As operações militares no Sul de Angola

EM 1905

II

A campanha no distrito da Huíla, seu objectivo.

Preparativos e disposições adaptadas

OMO tivemos ocasião de dizer ao tratar da situação do distrito da Huíla, nos princípios do ano de 1905, o gentio de além Cunene, arrogante pelo desastre infligido às nossas tropas em Setembro de 1904, andava em correrias e depredações pela margem direita do rio e ameaçava os nossos fortes, ao mesmo tempo que os indígenas das terras consideradas submetidas e até os da parte alta da região de Moçâmedes estavam desrespeitosos para com a autoridade e insolentes para com os europeus, a ponto de ser receada por estes uma sublevação geral dos povos de aquém Cunene.

A independência em que se conservava o sobado de Mulondo, valhacouto de salteadores e terra que já tinha derrotado as nossas armas, e onde o sanguinário e soberbo Hangalo se jactava de não consentir a entrada da autoridade portuguesa, era um desprestígio flagrante à nossa soberania e uma manifestação da nossa impotência. Porque constituía um incentivo à revolta dos povos fieis, e ainda porque a aliança que tinha com os rebeldes da outra margem era um perigo para a segurança dos territórios da margem direita do Cunene, tomava-se urgente acabar com esse lendário poder de Hangalo e assentar uma fortaleza nas terras de Mulondo, que fosse padrão incontestável do nosso domínio e que nos desse a posse de toda a margem do Cunene. Eis o primeiro e o principal dos objectivos que certamente devia ter a campanha a empreender.

Nos Gambos, algumas alterações tinha havido na situação como atrás a descrevemos: a necessidade de conjurar o perigo, que parecia iminente, da revolta dos mugambos e dos muchimbas, e a falta de elementos militares de confiança tinham levado o governo local a transigir com o gentio, depondo o soba D. João e aceitando na embala o pretendente Cander a quem aliás foram impostas algumas condições / 366 / indicativas da sua fidelidade e submissão à autoridade. Uma vez, porém, colocado na embala, Cander nenhuma dessas condições cumpriu, e proclamou ao seu povo que foi pela força que conquistou aquele lugar, que não ia à fortaleza, que não recebia ordens do comandante, e que sobre o povo dos Gambos era ele quem mandava. Aos emissários do comandante militar, falava Cander num outro tom, dizendo que não ia à fortaleza por ter medo e que não cumpria as ordens do governo porque não podia – ele era escravo do povo e só podia fazer o que o povo quisesse. Submeter a região dos Gambos, castigando aqueles que meses antes tinham feito fogo sobre as nossas tropas, e em geral o gentio que depois apoiava o soba na sua rebeldia, era necessariamente outro objectivo que a campanha tinha a realizar.

Ao mesmo tempo que se consolidava assim o nosso domínio nos territórios de aquém Cunene, era complemento indispensável para a segurança e tranquilidade da região e para o levantamento do nosso prestígio entre o gentio mostrar aos povos de além Cunene que não mais estávamos dispostos a assistir impassíveis às suas correrias pelas terras fiéis: as grandes operações projectadas para mais tarde haviam, é facto, de derrotar os quamatos, dominá-los completamente e ocupar-lhes o território; mas até lá preciso era contê-los e abater-lhes a soberba, entrar-lhes pelas suas terras mostrando-lhes que o podemos fazer tão bem ou melhor do que eles quando vêm raziar nas nossas, matar-lhes gente e tirar-lhes gado, e sobretudo fazê-los consumir munições, que é o golpe mais certeiro que à sua força se pode vibrar. Foi este o terceiro e último objectivo da campanha.

A coluna destinada a desempenhar a missão que fica indicada era composta por um pelotão de sapadores, uma secção de artilharia, dois pelotões de dragões, uma companhia europeia de infantaria, uma companhia indígena de infantaria (a 12.ª de Moçambique completada com um pelotão da 11.ª), um corpo franco de auxiliares boers, auxiliares indígenas, serviço de saúde e da administração militar, e comboio; com um efectivo total de 641 homens de tropas regulares, dos quais 308 europeus, 77 auxiliares boeres, 1.000 auxiliares indígenas, 2 bocas-de-fogo, 192 solípedes, 14 viaturas e 264 bois de tracção.

