|
Protecção aos Desvalidos
Quadros fugitivos da acção caritativa
da boa e generosa alma portuguesa
Os Cegos
DIZER como veio a introduzir-se e a
radicar no nosso país a cruzada do ensino racional dos cegos, é o
objecto especial a que se destina este segundo artigo, por quanto o
primeiro se consagrou a relatar apenas o que dizia respeito à acção
benéfica de simples protecção e amparo exercida pela caridade
publica para com esta classe de desditosos indigentes.
A completar o que nele se dizia acerca
do Asilo de S. Manuel, fundado pela misericórdia do Porto,
incluem-se neste segundo artigo as duas gravuras pelas quais o
leitor poderá fazer ideia daquele instituto, e juntamente o retrato
do seu dedicado iniciador.
O ensino dos cegos constitui porém
outro capítulo não menos interessante de moderna e bem orientada
beneficência.
Foi outra filha do celebre Dr. Xavier
Sigaud vinda para Portugal, onde se tornou muito conhecida sob o
nome de madame Souto, quem, encontrando dedicados auxiliares no Sr.
A. M. de Lima Carvalho, no cego Sr. Léon Jamet, antigo aluno do
Instituto de Paris, organista e musico da capela real, e no Dr.
Aniceto Mascaró, e conquistando a boa vontade e protecção da alta
sociedade portuguesa, / 484 / procurou criar uma forte corrente
afectiva de tiflófilos de que resultou a Associação promotora do
ensino dos cegos. Após uma reunião nas salas do Comércio de
Portugal, onde alguns cegos executaram em público exercícios de
leitura, escrita e música, cativando assim a adesão de espíritos
inteligentes e cultos, fundou esta Associação, em 1889, o seu
Asilo-Escola António Feliciano de Castilho, situado primeiro ao
Calvário, perto da residência da instituidora. Dali passou para
Pedrouços e depois para o palacete na rua de S. Francisco de Paula,
onde hoje se encontra.
Abriu apenas com 4 alunos e 5 alunas,
menores, todos filhos de famílias pobríssimas, alguns dos quais
antes recorriam à mendicidade; hoje mantém 57 asilados de ambos os
sexos.
Directores inteligentes e
dedicadíssimos promoveram a implantação do ensino profissional a par
do da instrução primária, de português, de francês, de música, de
piano, e de violoncelo e canto, que já existiam.
Criaram-se em 1899 as oficinas de
escovas e de sapatos de trança, bem como as de obras de malha, croché,
flores e rendas de Peniche. Alguns dos professores são cegos, e
ultimamente com os alunos de música se formou ali uma pequena
orquestra, que tem tocado em concertos públicos, com aplauso dos
auditórios.
Ainda no dia 20 de Maio último, na
sala do Real Ginásio Clube, se efectuou perante numerosa
concorrência um sarau, onde os ceguinhos com a sua orquestra, sem
regente, executaram dificultosos números do programa musical. Além
disto, porém, recitaram poesias, cantaram, dançaram, com admirável
precisão, e apresentaram exercícios de ginástica sueca, em que os
alunos de ambos os sexos foram pacientemente adestrados pelo
professor Sr. Aníbal Pinheiro. / 485 /
Pelas nossas gravuras verá o leitor
alguns aspectos do asilo e grupos de asilados nos seus vários
misteres. São reproduções de belos clichés que o nosso hábil
colaborador artístico Sr. A. Barcia ali foi expressamente tirar,
mediante graciosa concessão dos actuais e zelosos directores do
Asilo.
Paralelamente, a corrente das ideais
pedagógicas ia insuflando no Instituto Imperial dos meninos cegos,
do Rio de Janeiro, notável desenvolvimento e radical transformação.
Foi o Dr. Xavier Sigaud quem primeiro
lhe deu impulso inicial, para demonstrar «o erróneo preconceito
de que o cego é um inválido condenado à ignorância, merecendo só
compaixão e cuidados corporais».
O seu continuador, depois de 1856, Dr.
