II

OS IMPRESSOS

M 1856, pelos fins do ano, apareceu em sucessivos folhetins da gazeta que Camilo Castelo-Branco viria a capitular de «retrógrada», “O Portugal”, uma circunstanciada notícia acerca de algumas obras raras existentes na Biblioteca Pública do Porto. Uma dessas que, a juízo do folhetinista, merecia especial menção era, por sem dúvida, o volume intitulado Liber Chronicarum, impresso em Nuremberga, em 1493, em fólio grande, obra em duas partes dividida, sendo a primeira um compêndio de história e a segunda um compêndio de geografia; e Bernardes Branco assinala, a propósito, uma incoerência notável de Brunet, doutor máximo aliás em bibliografia.

A 29 de Dezembro desse ano de 1856, o folhetim acusa no investigador um destes desânimos entristecidos a que estão sujeitos com frequência os homens de letras. «Parecerá talvez inútil – Manuel Bernardes Branco exclama – o dar uma notícia tão minuciosa das obras existentes na Biblioteca desta cidade, que tão pouco frequentada é!»

Porém logo readquire confiança, na justificação que depara para o desprimoroso abandono: / 382 / «Um dos motivos – ele explica – da sua pequena frequência é o ignorarem-se geralmente as obras preciosas que nela existem. E quantas pessoas, mesmo das mais dadas à leitura das obras raras, sabem que nela têm a Vita Christi o Cataldo, o Liber Chronicarum, o Amadis de Gaula, a primeira edição de Homero e de Quintiliano, e o célebre Quinto Curcio traduzido na língua valenciana, obra da qual a própria Biblioteca Real de Paris, apesar de imensas diligências, não pôde encontrar um exemplar em bom estado, e que nesta está tão bem conservada que parece nova!»

Consequentemente, para que constasse quais os tesouros literários que no Porto havia, tencionava, segundo o exara, Bernardes Branco dar deles uma notícia a mais circunstanciada que possível lhe fosse; e, com efeito, à hora em que o consignava, já copiosamente havia discorrido do Cataldo Sículo; e no lance prometia tratar em seguida do Catholicon, impresso em 1497.

Tratou, com efeito, em 27 de Janeiro do imediato ano de 1857, dizendo que, ajudado por João de Meydenbach e Conrado Humery, estabelecera Gutenberg, pouco depois de dissolvida a sociedade que tivera com Fust e Schaeffer, outra tipografia em Mogúncia, desta nova oficina chegando até nossos dias a obra intitulada Catholicon, que é uma espécie de enciclopédia clássica, contendo uma gramática, uma retórica e um dicionário latino, tudo sob o seguinte título: Summa grammaticalis valde notabilis, quae Catholicon nominatur e nada mais restando de Gutenberg, que, elevado à categoria de nobre pelo eleitor de Mogúncia, o qual também lhe concedeu uma pensão, abandonou a arte, deixando a tipografia aos dois irmãos Bechtermunzse, Spyes e outros, os quais em 1467 / 383 / imprimiram em Elfeid o Vocabularium ex quo, que é um dicionário latino-alemão. A edição, porém, que existe na Biblioteca do Porto, não pertence às primeiras, pois que seja a de Veneza de 1497, se bem que, contudo, é uma não vulgar e mereça, portanto, mencionar-se.

O primeiro dos estudos consagrados por Manuel Bernardes Branco a algumas das obras raras existentes na Biblioteca Pública do Porto teve por objecto as de CataIdo Sículo, das quais o único exemplar que lhe constava existir em Portugal era o que está na livraria pública portuense, infelizmente falto de frontispício e de duas ou três folhas no fim, lendo-se na primeira folha o rótulo seguinte: «Cataldi aquile primus ad Emanuelem philosofantissimum portugalie regem: ethiopie maritime et indie, livro que, além de se tornar digno de muito apreço pela sua raridade, se torna também muito apreciável por ser um monumento do progresso da arte tipográfica em Portugal.

