Vinde a baixo à Lagoa
Apanhar os camarões,


A Senhora da Saúde
Tem vinte e quatro guaritas,
O S. Paio da Torreira
Manda-lhe muitas visitas.
 

S. Pedro foi pescador,
As redes ao mar lançou;
O S. Paio da Torreira
Também às redes puxou.
(20)


Duas horas e meia de cânticos. Acabou-se-lhes o caminho. O «Açor» só na manhã seguinte entrou a barra de Aveiro. Maria do Carmo, mal pôs o pé no convés, começou a chamar:

− António! Ó Antó...nio!

Como não o visse nem ouvisse, foi perguntando aos tripulantes:

− O António do Monte? Sabe do An...

Os homens sumiam-se, açodados, sem sequer lhe dar a salvacão.

Maria do Carmo tornava ao seu ansioso pregão:

− Ó António!... Tónio!...

A tia Mariana futurou:

− Sabes o que me está cá a vir à lembrança? É que o António está por aí a enfardar a roupinha. − E decidiu: − Não saias daqui, p'r'amor de nos não perdermos uma da outra, qu'eu vou lá abaixo ver se o vejo.

Maria do Carmo ficou-se muito séria, acompanhada da sua impacIência.

Tia Mariana abalou. Ao pé da gaiuta do leme topou mestre Carapinha, rogou-o. Vai, então, ele informou:

− Assim com'assim vocemecê tem de o saber. Ouça, vocemecê.,. O mar, no Banco, tem ocasiões que é muito forte. Há muita «aguage». O mar embarca dentro do «dory», a gente apanha aquele susto mas esgota a água e safa-se do perigo. Num dia, era Agosto, o seu António estava a pescar mesmo ao pé de mim. Veio a «aguage». O mar bateu-lhe, ele era um rapagão, alto qu'eu sei lá, caiu, virou-se-Ihe o «dory» por cima dele. Dei duas remadas, a toda a força, cheguei lá, vi o «dory» mas não o vi a ele. Era um grande marinheiro! Teve o prémio!

− Bô prémio! − soluçou a tia Mariana.

E desandou, varada, direita à Maria do Carmo. Só lhe deu estas palavras:

− Vamos embora, Maria do Carmo.

− E o nosso António?!...

− Nossa Senhora nos acuda! Ficou no mar...

− Que diz, minha tia? Ficou no mar? No mar?!...

Maria do Carmo rodou penosamente a cabeça, primeiro à / 282 / direita, à esquerda depois, e rompeu em gargalhadas que transiram de horror quantos por ali andavam.

Levaram-na dali. Todo o caminho, lidou com o lenço, a pousá-lo nos joelhos, para se pentear, num alindamento que não tinha fim, e cantando, numa voz mimada que entristecia a
própria luz do dia agonizante:

Já lá vão... porque baloiças
Docemente, negro mar?
É para aprender o jeito
De trazer quem fui levar... »


Nunca mais a sua pobre alma acordou.

Num pasmo, passa horas e horas de olhos empregados no mar, naquela fixa, intérmina abstracção dos que, na falta de razão das amarguras, perderam a razão. Umas vezes chora como criança pequena. Outras, então, sorri embevecida, dá gargalhadas sem ritmo, de sob a laje da sua tristeza exalam-se gemidos, e canta a patética miragem da morosa felicidade.

Se uma vela desliza na Ria ou aponta na imensidade deserta, Maria do Carmo retoma a sua lida inocente de desenriçar os cabelos, coifar-se, mirar-se, remirar-se, na ilusão de quem se alinda para ir esperar alguém... Ora soluçando risos, ora enxugando lágrimas ao sol do engano, numa queixa dolente de quem adormece esperanças mortas, jeito do mar embalando uma bateira, a sua voz repete, aprendendo-a com o oceano e ensinando-a à Ria, a dilecta canção do regresso

...,...................................
.......................................
Livrai os homens do mar,
Dai-lhe a vossa mão direita.

JOAQUIM LEITÃO

_________________________________________

(1) Recáchio? Recácho? De recachar?

(2) ANTÓNIO CORREIA DE OLIVEIRA, Soldado que vais à guerra. 

(3) − Mil Trovas, de AGOSTINHO DE CAMPOS e ALBERTO DE OLIVEIRA.

(4) Mil Trovas, de AGOSTINHO DE CAMPOS e ALBERTO DE OLIVEIRA..

(5) Tirar o pano.  

(6) Vela pequena.

(7) Sem pano nenhum.

(8) Grande altura de mastro. 

(9) Consertados.  

(10) Estreante.

(11) Iceberg..

(12) Rocs.

(13) Pequeninas canoas, feitas dum só lenho, espécie de meia casca de noz, esboroada no miolo.

(14) Cabo.

(15) Pescador.

(16) Kapplin.  

(17) Caixa com um fole, um manipulo, duas palhetas e duas buzinas, imitando o som do vapor, de que se servem os navios na Terra Nova, para sinais sonoros, durante o nevoeiro.

(18) −  Preparo do bacalhau

(19) Esse serviço, a que, no conjunto, se chama a «escala», tem três tempos, antes de chegar à salga. Primeiro − Um golpe na cabeça do peixe por baixo das guelras, outro na barriga, caindo-lhe logo as tripas. Outro operador, com um murro, destaca a cabeça do bacalhau, passando-a aos moços, que lhe arrancam as línguas e a escorcham, tiram-lhe as tripas e o fígado que, por um buraco da mesa, se some dentro dum cabaz. Um terceiro homem, o «escalador», nas mãos de quem está o peso total e, portanto, o aproveitamento da pesca, impando de importância e de perícia, dá o resto do golpe, até à ponta do rabo, abrindo o peixe. Um último golpe no espinhaço do bacalhau secciona e arranca-lhe a espinha para o lado da cabeça, deixando-a só do umbigo para baixo. Mais uns instantes para o lavarem, e é só salgá-lo − operação de peso e responsabilidade − e estivá-lo.

(20) Folclore murtoseiro.

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