O comando da coluna foi confiado ao do distrito da Huíla, capitão do serviço de estado-maior José Augusto Alves Roçadas, que nos escolheu para seu chefe de estado-maior. Os serviços administrativos e de / 367 / saúde ficaram respectivamente a cargo do tenente da administração militar António Domingos Ferreira e facultativo de 2.ª classe Manuel Gomes Barreto; comandava o comboio o alferes de infantaria Germano Dias; e as unidades eram comandadas, a infantaria europeia pelo capitão Alberto Salgado, a infantaria indígena pelo capitão António Luís dos Remédios e Fonseca, a cavalaria pelo tenente António Mendes Serra, a artilharia pelo alferes Manuel Augusto Rodrigues, e o pelotão de sapadores pelo tenente de infantaria Viriato Lopes Ramos da Silva.

O capitão Roçadas, que acabava de chegar à província e que assumiu em 12 de Agosto o governo do referido distrito, começou desde logo os preparativos para a organização da coluna.

Houve então, no Lubango, um período de trabalho sem descanso, em que se desenvolveu muita dedicação e boa vontade para vencer no mais curto prazo essa enorme tarefa que ia desde a instrução das tropas e preparação de munições, equipamentos, arreios e matéria1 de bivaque até à aquisição de víveres e ao abastecimento da extensa linha de etapas que a coluna tinha de percorrer. Tal foi a actividade desenvolvida, que em 19 de Setembro podia ser dada a ordem que fixava a organização da coluna de operações e determinava a respectiva mobilização, e três dias depois era dada a ordem de marcha para o dia imediato – 23 de Setembro –, em que efectivamente a coluna saiu do Lubango.

Às praças europeias foi distribuído armamento Kropatscheck, às indígenas Martini. O corpo franco ia armado com Mausers e Martinis; os auxiliares indígenas com espingardas Snyder e de pistão.

O municiamento da infantaria, europeia e indígena, e dos dragões, foi de 220 cartuchos por praça, indo 100 com o indivíduo; as bocas-de-fogo iam municiadas com 80 tiros cada uma, levando 36 no armão e os restantes no trem de combate. Aos auxiliares boers foram distribuídos 100 cartuchos por homem, e 20 aos auxiliares indígenas.

Para a alimentação das tropas foi adoptado, / 368 / como princípio, o sistema das três refeições, sendo a segunda fria, confeccionando-se contudo, sempre que possível, as refeições quentes.

As tropas regulares e parte dos auxiliares indígenas seguiriam o itinerário pelo Humbe e subiriam o Cunene; os boers e os restantes auxiliares indígenas iriam pelo caminho do Quipungo ao Capelongo, descendo depois pela margem direita do rio.

Na comprida linha de etapas Lubango, Humbe, Mulondo, extensa de mais de 400 quilómetros, estabeleceram-se postos principais na Chibia, nos Gambos, no Humbe e no Quiteve, Os postos de etapa intermédios eram subordinados à existência de água, e as suas distâncias entre si variavam entre 9 e 24 quilómetros. Para o abastecimento desta linha, foram reunidos 15 dias de víveres e forragens nos Gambos, 30 dias no Humbe e 16 no Quiteve.

 

Marcha sobre Mulondo

A marcha do Lubango até à embala do Mulondo efectuou-se em 32 dias, tendo-se posto a coluna em movimento no dia 23 de Setembro, e indo acampar no vau do Cácua a 24 de Outubro. Destes 32 dias, 9 foram de descanso, e naqueles em que se marchou à média das etapas, do Lubango ao Humbe, foi de 17 quilómetros, e do Humbe ao Mulondo de 12 quilómetros, sendo os menores percursos feitos nesta segunda parte do trajecto devidos à necessidade que a coluna tinha de ganhar tempo, a fim de não chegar em frente da embala antes do dia ajustado com os auxiliares para o ataque.

Em geral, a marcha de cada dia era feita de uma só vez, de manhã, começando ao romper do dia; ao cabo de duas horas de marcha, havia um alto de meia hora, e sucediam-se depois pequenos altos de 10 minutos, de hora em hora, ou nos locais em que havia água ou boa sombra, o comboio, enquanto se esteve longe do inimigo, marchava com algumas horas de antecedência, quando não podia seguir de véspera.