Cláudio Luís da Costa, consagrou-lhe durante 13 anos igual
dedicação, e por fim seu genro o ilustre Dr. Benjamin Constant,
nomeado director em 1869, foi, quando ministro do governo
democrático, o seu feliz reformador. Até 1889 o grande asilo, que D.
Pedro II patrocinara tanto, doando-lhe terreno onde se construiu em
1872 o vasto edifício, era apenas um hospício onde se acolhiam e
albergavam cegos indigentes.
O espírito lúcido de Benjamin Constam
esboçou o novo plano, e deu ao Instituto, pelo Decreto de i7 de Maio
de 1890, o carácter de uma verdadeira escola de ensino teórico e
profissional.
É curioso ver nos relatórios e
noticias elaboradas pelos seus últimos directores Dr. Brazil Silvado
e Jesuíno da Silva e Melo, como ali, semelhantemente ao que sucede
no Instituto Braille, em Saint Mandé, de que é proficiente director
o Dr. Péfaud, se ensina aos cegos, com processos e material de
ensino interessantíssimo, a geografia, a história natural, além das
línguas vivas, da história pátria, da matemática elementar, etc.
E, a par do ensino teórico, vêem-se
também as oficinas onde aprendem o fabrico de escovas, de vassouras,
de espanadores, a empalhação de móveis, e os misteres de tipógrafos
e de encadernadores. As raparigas aprendem a fazer croché,
bordados, flores e obras de missanga.
Benjamin Constant morreu em 1891, e o
governo brasileiro, entre as honras que tributou à sua pranteada
memória, deu o seu nome ao Instituto, de que ele fora durante 21
anos o mais dedicado director.
O ensino de música e de canto ocupa
também ali, como nos asilos de Lisboa, um lugar / 486 / importante,
visto serem artes mui peculiarmente cultivadas pelos cegos.
Para esse fim mantém aulas de canto e
de canto coral, de instrumentos de sopro e de corda, de piano,
harmónio e órgão, e do concerto e afinação destes instrumentos;
nestas aulas se tem habilitado a ganhar honrosamente a vida muitos
músicos, pianistas e afinadores.
Havia no Instituto uma banda, que o
director Brazil Silvado transformou em orquestra. Com elas se
efectuaram magníficos concertos e saraus, como os do nosso Asilo
Escola António Feliciano de Castilho. Para uma destas soberbas
festividades, escreveu o ilustre e malogrado poeta brasileiro
Valentim de Magalhães inspiradas poesias.
Uma destas poesias intitula-se Os
dois edifícios (A Cadeia e a escola), e a outra Os cegos.
Nesta última se enaltecem as aptidões
aproveitáveis dos cegos, ante os quais se abre o mundo do Ideal, o
mundo do Pensamento.
Não é possível resistir à tentação de
transcrever aqui, apesar de extensa, esta sentida poesia, obra-prima
do poeta brasileiro. É um serviço prestado aos nossos leitores que
não facilmente conseguiriam lê-lo de outro modo.
Foi escrita no Rio, em Agosto de 1898.
Ei-la:
Há dois mundos no mundo. Um palpável e
enorme,
Composto de milhões de formas e de
aspectos.
Que ao sol palpita e vive e que nas
trevas dorme;
Mundo de sensações, de contactos, de
objectos.
É o visível. ……………………...
……………………………………………..
Esse mundo é o que nós de vista
conhecemos;
Só de vista, que a essência e a origem
ninguém sabe.
Nele vemos a luz e nele a luz
perdemos…….
Esse mundo sem fim numa pupila cabe!
O outro é o que se vê sem olhos, o que
ao tacto
Escapa e nenhum sábio ainda pôde
grafar;
É o que palpita e ruge e canta, imenso
e intacto;
Tem mais astros que o céu, mais
pérolas que o mar.
É o mundo do Ideal, do Pensamento; é o
mundo
Interior, que não tem formas nem
aparências;
Em cujo intimo seio, incógnito.
profundo.
