J. Carrington da Costa, Os fósseis de Aveiro e algumas considerações geológicas, Vol. VII, pp. 83-98.

N.º 26 − Junho, 1941

ARQVIVO

DO DISTRITO DE AVEIRO

Directores e proprietários:

ANTÓNIO GOMES DA ROCHA MADAHIL

FRANCISCO FERREIRA NEVES

JOSÉ PEREIRA TAVARES

Editor:

FRANCISCO FERREIRA NEVES

Administração:

Estrada de Esgueira − AVEIRO


Composto e impresso na Tipografia da Gráfica de Coimbra − Largo da Feira, 38 − COIMBRA


OS FÓSSEIS DE AVEIRO E

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

GEOLÓGICAS

O concelho de Aveiro encontra-se na orla post-paleozóica ocidental. Os terrenos mais antigos, que bem se destacam devido ao seu intenso colorido em vermelho, são em geral gresosos, mas, por vezes, abundantemente argilosos, quase fazendo passagem a grosseiros argilitos. Estendem-se com interrupções na margem esquerda do Vouga, de Taipa até Hortas, e, na área que nos interessa, limitam-se à escarpa, com excepção dos afloramentos de Eirol e de Requeixo.

Tais depósitos foram notados pela primeira vez neste concelho por DANIEL SHARPE, o fundador da Paleontologia portuguesa. Baseando-se nos seus caracteres petrográficos, paralelizou-os com os grés do Jurássico superior de Buarcos, embora em dúvida por ter observado a sobreposição directa a rochas metamórficas. Na verdade, a sua idade é mais antiga. Como aqui não apresentam fósseis, a determinação estratigráfica tornar-se-ia absolutamente impossível se não fizessem parte, com toda a evidência, de conjunto de grande unidade litológica, que se dispõe como que debruando a Meseta, e serve de base aos primeiros depósitos liásicos, em concordância, e parece que sem lacuna. Os elementos paleontológicos encontrados em outros locais apenas consistem em maus restos de vegetais, e os pontos mais próximos em que se colheram foram Vacariça e Raposeira. Classificados por OSWALD HEER, pouco esclareceram. A flórula de todo o país foi, porém, mais tarde estudada pelo marquês de SAPORTA, que, tendo em consideração o número restrito de espécies, não pôde determinar a idade, mas era sua opinião / 84 / haver muitas probabilidades para que fosse triásica. E, como tal, tem sido desde então considerada.

É de crer que a grande transgressão liásica, de tão notável envergadura, tivesse atingido esta área; todavia, não se encontra no concelho nenhuma testemunha. Não há representação alguma do Jurássico.

Os primeiros terrenos paleontologicamente datados são os cenomanianos do «nível com Neolobites». Mas, de certo, não há lacuna completa entre estes e o Triásico, pois ocorrem em vários pontos formações grosseiramente detríticas que se lhes intercalam e se mostram idênticas a outras que, mais a Sul, repousam sobre o Liásico. São cascalhos e areias grosseiras caulínicas com calhaus angulosos, tendo, num e outro ponto, leitos de grandes calhaus rolados; conjunto este que suporta argila muito untuosa ao tacto, fracamente micácea, em parte branca, em parte vermelha violácea. PAUL CHOFFAT incluiu estes depósitos estéreis no seu andar Belasiano(1), que abrange a parte superior do Albiano e a inferior do Cenomaniano.

 Aquele nível fossilífero só foi reconhecido aqui ,na estrada de Palhaça a Oiã. Em calcários margosos de Águas Boas colheram-se bastantes moluscos e equinodermes; além da característica amonite Neolobites Vibrayi D'ORBIGNY, Pteroceras incerta D'ORB., Tylostoma Torrubiae SHARPE, Neithea laevis DROUET, N. quinquecostata, sow., Gryphaea biauriculata LAMK, Exogyra columba LAMK, Ex. olisiponensis SHARPE, Ex. flabellata GOLDF e Hemiaster lusitanicus P. DE LORIOL, para apenas citar os mais Importantes.

É bastante longe - 300 m a S. O. do sinal geodésico do Carrejão, um pouco a norte da estrada de Oliveirinha a Requeixo − que se encontra outra formação calcário-margosa, de que não se conhecem as camadas subjacentes, a qual tem sido considerada como turoniana. Os fósseis que ali se apresentam conservam a concha, mas são bastante frágeis, destruindo-se com muita facilidade ao serem colhidos. CHOFFAT chegou a pensar na possibilidade de se pôr a hipótese de tais depósitos serem superiores à série cenomaturoniana e então sincrónicos do Senoniano marinho do Ceadouro ou de Mira; porém, ele próprio pôs em evidência que a abundância de Neithea laevis e de Exogyra columba contrariava essa interpretação, tanto mais que em Mira só aparece a espécie Faujasi do género Neithea e a secção das Rhynchostreon apenas está representada por um único exemplar de Exogyra decussata GOLDF.. A presença em Carrejão de Trigonia sulcataria LAMK., levou-o então a incluir aqueles estratos na «camada com Anorthopygus» que, embora inicialmente em / 85 / dúvida, mais tarde sempre apresentou como fazendo parte do Turoniano inferior. Somos, porém, de opinião diversa e, de acordo com HAUG, tendo em consideração alguns elementos da sua fauna como Anorthopygus Michélini COTT. e A. orbicularis D'ORB., pensamos ser mais lógico incluí-los ainda no Cenomaniano.