A formação de marcha em território inimigo era a coluna dupla com os carros do comboio a dois de frente, coberta a distância não excedente a um quilómetro pela rede dos auxiliares indígenas A formação estabelecida para o caso de encontro com o inimigo era uma reserva em quadrado, e o resto da força em linha, amoldando-se ao terreno e adoptando disposições ofensivas ou defensivas conforme as circunstâncias.

Nos locais de etapa, a coluna bivacava; as praças armavam as suas tendas abrigos, e os oficiais dormiam em barracas. Nas proximidades do inimigo, o bivaque era sempre em quadrado, e o comboio formava geralmente laager circular na direcção de uma das diagonais, O serviço de segurança do bivaque era constituído por grupos de auxiliares em volta do quadrado, sentinelas às faces e patrulhas permanentes de cavalaria, além das rondas dos chefes de auxiliares e dos oficiais / 369 / de serviço; nos lugares de maior perigo estava sempre em armas, uma parte da força.

A partir do Catequero, houve vários exercícios de combate e toques de alarme tanto em marcha como em estacionamento. No alarme do bivaque da lagoa Yôha, a cavalaria gastou 5 minutos a aparelhar, a infantaria em 2 minutos estava armada e equipada e a artilharia em 3 minutos tinha todo o pessoal e gado a postos.

Os soldados, sobretudo os europeus, aguentaram brilhantemente a marcha, chegando quase sempre ao lugar de etapa frescos e a cantar. A única nota discordante foi a dos soldados indígenas da 11.ª companhia, de Moçambique, que se incorporaram na coluna desde o Lobango até ao Humbe: muitas destas praças feriam-se nos pés por falta de alpercatas, outras sentiam-se sobrecarregadas com o peso que transportavam e não podiam aguentar a velocidade da marcha, outras ainda, talvez pelo seu pouco tempo de praça, tentaram desertar, o que por vezes conseguiram, apesar da vigilância dos seus oficiais. Os soldados da 12.ª companhia, também indígenas de Moçambique, que não eram recrutas e que já estavam aclimatados, pois há cerca de um ano se encontravam de guarnição no Humbe, acompanharam sempre a tropa europeia, fazendo boas marchas.

O comboio teve alguns bocados maus a atravessar; ainda não tinha havido grandes chuvas, e por isso não havia atoleiros no caminho; mas havia algumas extensões de areal, que muito fatigavam o gado. Apesar de tudo, o comboio nunca se deixou atrasar, aguentou muitas vezes a marcha da coluna e chegou a vencer a distância de 20 quilómetros em um único treck.

A artilharia teve que ir tirada por bois até ao Catequero, por estarem no Humbe as muares que lhe eram destinadas; a sua marcha foi muito difícil nas partes de areia, sobretudo à saída da fortaleza dos Gambos, onde demorou notavelmente o andamento da coluna. Do Catequero ao Mulondo, seguiu bem.

O estado sanitário das tropas foi em toda a marcha muito bom, para o que certamente concorreu em grande parte a sua magnífica alimentação, distribuída com regularidade, e quase sempre cozinhada no próprio local. Mercê das disposições adoptadas pelo chefe dos serviços administrativos, poucos foram os dias em que deixou de haver ração de pão.

O abastecimento de água não se pode dizer que fosse igualmente bom; a escassez e a sua má qualidade em alguns sítios não podiam ser vencidas pelo zelo dos oficiais a quem este serviço estava cometido. A zona mais difícil para o abastecimento de água foi a de Birambundo ao Catequero, tendo sido necessária, além da abertura e limpeza de cacimbas, transportar com antecedência água em barris para a Cachana e para a Cavalana. O alúmen foi empregado com êxito na beneficiação da água. Do Catequero para o Mulondo, a coluna tinha sempre à disposição a magnífica água do rio Cunene.

Foram tomadas as precauções que se tomam / 370 / em território hostil ao atravessar as terras dos Gambos, e em toda a marcha ao longo do Cunene, mas não houve ataque nem alarme algum em todo o percurso. Nos Gambos, o gentio tinha abandonado as libatas vizinhas da estrada, em algumas das quais se viam bandeirolas azuis e brancas, que consta terem sido distribuídas pelos missionários. Nas terras do Humbe, a coluna foi bem acolhida pelos indígenas, que vinham em massa aos locais de estacionamento, e que se ofereciam com insistência para acompanhar a coluna: poucos destes oferecimentos foram aceites, por haver já auxiliares de sobra. Na Camba, veio o próprio soba, com o seu trajo de gala, de sobrecasaca, saiote de zuarte e chapéu de aba voltada, oferecer os seus serviços ao governador e trazer-lhe o tradicional presente, um lindo boi amarelo.

