Protecção aos Desvalidos

Quadros fugitivos da acção caritativa da boa e generosa alma portuguesa

Os Cegos

DIZER como veio a introduzir-se e a radicar no nosso país a cruzada do ensino racional dos cegos, é o objecto especial a que se destina este segundo artigo, por quanto o primeiro se consagrou a relatar apenas o que dizia respeito à acção benéfica de simples protecção e amparo exercida pela caridade publica para com esta classe de desditosos indigentes.

A completar o que nele se dizia acerca do Asilo de S. Manuel, fundado pela misericórdia do Porto, incluem-se neste segundo artigo as duas gravuras pelas quais o leitor poderá fazer ideia daquele instituto, e juntamente o retrato do seu dedicado iniciador.

O ensino dos cegos constitui porém outro capítulo não menos interessante de moderna e bem orientada beneficência.

Foi outra filha do celebre Dr. Xavier Sigaud vinda para Portugal, onde se tornou muito conhecida sob o nome de madame Souto, quem, encontrando dedicados auxiliares no Sr. A. M. de Lima Carvalho, no cego Sr. Léon Jamet, antigo aluno do Instituto de Paris, organista e musico da capela real, e no Dr. Aniceto Mascaró, e conquistando a boa vontade e protecção da alta sociedade portuguesa, / 484 / procurou criar uma forte corrente afectiva de tiflófilos de que resultou a Associação promotora do ensino dos cegos. Após uma reunião nas salas do Comércio de Portugal, onde alguns cegos executaram em público exercícios de leitura, escrita e música, cativando assim a adesão de espíritos inteligentes e cultos, fundou esta Associação, em 1889, o seu Asilo-Escola António Feliciano de Castilho, situado primeiro ao Calvário, perto da residência da instituidora. Dali passou para Pedrouços e depois para o palacete na rua de S. Francisco de Paula, onde hoje se encontra.

Abriu apenas com 4 alunos e 5 alunas, menores, todos filhos de famílias pobríssimas, alguns dos quais antes recorriam à mendicidade; hoje mantém 57 asilados de ambos os sexos.

Directores inteligentes e dedicadíssimos promoveram a implantação do ensino profissional a par do da instrução primária, de português, de francês, de música, de piano, e de violoncelo e canto, que já existiam.

Criaram-se em 1899 as oficinas de escovas e de sapatos de trança, bem como as de obras de malha, croché, flores e rendas de Peniche. Alguns dos professores são cegos, e ultimamente com os alunos de música se formou ali uma pequena orquestra, que tem tocado em concertos públicos, com aplauso dos auditórios.

Ainda no dia 20 de Maio último, na sala do Real Ginásio Clube, se efectuou perante numerosa concorrência um sarau, onde os ceguinhos com a sua orquestra, sem regente, executaram dificultosos números do programa musical. Além disto, porém, recitaram poesias, cantaram, dançaram, com admirável precisão, e apresentaram exercícios de ginástica sueca, em que os alunos de ambos os sexos foram pacientemente adestrados pelo professor Sr. Aníbal Pinheiro. / 485 /

Pelas nossas gravuras verá o leitor alguns aspectos do asilo e grupos de asilados nos seus vários misteres. São reproduções de belos clichés que o nosso hábil colaborador artístico Sr. A. Barcia ali foi expressamente tirar, mediante graciosa concessão dos actuais e zelosos directores do Asilo.

Paralelamente, a corrente das ideais pedagógicas ia insuflando no Instituto Imperial dos meninos cegos, do Rio de Janeiro, notável desenvolvimento e radical transformação.

Foi o Dr. Xavier Sigaud quem primeiro lhe deu impulso inicial, para demonstrar «o erróneo preconceito de que o cego é um inválido condenado à ignorância, merecendo só compaixão e cuidados corporais».

O seu continuador, depois de 1856, Dr. Cláudio Luís da Costa, consagrou-lhe durante 13 anos igual dedicação, e por fim seu genro o ilustre Dr. Benjamin Constant, nomeado director em 1869, foi, quando ministro do governo democrático, o seu feliz reformador. Até 1889 o grande asilo, que D. Pedro II patrocinara tanto, doando-lhe terreno onde se construiu em 1872 o vasto edifício, era apenas um hospício onde se acolhiam e albergavam cegos indigentes.

O espírito lúcido de Benjamin Constam esboçou o novo plano, e deu ao Instituto, pelo Decreto de i7 de Maio de 1890, o carácter de uma verdadeira escola de ensino teórico e profissional.