A estes sedimentos sobrepõem-se argilas escuras, micáceas, em que os fósseis são abundantes, mas dificilmente classificáveis. A presença do género Pectunculus e da espécie classificada, em dúvida, como Neithea regularis SCHLOTHEIM, levou CHOFFAT a pensar que anunciaria, possivelmente, a fauna senoniana de Mira, a qual, por isso, deveria ser colocada na base do Neocretácico. Esta última hipótese é, contudo, inadmissível, pois aquela fauna é sem dúvida alguma campaniana, e apenas se reconhece pertencer ao Coniaciano a do «grés de Ceadouro». É, todavia, provável que as argilas superiores do Carrejão sejam já emscherianas. Sendo assim, não se encontra representado no concelho de Aveiro o Turoniano incontestável.

Imediatamente mais moderno é o complexo flúvio-marinho que abrange a maior área e que atribuímos ao Aturiano, sem ser possível fazer-se a distinção entre o Campaniano e o Maestrichtiano. Foi ele estudado já com minúcia nesta mesma revista(2), razão por que nos abstemos, por agora, de fazer novas considerações de ordem estratigráfica.

Além do depósito arenoso belasiano a que fazemos referência, outros de análogo tipo petrográfico se mostram em grande extensão, e por vezes com notável possança, na região em estudo. O único critério geralmente seguido até hoje para determinar a sua idade baseia-se na percentagem existente de substância caulínica. Quando esta abunda, as areias são julgadas cretácicas; caso contrário, pliocénicas ou antropozóicas conforme a sua posição relativa no terreno e a homogeneidade do seu grão.

Se alguns desses depósitos devem, na verdade, ser ainda atribuídos ao Cretácico, de fácies mais costeira, outros são, sem dúvida, mais modernos. Como, infelizmente, não há fósseis, somos obrigados a apoiar-nos na tectónica, se quisermos tentar estabelecer a sua posição na escala estratigráfica.

Na cidade de Aveiro, os depósitos de materiais menos coerentes parece terem-se sedimentado após lacuna apreciável, mas, em outros locais do concelho, o facto não é tão evidente, sendo mesmo impossível a distinção quando se encontram subjacentes materiais do mesmo tipo, quer senonianos, quer mesacretácicos. / 86 /

As transgressões neogénicas não deixaram sedimentos datados, para norte da foz do Lis. É provável, porém, que no Plaisenciano se tivessem realizado incursões marinhas, de maior ou menor envergadura, até à região de Ovar; mas nada de positivo é possível dizer-se, não só devido às razões anteriormente expostas, como ainda à ocultação produzida pela larga faixa marginal holocénica. Durante a regressão vilafranquiana deve-se ter dado importante orogenia. Como consequência houve modificação e rejuvenescimento do relevo, o que modificou a rede fluvial e activou a acção erosiva. O rio Cértima captou o Vouga, segundo a opinião do Dr. ALBERTO SOUTO(3), desviando-o do seu curso normal e consequente, que deveria orientar-se N. E.−S. O. como o seu curso médio, para S. E.−N. O., − ou seja na direcção, reconhecida hoje como a dos mais recentes alinhamentos tectónicos. Os rios tinham, decerto, carácter torrencial e, por isso, as cheias foram rápidas e violentas, e os materiais sedimentados geralmente grosseiros. Foi-se originando então o mais alto terraço fluvial. Como em outra trabalho concluímos(4), devem ser vilafranquianos muitos depósitos de calhaus rolados das mais variadas dimensões, mesmo os grandes blocos, dispersos. entre Condeixa e Aveiro, e grande parte das areias que, por não apresentarem fósseis nem estarem ainda estudadas granulimetricamente, podem ser confundidas com outras mais antigas ou mais modernas.