No Quiteve, quase toda a gente era de emigrados, fugidos à tirania de Hangálo, e entusiasmaram-se com a passagem da coluna, que lhes havia de abrir as portas da sua terra.

O gentio do outro lado do rio deixou em paz a coluna durante toda a sua marcha; e à fortaleza do Quiteve veio até um grupo de 57 evales, armados de espingardas finas, que o soba Cavanguelua mandava pôr à disposição do governador e que efectivamente acompanharam a coluna e tomaram parte nas operações: foram-lhes em todo o caso distribuídos distintivos bem diferentes dos outros auxiliares, para acautelar qualquer caso de traição.

Um contratempo, que muito inquietou a coluna e que podia ter sido de gravíssimas consequências, foi o incêndio que se manifestou no capim, perto do acampamento do Gonga. Ainda bem não tinha sido instalado o bivaque, nos armos do soba da Camba, quando se pronunciou com violência o incêndio, do lado do Sul, que avançava assustadoramente e se alastrava ameaçando envolver o quadrado. Oficiais e soldados e os numerosos auxiliares da coluna deitaram-se todos a combater o fogo e a preparar a defesa do bivaque; / 371 / em volta do quadrado e do comboio, limpavam os soldados uma larga faixa de capim ao mesmo tempo que com moras verdes atacavam os indígenas bravamente o incêndio, conseguindo dominá-lo e apagá-lo do lado que ele mais podia incomodar.

Ao cabo de três quartos de hora de fatigante trabalho, estava conjurado todo o perigo e voltava-se à normalidade do serviço do bivaque, sem que contudo tivesse ficado extinto o / 372 / incêndio, que numa outra direcção lá continuou lavrando todo o dia e toda a noite, e ainda se avistava de madrugada quando a coluna levantou o bivaque. Descuido de um carreiro do comboio, que atirou para o capim um fósforo aceso, foi a causa de tanto incómodo e de tão grande perigo.

 

A tomada do Mulondo

Logo que a coluna chegou ao Quiteve, passou o rio o chefe de auxiliares, Carlos Maria, com gente da localidade e cerca de 300 muchimbas, para se ir postar entre os vaus do Cácua e do Handjabero, a tomar as passagens do Cunene e evitar não só a chegada de qualquer reforço da outra margem, como a fuga de gente e de gado de Mulondo.

A coluna avançava lentamente: tendo chegado a 19 de Outubro ao Quiteve, ali descansou os dias 20 e 21, e seguiu depois para Chilongo e Caimona, fazendo etapas de 10 e 6 quilómetros. Assim era necessário para que o ataque à embala tivesse lugar no dia combinado – 25 de Outubro.

Ao caminho tinham vindo apresentar-se alguns fugitivos de Mulondo: dois deles, pai e filho, que tinham conseguido escapar-se da embala, deram informações interessantes das disposições adoptadas pelo Hangálo, da quantidade de gente que ele tinha em volta de si, do terreno que rodeava a embala e dos caminhos que lhe davam acesso. Foram dois valiosos guias que nunca mais a coluna largou.

Na manhã de 21, em marcha de Chilongo para o vau de Caimona, ao passar uma mata, encontraram-se várias cortaduras de pequenos abatizes, e riscos na areia do caminho de distância a distância: era a entrada das terras de Mulondo. Aqueles obstáculos e sinais, que materialmente nada valem, têm contudo uma importância para o espírito dos indígenas, para os quais é um desafio aceite romper uma cortadura e feitiço que quebra as pernas passar por cima dos riscos. Os chefes de auxiliares passaram adiante, para mostrar que os riscos lhes não quebravam as pernas, e com vozearia e saltos passou o cordão de indígenas da exploração.

Pouco se tinha avançado, quando num terreno descoberto foi avistado ao longe um grupo de indígenas que vinham do lado do rio, e que a correr se metiam na malta que ficava para nascente. Os auxiliares não os puderam alcançar, mas seguiram-lhes os rastos e viram / 373 / que aquela gente tinha passado a noite à beira do caminho, sendo naturalmente vedetas do inimigo.