É curioso ver nos relatórios e noticias elaboradas pelos seus últimos directores Dr. Brazil Silvado e Jesuíno da Silva e Melo, como ali, semelhantemente ao que sucede no Instituto Braille, em Saint Mandé, de que é proficiente director o Dr. Péfaud, se ensina aos cegos, com processos e material de ensino interessantíssimo, a geografia, a história natural, além das línguas vivas, da história pátria, da matemática elementar, etc.

E, a par do ensino teórico, vêem-se também as oficinas onde aprendem o fabrico de escovas, de vassouras, de espanadores, a empalhação de móveis, e os misteres de tipógrafos e de encadernadores. As raparigas aprendem a fazer croché, bordados, flores e obras de missanga.

Benjamin Constant morreu em 1891, e o governo brasileiro, entre as honras que tributou à sua pranteada memória, deu o seu nome ao Instituto, de que ele fora durante 21 anos o mais dedicado director.

O ensino de música e de canto ocupa também ali, como nos asilos de Lisboa, um lugar / 486 / importante, visto serem artes mui peculiarmente cultivadas pelos cegos.

Para esse fim mantém aulas de canto e de canto coral, de instrumentos de sopro e de corda, de piano, harmónio e órgão, e do concerto e afinação destes instrumentos; nestas aulas se tem habilitado a ganhar honrosamente a vida muitos músicos, pianistas e afinadores.

Havia no Instituto uma banda, que o director Brazil Silvado transformou em orquestra. Com elas se efectuaram magníficos concertos e saraus, como os do nosso Asilo Escola António Feliciano de Castilho. Para uma destas soberbas festividades, escreveu o ilustre e malogrado poeta brasileiro Valentim de Magalhães inspiradas poesias.

Uma destas poesias intitula-se Os dois edifícios (A Cadeia e a escola), e a outra Os cegos.

Nesta última se enaltecem as aptidões aproveitáveis dos cegos, ante os quais se abre o mundo do Ideal, o mundo do Pensamento.

Não é possível resistir à tentação de transcrever aqui, apesar de extensa, esta sentida poesia, obra-prima do poeta brasileiro. É um serviço prestado aos nossos leitores que não facilmente conseguiriam lê-lo de outro modo.

Foi escrita no Rio, em Agosto de 1898. Ei-la:

 

Há dois mundos no mundo. Um palpável e enorme,

Composto de milhões de formas e de aspectos.

Que ao sol palpita e vive e que nas trevas dorme;

Mundo de sensações, de contactos, de objectos.

 

É o visível. ……………………...

……………………………………………..

Esse mundo é o que nós de vista conhecemos;

Só de vista, que a essência e a origem ninguém sabe.

Nele vemos a luz e nele a luz perdemos…….

Esse mundo sem fim numa pupila cabe!

 

O outro é o que se vê sem olhos, o que ao tacto

Escapa e nenhum sábio ainda pôde grafar;

É o que palpita e ruge e canta, imenso e intacto;

Tem mais astros que o céu, mais pérolas que o mar.

 

É o mundo do Ideal, do Pensamento; é o mundo

Interior, que não tem formas nem aparências;

Em cujo intimo seio, incógnito. profundo.

Tumultua, fervendo, a mó das consciências.

 

Cegos, é nesse mundo o vosso reino, o vosso

Céu é esse, em que há luz e não há vendavais;

Cujo sol – o Ideal, não tem, qual tem o nosso,

Ocaso, eclipse e noite, e não morre jamais,

………………………………………………..

 

Cegos, a vossa luz é a luz da Alma, é a boa,

A que não se macula em charcos e pauis;

Vem dum céu em que o Bem serenamente voa,

– Pomba de neve e rosa em páramos azuis. / 487 /

 

Cegos, vedes p'ra dentro e melhor e mais certo

Que os que cegos não são; os males e as desgraças

Adivinhais, se tanto; estais de Deus mais perto;

Seguis dos anjos d'Ele as luminosas traças…

 

Nunca vereis a chaga, o sangue, o pús, a lama

Nunca vereis matar, nunca vereis morrer!

Ignorais o que seja a Fealdade, e o drama

Do crime não o podeis, horrorizados, ver!

 

Do amor tendes somente a essência delicada.

Toda a mulher p'ra vós é formosa e perfeita...

Não tendes, como nós, a alma insaciada,

Desejando sem trégua e nunca satisfeita.

 

Cegos, porquê? Porque não vedes o que vemos?