Foi portanto devido a esta activa erosão, auxiliada por fenómenos de solifluxão, que tais sedimentos se foram acumulando nas regiões mais baixas, constituindo em grande parte as gândaras visíveis em extensas áreas de Estarreja para o Sul, e que tão características se mostram na região em estudo, como entre Cacia e Esgueira, na Oliveirinha e na Quinta do Picado. Sincronicamente se depositaram as areias grosseiras, superficiais, margosas e micáceas, com grandes calhaus rolados e outros mais pequenos achatados, ou com o seu bloco de arcose, como foi notado por CHOFFAT, entre Eirol e Carcavelos.

Fig. 1 − FÓSSEIS DE AVEIRO

I
II
III
 
IV
V
VI

Cyrena sp. aff. Cyprina oblonga D' ORBIGNY

Cyrena an sp. nov.

a) Glauconia sp.

b) Cyrena solitaria ZITTEL

Cerithium Vidali CHOFFAT (molde interno)

Bulimus Gaudryi CHOFFAT

Melania sp.

(Os exemplares mostram-se ligeiramente reduzidos; o V é pertença do Gabinete de Ciências Naturais do Liceu José Estêvão).  / pág.87 /

No final desta idade foi-se acentuando a diminuição no calibre dos materiais transportados, enquanto a linha de costa se ia afastando e se aproximava da isóbata de − 500 m. Foi daqui que, muito provavelmente, o mar tirreniano, ou ainda siciliano, partiu para nova transgressão, a qual, no seu apogeu, devia recortar o continente de maneira bem diferente da actual. Não se apresentam, porém, no concelho de Aveiro, depósitos originados por este fenómeno que, a existirem, se encontram em / 88 / profundidade encobertos pelas formaç6es flandrianas. É muito provável, todavia, que ali ocorram terrenos sedimentados no Tirreniano, mas da fase regressiva. Durante a sua regressão, a grimaldiana, houve actividade tectónica, com predomínio de movimentos epirogénicos que elevaram o interior do nosso território e acentuaram, em muitos pontos, os desníveis costeiros. Devido a esse aumento de altitudes, novamente se intensificou a acção erosiva. Como, quase sempre, os materiais então sedimentados, têm as mesmas características geoquímicas que os da regressão vilafranquiana, deles se torna impossível, na maioria dos casos, distinguir. Pode-se, porém, dizer que foi durante esta última retirada do mar que se formaram os curiosos vales que se estendem paralelos entre a foz do Vouga e a Ria de Vagos, os quais tiveram o seu nível de base muito mais baixo, quando a linha de costa se encontrava, aproximadamente, pela altura da actual isóbata de − 200 m.

Os depósitos, que se sedimentaram nos talvegues, foram devidos à deslocação daquele nível de base, motivada pela actual transgressão, a flandriana. Esta é evidente como muito claramente foi demonstrado pelo Eng. C. FRElRE DE ANDRADE(5), embora na região em estudo a deslocação da linha de costa − as antigas ribas são hoje taludes na cidade e arredores − dê a impressão de movimento em sentido contrário. Este recuo, porém, tem outra causa. É que, ao presente, a transgressão é suficientemente lenta para permitir o assoreamento − devido à acção da corrente marinha que se efectua no sentido N.-S. das reentrâncias costeiras e das embocaduras dos rios e ribeiros, até se constituir um alinhamento de equilíbrio. Portanto, todos os depósitos, relativos a este concelho, indicados na Carta Geológica de 1899 pelas letras d e I, são os mais modernos e de idade flandriana. A sedimentação ainda se continua, activada pela acção eólica. Verifica-se assim, que a chamada planície aveirense não foi devida à abrasão marinha, como se chegou a supor.

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Das considerações feitas se conclui que a cidade de Aveiro assenta em sedimentos de três idades: aturiana, vilafranquiana e flandriana. Muito restritos ou nulos serão os depósitos visíveis tirrenianos da fase regressiva, atendendo à fraquíssima possança das formações arenosas post-cretácicas e ante-flandrianas.

São bastante recentes os estudos destes terrenos. CHOFFAT não chegou a empreendê-los, tendo-se contentado com a observação do depósito de Vilar e as informações fornecidas por / 89 / VASCONCELOS PEREIRA CABRAL que na cidade colheu alguns fósseis, os quais aquele notável geólogo classificou como Hydrobia Vasconcellosi e Cyrena Marioni. Foi dois anos mais tarde que a sua descrição foi apresentada(6) bem como a de outros, colhidos em diferentes pontos das formações senonianas. CHOFFAT chamou a atenção para o facto das determinações paleontológicas não poderem ser rigorosas, atendendo ao mau estado de conservação do material; e declarou que foi para poder citar as formas nos trabalhos estratigráficos que se viu obrigado a servir-se de designações provisórias ou a dar nomes específicos a espécies que lhe pareceram evidentemente novas, embora lhe fossem imperfeitamente conhecidas.