Tumultua, fervendo, a mó das
consciências.
Cegos, é nesse mundo o vosso reino, o
vosso
Céu é esse, em que há luz e não há
vendavais;
Cujo sol – o Ideal, não tem, qual tem
o nosso,
Ocaso, eclipse e noite, e não morre
jamais,
………………………………………………..
Cegos, a vossa luz é a luz da Alma, é
a boa,
A que não se macula em charcos e
pauis;
Vem dum céu em que o Bem serenamente
voa,
– Pomba de neve e rosa em páramos
azuis. / 487 /
Cegos, vedes p'ra dentro e melhor e
mais certo
Que os que cegos não são; os males e
as desgraças
Adivinhais, se tanto; estais de Deus
mais perto;
Seguis dos anjos d'Ele as luminosas
traças…
Nunca vereis a chaga, o sangue, o pús,
a lama
Nunca vereis matar, nunca vereis
morrer!
Ignorais o que seja a Fealdade, e o
drama
Do crime não o podeis, horrorizados,
ver!
Do amor tendes somente a essência
delicada.
Toda a mulher p'ra vós é formosa e
perfeita...
Não tendes, como nós, a alma
insaciada,
Desejando sem trégua e nunca
satisfeita.
Cegos, porquê? Porque não vedes o que
vemos?
O nosso mundo vil, o nosso inferno
atroz?
Tristíssima cegueira esta em que nós
perdemos!
Oh ! Como vedes bem!
Os
cegos somos nós!
*
* *
Lancemos agora uma rápida vista de
olhos pelos processos ou sistemas inventados para o ensino dos
cegos.
Ao francês Carlos Barbier, falecido
pouco antes de 1850, se deve a ideia-mãe, a base principal em que
todos os sistemas se fundaram – a dos pontos salientes para os cegos
lerem as letras em relevo, pela palpação com os dedos. Esta ideia
simples e engenhosa teve a opinião favorável da Academia das
Ciências de Paris, em três relatórios sucessivos de 1820, 1823 e
1830, firmados por nomes célebres como os de Lacépede, Cuvier,
Ampère e Molard.
Barbier chamava à sua escrita –
escrita nocturna – por ser aplicável a videntes, cegos, surdos-mudos
e até aos ignorantes da leitura usual, em razão da sua extrema
simplicidade.
Luís Braille, contemporâneo de Barbier,
aproveitou a ideia e dispôs os pontos em relevo de modo a formar
sinais convencionais correspondentes às letras e algarismos.
Outro francês, Balu, desenhava as
letras do nosso alfabeto por fieiras de pontinhos picotados ou em
relevo, tornando assim mais difícil e morosa a sua leitura pelos
cegos.
Análogo também é o sistema do abade
Canon, que contudo procura desenhar a letra do alfabeto comum,
aproximando-se já de uma perfeição ideal.
Surgem depois outros sistemas de
escrita, denominados estilografia, em que a cravação ou
relevo da letra se faz por meio de traços / 488 / seguidos e não de
pontos. Foi seu dedicado promotor o conde de Beaufort, tendo por
seguidora Mademoiselle Mulot.
Lorenz, inventor do sistema usado em
Espanha, era filho da Catalunha, berço do ensino dos cegos. A
escrita de Lorenz é a letra comum estilografada. O inglês Moon
adoptou a linha em relevo, mas seguiu um alfabeto convencional.
Vemos portanto que Hauy e Barbier
deram a base de todos os sistemas – a cravação, o relevo. Braille
aproveitou a ideia, mas afastou-se de Hauy, e como cego só cuidou da
leitura dos cegos, sem pensar no proveito que haveria em torná-la
acessível aos videntes.
Por fim o médico catalão Aniceto
Mascaró, de Gerona, licenciado em medicina e cirurgia pela
Universidade de Barcelona, e que em 1870 veio estabelecer-se em
Lisboa, onde por muitos anos exerceu a clínica oftalmológica,
começou desde 1889 a dedicar-se à tiflologia, isto é, ao estudo da
pedagogia dos cegos.