O nosso mundo vil, o nosso inferno atroz?

Tristíssima cegueira esta em que nós perdemos!

Oh ! Como vedes bem!

                                   Os cegos somos nós!

*

*     *

Lancemos agora uma rápida vista de olhos pelos processos ou sistemas inventados para o ensino dos cegos.

Ao francês Carlos Barbier, falecido pouco antes de 1850, se deve a ideia-mãe, a base principal em que todos os sistemas se fundaram – a dos pontos salientes para os cegos lerem as letras em relevo, pela palpação com os dedos. Esta ideia simples e engenhosa teve a opinião favorável da Academia das Ciências de Paris, em três relatórios sucessivos de 1820, 1823 e 1830, firmados por nomes célebres como os de Lacépede, Cuvier, Ampère e Molard.

Barbier chamava à sua escrita – escrita nocturna – por ser aplicável a videntes, cegos, surdos-mudos e até aos ignorantes da leitura usual, em razão da sua extrema simplicidade.

Luís Braille, contemporâneo de Barbier, aproveitou a ideia e dispôs os pontos em relevo de modo a formar sinais convencionais correspondentes às letras e algarismos.

Outro francês, Balu, desenhava as letras do nosso alfabeto por fieiras de pontinhos picotados ou em relevo, tornando assim mais difícil e morosa a sua leitura pelos cegos.

Análogo também é o sistema do abade Canon, que contudo procura desenhar a letra do alfabeto comum, aproximando-se já de uma perfeição ideal.

Surgem depois outros sistemas de escrita, denominados estilografia, em que a cravação ou relevo da letra se faz por meio de traços / 488 / seguidos e não de pontos. Foi seu dedicado promotor o conde de Beaufort, tendo por seguidora Mademoiselle  Mulot.

Lorenz, inventor do sistema usado em Espanha, era filho da Catalunha, berço do ensino dos cegos. A escrita de Lorenz é a letra comum estilografada. O inglês Moon adoptou a linha em relevo, mas seguiu um alfabeto convencional.

Vemos portanto que Hauy e Barbier deram a base de todos os sistemas – a cravação, o relevo. Braille aproveitou a ideia, mas afastou-se de Hauy, e como cego só cuidou da leitura dos cegos, sem pensar no proveito que haveria em torná-la acessível aos videntes.

Por fim o médico catalão Aniceto Mascaró, de Gerona, licenciado em medicina e cirurgia pela Universidade de Barcelona, e que em 1870 veio estabelecer-se em Lisboa, onde por muitos anos exerceu a clínica oftalmológica, começou desde 1889 a dedicar-se à tiflologia, isto é, ao estudo da pedagogia dos cegos.

Aproveitando o que havia de bom nos sistemas inventados, o Dr. Mascaró criou o seu sistema de escrita para cegos e videntes, e fundou na rua do Alecrim, n.º 20, o seu Instituto Médico-Pedagógico Mascaró, para habilitar os cegos e todos os anormais à frequência das escolas comuns dos videntes, assim como para formar professores idóneos, dos cegos e videntes.

Neste sistema de escrita, porém, os pontos picotados obedecem à regra de definir o mais possível a letra comum, maiúscula, marcando-lhe o principio, o meio e o fim, ou só o princípio / 489 / e o fim, sendo ligados pela evolução ou traço impresso a preto, como os pontos, de modo que o vidente lê numa escrita deste sistema, como em qualquer livro vulgar.

Eis conseguido o supremo ideal! A escrita Braille, carecendo a iniciação prévia no alfabeto, ou a chave da leitura, só serve para cegos ensinados no seu sistema, os quais tacteando com os dedos os sinais convencionais nela traçados, conseguem lê-la com rapidez. – «Mas, diz-nos o Dr. Mascaró, a escrita para cegos e videntes permite que a mãe ensine o filho cego a fim de que possa frequentar as aulas comuns».

Leigues, ministro da Instrução pública de França, reconheceu, e assim o declarou ao próprio Dr. Mascaró, que o seu sistema representava o aperfeiçoamento / 490 / do de Braille e como demonstração de apreço concedeu-lhe as palmas da Academia. Em 1900, no Congresso de Paris trezentos votos o aprovaram.

O eminente tiflólogo J. Cuningham, de Paisley, declarou que este processo tão simples e engenhoso fazia honra ao seu inventor.

Escusado será encarecer as vantagens desta / 491 / escrita, que para nós tem ainda a recomenda-la o facto de ter nascido em solo português, embora de um autor estrangeiro, mas de nação vizinha e irmã na raça e no sentir. É um invento português.