Outra preocupação o dominou, tornar conhecida uma fauna, a respeito da qual consultara os mais notáveis especialistas da época que pouco o elucidaram, pois poderia dar-se o caso de aparecer alguma semelhante em qualquer outra região da Europa, em melhores condições de estudo.

Se a descrição teve de ser muito deficiente pelas razões expostas, a figuração não foi mais feliz, principalmente no que diz respeito à ornamentação das formas mais pequenas.

Foram aqueles os dois primeiros fósseis de Aveiro registados. Só muito posteriormente o Dr. ALBERTO SOUTO(7) indicou o aparecimento de Bulimus Gaudry, nas argilas margosas do canal de S. Roque, em cortes de exploração industrial para a fábrica de cerâmica da viúva de José Pereira Campos.

A outras espécies fizemos nós referência nesta mesma revista − Cyrena aff. galoprovincialis, Cyr. aff. Cyprina ablonga, Dentalium (Fustiaria?) sp., Clastes lusitanicus, restos de quelónios da família Bothremydidae, coprólitos e corpos cilíndricos de origem problemática − mas, como se tratava de trabalho puramente estratigráfico, nenhumas considerações de ordem paleontológica foram então feitas. É, porém, o que nos propomos realizar agora, não só relativamente àquelas formas, mas também a outras colhidas posteriormente, em especial pela nossa aluna D. Florinda Machado, a quem marcámos como trabalho de estágio, para a sua licenciatura em Ciências, investigações geológicas nesta região. A si se deve o podermos indicar ainda Clastes postulosus e alguns gastrópodes de dificílima classificação, devido a serem moldes imperfeitos, mas que, não somente pela primeira vez foram colhidos na área da cidade, como ainda são inteiramente diferentes dos encontrados nas formações senonianas portuguesas dos outros locais. / 90 /

Não é pequeno, relativamente, o número de espécies fósseis que aparecem no concelho de Aveiro. A sua descrição ou está por fazer ou se encontra dispersa por várias publicações, nem sempre acessíveis aos leitores do Arquivo. Algumas não foram reproduzidas. E, embora outras estejam expostas no Liceu e no Museu Regional daquela cidade, há toda a vantagem em descrevê-las e figurá-las. Poderá assim ser despertado o interesse, se não para a investigação paleontológica especializada que é de grande delicadeza e exige conhecimentos e bibliografia adequados, pelo menos para a colheita de material que possa vir a ser objecto de análise a fazer por pessoa competente.

Neste artigo apenas se estudará a fauna recolhida na área da cidade ou seus mais próximos subúrbios, deixando para outra oportunidade a do resto do concelho.

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Os fósseis mais frequentes correspondem a moluscos, embora em certas camadas sejam muito abundantes os fragmentos de carapaça de quelónios; as escamas, vértebras e dentes de peixe ocorrem, segundo esta ordem, em menor percentagem. Daqueles invertebrados, são muito numerosos como indivíduos os lamelibrânquios, cujos moldes, nalguns casos, chegam a cobrir por completo a rocha. Os gastrópodes, porém, mostram maior variedade genérica. De escafópodes apenas foram colhidos dois exemplares, que é possível pertencerem a dois subgéneros diferentes. Alguns estratos contêm grande quantidade de coprólitos ou de corpos cilíndricos de origem problemática.

No Gabinete de Ciências Naturais do Liceu de José Estêvão(8) existe uma amostra de molasso, muito fossilífero, que consta ter sido encontrado por um antigo aluno, próximo, de Aveiro. Bastante pequeno, tem todo o aspecto de pertencer a depósito marinho miocénico, pois notam-se fragmentos de moluscos dos géneros Arca e Turritela que parecem especificamente iguais a outros dessa idade muito abundantes na bacia do Tejo. Seria de extraordinária importância verificar se de facto é verdadeira a presença de tal formação nesse concelho, mesmo na província da Beira Litoral, onde ainda não foi reconhecido qualquer terreno, que possa, incontestavelmente, ser atribuído ao Mioceno.

Também, em tempo, nos mostraram um fragmento de fóssil que apresentava ornamentação assaz semelhante à da espécie de Pyrgulifera que CHOFFAT classificou como armata var. gandarensis. / 91 / Não será de admirar que se confirme a sua ocorrência em Aveiro, posto que já foi registada em Santo André, Covões, Soza, Vagos e Quintãs.

Aproveitamos a oportunidade para fazer algumas considerações. Aquela variedade não corresponde, à forma típica Pyr. armata MATHERON, bem característica do Daniano, visto ter também analogias com a espécie Pyr. Matheroni do Maestrichtiano; além disso, os exemplares que serviram para o seu estudo eram todos incompletos e apenas moldes, a tal ponto imperfeitos, que aquele notável geólogo chegou a pensar em certa semelhança com Melania Matheroni ROULE. Por tais motivos e até que sejam obtidos melhores elementos que permitam fazer diagnose mais segura, pensamos preferível, a fim de evitar conclusões possivelmente erradas de carácter estratigráfico, aplicar à forma portuguesa a designação específica de Pyr. gandarensis. A verdade é que, com os conhecimentos actuais, somos obrigados a considerar os sedimentos, onde ela aparece, mais provavelmente maestrichtianos do que danianos.

