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RA,
meus senhores: se é bem certo que o tendeiro tantas vezes abusa da
boa fé do seu freguês, enganando-o no peso da manteiga; se, com
idêntica falta de escrúpulos (oh, doces recordações da pátria!...),
a varina vende por fresco o linguado pescado há sete dias; vou-me eu
agora convencendo, por experiência e pecadilhos próprios, que de
todos os traficantes deste mundo será talvez o homem de letras quem
mais abuse da boa fé dos seus clientes. Escutem-me, e concluam: aqui
vou eu agora encher de prosa algumas páginas, buscando assunto em
uma excursão sentimental que há poucos dias realizei, a qual (prosa
ou excursão) poderá ter muito valor para a minha acessibilidade
pessoal, mas não por certo para a curiosidade dos leitores.
Trata-se, com efeito, de uma peregrinação a Uji, a
terra do chá, a pequena cidade provinciana onde há alguns anos colhi
inspirações para um livrinho sobre o chá, que foi impresso e
garridamente ilustrado em Kobe, e depois expedi à minha terra, onde,
graças a alguns amigos, se lhe deu benévola acolhida. Ao livrinho,
quero muito, por íntimos motivos. Quanto a Uji, não mais ali voltara
depois de publicado o livro. A gratidão, quando não outros impulsos,
ia-me aconselhando a lá tornar. Empreendi pois recentemente este
passeio, em época propícia – em Maio – quando em plena colheita das
preciosas folhas; e estão os senhores imaginando o alvoroço, o amor
com que eu ia relanceando paisagens e rostos conhecidos, aspectos de
labuta aos quais prestara já olhos atentos, todo o conjunto, enfim,
a que devera a realização, tão feliz quanto possível, do meu
capricho literário.

Do tal passeio reza o presente artigo. Volver a falar
do chá é insistência que pelo menos merece os qualificativos de
importuna, de enfadonha, / 391 / coisa orçando por burla imposta à
ingenuidade do leitor. Proponho-me ser conciso, todavia; e, como
diversão, substituo as ilustrações fantasistas do livrinho por
fotografias autênticas dos lugares, possivelmente com agrado
daqueles que preferem ao impressionismo do pincel a veracidade da
placa sensitiva.
*
* *
Chegada às 11 horas. Sol radioso. Chilreada de
pardais. Animação nas ruas e nos campos. Ligeiro repouso na
hospedaria Yorozuya (a casa de dez mil anos), pitorescamente
debruçada à borda da ribeira. Bebo uma chávena de chá novo, com o
travo delicioso das folhas ainda mal curtidas; engulo um frugal
almoço e salto para os campos, todos verduras tenras, salpicadas de
matizes de mil e mil flores silvestres.
Vai servindo-me de guia uma rapariguinha, Yoné (Bago
- de - arroz), de maneiras gentis e obsequiosas e com a boca cheia
de sorrisos.
Visita ao velho / 392 / templo de Byodo-in, que data
do ano de 1052, e óbolo piedoso lançado na caixa das esmolas.
Depois, atravessamos o rio de Uji numa barca de passagem e eis-nos
em plena região das culturas de chá.

Agora, alguma minúcia nos detalhes. Mourejam bandos
de mulheres, velhas e raparigas, em fatos domingueiros, toalhas em
volta dos cabelos, alguns homens também, todos colhendo chá.
Aqui, além, caras conhecidas me sorriem, dão-me os
bons-dias; e tão à vontade me suponho, que me misturo aos grupos e
começo também a trabalhar, arrancando as folhas viçosas dos arbustos
e atirando-as a uma seira. A velha O-Haru (a Primavera… o nome fica
sempre, mas os alvos cabelos melhor acusam os invernos), a velha
O-Haru canta, a meu pedido, algumas canções apropriadas, para animar
as raparigas a imitá-la. Porque, segundo a praxe, elas estavam
cantando, sendo de estilo acompanhar a faina de descantes; mas
haviam-se calado, ao darem fé de mim. Canta a velha:
Uji no shiba-buné
Hayasé wo wataru.
Watashiya kawa-buné dé
Watare yuku!...
Uji wa chá dokoro,
Chá wa en dokoro.
Musumé yaritaya
Muko hoshiya!...
/ 393 /
Não perceberam? Eu traduzo:
Os barcos de Uji navegam,
Contra a corrente lutando.
Eu vou sem rumo, ao capricho
Dos desejos, vagueando!
Uji é a terra do chá,
E o chá é casamenteiro.
Moços e moças em faina...
Que lidar tão feiticeiro!...
Após, houve pausa nas cantigas. O-Haru começou então
dando largas à palestra, permitindo-se, como as outras, o regalo de
alguns minutos de preguiça, em honra do estrangeiro. Ia dizendo ela
que O-Ai (a Amores), O-Ai, a rapariga mais bonita de todas que
colhiam chá nos campos de Uji, casara, vivia agora em Osaca com o
marido, e já tinha um filho, – um ou dois – não se lembrava ao
certo. Além, via eu a apanhar chá aquela mocita graciosa, rosada
como um pêssego, Sué (a Última), que era a irmã, a última irmã, de
O-Ai. O-Ito (a Meada de linhas). O-Ito deixara a vida da lavoura
para entrar numa escola superior na cidade de Kyoto, onde aprimorava
agora o seu espírito...