Às 7 horas da manhã bivacava a coluna sem outra novidade, perto do rio, entre os vaus de Caimona e de Cabale. Tinha-se já entrado na parte povoada das terras do Mulondo, os auxiliares indígenas estavam ansiosos pelo saque, e por outro lado não havia notícias de confiança sobre a situação do inimigo, ainda que as informações obtidas concordavam em dizer que toda a gente estava concentrada na embala. Resolveu então o comandante da coluna que o chefe de estado-maior saísse tarde em reconhecimento, com a força de dragões e os auxiliares. Tendo partido às 3 horas, voltavam ao escurecer, depois de chegar até Nanganha e Inhoca e de ter revistado mais de 30 libatas: todas as Iibatas estavam abandonadas e nem rastos frescos se viam, sendo unicamente encontrado pelos auxiliares um indígena oculto no mato, que foi trazido como prisioneiro para o bivaque; criação raras vezes se encontrava, e objectos aproveitáveis muito poucos; as tulhas é que abarrotavam de mantimento, mas os auxiliares pouco caso dele fizeram. Na sua fúria de encontrar que roubar, escapavam-se aos chefes, e, a despeito dos esforços destes, espalharam-se por uma área enorme, que era acusada pelos rolos de fumo das palhotas que incendiavam.

A noite passou-se em sossego, e na madrugada seguinte punha-se a coluna em marcha para o vau do Cacua, onde chegava às 9 da manhã. Este local de estacionamento havia sido de antemão escolhido para que no dia do ataque as tropas pouco tivessem que andar e pudessem entrar frescas em combate. O comboio bivacou em laager circular dentro do quadrado, e este foi cercado por abatizes de espinheiros, faina que levou muito tempo, apesar de nela trabalharem todos os auxiliares. Quando se estavam cortando os espinheiros, por duas vezes houve algazarra dos indígenas: de uma das vezes, atravessou o campo uma lebre, e da outra mataram uma gibóia; factos que eles muito festejaram como de bom agouro para as operações do dia seguinte – a lebre significava que o Hangálo tinha que fugir, e a gibóia queria dizer que havíamos de encontrar carne que fartasse (boa presa de gado).

De tarde foi dada a ordem de combate para o dia seguinte, que determinava que o comboio ficasse no lugar do bivaque e a coluna marchasse directamente ao ataque da embala / 374 / de Mulondo; e à noite, como a coluna não havia podido pôr-se em contacto com os boers nem com a gente de Carlos Maria, foram deitados alguns foguetes de sinais para lhes indicar a nossa presença.

No dia 25 de Outubro saiu a coluna do bivaque às 6 horas da manhã. Os abatizes que defendiam o quadrado haviam sido dispostos em volta do comboio, que ficou escoltado pelo pelotão da 11.ª companhia indígena de Moçambique, e pessoal dos carros, e cuja defesa ficou sob o comando do alferes Germano Dias.

A formação da marcha era a que vai indicada na estampa. Comandava a guarda avançada o capitão Salgado, da companhia europeia; o grosso da coluna, o capitão Fonseca, da 12.ª companhia de Moçambique; e a guarda da retaguarda, o tenente Zuchelli, da companhia europeia. A coluna seguiu pelo caminho do rio até ao sítio denominado Potengue, que, segundo as informações dos fugitivos de Mulondo, era o melhor ponto para o ataque; meteu então para o lado da embala, começando a subir por um caminho estreito aberto em mato de espinheiro que nada deixava ver e embaraçava a marcha, e às 7 horas e 15 minutos rompia um nutridíssimo fogo no flanco esquerdo, acompanhado de grande algazarra e da conhecida cúa. Sentiam-se silvar as balas por cima da nossa cabeça, mas a coluna prosseguiu na sua marcha sem vacilar e nenhum soldado foi ferido: o fogo era entre os auxiliares flanqueadores e o gentio que, emboscado, esperava por ali a coluna.