Passaremos a analisar os fósseis que não oferecem dúvida quanto à sua localização:


GASTRÓPODES

Bulimus Gaudryi CHOFFAT − Esta espécie foi baseada apenas sobre moldes internos, e, portanto, em condições de não permitir boa descrição. A concha é ovóide subglobulosa, acuminada para trás e imperfurada; a espira, bastante curta na juventude, tornava-se muito mais larga com a idade; a abertura é medíocre, acuminada atrás e largamente arredondada na frente.

Os exemplares encontrados .em Aveiro (fig. I, V), correspondem bem a esta diagnose, e como moldes que são, não fornecem mais elementos; a columela continua a ser desconhecida.

Os Bulimus s. lat., são bastante raros nas nossas formações geológicas. Além dos da fáunula quaternária do Alentejo, em dúvida considerados como tal, apenas se regista Bul. (Anadromus) Ribeiroi TOURNOUËR, muito abundante nos depósitos argilo-piroclásticos do chamado «Manto basáltico», que, com mais frequência, tem sido atribuído ao Eoceno. Essa espécie parece aproximar-se da actual da América do Sul, B. (Plecocheilus) signatus WAGNER, e, por isso, TOURNOUER a colocou no mesmo grupo. De opinião contrária foi BARKELEY COTTER(9), que reconheceu, apesar da grande diferença nas dimensões, mais analogias com B. (Anadromus) proboscideus MATHERON das camadas do Cretácico superior da Provença. Posteriormente, / 92 / RÉPELIN(10) retomou o assunto e achou maiores afinidades ainda com B. (Anadromus) affuvelensis MATHERON do Daniano da mesma região, tendo concluído, embora com certa dúvida, que a fáunula do «Manto basáltico» era cretácica. Eis a razão por que provocámos este cotejamento das duas espécies. A Gaudryi distingue-se bem da Ribeiroi, não só pelas maiores dimensões, mas ainda porque nesta a última volta é mais envolvente, dando, / 93 / por vezes, à concha aspecto bem globuloso. É, contudo, de notar que os exemplares colhidos em conglomerado basáltico
imediatamente justaposto ao Turoniano da Nazaré, são mais semelhantes aos primeiramente descritos por TOURNOUER, e, por serem mais alongados e menos geniculados, mais se aproximam de B. Gaudryi.

Fig. 2
I − ESCAMA DE TELEÓSTEO − Coimbrões-Arada
X 3
(Exemplar do Gabinete de Ciências Naturais do Liceu de José Estêvão).
II − ESCAMAS DE Clastes postulosus SAUVAGE − Agras (Gr. nat.).

/ 93 /

Cerithium Vidali CHOFFAT − Os exemplares recentemente encontrados são bastante imperfeitos. Falta em todos, quase por completo, a abertura. Só representamos molde interno (fig. l, IV), pois os externos estão de tal modo colocados na rocha que não permitem ser fotografados. Verifica-se, porém, serem idênticos aos figurados por CHOFFAT. As voltas de superfície achatada são cónicas, com quatro filetes finamente granulados ou com pequenos tubérculos; na juventude eram presentes linhas radiais bem acentuadas. Aquele geólogo pôs a hipótese de existirem duas variedades: uma com três filas de tubérculos e outra com cordões lisos. Nalgumas formas de Aveiro nota-se que, num mesmo indivíduo, as voltas mais pequenas têm tubérculos muito nítidos, e as maiores apenas cordões lisos. Parece, assim, haver formas de transição.

Este facto, a facies da formação e, especialmente, o dispositivo do curto canal e da abertura da concha, levam-nos a pensar que tais fósseis deviam antes ser incluídos no género Potamides. Só melhor material poderá confirmar esta hipótese.


Glauconia sp. − É em dúvida que se coloca neste género o exemplar (fig. I, III − a) recolhido num grés fino argiloso junto do Canal de S. Roque. Tratando-se de um molde bastante imperfeito, assim o classificámos, devido à sua concha turriculada, cónica, com voltas relativamente pouco numerosas e costeladas transversalmente, e por ser Glauconia, o único
género de turritelídeos que se pode adaptar aos meios salobros.

