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A Exposição de Cerâmica
DE
Manuel Gustavo Bordalo
Pinheiro
A arte de Manuel Gustavo, toda feita
de rápidas impressões, colhidas no desenrolar vertiginoso da vida de
que ele, ainda que sob um aspecto cómico, se tornou por dever de
ofício o comentador, toma agora uma orientação mais profunda. Com
algumas das inexperiências dum principiante, a obra de ceramista por
ele presentemente exposta revela já, na sua intenção geral e em
certos detalhes, a força de um artista sobre quem pesa uma grande
herança, e que, em vez de a renegar, heroicamente a invoca. É sob a
invocação da memória de seu pai que esta exposição é feita, e foi
ainda o sentimento de respeito e orgulho filial que o lançou no
caminho encetado, procurando não quebrar uma tradição tão
gloriosamente iniciada.
De tudo o que pelo artista é patente
ao público, e que podemos ver, faianças e pequenas estatuetas, se
conclui que o caricaturista que só procurava até / 509 / aqui a
deformidade e o ridículo das coisas, sabe também surpreender com
verdade a vida, dando-lhe forma, e, com o poder da cor e o alfabeto
múltiplo da linha a que vem juntar-se os recursos especiais da
química, arrancar do fogo pequenas obras de arte que são, ao mesmo
tempo, objectos de uso, isto é obras de verdadeira indústria
artística.
Sem ter a imaginação poderosa de seu
pai, nem a sua facilidade por vezes monstruosa, Manuel Gustavo, por
isso mesmo, mantém na decoração das suas obras mais facilmente o
indispensável equilíbrio; e assim os seus potes, os seus canudos, e
os seus vasos, que vão desde a jarra egípcia até ao gordo canjirão e
o típico pichel, se não oferecem a riqueza maravilhosa de detalhes
que caracterizam a obra de Rafael, recomendam-se por uma harmonia e
uma sobriedade que lhes dá mais / 510 / lógica e os tornam mais
práticos e familiares. E esse carácter de familiaridade é tudo. As
obras de arte aplicada precisam essencialmente de poderem ser
utilizadas, harmonizando-se, sem grande destaque, com o meio em que
são chamadas a intervir e em que devem pôr uma nota de distinção
fundamentalmente discreta. Só assim, elas se conformarão como seu
destino prático e com o seu fim acessorial.
E dentro desta orientação, que
permitirá o seu barateamento e a sua entrada em todos os lares ainda
os mais modestos, as indústrias artísticas representam um papel
educativo da mais alta importância. Manuseadas constantemente, são
também constantemente para os homens com quem estão em contacto, uma
alta e profícua lição, educando-lhes o gosto e preparando-os para a
contemplação e compreensão das obras de arte pura.
E é esta justa e boa intenção, a
revelada por Manuel Gustavo nas primícias que nos dá dos seus
esforços. Salvo pequenos desvios com exotismos, como o da sua «jarra
amachucada com caranguejo», n.º 38, Manuel Gustavo procura resolver
o problema da cerâmica artística, e muito bem, com os mais simples
recursos, os que lhe fornece o emprego de formas sóbrias,
enriquecidas com motivos da maior discrição, a que a nota de cor e o
brilho do esmalte vem dar maior valor. E é quanto basta. Na arte
aplicada, o bom gosto sólido e simples foi e há-de sempre ser a
qualidade máxima.
Mas além das suas faianças, as suas
pequeninas figuras merecem ainda especial menção. Rafael Bordalo foi
nisso primacial. Os seus tipos populares e as suas caricaturas do
género têm tal carácter que atingem por vezes o símbolo. Todos as
temos presentes. Ora, neste ponto, Manuel Gustavo acompanha-o de
perto. As suas pequeninas figuras não resistiriam com certeza a um
desenvolvimento que as pusesse numa escala mais próxima / 511 / da
proporção natural, mas tem um tal encanto, pelo movimento e carácter
que o artista lhes soube dar, que a sua linha decorativa, que era o
fito essencial procurado por Manuel Gustavo, é o mais feliz e
interessante possível. O seu homem e mulher «fadistas», o seu par da
«Polka Pires» e, sobretudo, o que compõe o grupo do «minuete», em
que há ainda, na figura de mulher, um pouco da influência má do
caricaturista, são sem dúvida pequeninos bibelots duma grande
sugestão e cujo estilizado recorte mostra bem como é original e
elegantemente aristocrático o temperamento do moço artista.
E essa boa aristocracia revela-se em
tudo: nas formas e nos tons. Como as ornamentações com que decora os
seus barros, as cores de que os banha, são ricas mas duma riqueza
que não fere e que deixa em quem os olha a melhor e mais sugestiva
impressão. Não são, assim das menos valiosas das suas obras expostas
esses seus espécimes, livres de decorações que nem sempre deixam á
linha todo o seu encanto, encanto que, sob a carícia do vidrado duma
grande / 512 / pureza, reveste ainda um maior valor.
Manuel Gustavo de posse duma técnica
já poderosa, colhida nos trabalhos de seu pai e nos esforços dos
seus colaboradores, que são os mesmos de Rafael Bordalo, caminha por
esta forma corajosamente procurando acompanhar o movimento ceramista
moderno tão brilhantemente afirmado na exposição de 1900. Como
Alexandre Bigot, Taxile Doat e Michel Cazir, Manuel Gustavo, mais do
que ineditismos, só possíveis em altas cozeduras, processo este
incompatível com o barateamento que é o seu principal fim, visa
sobretudo ao arranjo artístico do objecto à sua decoração simples e
lógica, e ao mesmo brilho, solidez e resistência da matéria de que
lança mão e em que, com maior ou menor felicidade, deixa sempre
impressa todo o seu gosto tão fino, educado e discreto.
JOSÉ DE FIGUEIREDO
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