Às 7 horas e 27 minutos desembocávamos numa vasta clareira em declive suave, tendo no alto algumas árvores frondosas; disseram os guias que era naquele alto a embala, e efectivamente começou a divisar-se a paliçada que a cercava e o barro vermelho do seu parapeito. A coluna passou à formação de combate, Dois pelotões da companhia europeia, respectivamente sob o comando do tenente Montes Martins e do alferes Elias, e um pelotão da 12.ª companhia indígena sob o comando do alferes Pires, estenderam em atiradores à distância de 600 metros da embala. O pelotão indígena ficou no centro, o do tenente Martins na direita e o outro na esquerda. A primeira peça tomou posição à esquerda do pelotão da direita sob o comando do alferes de artilharia Rodrigues. A força de dragões e um pelotão indígena, sob o comando do tenente Tavares, seguiram a tomar posição a Este da embala, ameaçando / 375 / a retirada do inimigo. As restantes forças, sob o comando do capitão Fonseca, formaram em quadrado, proximamente 200 metros à retaguarda.

Ao desenvolvimento das forças da coluna, correspondeu o mesmo fogo vivo da embala em toda a extensão que a clareira descobria. Do nosso lado, a artilharia rompe o fogo com granada ordinária. O primeiro tiro de peça foi comprido. O segundo atravessou o parapeito de barro e foi rebentar dentro da embala, levantando uma nuvem de poeira e fumo. Houve uma interrupção momentânea no fogo inimigo, para logo depois recomeçar com igau ou maior intensidade. A cúa e a algazarra aumentavam. Novos tiros de peça produziram o mesmo efeito.

Quando os atiradores tinham avançado até uns 400 metros da embala, começou o fogo da infantaria, em roda a linha, por descargas. A artilharia continuava fazendo bons tiros; a infantaria que tinha principiado com pontarias baixas ia-as corrigindo e tornando o seu fogo mais certeiro.

Há novo avanço; um pelotão da 12.ª companhia indígena, sob o comando do alferes Gomes Ribeiro, é mandado reforçar a linha de atiradores, prolongando-a no flanco esquerdo; era entra na linha de combate a segunda peça. Precisamente neste momento inutilizava-se a primeira peça, por se lhe haver partido o eixo.

Toca a cessar-fogo e em seguida a avançar, movimento que é executado por toda a linha menos a peça inutilizada. O escalão de reserva, que nesta altura é constituído por dois pelotões da companhia europeia, respectivamente sob o comando do tenente Zuchelli e alferes Lopes, e pelo pelotão de sapadores sob o comando do alferes Caeiro, acompanha o avanço da linha de fogo, reduzindo a distância a que estava.

O fogo do inimigo era vivíssimo, ainda que desordenado, conhecendo-se pelo estampido dos tiros e pelo sibilar das balas que tinham espingardas de todas as qualidades, desde as mais rudimentares às mais aperfeiçoadas. As suas pontarias, que a princípio eram altas, estavam a baixar: caiu-nos morto um soldado da 12.ª indígena e apareceram alguns ferimentos.

Dá-se novo avanço; estamos a uns 100 metros da embala. O comandante da artilharia diz que está fora de combate a segunda peça. Sem um momento de demora, e antes que as tropas chegassem a sonhar que estávamos sem / 376 / artilharia, o comandante da coluna, num rasgo de decisão, manda avançar o escalão de reserva, e manda ao mesmo tempo armar baioneta, avançar, carregar…

Ao toque de carregar; toda a linha, com o comandante à frente, precipitou-se sobre a embala, correndo e gritando: o reluzir das baionetas, a gritaria de excitação dos soldados e o ímpeto do avanço atemorizaram por tal forma os defensores, que estes quase por completo abandonaram o parapeito em que estavam entrincheirados. Descem os nossos ao fosso, trepam pelo parapeito, enfiam as armas pela paliçada, e em pouco tempo tínhamos uma linha de fogo varrendo o interior da embala. O inimigo, repelido, toma uma nova linha de resistência. Alguém descobre uma das portas de entrada; os sapadores e muitos outros praças tratam de arrancar as traves que a vedavam, conseguindo abrir uma brecha por onde se pode entrar a um de fundo; os atiradores do parapeito abrem outra brecha na paliçada, e todos, corajosamente, entram desembaraçando-se daqueles que tentam opor-se-lhes. A linha é reformada, mais alguns momentos de fogo, e são postos em debandada os últimos defensores da embala. A fechada mata em que os fugitivos se internaram não permitiu uma perseguição ordenada, pelas tropas regulares; mas os auxiliares indígenas ainda caíram neles, matando bastante gente.

Eram 9 horas e meia da manhã, estava tomada a embala, tocando a reunir. As nossas baixas foram: um soldado indígena morto, dois soldados indígenas feridos, um soldado europeu ferido e uma muar morta; auxiliares indígenas, 12 mortos e 8 feridos. As baixas inimigas foram calculadas em mais de 200 mortos e de 300 feridos.

