SINGULAR DESASTRE DE AUTOMÓVEL

O PASSEIO

O meu amigo C *** convidou-me há dias para ir jantar com ele e a família, a Leça da Palmeira. E acrescentou:

– Espere-me amanhã no Carmo, às 4 e ½. Vou buscá-lo no automóvel com os rapazes. Qualquer deles, creia, é um chauffeur de uma cana. Verá; vai dar um passeio lindíssimo.

No dia seguinte, à hora aprazada, metia-me no automóvel com o meu amigo. Ocupavam os lugares da frente os seus dois filhos, um dos quais, pondo os monstruosos óculos, começou de guiar a moderna máquina.

Saímos da cidade tomando pela rua Oliveira Monteiro, que vai desembocar à nova e ampla estrada da circunvalação, onde há trechos de caminho extensíssimos, em linha recta, que parecem traçados de propósito para um automóvel desenvolver toda a sua velocidade.

O sítio é dos mais pitorescos dos arrabaldes do Porto. Verdes pinhais bordam a estrada de ambos os lados, impregnando o ambiente de aromas saudáveis.

A tarde estava formosíssima, luminosa; não corria uma aragem.

Como que animando a paisagem, embora em monótona e dura fila, viam-se os guardas-fiscais, preservativos não raro falíveis contra a reles candonga, em pé, junto das guaritas, entretendo a ociosidade a pensar, eu sei, na morte da bezerra.

No momento em que passávamos, levantando nuvens de pó envolvidas noutras de fumo, fixaram-nos eles com olhos espavoridos, julgando-se de certo felizes por, na sua quietude obrigatória, não correrem o perigo em que nos supunham, vendo o automóvel despejar caminho de uma forma vertiginosa.

Quando chegámos às proximidades de Leça, mudámos de rumo; isto é, o chauffeur, em vez de nos conduzir para casa, meteu a máquina pelo caminho que leva a Santa Cruz do Bispo.

Durante esse trânsito, o nosso homem moderou o andamento; o estado lamentável da / 480 / estrada não permitia caminhar tão rapidamente, sob pena de, nem alguma cova, o veiculo tombar ou dar qualquer solavanco que nos ficasse de memória.

Chegámos à igreja de Santa Cruz do Bispo e de lá seguimos para Moreira da Maia, onde também há outra igreja com o seu belo cruzeiro, assombrado de virente arvoredo. Não pude apreciar a arquitectura de qualquer dos templos, mas afigurou-se-me o da Moreira um tanto original, embora talvez não deva muito à formosura estética.

– Aquele portão, disse-me o meu amigo apontando para o lado direito, dá ingresso à bela propriedade de Luís de Magalhães, filho...

– Bem sei, do grande tribuno que eu ainda conheci, José Estêvão Coelho de Magalhães.

– Próximo da igreja de Santa Cruz do Bispo, continuou o meu amigo, há outro portão pelo qual se entra para a quinta que foi dos frades, magnifica propriedade também. Só em buxo tinha, e não sei se continua a ter, uma riqueza.

– Como o Ramalhão...

– Ainda lá deve existir um tronco de arvore colossal, medindo não sei quantos metros de circunferência...

– Há-de ser curioso.

– Muito curioso. Conta-se que, há anos, o pai do abastado e ilustrado proprietário portuense Cristiano Van Zeler entrou, por acaso, na quinta e viu um homem do campo, um rústico, de machado em punho, preparando-se para derrubar o secular tronco. Indagando com que direito o fazia, soube que o homenzinho o comprara, na véspera, por uma libra, para fazer lenha. – «Quer você duas por ele?» – pergunta Van Zeler – «Quero, sim senhor. Elas que venham» – «Então o tronco é meu». E assim se salvou o venerando madeiro.

Fomos ainda até Barreiros e aí, retrocedendo por se começar a fazer tarde, tomámos, em parte, pelo mesmo caminho para nos dirigirmos a Leça da Palmeira.

 

EPISÓDIO

Para cá de Santa Cruz do Bispo, numa estrada também contornada por extensos pinhais como a da circunvalação, divisámos, ao longe, um cavaleiro muito atrapalhado da sua vida porque o garrano que montava se espantara ao ouvir a corneta de aviso do nosso chauffeur.