Na “Miscellanea Litteraria”, revista impressa no Porto em 1860, aparece por Bernardes Branco estudado o volume de Cataldo Sículo, «de que existe – escreve Inocêncio – um raro e precioso exemplar na Biblioteca Portuense, bem como, na categoria dos primeiros monumentos da tipografia portuguesa, aí se estudam as primeiras constituições do bispado do Porto, de que o ensaio crítico o exibira já Bernardes Branco outrossim em 1856 no mesmo jornal político, onde eruditamente folhetinisava. No exame das obras de Cataldo Sículo, dera ele a tradução em português da carta que o referido CataIdo escrevera ao rabi de Nápoles para o convencer à fé católica, a qual, se não seja argumentativamente suasória, é muito interessante como modelo dos impropérios com que na época, à má cara, se buscava captar as convicções. Ela se encontra transcrita na verba a Cataldo Sículo dedicada no primeiro volume da compendiosa obra Portugal e os Estrangeiros, ulteriormente por Manuel Bernardes Branco começada a dar à estampa em Lisboa em 1879.

Uma é das 17 reproduções no texto em fac-simile (n.º 66) que ilustram a nova edição (1904) do catálogo de incunábulos, coordenado, em 1897, segundo a ordem alfabética e seguido de algumas notas bibliográficas, pelo amanuense da Biblioteca Pública do Porto, Sr. Artur Humberto da Silva Carvalho. As outras respeitam, sucessivamente, à Ordo precum, Lisboa, 1498, de David Abu Decahim; à Biblia Sacra, 1479; à Suma de Arithmetica, Geometria, Proportioni & Proportionalita, de Fr. Lucas Paccioli de Burgo ou Borgo, Veneza, 1494; à primeira edição raríssima das obras de Júlio César, Roma, 1469, sendo curioso o ex-libris (ms.) que diz assim: «Este libro he do Senhor Antonio Mendez a que Eu devo a vida»; às Constituições Sinodais do Bispado do Porto, ibi, 1496; à La hystoria de Alexandre per Quinto Curcio, per Luis de Feudlet en lengua valenciana transferida, Barcelona, 1481; à primeira edição, muito rara, da obra conhecida sob o título de Chronica de Nuremberga, de Hartmann SchedeI, livro que é um dos monumentos mais importantes da xilografia alemã do século XV; à edição, outrossim, muito rara, que é a primeira tradução latina / 384 / (per Laurentium Valleus) em prosa da Ilíada, de Homero, à famosíssima Vita Christi, de Ludolfo de Saxonia, tradução nossa lusitana de fr. Bernardo de Alcobaça, monge cisterciense, cuja descrição no tomo VIII das Memorias de Literatura Portuguesa, publicadas pela Academia Real das Ciências de Lisboa, após acurado confronto, o Sr. Humberto de Carvalho declara ser mui fielmente conforme com o exemplar existente na Biblioteca Pública do Porto; à edição raríssima dos Epigramas de Marcial, de Roma, 1473; à bela e mui rara edição das Vidas dos Varões Ilustres de Plutarco, Veneza, 1491; à primeira edição (Veneza, 1499) de uma obra assaz singular e rara, da qual notícia sucinta que se encontra colada no volume da livraria pública portuense diz por este teor: «Todos os bibliógrafos afirmam que o romance intitulado Hypnerotomachia – palavra composta de três vozes gregas, que querem dizer – Peleja de amor em sonho, porque efectivamente se descreve um sonho amoroso, é sem dúvida a obra mais extravagante e fantasiosa que tem aparecido na Itália, depois do renascimento das letras. Poliphilo significa amante de Solia, nome suposto com que o A. quis encobrir o próprio que era Fr. Francisco Colonna, / 385 / da Ordem dos Pregadores em Veneza. É notável o modo com que pretendeu ocultar-se, empregando em cada cap. uma letra inicial, que depois de juntas formam a divisa seguinte: Poliam Frater Franciscus Columna peramavit; àquela primeira edição de Quintiliano (lnstitutionum oratoriarum ad Victorium Marcellum liber XIl, – Roma, 1470) que, actualmente muito conhecida sob o nome de Campanus, seu editor (ex recensione Joannis Antonii Campani), pode ser considerado, frisa-o o catalogador, como uma obra da maior raridade; às Regulo Ordinis S. Benedicti, S. Basilii, S. Augustini, S. Francisci, collectae et ordinatae per J. Fr. Brixianum, Veneza, 1500; à edição, rara e preciosa pela sua antiguidade, que, executada em belos caracteres gregos ligados e considerada como uma das mais perfeitas das saídas da tipografia dos Aldos (Veneza, 1495), é a primeira da mor parte das obras que contém e são de Teócrito, Focilides, Theognis, Pitágoras, Hesíodo, notadamente; enfim, à primeira edição completa, muito perfeita e de extrema raridade (Roma, 1471) do tratado de Lourenço Valla De Elegantia Latinae Linguae, tendo o corpo do volume 220 folhas. O número das verbas da escrupulosa resenha do Sr. Humberto de Carvalho atinge o montante de 206; o catálogo saiu dos prelos da Imprensa Portuguesa; os fac-símiles executaram-se nas oficinas de Marques Abreu & C.ª.