Estes sistemas de escrita em relevo aplicam-se igualmente à notação musical. Braille deixou memória imorredoura na sua perfeitíssima musicografia.

Muitas outras análogas na base do processo dos sinais em relevo estão porém em uso.

No Instituto Nacional dos Cegos de Madrid (que é de cegos e só por cegos dirigido, apenas com protectores ou patronato) ensina-se a musicografia Abreu.

O Dr. Mascaró tem também a sua, que mereceu em 1900 do conselho escolar do Conservatório de Lisboa parecer favorável, atendendo a que todos os sinais e notações se assemelham aos da música usual, dispensando a pauta e as claves, formando portanto um método de fácil compreensão.

O distinto crítico e musicógrafo Sr. Ernesto Vieira também se tem dedicado com especial predilecção ao ensino musical dos cegos, obtendo na Academia dos Amadores de / 492 / Música os mais lisonjeiros resultados, dignos de registo e de admiração, em alunos que hoje exercem com proficiência o ensino da música. É autor de uma musicografia igualmente notável.

Cada sistema tem seus adeptos. A França conserva o culto de Braille, que se estendeu ao Brasil, onde o director do Instituto Benjamin Constant, o Sr. Brazil Silvado, se manifestou brailista, com tendências pronunciadas para o ensino misto de cegos e videntes. Em Espanha domina o sistema Lorenz e entre nós, onde o sistema de Braille tem tido seguidores, o de Mascaró tem produzido óptimos resultados.

Perfilhou-o com prazer o sábio Provedor da Misericórdia de Lisboa, o falecido Dr. Tomás de Carvalho, alma grande, sempre aberta a todas as ideais generosas e boas, quando a pedido do Dr. Garcia Peres, de Setúbal, albergou na Misericórdia um cego, remunerando o professor Barreiros, que ali o ia leccionar, bem como a outros que depois aproveitaram igual protecção. Este benefício, porém, cessou.

Um dos discípulos do Dr. Mascaró, o cego Lobo de Miranda, tendo sido devotadamente leccionado pelo falecido general Cláudio Chaby e pelo sábio lente da Universidade de Coimbra Sr. Dr. Bernardino Machado, apostolo da instrução popular, e ambos entusiastas pelo sistema Mascaró, foi nomeado professor de videntes na Escola Normal de Lisboa, cujas aulas frequentou com as melhores classificações.

Muitos operários cegos se acham hoje trabalhando livremente, em concorrência com os videntes, em diversas oficinas de escovas e pincéis, nas dos asilos de Santo António e de D. Maria Pia, assim como no ofício de cesteiros, sob a direcção de outro cego Adolfo A. Lobato.

Infelizmente Aniceto de Mascaró y Cós, acometido de súbita doença em plena sessão do Congresso médico de Lisboa, no momento em que mais uma vez ia usar da palavra em reuniões publicas internacionais, para defender com tenacidade inabalável a causa do ensino dos cegos, morreu a 25 de Abril ultimo, sem / 493 / ter conseguido ver a definitiva vitória do seu método.

Toda Lisboa estimava o bondoso e caritativo oftalmologista, que fora o primeiro a fundar em Portugal, sem auxílios oficiais, a clínica e o ensino gratuito dos cegos, exercendo a sua missão filantrópica com uma dedicação sem limites.

Filho da Catalunha (onde nascera em 1842, em Liadá), dessa província onde predominam o carácter vivo e a actividade febril, Mascaró, que enriquecera na América, conservou sempre essas qualidades características da sua origem, e sob um aspecto original, conquistava as simpatias pela graça insinuante, fina e vivaz que nunca perdia nem mesmo nos momentos de mais acerbo azedume.

O Dr. José Lourenço da Luz dizia que se todos os espanhóis fossem Mascarós estaria feita de há muito a união ibérica.

Nenhumas contrariedades, que as teve e muitas, o demoveram da sua paixão filantrópica. A protecção e o ensino dos cegos eram o seu desinteressadíssimo enlevo. – «Os cegos não vêem, dizia ele, mas imaginam; e como os povos da Península são muito ricos em imaginação, os meus cegos hão-de ver na mente o que a sensibilidade dos dedos descobre na escrita».

Como o soldado morreu no seu posto de combate, advogando no congresso a causa de que era estrénuo e devotadíssimo apóstolo!