Nos depósitos senonianos mostram-se duas espécies deste género, Gl. Renauxiana D'ORB. e Gl. Kefersteini MUNSTER, e que já vêm do Mesocretácico; a primeira desde o Aptiano, não ultrapassa o Coniaciano, a outra mantém-se ainda no Aturiano, em Chousa do Fidalgo, Lavandeira, Quintãs e Mira. É espécie de grande longevidade que parece não apresentar variações. Julgamos que não pode ser atribuído a qualquer destas o fóssil em estudo, mas não temos elementos para justificar o reconhecimento de uma espécie nova para a Ciência.


Melania sp. − Outro gastrópode colhido no mesmo local apresenta caracteres diferentes (fig. I, VI). É maior o número de voltas e diverso o relevo destas. As voltas, que crescem regularmente, são um tanto convexas e ornamentadas de estrias. Apesar da abertura não estar visível e o fóssil estar imperfeito,
/ 94 / pensámos ser lógico o colocá-lo no género Melania. A falta de elementos, porém, não impede que se verifique estarmos em presença de espécie ainda não reconhecida no nosso Senoniano. Mel. Dolfusi CHOFFAT do «grés do Vale», mostra sete excrescências axiais por volta, que se correspondem com bastante regularidade sobre todo o comprimento da concha, e, além disso, é de menores dimensões. Muito mais pequenos são ainda os exemplares, de impossível classificação específica, contidos nos nódulos calcários das argilas aturianas de entre Mesas e Santa Catarina e de Henricas. São um tanto semelhantes a jovens Mel. galloprovincialis MATHER., mas, como judiciosamente fez notar CHOFFAT, aquelas devem corresponder a adultos, devido à constância das dimensões.


Hydrobia Vasconcellosi CHOFFAT − Apenas conhecemos o material estudado pelo autor da espécie; nada, portanto, se nos oferece dizer relativamente a este fóssil. Seria de interesse colher material eficiente para se verificar a hipótese de distinguir outras espécies, como foi sugerido por aquele geólogo. Infelizmente, nada encontramos; as Hydrobia são raras em Aveiro.


LAMELIBRÂNQUIOS

Todos os lamelibrânquios neocretácicos de Aveiro actualmente conhecidos têm de ser atribuídos ao género Cyrena. Com excepção de Cyr. solitaria ZITTEL (fig. l, III - b) que, só em dúvida, se pode considerar representada, recolhemos naquela cidade todas as outras espécies registadas por CHOFFAT quer nas formações marinhas do Ceadouro e de Mira, quer no complexo flúvio-marinho: Cyr. Marioni CHOFFAT, Cyr. cfr. gallo-provincialis MATHERON e Cyr. sp. aff. Cyprina ablonga D'ORBIGNY (fig. l, I). Esta última muito frequente no «grés com Hemitissofia», bastante menos nas «camadas com Mytilus», e cuja presença foi julgada duvidosa nos depósitos salobros, é, todavia, muito abundante na cidade. De Cyr. Marioni só obtivemos a forma mais alongada e de maior envergadura se bem que proporcionalmente menos alta e em que o costelamento e a carena não são tão marcados. Confirma-se, assim, a variedade suspeitada por aquele cientista, para a qual propomos a designação de aveirensis.

Junto do Canal de S. Roque apresentam-se indivíduos que não podem ser incluídos nas espécies citadas. A concha é equivalve, oval subtrigonal como as do género Corbula, com o bordo anterior arredondado, o posterior um tanto rostrado, o dorsal anguloso e o ventral arqueado; vértices proeminentes, quase unidos e ligeiramente posteriores; valvas não costeladas nem carenadas; impressão paleal inteira e impressões musculares / 95 / nítidas. Em virtude da falta de carena afasta-se de Cyr. Marioni e de Cyr. solitaria. As outras duas espécies foram diferenciadas por CHOFFAT atendendo sobretudo à relação existente entre a altura e a largura: Cyr. cf. gallo-provincialis de diâmetros aproximadamente iguais e Cyr. sp. aff. Cyprina oblonga mais comprida do que alta. Comparada a forma em estudo com esta, verifica-se que a relação diametral é bastante menor e que a forma geral não é cordiforme oblíqua. Poderia supor-se que os exemplares pequenos pudessem corresponder aos indivíduos jovens, contudo aparecem outros com iguais dimensões, 25 mm, diferindo do mesmo modo. É, pois, sem dúvida, uma outra espécie. Como não temos elementos suficientes para fazer diagnose séria, limitamo-nos a, indicá-la, sem qualquer preconceito, por Cyrena (?) an sp. nov., até ser possível conseguir melhor material que permita fazer a revisão de todos estes lamelibrânquios.