Aproveitando o que havia de bom nos
sistemas inventados, o Dr. Mascaró criou o seu sistema de escrita
para cegos e videntes, e fundou na rua do Alecrim, n.º 20, o seu
Instituto Médico-Pedagógico Mascaró, para habilitar os cegos e
todos os anormais à frequência das escolas comuns dos videntes,
assim como para formar professores idóneos, dos cegos e videntes.
Neste sistema de escrita, porém, os
pontos picotados obedecem à regra de definir o mais possível a letra
comum, maiúscula, marcando-lhe o principio, o meio e o fim, ou só o
princípio / 489 / e o fim, sendo ligados pela evolução ou traço
impresso a preto, como os pontos, de modo que o vidente lê numa
escrita deste sistema, como em qualquer livro vulgar.
Eis conseguido o supremo ideal! A
escrita Braille, carecendo a iniciação prévia no alfabeto, ou a
chave da leitura, só serve para cegos ensinados no seu sistema, os
quais tacteando com os dedos os sinais convencionais nela traçados,
conseguem lê-la com rapidez. – «Mas, diz-nos o Dr. Mascaró, a
escrita para cegos e videntes permite que a mãe ensine o filho cego
a fim de que possa frequentar as aulas comuns».
Leigues, ministro da Instrução pública
de França, reconheceu, e assim o declarou ao próprio Dr. Mascaró,
que o seu sistema representava o aperfeiçoamento / 490 / do de
Braille e como demonstração de apreço concedeu-lhe as palmas da
Academia. Em 1900, no Congresso de Paris trezentos votos o
aprovaram.
O eminente tiflólogo J. Cuningham, de
Paisley, declarou que este processo tão simples e engenhoso fazia
honra ao seu inventor.
Escusado será encarecer as vantagens
desta / 491 / escrita, que para nós tem ainda a recomenda-la o facto
de ter nascido em solo português, embora de um autor estrangeiro,
mas de nação vizinha e irmã na raça e no sentir. É um invento
português.
Estes sistemas de escrita em relevo
aplicam-se igualmente à notação musical. Braille deixou memória
imorredoura na sua perfeitíssima musicografia.
Muitas outras análogas na base do
processo dos sinais em relevo estão porém em uso.
No Instituto Nacional dos Cegos de
Madrid (que é de cegos e só por cegos dirigido, apenas com
protectores ou patronato) ensina-se a musicografia Abreu.
O Dr. Mascaró tem também a sua, que
mereceu em 1900 do conselho escolar do Conservatório de Lisboa
parecer favorável, atendendo a que todos os sinais e notações se
assemelham aos da música usual, dispensando a pauta e as claves,
formando portanto um método de fácil compreensão.
O distinto crítico e musicógrafo Sr.
Ernesto Vieira também se tem dedicado com especial predilecção ao
ensino musical dos cegos, obtendo na Academia dos Amadores de / 492
/ Música os mais lisonjeiros resultados, dignos de registo e de
admiração, em alunos que hoje exercem com proficiência o ensino da
música. É autor de uma musicografia igualmente notável.
Cada sistema tem seus adeptos. A
França conserva o culto de Braille, que se estendeu ao Brasil, onde
o director do Instituto Benjamin Constant, o Sr. Brazil Silvado, se
manifestou brailista, com tendências pronunciadas para o ensino
misto de cegos e videntes. Em Espanha domina o sistema Lorenz e
entre nós, onde o sistema de Braille tem tido seguidores, o de
Mascaró tem produzido óptimos resultados.
Perfilhou-o com prazer o sábio
Provedor da Misericórdia de Lisboa, o falecido Dr. Tomás de
Carvalho, alma grande, sempre aberta a todas as ideais generosas e
boas, quando a pedido do Dr. Garcia Peres, de Setúbal, albergou na
Misericórdia um cego, remunerando o professor Barreiros, que ali o
ia leccionar, bem como a outros que depois aproveitaram igual
protecção. Este benefício, porém, cessou.