Caem depois de todos os lados, dentro da embala, os auxiliares indígenas, que começam a saquear: tem que se estabelecer sentinelas às portas e que impedir à força a saída de gado e de armas; mas o perímetro da embala é vastíssimo, e eles lá vão saltando a paliçada com o que podem levar.

São reunidos os prisioneiros num dos cercados interiores, o gado é junto a outro lado; e passam a ser revistadas as palhotas, pátios e esconderijos da residência do soba. Este não é encontrado, e os prisioneiros interrogados dizem que fugiu ferido.

Os prisioneiros, na quase totalidade mulheres e crianças, eram em número aproximado de 600. O gado encontrado dentro da embala foram 377 cabeças de gado bovino, 344 de gado caprino e lanígero, e 4 de gado cavalar. Reuniram-se também, conseguindo salvá-las da rapacidade dos auxiliares indígenas, uma carabina Kropatscheck, uma espingarda Mauser de repetição, sete espingardas Martini, cinco espingardas Snyder, várias armas de pistão, muitas peças de armas rebentadas, / 377/ máquinas de carregamento, algum chumbo em barra e cerca de 1.500 cartuchos de diferentes sistemas. Nas mãos dos soldados viam-se várias objectos apanhados por eles que lhes foram dados e que eles guardavam orgulhosos como troféu: entre esses objectos estavam as fenomenais botas altas que o Hangálo calçava quando meses antes nos deu audiência, e a caixa de música que na mesma ocasião ouvimos tocar.

O espectáculo que oferecia o interior da embala era emocionante: o chão daquele vasto recinto estava juncado de esteiras, quimbundos, cabaças e utensílios gentílicos, uns objectos entornados, outros despedaçados, bem mostrando a massa de população que ali esteve reunida e a grande confusão que se estabeleceu; a um e outro lado viam-se cadáveres de homens, mulheres e crianças, e sítios havia em que os cadáveres estavam em monte; com corpos humanos misturavam-se animais mortos, bois, ovelhas, cabras e até cães; por debaixo dos mortos, havia feridos, ainda com vida; aqui viam-se crianças a mamar em mães que já tinham morrido; acolá patenteavam-se / 378 / os estragos das granadas – palhotas em estilhas, corpos horrivelmente mutilados...

As tropas bivacaram dentro da embala, e começou-se logo na grande faina do tratamento dos feridos e do enterramento dos mortos. O fosso que o inimigo tinha aprofundado foi a vala que recebeu os seus cadáveres.

Estabeleceu-se a comunicação com os boers e com Carlos Maria, que estavam a pequena distância e que mandaram gente ao nosso encontro depois do combate.

Pelas 5 horas da tarde, todas as forças da coluna, formadas, prestavam a continência à bandeira nacional solenemente hasteada no centro da embala. O comandante da coluna fez então às tropas a seguinte alocução:

«Camaradas da coluna: foi hoje um dia de «glória para nós e para o exército português; 25 de Outubro será um dia memorável da história pátria portuguesa, porque os valentes soldados e oficiais da coluna do Mulondo, depois de uma marcha sem exemplo em disciplina e resistência, acabaram de tomar na ponta da baioneta a embala do soba. Chamavam-nos crianças, diziam as informações do gentio, e as crianças, ao passo de carga, arrancaram-lhe à mão as traves da paliçada que o defendia. Morreu-nos um valente da 12.ª companhia indígena e caiu gravemente ferido um da companhia europeia; todos os lastimamos. Vivam os soldados da companhia europeia! Vivam os soldados da companhia indígena! Vivam os bravos do Mulondo! Viva a coluna! Viva a pátria! Viva o nosso rei!»

As tropas utilizaram neste dia a ração de reserva que transportavam, e passou-se muita sede, sendo necessário enviar por turnos soldados, prisioneiros e gado, a uma boa hora de distância, ao rio, a dessedentar-se.

Pouco depois de anoitecer, houve um alarme no acampamento. As sentinelas indígenas, que diziam ter visto gentio no lado exterior da paliçada, fizeram vários tiros e logo a seguir o pelotão que estava de guarda deu algumas descargas. Como a força fosse pequena para guarnecer a embala, resolveu-se mudar o bivaque para o campo exterior, operação esta que só ficou terminada depois das 11 horas, por a noite estar muito escura e pela dificuldade da remoção do gado e dos prisioneiros.