ESCAFÓPODES

Dentalium ( Fustiaria?) sp. − Num barreiro explorado pela Cerâmica Aveirense colhemos em argila margosa azulada fragmentos de moluscos. Um deles pertence a fóssil do género Dentalium, de concha subcilíndrica de fraco diâmetro, ligeiramente arqueada, opaca e lisa, mas que julgamos ter sofrido rolamento. A presença de estreita fenda, que possivelmente será natural, levou-nos a incluí-lo no subgénero Fustiaria. Porém, só o fazemos em dúvida, pois, no mesmo local, recolhemos um outro incompleto sem fenda e anelado. É esta a única formação senoniana portuguesa em que têm aparecido dentalídeos.


PEIXES

As escamas ganóides que frequentemente aparecem, correspondem bem às descritas e representadas por SAUVAGE como Clastes lusitanicus SVG. e Cl. postulosus SVG.(11) (fig. 2, II).

Aproveitamos esta oportunidade para figurar uma escama de teleósteo fóssil (fig. 2, I), encontrada pelo Dr. ALBERTO SOUTO próximo de Coimbrões (Arada), juntamente com um fragmento de folha paralelinérvea, em argila cinzento-azulada. A escama, que pertencia à linha lateral como se verifica pela presença do pequeno tubo central, apresenta o bordo livre destruído e o posterior ligeiramente recortado, nele terminando dez estrias radiantes. Não é sem analogias, por exemplo, com as dos géneros Holocanthus, Cyprinus e Carassius, porém assaz difere das de Carassius carassius LIN., espécie actual, abundante nas / 96 / valas de Fermentelos. Fizemos esta aproximação, por nos parecer que o depósito em que apareceu a escama, e que segundo julgamos estava entre formações arenosas, seja mais moderno, talvez mesmo do Pleistocénico.

Fig. 3
ROSASIA SOUTOI CARRINGTON

      1

X

  ——
      5

(Molde existente no Museu Regional de Aveiro. Foi preparado no Laboratório de Geologia da Universidade do Porto pelo naturalista Dr. C. Teixeira).

RÉPTEIS

Há alguns anos que se registava a ocorrência de fragmentos de carapaça de quelónios, todavia tão pequenos e tão mal conservados que a sua classificação se tornava completamente impossível. Pela ornamentação, supunha-se pertencerem a indivíduos semelhantes a outros fossilizados em Vizo e estudados por SAUVAGE(11). / 97 /

Este paleontólogo apenas conseguiu observar duas ou três placas, o que não lhe permitiu estudo sério e, por isso, se limitou a empregar a vaga designação de Emydée ind.. Mais feliz
fomos nós, pois obtivemos bom material o qual nos levou a verificar a existência de uma espécie e de um género novos para a Ciência, que tivemos a honra de dedicar aos nossos ilustres amigos Prof. DR. ROSAS DA SILVA e Dr. ALBERTO SOUTO
(12).

Rosasia Soutoi CARRlNGTON − Tartaruga aquática de carapaça nitidamente achatada e subcircular, de grande envergadura, com ligeira curvatura meridiana entre a última placa óssea vertebral e a suprapigal, mostra margem relativamente larga e quase horizontal (fig. 3). O fóssil melhor conservado tem, no estado actual, o comprimento de 38 centímetros e a largura de 35 centímetros. São perfeitamente nítidos os sulcos que separam os escudetes dérmicos os quais se encontram assim distribuídos: 5 vertebrais, 4 pares de costais, 11 pares de marginais e um pigal; não possuía escudete nucal. Bem visíveis são também os contornos das peças ósseas, o que permite constatar a presença das seguintes placas: 1 nucal, 7 vertebrais, 8 pares de costais, 1 suprapigal, 1 pigal e 22 periféricas.

A ornamentação consiste em granulação excessivamente miúda e em finos sulcos que, pela maior parte, mostram divisão dicotómica.

Pelo número, distribuição e grandeza das placas ósseas e dos escudetes dérmicos, verifica-se haver notável semelhança com os quelónios do género Elochelys NOCPSA, colocado pelo seu autor na família Bothremydidae. Uma das características deste género é a falta de placa suprapigal, facto de grande importância, pois, devido a ele se distingue de todas as tartarugas conhecidas, com excepção das Trionychoidaea. E, como o réptil de Aveiro possui aquela peça bem desenvolvida não pôde nele ser incluído. Por outro lado o Prof. BERGOUNIOUX, notável especialista deste ramo da Paleontologia, propôs a anulação da família Bothremydidae, passando as espécies nelas colocadas a constituir um simples género dos Pelomedusidae(13).