Sirvam estes singelos períodos do meu artigo de modesta homenagem de saudade pela inesperada morte do dedicado benfeitor dos cegos, e meu bom amigo Dr. Aniceto Mascaró.

O seu sistema realiza o ideal moderno do ensino misto de normais e anormais. É no dizer do próprio autor, o aproveitamento do processo natural, que pode afirmar-se foi sempre o sistema português, isto é a auto-dedicação na luta pela vida.

É um método simples, espontâneo, afectivo, amorável, belo como o método português e como a Cartilha Maternal!

É útil a convivência promíscua de cegos e videntes na escola e na oficina. O companheiro vidente empresta ao companheiro cego a sua vista, e o seu auxílio a todo o momento. Desta sorte o cego distraído do isolamento das trevas como que vê pelos olhos dos camaradas de trabalho e recebe a instrução das coisas, a noção do mundo exterior que desconhece.

É por este processo natural e espontâneo que tantos cegos aprenderam ofícios, artes, ciências.

Admirou-os el-rei na sua viagem ao Algarve ao vê-los trabalhar nas fábricas de rolhas a par dos videntes; assinalou-os em igual mister o Sr. Baldaque da Silva, em Sines; temo-los nós todos visto hábeis sineiros, cesteiros, corticeiros.

Quantos exemplos de notável acuidade intelectual não derivada de ensino poderiam apontar-se. Não falando na bíblica história da cegueira de Tobias, inspiradora do soberbo quadro de Botticeli, nem na lenda, / 404 / hoje contestada, da bárbara mutilação infligida ao célebre general grego Belizário, lenda de que aproveitaram as artes e as letras, nos quadros de Van Eyck e de Gérard, no romance de Marmontel, na tragédia de Jouye na ópera de Donizetti, mesmo nos dramas ignorados e simples da vida contemporânea abundam exemplos notáveis. Citarei alguns, como o de um idoso empregado do deposito de materiais do Sr. Sabido, na rua de S. Bento, o de um conhecido vendedor de jornais espanhol, Manuel Criado Fernandez, que costuma estanciar na rua da Betesga, dando notáveis provas de esperteza na sua vida activíssima, e ainda o de um cego que vive na Arrentela, de nome Augusto Catraeiro, o qual, tendo perdido a vista em tenra idade, exercia o mister de barqueiro, conduzindo sozinho o seu bote no Tejo, em carreiras do Beato a Cacilhas, e manifesta em muitos outros factos extrema penetração de sentidos e uma percepção fácil do mundo exterior que o cerca.

Em misteres mais elevados são dignos de menção o falecido Silva Campos, que durante muitos anos exerceu o lugar de escrivão da nobreza do reino, o Sr. Brito e Cunha, que vítima de um desastre continua a dirigir com proficiência a sua fábrica de produtos químicos, e o Sr. Dória, da Covilhã, que dirige uma tinturaria.

E quantos mais! Músicos e professores vemo-los exímios. No conservatório de Lisboa deixou memória ilustre o conhecido cego João Nepomuceno de Seixas, falecido em 1873, o qual ali regeu a cadeira de rudimentos e de recta pronuncia; como músicos são exemplos dignos de registar aqui o Sr. Leon Jamet, músico da real câmara, o afinador da casa Neuparth e do conservatório Sr. Francisco Lorente, e o célebre violinista brasileiro Luís Margutti, professor do instituto dos cegos do Rio de Janeiro, onde muitos outros professores são igualmente cegos.

E deste instituto brasileiro muitos antigos alunos têm constituído família, vivendo independentes, e mantém até um deles, Cesário Lima, um externato de videntes de ambos os sexos, muito frequentado.

O Magasin pittoresque de 1854 fala-nos com elogio de um português de nome Diogo Álvares, que apesar de cego, tinha tão bonito talho de letra que os seus escritos se guardavam como preciosidades.

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*   *

Os esforços dos tiflófilos têm sido constantes em favor desta causa sacro santa. Quase todos os anos se reúnem em congressos e conferencias, nos principais centros da Europa culta, a discutir processos, a relatar e aquilatar resultados. Vemo-los em Paris, em 1878 e 1889, em Bruxelas em 1902, em Milão em 1901, e por fim, em Edimburgo, nos fins de Junho do ano passado.

Entre nós a propaganda tem sido intensa. A “Revista Mascaró” tem fornecido elementos de leitura e ensino aos cegos e videntes, e publicado na escrita do seu director poesias, como a alma minha de Camões, trechos do D. Quixote, etc., impressos em cartão, ou em seda, e até em lindas placas de porcelana, havendo nestas a tradução do soneto de Camões em catalão e em latim. Esta última versão é do malogrado e sapiente Dr. Santos Valente, e as chapas de porcelana dedicadas ao Dr. Tomás de Carvalho.