Posto que, na totalidade das obras que formam o seu novo catálogo de 1904, algumas haja das quais não pôde averiguar com exactidão a data, ainda assim o colector as incluiu como no primeiro, de 1897, que não continha senão 165 números. Entendeu que, mesmo que elas não fossem impressas até ao ano de 1500, limite do período que abrange o intuito do seu catálogo, não lhe prejudicariam a índole: não somente porque a data da sua impressão não poderá ir muito além dos princípios do século XVI, mas também porque alguns bibliógrafos ainda consideram incunábulos todas as obras impressas antes de 1536.

Em 1510 impresso, a retentiva, aqui infiel, de Alexandre Herculano imaginou o exemplar do Amadis de Gaula, existente na Biblioteca Pública do Porto e, nesse engano, discorreu em Lisboa no tomo II do “Panorama”, a pág. 134. Ao ler esta notícia, em 1857 noticia Pascoal de Gayangos que correra imediatamente ao seu amigo marquês de Pidal, que, pela secretaria à sazão a seu cargo, mandou que para o Porto se pedissem as competentes notícias em averiguação desse dado bibliográfico. Porém o cônsul espanhol na cidade do Porto não encontrou na sua Biblioteca Pública outra edição alguma mais do que a de 1519, da qual remeteu para Madrid uma minuciosa descrição, um fac-símile da sua portada gravada e todas quantas notícias se podiam desejar.

Na espécie bibliográfica de «livros de cavalarias», preciosidade que de Espanha lhe foi extorquida possuía a Biblioteca Pública do Porto com possuir um exemplar do Tirant lo Blanch (Barcelona, 1497), cuja descrição o Sr. Humberto de Carvalho copia da Bib. Hesp., de Gallardo, perfeitamente igual ao volume que na Biblioteca Pública do Porto não existe já. A primeira edição deste livro é de Valência, de 1490, e há uma tradução castelhana, de Valladolid, 1511, da qual um exemplar se encontra citado no / 386 / Catálogo Gaignat, e outro, falto de folhas, se vendeu em Londres em 1854 procedente da livraria de lorde Stuart de      Rothesay. Da edição de Valência (1490) conhecem-se três exemplares: o que pertenceu ao conde de Saceda, descreve Mendez e se conserva hoje em dia no Museu Britânico de Londres; o do colégio da Sapiência de Roma; e, finalmente, o da Universidade da própria Valência. Quanto à edição de Barcelona (1497), toma Pascual de Gayansos a descrição resumida que lhe fornece Brunet e frisa que Brunet a exara, sin citar ejemplar alguno de esta edicion de Barcelona, lo cual no deja de ser extraño, conociendo-se ya tres de Ia primera. E Vicente Salvá, na sua Bibliotheca, voI. I, pág. XIII, do prólogo, falando dos livros raros, diz, depois de citar o Tyrant lo Blanch, impresso em Valência: Para mi todavia es màs rara Ia edicion de Barcelona, que nunca he visto.

Esta é a que a Biblioteca Pública do Porto possuía. Brunet, falando da edição de 1490, diz ser ela excessivamente rara e a primeira que apareceu com o texto limosino ou cataIão deste célebre romance de cavalaria; o único exemplar que se apresentara no mercado para vender fôra adquirido por 300 guinéus pelo afamado bibliófilo Rich Heber; e no catálogo de Quaritech, Novembro de 1900, acha-se marcado um exemplar da mesma edição pelo preço de 500 libras.

O exemplar do Tirant lo Blanch, único conhecido da edição de Barcelona de 1497, foi pedido à Biblioteca Pública do Porto por portarias do ministério do reino de 3 de Dezembro de 1859 e 5 de Janeiro de 1860, dizendo-se nelas que, logo que estivesse cumprido o fim para que era reclamado, seria imediatamente devolvido a essa Biblioteca, para onde aliás nunca mais voltou.