O estudo deste fóssil aveirense impediu-nos de seguir esse critério, pois teríamos de o associar às formas de Bothremys só conhecidas pelo crânio, e às de Elochelys de que difere por tão importante carácter, antes indicado. Mas, como em grande parte concordamos ser indispensável simplificar tanto quanto possível a taxinomia, propusemos antes transformar a família Bothremydidae em subfamília dos pelomedusídeos, na qual / 98 /  ficaria colocado o nosso género Rosasia. A colheita de melhores elementos permitirá, decerto, um mais profundo estudo, que muito poderá contribuir para resolver alguns dos numerosos problemas relacionados com os quelónios fósseis.

Muitos dos coprólitos colhidos, especialmente em Agras, devem ser as fezes fossilizadas daquela espécie de tartaruga.


INCERTA SEDIS

CHOFFAT designou por «corpos cilíndricos» uma espécie de nódulos cilindróides, uns direitos, outros irregularmente curvos, arredondados nas extremidades, rugosos, dando o aspecto de estarem cobertos por pequenas escamas, e que se encontram nos depósitos neocretácicos que se estendem de Covões ao Bôco. Os que obtivemos em Agras mostram a mesma forma; todavia, a sua superfície é, em geral, lisa, assemelhando-se mais, por isso, a outros que aparecem no «Manto basáltico» de Lisboa e arredores − Carnaxide, Valajas, Ajuda, etc., − mas, ao que parece, ali muito menos frequentes.

Corpos destes tipos são conhecidos do calcário com Lychnus do Daniano francês: Eis mais uma analogia que parece apoiar a ideia de atribuir a idade cretácica àquele depósito, contudo de modo algum provativa.

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Os fósseis que ultimamente têm sido colhidos na cidade de Aveiro, vêm, pois, apoiar melhor ainda a nossa hipótese relativa ao paralelismo existente entre níveis que CHOFFAT supunha de idades diversas. Põe-se assim em evidência que as pequenas diferenças notadas nas fáunulas apenas devem corresponder a variações locais resultantes de certa mudança na salinidade e nas condições de sedimentação, o que, de facto, está de acordo com a fácies.

Não foi possível ainda fazer com maior minúcia o estudo estratigráfico, devendo, como mais lógico, continuar a serem consideradas, todas estas formações fossilíferas mais coerentes, como aturianas.

Laboratório de Geologia da Universidade do Porto em Março de 194I.

J. CARRINGTON DA COSTA
Bolseiro do Instituto para a Alta Cultura

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(1) PAU,L CHOFFAT − Recueil de monographies stratigraphiques sur le système Crétacique du Portugal. II, Le Crétacique supérieur au nord du Tage LIsboa, 1900.(1) PAU,L CHOFFAT − Recueil de monographies stratigraphiques sur le système Crétacique du Portugal. II, Le Crétacique supérieur au nord du Tage LIsboa, 1900..

(2) J. CARRINGTON DA COSTA − O Neocretácico da Beira Litoral − Arquivo do Distrito de Aveiro, n.º II − 1937.. 

(3) − ALBERTO SOUTO − Apontamentos sobre a geografia da Beira Litoral I, Origens da Ria de Aveiro − Aveiro, 1923.

(4) J. CARRINGTON DA COSTA − Evolução do meio geográfico na Pré-história de Portugal − Memória apresentada ao 1.º Congresso do Mundo Português − Lisboa, 1940.

(5) CARLOS FREIRE DE ANDRADE − Os vales submarinos portugueses e o diastrofismo das Berlengas e da Estremadura − Lisboa, 1937.  

(6) PAUL CHOFFAT − Recueil d'études paléontologiques sur la faune crétacique du Portugal. 3.ème sér. Mollusques du Sénonien à facies fluvio-marin − Lisboa, 1901.

(7)ALBERTO SOUTO − O afloramento setentrional do Senoniano salobro entre Quintãs e Aveiro − Labor, n.os 10 e 11 − Aveiro, 1927-28.

(8) Aqui deixamos consignado, ao seu Director e nosso ilustre colega Dr. Álvaro Sampaio, o profundo reconhecimento por todas as facilidades concedidas. 

(9) J. C. BERKELEY COTTER − Sur les mollusques terrestres de la nappe basaltique de Lisbonne − Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, tom. IV − Lisboa, 1900.  

(10) J. REPELlN − Sur les affinités zoologiques des genres Lychnus et Anadromus − Annales de Paléontologie − voI. III − Paris, 1908.

(11) H. E. SAUVAGE − Vertébrés fossilles du Portugal − Contributions à l'étude des Poissons et des Reptiles du jurassique et du Crétacique − Lisboa, 1898.

(12) J. CARRINGTON DA COSTA − Um novo quelónio fóssil − Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, tom. XXI − Lisboa, (Em publicação ).

(13) F. M. BERGOUNIOUX − Contribution à l'étude paléontologique des chéloniens. Chéloniens fossiles du Bassin d' AquitaineMem. de la Soc. Géol. de France, n.º 25 - Paris, 1935.

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