Um dos discípulos do Dr. Mascaró, o
cego Lobo de Miranda, tendo sido devotadamente leccionado pelo
falecido general Cláudio Chaby e pelo sábio lente da Universidade de
Coimbra Sr. Dr. Bernardino Machado, apostolo da instrução popular, e
ambos entusiastas pelo sistema Mascaró, foi nomeado professor de
videntes na Escola Normal de Lisboa, cujas aulas frequentou com as
melhores classificações.
Muitos operários cegos se acham hoje
trabalhando livremente, em concorrência com os videntes, em diversas
oficinas de escovas e pincéis, nas dos asilos de Santo António e de
D. Maria Pia, assim como no ofício de cesteiros, sob a direcção de
outro cego Adolfo A. Lobato.
Infelizmente Aniceto de Mascaró y Cós,
acometido de súbita doença em plena sessão do Congresso médico de
Lisboa, no momento em que mais uma vez ia usar da palavra em
reuniões publicas internacionais, para defender com tenacidade
inabalável a causa do ensino dos cegos, morreu a 25 de Abril ultimo,
sem / 493 / ter conseguido ver a definitiva vitória do seu método.
Toda Lisboa estimava o bondoso e
caritativo oftalmologista, que fora o primeiro a fundar em Portugal,
sem auxílios oficiais, a clínica e o ensino gratuito dos cegos,
exercendo a sua missão filantrópica com uma dedicação sem limites.
Filho da Catalunha (onde nascera em
1842, em Liadá), dessa província onde predominam o carácter vivo e a
actividade febril, Mascaró, que enriquecera na América, conservou
sempre essas qualidades características da sua origem, e sob um
aspecto original, conquistava as simpatias pela graça insinuante,
fina e vivaz que nunca perdia nem mesmo nos momentos de mais acerbo
azedume.
O Dr. José Lourenço da Luz dizia que
se todos os espanhóis fossem Mascarós estaria feita de há muito a
união ibérica.
Nenhumas contrariedades, que as teve e
muitas, o demoveram da sua paixão filantrópica. A protecção e o
ensino dos cegos eram o seu desinteressadíssimo enlevo. – «Os cegos
não vêem, dizia ele, mas imaginam; e como os povos da Península são
muito ricos em imaginação, os meus cegos hão-de ver na mente o que a
sensibilidade dos dedos descobre na escrita».
Como o soldado morreu no seu posto de
combate, advogando no congresso a causa de que era estrénuo e
devotadíssimo apóstolo!
Sirvam estes singelos períodos do meu
artigo de modesta homenagem de saudade pela inesperada morte do
dedicado benfeitor dos cegos, e meu bom amigo Dr. Aniceto Mascaró.
O seu sistema realiza o ideal moderno
do ensino misto de normais e anormais. É no dizer do próprio autor,
o aproveitamento do processo natural, que pode afirmar-se foi sempre
o sistema português, isto é a auto-dedicação na luta pela
vida.
É um método simples, espontâneo,
afectivo, amorável, belo como o método português e como a
Cartilha Maternal!
É útil a convivência promíscua de
cegos e videntes na escola e na oficina. O companheiro vidente
empresta ao companheiro cego a sua vista, e o seu auxílio a todo o
momento. Desta sorte o cego distraído do isolamento das trevas como
que vê pelos olhos dos camaradas de trabalho e recebe a instrução
das coisas, a noção do mundo exterior que desconhece.
É por este processo natural e
espontâneo que tantos cegos aprenderam ofícios, artes, ciências.
Admirou-os el-rei na sua viagem ao
Algarve ao vê-los trabalhar nas fábricas de rolhas a par dos
videntes; assinalou-os em igual mister o Sr. Baldaque da Silva, em
Sines; temo-los nós todos visto hábeis sineiros, cesteiros,
corticeiros.