O cavaleiro parecia homem de meia-idade, segurava na mão direita um grande chapéu-de-sol aberto e agarrava-se, com a esquerda, às crinas do desinquieto cavalicoque de modo tal, que chegava a dar vontade de rir. O animal, ao sentir aproximar-se o automóvel, partira à desfilada, quase sem governo, pelo pinhal fora. Viu-se então quase perdido o cavaleiro. O guarda-sol, embaraçando-se nos ramos mais baixos dos pinheiros, voltou-se. O chapéu fugiu-lhe da cabeça, e, na luta com o garrano para lhe abrandar o passo e com os obstáculos que a todo o momento se lhe deparavam, o pobre homem tomava posições tão grotescas, que nós quatro, apesar da pena que a infeliz vítima do progresso nos inspirava, soltámos uma uníssona gargalhada.

Perdemos de vista cavalo e cavaleiro, e ainda riamos a bandeiras desprezadas do episódio. Chegava a ser uma desumanidade, mas não estava mais na nossa mão.

Chegados a Leça, à mesa do jantar, o cómico incidente foi o mote principal da conversação, e com ele ainda riu a bom rir a família do meu amigo.

 

O DESASTRE

Quando nos levantámos da mesa, já o automóvel, desempoeirado e reluzente, descansava, na cocheira, dos seus 30 a 40 quilómetros, que fizera em cerca de hora e meia.

Eu tinha de regressar ao Porto, mas, como ainda era cedo, lembrou-se o meu amabilíssimo amigo de irmos passar um bocado da noite ao Passeio Alegre, onde, no verão, costumam reunir-se as famílias mais gradas da cidade invicta.

Assim fizemos. Tomámos um eléctrico, do qual nos apeámos, o meu amigo, os dois filhos e eu, no formoso jardim da Foz. A temperatura baixara, e tinha-se levantado vento; por isso, poucas pessoas se viam naquele tão aprazível passeio em noites amenas, quanto desagradável e até perigoso nas agrestes.

Resolvemos, portanto, para fugir ao frio, abrigarmo-nos no café do Casino da Foz, estabelecimento elegante, onde um regular sexteto fazia as delícias dos frequentadores.

Entrámos. Todas as mesas estavam tomadas; porém, de uma delas, levantavam-se três sujeitos despedindo-se dos dois que ficavam.

Aproximámo-nos, e quando nos íamos a sentar, o meu amigo, vendo que estes últimos eram seus conhecidos, imediatamente me apresentou / 481 / e aos filhos, a ambos. Eram, segundo a apresentação que também me foi feita de suas pessoas, o mais velho, que devia orçar pelos sessenta anos, o administrador do concelho de ***, chefe do partido progressista da localidade; o outro, que não teria mais de quarenta e cinco, o médico do sítio, grande influente regenerador.

Aqueles dois rivais partidários, abancados à mesma mesa, conversando como bons amigos, simbolizavam os nossos costumes políticos destes abençoados tempos de agora.

– O que há de novo? – Perguntou-lhes o meu amigo.

– Nada, que eu saiba, respondeu com uma certa rudeza na voz e nos modos o mais velho. Tagarelávamos a respeito destas novas endróminas do progresso – bicicletas, automóveis, o diabo que os carregue...

– Coisas que eu aliás muito admiro e tenho na maior consideração, obtemperou o mais novo, o medico.

– Parece impossível, depois de... e dando um forte murro na pedra da mesa, em risco de a partir, o velho administrador, verdadeiro tipo do homem chão mas grosso, muito grosso, continuou:

– Pois eu não, eu abomino essas choldras francesas – os dirigíveis, os velocípedes, os automóveis, que só servem para quebrar as costelas à gente quando não nos dão cabo do canastro, como também detesto os comes e bebes da estranja, mixórdias que se metem no estômago para dar que fazer aos médicos, como você...

Eu, para o ouvir, disse:

– A propósito de automóveis, estes amigos levaram-me hoje a um passeio lindíssimo, no seu automóvel...

Mas o nosso chauffeur, que estava a arrebentar por contar o caso do cavaleiro do pinhal, interrompe-me, dizendo:

– Por sinal que assistimos, apesar da rapidez em que íamos, a uma cena engraçadíssima...