A correspondência oficial, trocada entre os vários poderes públicos por ocasião da remessa para Lisboa daquele preciosíssimo exemplar, bem como os extractos das sessões do parlamento e a opinião dos jornais concernentemente ao sugestivo facto, já fôra publicado em Suplemento à primeira edição do Catálogo das obras do XV século pertencentes à Biblioteca Pública Municipal do Porto (1897); porém, como à data desse aditamento se encontrasse esgotado, o Sr. Humberto de Carvalho novamente o deu à estampa, na altura idónea de seus incunábulos, de 1904.

A colecção ajuntada pelo Sr. Humberto de Carvalho consta de documentos oficiais, extractos de debates parlamentares e artigos dos periódicos em 1860 e 1861. O atado de documentos compreende ofícios do chefe da direcção geral de instrução pública, José Maria de Abreu, 1.º bibliotecário Antero Albano / 387 / da Silveira Pinto e secretário-geral do governo civil do distrito do Porto, Augusto César Cau da Costa. Intercala-se cronologicamente uma maliciosa notícia, cheia de subentendidos e realçada de equívocos transparentes, cortada do “Jornal do Porto”, de 14 de Março de 1860; em nota se apensa o que também sobre o assunto disse Camilo Castelo Branco na sua “Gazeta Literária do Porto”, de 1868, n.º 16; em segunda nota corrige o Sr. Humberto de Carvalho o engano de Camilo Castelo Branco, quando este se refere à verba para a edição de Valência, 1490, consignada no n.º 1217 do Ensayo de una biblioteca española de libros raros e curiosos, quando queria referir-se ao n.º 1218, que seja o atinente à edição de Barcelona, 1497, que era a que pertencia à Biblioteca Pública do Porto.

Logicamente se segue a correspondência trocada entre o presidente da Câmara Municipal do Porto, visconde de Lagoaça, e o 1.º bibliotecário, Silveira Pinto.

Na mesma data, o bibliotecário oficia a José Maria de Abreu, chefe da Direcção Geral de Instrução Pública, enviando-lhe cópia do ofício que recebera do presidente da Câmara do Porto e bem assim outra da resposta que dera a esse ofício, na qual ao visconde de Lagoaça participara que a ele Abreu tudo assim lhe comunicaria, No desgosto que promove a leitura das peças oficiais subsequentes, o curioso distrai o tédio de um momento com o apuro, em réplica a uma evasiva, de que constava vagamente que o romance Tirant lo Blanch, da marcação L-12-22, pertencera à livraria dos Carmelitas de Vila do Conde.

Em 1887, o vice-presidente da municipalidade portuense, Francisco Pinto Bessa, reclama com urgência cópias autênticas dos documentos e portarias em virtude das quais foi entregue o livro perdido, pois a Câmara Municipal deliberara representar ao governo pedindo a devolução do volume distraído, havia anos, da Biblioteca Pública do Porto; esta iniciativa não logrou êxito, porém; a obra sonegada, sonegada ficou.

Os documentos parlamentares compõem-se de um extracto da sessão de 28 de Março de 1860 da Câmara dos Deputados; interpela Alves Martins, depois bispo de Viseu e ministro de Estado, responde o ministro do reino, Fontes Pereira de Melo; e intervêm José Estêvão, corroborando a censura de Alves Martins, ao que retorque ainda Fontes Pereira de Melo, alegando o exemplo de precedentes similares. Vem depois um extracto da sessão de 30 do mesmo mês e ano da Câmara dos Pares; apresentou o visconde de Fonte Arcada um requerimento para que pelo ministério do reino se pedisse ao governo cópia da portaria ou ordem expedida por aquele ministério para mandar vir da livraria da cidade do Porto a obra raríssima, Tirant lo Blanch, e para que se dissesse se este livro / 388 / precioso já fora devolvido à referida livraria ou em que mãos parava por então; o visconde de Balsemão rogou-lhe permitisse licença de acrescentar àquele requerimento que pelo mesmo ministério se informasse como fora adquirido pela Biblioteca aquele livro. Na mesma Câmara, em sessão de 2 de Abril, o marquês de Vallada declara desejar fazer algumas considerações sobre a portaria a que aludira o visconde de Fonte Arcada; e em sessão de 10 do mesmo mês aproveita a presença do ministro do reino para falar sobre o livro Tirant lo Blanch, que aquele ministro permitira saísse da Biblioteca do Porto, ao que redargue o ministro que, sempre que for prevenido do dia em que se lhe pretenda dirigir alguma interpelação, tratará de comparecer pronto para responder.