Quantos exemplos de notável acuidade
intelectual não derivada de ensino poderiam apontar-se. Não falando
na bíblica história da cegueira de Tobias, inspiradora do soberbo
quadro de Botticeli, nem na lenda, / 404 / hoje contestada, da
bárbara mutilação infligida ao célebre general grego Belizário,
lenda de que aproveitaram as artes e as letras, nos quadros de Van
Eyck e de Gérard, no romance de Marmontel, na tragédia de Jouye na
ópera de Donizetti, mesmo nos dramas ignorados e simples da vida
contemporânea abundam exemplos notáveis. Citarei alguns, como o de
um idoso empregado do deposito de materiais do Sr. Sabido, na rua de
S. Bento, o de um conhecido vendedor de jornais espanhol, Manuel
Criado Fernandez, que costuma estanciar na rua da Betesga, dando
notáveis provas de esperteza na sua vida activíssima, e ainda o de
um cego que vive na Arrentela, de nome Augusto Catraeiro, o qual,
tendo perdido a vista em tenra idade, exercia o mister de barqueiro,
conduzindo sozinho o seu bote no Tejo, em carreiras do Beato a
Cacilhas, e manifesta em muitos outros factos extrema penetração de
sentidos e uma percepção fácil do mundo exterior que o cerca.
Em misteres mais elevados são dignos
de menção o falecido Silva Campos, que durante muitos anos exerceu o
lugar de escrivão da nobreza do reino, o Sr. Brito e Cunha, que
vítima de um desastre continua a dirigir com proficiência a sua
fábrica de produtos químicos, e o Sr. Dória, da Covilhã, que dirige
uma tinturaria.
E quantos mais! Músicos e professores
vemo-los exímios. No conservatório de Lisboa deixou memória ilustre
o conhecido cego João Nepomuceno de Seixas, falecido em 1873, o qual
ali regeu a cadeira de rudimentos e de recta pronuncia; como músicos
são exemplos dignos de registar aqui o Sr. Leon Jamet, músico da
real câmara, o afinador da casa Neuparth e do conservatório Sr.
Francisco Lorente, e o célebre violinista brasileiro Luís Margutti,
professor do instituto dos cegos do Rio de Janeiro, onde muitos
outros professores são igualmente cegos.
E deste instituto brasileiro muitos
antigos alunos têm constituído família, vivendo independentes, e
mantém até um deles, Cesário Lima, um externato de videntes de ambos
os sexos, muito frequentado.
O Magasin pittoresque de 1854
fala-nos com elogio de um português de nome Diogo Álvares, que
apesar de cego, tinha tão bonito talho de letra que os seus escritos
se guardavam como preciosidades.
*
* *
Os esforços dos tiflófilos têm sido
constantes em favor desta causa sacro santa. Quase todos os anos se
reúnem em congressos e conferencias, nos principais centros da
Europa culta, a discutir processos, a relatar e aquilatar
resultados. Vemo-los em Paris, em 1878 e 1889, em Bruxelas em 1902,
em Milão em 1901, e por fim, em Edimburgo, nos fins de Junho do ano
passado.
Entre nós a propaganda tem sido
intensa. A “Revista Mascaró” tem fornecido elementos de
leitura e ensino aos cegos e videntes, e publicado na escrita do seu
director poesias, como a alma minha de Camões, trechos do D.
Quixote, etc., impressos em cartão, ou em seda, e até em lindas
placas de porcelana, havendo nestas a tradução do soneto de Camões
em catalão e em latim. Esta última versão é do malogrado e sapiente
Dr. Santos Valente, e as chapas de porcelana dedicadas ao Dr. Tomás
de Carvalho.
Poderiam registar-se entre muitas
outras diligências / 494 / empregadas para o ensino dos cegos, as
escolas profissionais de cegos de Lisboa e Porto, de acção restrita,
o “Jornal dos Cegos”, impresso para propaganda entre
videntes, o grande número de esmolas e donativos que por disposições
testamentárias distribuem à Misericórdia de Lisboa e outros
institutos.