Poderiam registar-se entre muitas outras diligências / 494 / empregadas para o ensino dos cegos, as escolas profissionais de cegos de Lisboa e Porto, de acção restrita, o “Jornal dos Cegos”, impresso para propaganda entre videntes, o grande número de esmolas e donativos que por disposições testamentárias distribuem à Misericórdia de Lisboa e outros institutos.

E para fecho desta resenha muito incompleta, cumpre dizer que obedecendo ao pensamento simpático de tornar prático e efectivo o ensino misto de cegos e videntes, pensa o actual director geral da Instrução Pública, o Sr. Cons.º Abel de Andrade, em organizar a admissão e ensino dos cegos nas escolas primárias do reino, onde já actualmente os recebem, habilitando o professorado a tão profícuo e louvável intento.

Muitos directores de colégios particulares e de estabelecimentos industriais de Lisboa e Porto ofereceram ao Ministro do reino a concessão de entrada livre nas suas aulas e oficinas a todos os cegos do país que as queiram frequentar. Assim se evitam ao Estado as despesas da criação e manutenção de asilos e escolas, e se procura manter, na máxima liberdade, sem encarceramentos humilhantes, as infelizes crianças.

Não terminarei este artigo, que vai já extenso, porque o interesse excepcional de assunto tão pouco conhecido por certo da maioria dos leitores, me compeliu a alongá-lo, sem chamar a atenção de quantos fizerem a honra de me ler, para esta sacro santa cruzada do Patronato dos cegos, que deveria implantar-se de uma maneira prática, simples, afectiva, pela cooperação dedicada de todos, promovendo-se a vida livre, harmónica, completa dos anormais, a quem se devem abrir todas as aulas, todas as oficinas, todos os recreios e distracções de que os videntes gozam e aproveitam, numa comunidade fraternal, verdadeira aspiração de supremo conforto e amparo a esta classe infelizmente numerosa de desvalidos.

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ASSIGNÁTURÁ DE A. F. DE CASTILHO

Nem é fácil de presumir a quantos infelizes esta abençoada propaganda poderá aproveitar! Não existe uma estatística oficial dos cegos indigentes e não indigentes existentes por todo o país, além dos 150 que se acham internados em asilos e hospícios. De uma tentativa, feita em 1904 e na qual se confessa a insuperável deficiência do trabalho, calcula-se haver no reino mais de 4500 cegos indigentes e de 2700 não indigentes, sendo 895 menores de 21 anos.

Tais são os números que uma imperfeita estatística nos acusa, inferiores por certo à triste verdade, com respeito à população cega do país, a bem da qual forçoso se torna / 496 / envidar todos os esforços da caridade, dispensando-lhes a protecção na indigência e o ensino, o amparo intelectual e moral de que todos eles carecem.

Esta cruzada santa é dever que a todos cumpre, mas muito especialmente aos médicas, aos institutos especiais onde os cegos são tratados, albergados e protegidos. Aos médicos sem a menor dúvida, quando mais não seja, como muito espirituosamente dizia alguém, pelo dó e comiseração que devem merecer-lhes todos os que eles deixaram cegos.

Tal foi o caso célebre que nos conta Pedro Dufau no seu magnífico livro – Os cegos, publicado em Paris em 1850. Passou-se na Catalunha que, como se vê, tem sido o berço de notáveis ensinadores dos cegos. O célebre cego Jaime Isern, de Mataró, depois músico notável, e autor de uma famosa musicografia, fora durante algum tempo tratado por um médico distinto, depois seu biógrafo, que debalde tentou arrancá-lo à cruel cegueira. Desanimado, vista a impossibilidade da cura, este médico bondosíssimo dedicou-se de corpo e alma a ensinar o seu doente, procurando por este modo, já que por outro o não conseguira, remediar a desventura de Isern.

Reconhecido ao inapreciável benefício da instrução, que lhe abriu uma vida nova, dizia Isern que o seu médico lhe proporcionara – «um beneficio que le pareció tan apreciable como la aquisición de la vista por la que en vano hizo el viaje

Comovedora frase que bem nos pinta o inefável prazer do cego quando pela educação consegue entrar no convívio do pensamento, na vida da Humanidade.

VICTOR RIBEIRO


 

 

 

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