A interpelação efectua-se na sessão de 16 de Maio; é, pelo presidente, entrando-se na ordem do dia, concedida a palavra para a fazer, ao visconde da Fonte Arcada; responde o ministro do reino, Fontes Pereira de Melo; replica o interpelante, visconde da Fonte Arcada; intervêm, novamente, o visconde de Balsemão; fala o conde da Taipa; volta a retorquir Fontes Pereira de Melo, a que contesta aquele conde da Taipa, encerrando-se o debate com uma declaração em prol do personagem (o duque de Saldanha) que fizera retirar até suas mãos o exemplar do Tirant lo Blanch existente na Biblioteca Pública do Porto. Essa declaração categórica do ministro do reino, a câmara a saúda com apoiados e vozes de aplauso.

Na Câmara dos Deputados, na sessão de 6 de Fevereiro de 1861, Alves Martins requer que pelo ministério do reino fossem remetidos esclarecimentos sobre a portaria do mesmo ministério do reino, que ordenou a saída do livro de cavalaria Tirant lo Blanch da Biblioteca do Porto, sobre o recibo do cavalheiro a quem se entregara o livro, finalmente quaisquer informações que habilitassem os representantes do país a saberem o destino que teve o Tirant lo Blanch.

À sessão de 17 de Agosto de 1861, da mesma Câmara, cabe a nota de interpelação do deputado José de Morais Pinto de Almeida, pretendendo interpelar o ministro do reino, com a maior urgência possível, além de outro ponto congénere, sobre o destino que tivera o livro Tirant lo Blanch, que pertencia à Biblioteca do Porto. No restante da sessão legislativa de 1861 não encontrou o Sr. Humberto de Carvalho verificada esta interpelação; parece-lhe provável que o fosse em alguma das sessões parlamentares dos anos seguintes; porém, para não demorar a publicação de seu catálogo, desistira pelo entretanto de procurar essa verificação; de longos anos, de resto, que tencionava reunir e fazer estampar estes documentos que apresentava assim coligidos já; mas faltara-lhe sempre o tempo necessário para se fazer pesquisa semelhante. / 389 /

Muito distante da data da saída do Tirant lo Blanch da Biblioteca do Porto e bem próximo de nossos actuais dias, recebeu o bibliotecário do Porto, Eduardo Augusto Allen, uma carta do bibliotecário-mor da capital, António Enes, escrita em 11 de Fevereiro de 1887, comunicando-lhe que os livreiros de Londres, Sotheby, Wilkinson & Hodge haviam anunciado para os últimos dias daquele mês a venda em leilão duma biblioteca de Melo, pertencente ao finado barão Seillière e que no catálogo dessa biblioteca figurava um Tirant lo Blanch, que António Ennes suspeitava ser o exemplar que em tempos saíra do Porto, por empréstimo feito ao marquês de Salamanca.

Não era; era edição de Valência, de 1490, e que, vendida no indicado leilão pelos livreiros Sotheby, Wilkinson e Hodge, foi ali comprada por outro livreiro, Bernard Quaritch, que a registou no seu catálogo n.º 148, de Fevereiro de 1895, pondo-lhe o preço, já apontado, de 500 libras esterlinas. Não apareceu comprador imediatamente; no catálogo n.º 202, de Novembro de 1900, ainda lá se encontra marcada, a pág. 51, n.º 489, pela referida conta de £ 500.

Em 1904, o Sr. Artur Humberto de Carvalho aventava o alvitre de o governo comprar essa 1.ª edição de Valência, dado que ainda à cata de adquiridor, se encontrasse em Londres, destinando-a, e a fito de a ressarcir, à Biblioteca Municipal do Porto. Esta compensação se consideraria, tão só, interina, até que aparecesse o paradouro e se conseguisse a restituição da que lhe foi subtraída. Neste caso, passaria o exemplar comprado para a Biblioteca Nacional de Lisboa, à qual erroneamente, no seu Suplemento, de 1880, em Brunet vem atribuída a posse primitiva do exemplar pertencente à opulenta colecção do barão de S..., e que apareceu na Exposição Universal de 1878 em Paris, no Museu Retrospectivo, do Trocadero.

J. PEREIRA DE SAMPAIO (BRUNO)


 

 

 

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