E para fecho desta resenha muito
incompleta, cumpre dizer que obedecendo ao pensamento simpático de
tornar prático e efectivo o ensino misto de cegos e videntes, pensa
o actual director geral da Instrução Pública, o Sr. Cons.º Abel de
Andrade, em organizar a admissão e ensino dos cegos nas escolas
primárias do reino, onde já actualmente os recebem, habilitando o
professorado a tão profícuo e louvável intento.
Muitos directores de colégios
particulares e de estabelecimentos industriais de Lisboa e Porto
ofereceram ao Ministro do reino a concessão de entrada livre nas
suas aulas e oficinas a todos os cegos do país que as queiram
frequentar. Assim se evitam ao Estado as despesas da criação e
manutenção de asilos e escolas, e se procura manter, na máxima
liberdade, sem encarceramentos humilhantes, as infelizes crianças.
Não terminarei este artigo, que vai já
extenso, porque o interesse excepcional de assunto tão pouco
conhecido por certo da maioria dos leitores, me compeliu a
alongá-lo, sem chamar a atenção de quantos fizerem a honra de me
ler, para esta sacro santa cruzada do Patronato dos cegos, que
deveria implantar-se de uma maneira prática, simples, afectiva, pela
cooperação dedicada de todos, promovendo-se a vida livre, harmónica,
completa dos anormais, a quem se devem abrir todas as aulas, todas
as oficinas, todos os recreios e distracções de que os videntes
gozam e aproveitam, numa comunidade fraternal, verdadeira aspiração
de supremo conforto e amparo a esta classe infelizmente numerosa de
desvalidos.
Imagem da assinatura
ASSIGNÁTURÁ DE A. F. DE CASTILHO
Nem é fácil de presumir a quantos
infelizes esta abençoada propaganda poderá aproveitar! Não existe
uma estatística oficial dos cegos indigentes e não indigentes
existentes por todo o país, além dos 150 que se acham internados em
asilos e hospícios. De uma tentativa, feita em 1904 e na qual se
confessa a insuperável deficiência do trabalho, calcula-se haver no
reino mais de 4500 cegos indigentes e de 2700 não indigentes, sendo
895 menores de 21 anos.
Tais são os números que uma imperfeita
estatística nos acusa, inferiores por certo à triste verdade, com
respeito à população cega do país, a bem da qual forçoso se torna /
496 / envidar todos os esforços da caridade, dispensando-lhes a
protecção na indigência e o ensino, o amparo intelectual e moral de
que todos eles carecem.
Esta cruzada santa é dever que a todos
cumpre, mas muito especialmente aos médicas, aos institutos
especiais onde os cegos são tratados, albergados e protegidos. Aos
médicos sem a menor dúvida, quando mais não seja, como muito
espirituosamente dizia alguém, pelo dó e comiseração que devem
merecer-lhes todos os que eles deixaram cegos.
Tal foi o caso célebre que nos conta
Pedro Dufau no seu magnífico livro – Os cegos, publicado em
Paris em 1850. Passou-se na Catalunha que, como se vê, tem sido o
berço de notáveis ensinadores dos cegos. O célebre cego Jaime Isern,
de Mataró, depois músico notável, e autor de uma famosa musicografia,
fora durante algum tempo tratado por um médico distinto, depois seu
biógrafo, que debalde tentou arrancá-lo à cruel cegueira.
Desanimado, vista a impossibilidade da cura, este médico
bondosíssimo dedicou-se de corpo e alma a ensinar o seu doente,
procurando por este modo, já que por outro o não conseguira,
remediar a desventura de Isern.
Reconhecido ao inapreciável benefício
da instrução, que lhe abriu uma vida nova, dizia Isern que o seu
médico lhe proporcionara – «um beneficio que le pareció tan
apreciable como la aquisición de la vista por la que en vano hizo el
viaje.»
Comovedora frase que bem nos pinta o
inefável prazer do cego quando pela educação consegue entrar no
convívio do pensamento, na vida da Humanidade.
VICTOR RIBEIRO
|