Eu ia ouvindo estas histórias sinceramente
interessado nos destinos de O-Ai, de O-Ito, das quais bem me
recordava. A cena que tinha diante dos meus olhos também se oferecia
interessante. Relanceada de surpresa e para um estranho no país,
poderia fazer supor que alguma tribo de boémios ali se achava, em
acampamento provisório, entre as culturas. O solo, / 394 /
encharcado de recentes chuvadas, fora coberto de palha, fofa e seca,
sobre a qual se estiraçavam garotos, galhofando.
Aqui, além, gentis vultos, de musumés.

Algumas soberbas velhas, alvas guedelhas caídas sobre
a fronte, mãos esqueléticas em gestos, com ares de bruxas dos
bosques, não distantes, reunidas ali em magno concílio. Mães com
filhitos cerca, ou às costas, ou dando-lhes o seio durante curtos
instantes de descanso; particularmente enternecia o rostinho
requeimado de uma menina de onze meses, sobre o regaço materno,
pálpebras cerradas, adormecidas, sobre as quais as moscas vinham
poisar teimosamente. Dois ou três rapagões, na flor da vida e na
força dos músculos, também iam lidando na colheita, mordendo de
quando em quando as raparigas com a pupila afogueada.
*
* *
Mas esquecia-me de notar a impressão mais comovente
que colhi do meu passeio a Uji. Foi em Yorozuya, a hospedaria
assente junto da ribeira e guarnecida de estacadas, evocando no
espírito não sei que canto de paisagem remota de extinta povoação
lacustre, onde pedi agasalho, como disse. Eu conhecia de longa data
aquele poiso, o mais afamado do lugar. Havia cerca de dois anos,
estivera lá por última / 395 / vez. Então aparecera-me, com as
criaditas de mistura, uma moça gentil, mais mimosa do que as outras,
acarinhando um rapazito. Servindo-me o chá, de joelhos sobre a
esteira, disse-me ela ser a esposa do proprietário da estalagem e
que aquela criança era seu filho; e acrescentou com ar apreensivo –
julguei mesmo ver-lhe nos olhos bailarem duas lágrimas, que o marido
partira para a guerra, como soldado reservista, havia poucos dias...
o seu espírito de mulher, embora japonesa e por conseguinte
resignada a todos os sacrifícios que a pátria reclamasse, sofria com
os perigos da guerra, com os riscos que o marido ia correndo... Pois
confesso que, ao entrar agora na estalagem, sentia-me receoso,
comovido. Reverências risonhas das criadas. Deixo à porta os sapatos
e subo ao primeiro andar, instalo-me no aposento que me foi
designado, e eis que me aparece, meio escondido por detrás de um
biombo, espreitando, curioso de ver a cara de um estrangeiro, o
sobredito rapazinho, mas com dois anos a mais, espigado como um pé
de milho quando duas semanas decorridas. Pergunto-lhe abruptamente:
– Como está o teu pai? já voltou?»
– Respondeu-me que estava ali em baixo na cozinha,
tendo voltado da guerra, são e salvo, no mês passado.
Respirei. – E a tua mãe?
Respondeu-me: – Morreu.
Kobe - Maio de 1906.
W. DE MORAES

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