– Então que foi? – Perguntou bonacheiramente o médico. Conte, conte lá o que foi.

E o bom do chauffeur começou de referir o episodio presenciado na estrada com o homem do garrano, apimentando o caso, colocando o pobre diabo, como lhe chamava, em situação ainda mais ridícula do que, na verdade, aquela em que o vimos.

O médico parecia escutar a narração com interesse, tendo de vez em quando um sorriso sardónico para o narrador; mas o outro, o casca grossa do administrador, logo às primeiras palavras do chauffeur, embezerrou e a cada graça mais pesada que nos fazia rir, todo ele se torcia.

Por fim, o alegre chauffeur terminou o seu reconto, dizendo:

– Perdemos de vista o cavaleiro da triste / 482 / figura quando ele e o seu rocinante se embrenhavam no pinhal, deixando ficar nos esgalhos das árvores mais baixos o pano vermelho do guarda-sol, que era por uma pena o do João Semana das Pupilas do Sr. Reitor. O que lhe sucedeu depois, não sei; mas desconfio que o garranote não lhe deixou um osso inteiro.

– Engana-se, meu caro, disse o doutor com um ar de bonomia impagável, antegozando a surpresa que nos ia causar. Os ossos do cavaleiro ficaram tão inteiros como a seda do guarda-sol. Quando V. Ex.ªS entraram, acabava eu de contar o famoso sucesso aqui ao nosso administrador...

– Nesse caso, sabe V. Ex.ª quem era o cavaleiro, disse o outro filho do meu amigo, que, menos loquaz do que o irmão, pouco falara até aí.

– Sei perfeitamente.

– Então quem era? Quem era? Diga.

– Era eu.

Ficámos os quatro passados, não chegando a perder os sentidos, por um milagre, o chocalheiro do nosso chauffeur.

– Era eu, prosseguiu o médico sorrindo ainda mais sardónicamente, eu que, não sendo adverso às conquistas do progresso, amaldiçoei naquele momento o vosso automóvel porque espantou o meu garrano e me fez passar um mau quarto de hora.

– Peço desculpa se... gaguejou enfiado o chauffeur.

– Não tem de quê; V. Ex.ª não foi culpado em coisa alguma.

– Mas...

– Bem sei; quem conta um conto acrescenta um ponto. Eu, de mais a mais, medico da aldeia, posso-me parecer com o João Semana, do Júlio Diniz... talvez me pareça, menos no chapéu-de-sol, que é de seda preta, como vêem. E mostrou o chapéu a que se encostava pachorrentamente com ambas as mãos. Em todo o caso, o que lá vai, lá vai, e não falemos mais nisso.

– É melhor, é, resmungou o administrador.

– Além do que, estamos pagos. Se eu me vi aflito, montado no garrano, ao passar do seu automóvel, V. Ex.ª aflito se vê agora, assentado nesse banco, ao achar-se na presença do herói da sua engraçada narrativa. Em resumo, não ganhámos ambos para o susto.

– Eu considero o que acaba de me suceder, disse o chauffeur criando ânimo a pouco e pouco, um singular desastre de automóvel, e confesso, com franqueza, que talvez preferisse a este, qualquer outro dos mais comuns naquele género de sport, embora também de mais funestas consequências.

 

DESFECHO

Foi o pai do vexado chauffeur quem acabou de tirar o filho da embaraçosa situação em que se via, advertindo-o paternalmente de que não é bom rir à custa alheia – ele, o outro filho e eu tínhamos rido tanto como o pobre rapaz – e pedindo desculpa ao médico, do terrível dano que lhe ia causando o seu automóvel.

Terminou, mandando vir uma garrafa de Champanhe para envolver o caso nos poéticos vapores daquele vinho espumoso, que num abrir e fechar de olhos se evolam.

Todos sentiram alma nova com este desfecho. Apenas o administrador do concelho, carregando mais o farto sobrolho ao ouvir, logo depois, o estalar da rolha da garrafa, pareceu dizer consigo:

– Preferia uma caneca do verdasco da minha ramada.

RANGEL DE LIMA

 

 

 

479 - 482