No dia seguinte, às 5 1/2 horas da manhã, todas as forças disponíveis e os auxiliares se dirigiram para a embala, a destruir as construções e defesas que nela se encontravam e a deitar-lhes fogo. Ao cabo de duas horas, estavam as palhotas e paliçadas em chamas e as tropas voltavam ao quadrado.

Levantou-se o bivaque, assistimos ao enterro do soldado indígena, que na véspera havia sido morto em combate, e pusemo-nos em seguida em marcha para o local onde havia de ser construído o posto militar de ocupação daquelas terras.

Eram 11 horas da manhã, bivacava a coluna na margem do Cunene, junto ao vau / 379 / de Handjabero. Ali foi mais tarde reunir-se a parte do comboio que tinha ficado no Quiteve. Neste dia fez se a distribuição do gado apreendido, metade para o governo e metade para os auxiliares; receberam-se os prisioneiros feitos pelos boers e pela gente de Carlos Maria, e saíram vários grupos de auxiliares em busca do soba, que todos diziam estar ferido, afirmando uns que ele se conservava internado no mato, e outros que ele passara o rio e seguia de tipóia para o Evale.

Faleceu-nos o soldado europeu que na véspera havia sido ferido em combate, e morreram alguns auxiliares indígenas, que também tinham recebido ferimentos.

Em 27 de Outubro, começaram os trabalhos da construção do posto militar, cujo local foi escolhido numa altura sobranceira ao rio, dominando o vau de Handjabero, e muito perto do sítio em que nos encontrávamos bivacados. E na tarde do dia imediato, 28, um grupo de boers veio ao nosso acampamento trazer a notícia de que o soba havia sido encontrado morto no interior de uma emaranhada mata de espinheiros; o adiantado estado de decomposição não permitia o transporte do corpo, mas no dia seguinte viriam trazer a cabeça para confirmação. A notícia correu logo entre os prisioneiros, que manifestam com ela grande alegria, e parece que já se tinha espalhado entre o gentio que andava a monte, pois que nessa mesma tarde muita gente se veio apresentar, protestando submissão ao governo.

Efectivamente, no dia seguinte, os boers traziam, como prometeram, ao nosso acampamento a cabeça de Hangálo e também a carabina Kropatscheck que o acompanhava e o cinto – cartucheira de seu uso, o que tudo foi exposto ao exame de prisioneiros e auxiliares e por eles reconhecido como do próprio Hangálo. Tiraram-se fotografias da cabeça, e foi lavrado do reconhecimento o competente auto.

As apresentações de gentio continuavam, e, sendo muito difícil o sustento e guarda de tão grande número de prisioneiros, ao mesmo tempo que nenhum inconveniente havia já na sua soltura, pois o que toda a gente das terras queria era a paz e a protecção do governo, resolveu o comandante da coluna dar a todos a liberdade e permitir-lhes que voltassem para as suas terras, depois de lhes fazer saber que não havia mais soba em Mulondo, e que a única autoridade ali com poderes passava a ser o comandante do posto militar.

Passou-se do período dos hostilidades ao da cordialidade de relações; os ex-prisioneiros batiam palmas, atiravam-se ao chão e levantavam terra em demonstração de agradecimento; muitos voltaram nos dias imediatos ao acampamento, trazendo consigo parentes, / 380 / e pouca vontade mostravam já de deixar a coluna, junto da qual parece se sentiam bem; diziam-se felizes por não ter soba – o Hangálo matava-os, escravizava-os, tirava-lhes as mulheres e os filhos e ficava-lhes com os melhores produtos dos seus arimos, com o marfim e com a cera que apanhavam.

No dia 3 de Novembro estava concluída a construção do posto, e teve lugar a cerimónia da sua inauguração, sendo nele içada a bandeira nacional, com assistência do gentio e formatura geral das tropas. A cabeça do Hangálo ficou enterrada no baluarte em que estava hasteada a bandeira. A guarnição dada ao posto foi de um pelotão de infantaria indígena, e uma boca-de-fogo com a respectiva guarnição europeia.

FIM

EDUARDO AUGUSTO MARQUES

Capitão do serviço de Estado-Maior
 

 

 

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